Christiano Diehl

Nascido em Charqueada, Christiano Diehl Neto, 55, é fotógrafo e editor de fotografia do jornal Gazeta de Piracicaba. Até chegar a esta posição na profissão, Diehl passou por outras redações piracicabanas e de São Paulo. Viveu intensamente o final da ditadura militar no Brasil como fotógrafo e já perdeu filme para milico. Esteve presente nas grandes greves dos metalúrgicos paulistas e acompanhou o início do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, quando este era líder sindical. Trabalhou na sucursal de O Globo em São Paulo e na redação da Folha de S. Paulo. Mas foi no jornal do Partido Comunista Brasileiro que quase foi fotografar uma guerra latino-americana. Aqui em Piracicaba passou pelas redações do Diário de Piracicaba, Jornal de Piracicaba, assessoria de imprensa da prefeitura e foi até lojista. Fotografou grandes histórias piracicabanas tornando-se um profissional respeitável em nossa cidade. Christiano Diehl é um fotógrafo que literalmente dá o sangue pela profissão, como verificará na entrevista.

Christiano Diehl Neto. © 2012. Fábio Mendes.

Como foi o seu primeiro contato com a fotografia?

Eu morava em um sítio que se chama Vila Santa Luzia pertencente ao município de Charqueada-SP. Durante uma visita à Piracicaba na casa de um primo, Nivaldo Davanzo, ele tinha por hobby a fotografia. Possuía um quarto escuro em sua casa, ampliador e toda a “parafernalha” necessária para a produção e revelação de fotografia. Eu tinha 13 anos e fiquei curioso com tudo aquilo e perguntei a ele para quê serviam aquelas coisas. Meu primo mostrou-me como era feito o processo da fotografia. Colocou o negativo no ampliador, queimou o papel e fez a imagem aparecer no banho químico. Fiquei fascinado e aquilo não me saía mais da cabeça. Voltei para a minha rotina, mas sempre pensando em fotografia. Dois anos depois minha família mudou-se para Piracicaba e comecei a trabalhar numa financiadora de carros, depois escritório de contabilidade como office-boy, mas sempre desejando trabalhar com fotografia. Quando a loja Cine Foto Outsubo se instalou em Piracicaba na rua XV de Novembro, eu tinha um primo que trabalhava lá, o Roberto Diehl. Abriu uma vaga para auxiliar de laboratório fui lá, pedi o emprego e me aceitaram. Eu tinha uns 15, 16 anos, revelava filmes e lavava e secava fotos. Também aprendi a ampliar fotos Depois disso nunca mais abandonei a fotografia.  Junto a este trabalho eu estudava química no Colégio Dom Bosco. Depois de um ano estudando avisei a minha mãe que gostaria de ser somente fotógrafo em tempo integral. Não suportava química, ficar mexendo naqueles “tubinhos”. Ela não gostou, mas entendeu e até hoje fotografo.

Depois de um ano e meio no Outsubo fui trabalhar na Galeria Foto, que na época era a loja de fotografia mais forte na cidade. Tinha um volume muito grande de serviço. A loja existe até hoje na Galeria Gianetti. Neste trabalho comecei a fotografar profissionalmente eventos de empresas, casamentos e tudo mais neste segmento. Fiquei bom tempo na Galeria. Os proprietários eram o Carlos Alberto Cantarelli, fotógrafo antiguíssimo de Piracicaba e o Nelson que é proprietário até hoje. Depois trabalhei em estúdio de foto para documentação e então fui convidado para trabalhar num estúdio em Americana que tinha um nível mais profissional, pois além dos eventos, fotografava bastantes indústrias. De volta a Piracicaba fui trabalhar no jornal Diário de Piracicaba, Assessoria de Imprensa da prefeitura de Piracicaba na gestão do prefeito João Herrmann Neto e Jornal de Piracicaba. Na prefeitura, dois anos antes de terminar o mandato, João Herrmann criou um jornal no formato tabloide. Era semanal ese chamava Jornal do Povo. Foi aí que comecei no jornalismo, era 1977/78. Ele trouxe para editar este jornal o Paulo Markun, que foi apresentador do programa Roda Viva na TV Cultura, o Bonifácio Placeres, o Peninha, diagramador que era da Gazeta Mercantil e os repórteres eram a Filomena Sayão, hoje trabalha em uma agência de notícias em São Paulo, Valter Puga e Roberto Cabrini, que começou com a gente fazendo esporte. Também a Angela Furlan que é editora da Gazeta de Piracicaba, passou pelo Jornal do Povo. O jornal teve uma vida curta, foram dois anos. Em 1979 fechou no mês de fevereiro em. Estávamos na redação eu, Markun e Peninha quando soubemos do fechamento. Era 21h30 e o Markun sugeriu de irmos embora para São Paulo pedir emprego. Fui para casa fiz uma pequena mala de roupas e saímos os três num carro rumo a São Paulo. Chegamos e fomos direto para um bar que se chamava Quincas Borba Bar. A ideia do bar foi do Markun, pois o local era frequentado por muitos jornalistas. Chegando lá havia muitos repórteres, ilustradores e cartunistas. Ali estavam o Elifas Andreato, vários artistas, como a Bruna Lombardi e seu marido Carlos Alberto Riccelli e mais um monte de jornalistas do Globo e Estadão. Quando o Markun chegou fizeram àquela festa, “ê Piracicaba, encerrou lá?”, gritavam. Ele disse que estavam os três pedindo emprego e que ficaríamos na mesa do canto, se alguém soubesse de algum trabalho que fosse até a nossa mesa. Meia hora depois chegou um “cara” e nos disse que havia vaga no O Globo. No dia seguinte fomos lá e já começamos a trabalhar. Depois fui para a Folha de S. Paulo onde fiquei por um bom tempo. Acontece que o meu pai ficou enfermo, uma doença terminal e tive que voltar para Piracicaba. Antes de ele falecer eu já frequentava o estúdio do Henrique Spavieri e ele me passava trabalhos, pois eu tinha experiência em estúdio. Ele me ofereceu sociedade aceitei e trabalhamos juntos por dezessete anos.

Em primeiro plano o fotógrafo Christiano Diehl “pitando” um cigarro. © Arquivo Christiano Diehl.

Maestro Enrst Mahle. © Christiano Diehl.

Como foi a sua passagem pelo Jornal do Povo e como estava a política social piracicabana no fim da década de 70 e início da década de 80?

O João Herrmann Neto foi um prefeito polêmico, sua gestão foi agitada. Ele trouxe dois congressos da UNE (União Nacional dos Estudantes) em seu mandato, o que na época estava proibido, pois a UNE era considerada uma entidade ilegal. Também fez uma campanha muito forte para salvar o Rio Piracicaba. Entrou em sérias discussões com o governador Paulo Maluf por causa da barragem que retirava grande volume de água dos formadores do Rio Piracicaba e assim diminuía muito sua vazão. Numa dessas discussões ele “xingou” o governador , foi processado e teve que pagar uma multa. Pagou-a em moedas (risos).

Congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

O prefeito João Herrmann Neto discursa durante o congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

O sindicalista Luis Inácio Lula da Silva participa do congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

Protesto contra a retirada da águas do Rio Piracicaba pela Sabesp para abastecer a cidade de São Paulo. © Christiano Diehl.

Protesto contra a retirada da águas do Rio Piracicaba pela Sabesp para abastecer a cidade de São Paulo. © Christiano Diehl.

Você teve algum problema com a ditadura?

Tive. Eu estava cobrindo um comício em frente ao gabinete da prefeitura. Estava o Fernando Morais, Fernando Henrique Cardoso entre outros. De repente chegou o Dops e retiraram a câmera das minhas mãos, tiraram o rolo de filme e o levaram embora. Outro caso foi quando eu estava em um barzinho na rua Boa Morte com meus amigos de trabalho. Era final do expediente e tinha um pessoal estranho no bar.  De repente o dono do bar pede para a gente se retirar e não frequentar mais o local. Havia muitos homens da polícia infiltrados nas universidades, principalmente na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). Eu tinha um primo que era sargento, no 5° Gecam em Campinas, e ele me dizia que havia policiais infiltrados na Esalq, nos movimentos estudantis e DCEs. Era assim que agiam. Na época que foi preso o Francisco Salgot Castillon, prefeito de Piracicaba, foi o meu primo que montou guarda para o Salgot. Também montou guarda quando o Cecílio Elias Netto foi preso. Era conturbada a época. Também tive um caso, em São Paulo, quando começaram as greves no início do PT e do Lula. Fui cobrir uma destas greves, me derrubaram e novamente retiraram a minha câmera e pisaram nela.

Trotes e passeata realizada por estudantes da Esalq. © Christiano Diehl.

Trotes e passeata realizada por estudantes da Esalq. © Christiano Diehl.

Somente fazia o seu trabalho ou também militava?

Não tinha como não se envolver, pois 98% dos jornalistas eram de esquerda. A cicatriz que tenho nos lábios “ganhei” cobrindo uma greve. O proprietário da indústria me viu fotografando a greve dos seus funcionários e me deu um soco na boca. Ele usava um anel de formatura e isso fez um enorme corte em meus lábios.

Foi em Piracicaba?

Foi em Charqueada na empresa Viva Bem Rivaben.

Por que fechou o Jornal do Povo?

João Herrmann criou um jornal extremamente político, para fazer campanha, mostrar o seu trabalho. Engraçado que ele aceitava críticas. Ligava para o editor e dizia que havia um pessoal de um bairro reclamando, pedia para o repórter “meter a boca” no prefeito e na prefeitura. Quando acabou a sua administração acabou o jornal. Quase não havia propagandas por causa da ideologia, então não tinha como se sustentar.

Oscar Niemeyer. © Christiano Diehl.

E no Diário de Piracicaba, como foi a passagem por lá?

Tive momentos muito bons no Diário. Aprendi muito com o Cecílio, é um jornalista brilhante. Um dos melhores “pena” de Piracicaba. Concorde ou não, a forma como ele escreve é brilhante. O Cecílio dava liberdade para a gente trabalhar e nos incentivava votar na melhor reportagem e melhor foto do mês. Aos ganhadores era oferecido um jantar no Restaurante Arapuca na Rua do Porto como um brinde. Era muito saudável esta ação.

Grande Otelo fugiu do hospital no Rio de Janeiro, internado com suspeita de edema pulmonar, veio de táxi à Piracicaba prestigiar o cinema que fora inaugurado com o seu nome. © Christiano Diehl.

Com quem trabalhou na redação do Diário?

Com fotógrafos trabalhei com o Diógenes Banzatto, Davi Negri e Nelson Campos com quem montei um estúdio e trabalhamos anos juntos. Até hoje fazemos alguns serviços, é um grande amigo que tenho e um ótimo fotógrafo.

Por quanto tempo trabalhou nesta redação?

Uns três, quatro anos. A minha saída foi logo após esta greve que levei o soco na boca.

E no Jornal de Piracicaba?

No JP fique por mais tempo.  Mas era simultâneo, fazia trabalho para o JP e para o estúdio que eu era sócio com o Henrique Spavieri. Nós fazíamos muitos trabalhos para o jornal no estúdio, produção de moda, social, personalidades e as reportagens que eu fazíamos nas ruas. No JP era eu o Pauléo e o Henrique. Depois veio o Bolly, que está até hoje como editor. Foi uns 16 anos de JP.

O cartunista Henfil durante o Salão de Humor de Piracicaba. © Christiano Diehl.

A loja Buda Som, que também era sua e do Henrique Spavieri foi referência no ramo da fotografia, como foi conciliar a carreira de fotógrafo e lojista?

Já tínhamos uma pequena loja na rua do Rosário. O Buda Som foi o seguinte, nós éramos sócios do estúdio e ali prestávamos serviços. O Henrique sempre quis montar uma loja e o Shiraga, proprietário da loja queria vendê-la para aposentar-se. A oportunidade apareceu e compramos. Importamos a primeira máquina de revelação na hora de Piracicaba, comum em lojas de fotografia hoje. Era da marca Noritsu e veio direto do Japão.

Quando você saiu do JP e do Buda Som ficou por um tempo fora das redações até retornar no jornal A Gazeta de Piracicaba. O que fotografou neste período?

Tenho uma empresa que se chama Diehl Estúdio Fotográfico e presto serviços fotográficos. Fotos industriais, publicidade e o meu forte que são as fotos aéreas que corresponde quase 80% do meu trabalho fora da Gazeta.

Como foi o convite para voltar a atuar em uma redação?

Apesar de ter esta empresa deixei muitos amigos pelas redações, o Lourenço Tayar é um destes amigos. Ele saiu do JP, me ligou e disse que estava alugando uma casa grande e sabia que o meu espaço era pequeno. Eu estava locado em um edifício na rua XV de Novembro. Avisou que havia uma sala grande e gostaria que eu fosse trabalhar junto com ele nesta casa. Instalei-me e sem me contar já estava com a ideia de montar um jornal. Ele pagava o aluguel e eu pagava a parte que ocupava. Continuava com as minhas fotos industriais e um dia me chamou com a Gazeta de Cambuí em mãos, que tem o mesmo formato da Gazeta de Piracicaba. Disse que era o jornal que montaria em Piracicaba e que gostaria que eu trabalhasse com ele. Fui o primeiro a ser chamado para trabalhar na Gazeta. Ele montou toda a estrutura e voltei ao fotojornalismo que é o que está em meu sangue.

O garoto que fumava “bitucas”. © Christiano Diehl.

Faça um recorte da sua vida em trabalhar com a fotografia na cidade de Piracicaba, nas décadas de 70, 80, 90 e dias atuais.

Fotografar quando eu comecei, não tinha “chute”, tinha que ter certeza do que estava fazendo. Não dava para “brincar” com foto como se faz hoje com a digital. Ficar fazendo inúmeros testes muda o ISO aqui, muda o ISO ali. Não saía com um monte de filme, era tudo caro. Trabalhávamos com economia. Eu saía para fazer várias pautas com dois no máximo três rolos de filme. Hoje tira duzentas fotos em um cartão que cabe mil. E no mesmo cartão pode alterar o ISO e imediatamente ver o resultado. As duzentas fotos da pauta de hoje eram dez fotos no negativo. Só que as dez tinham que sair boas, não podia perder. Ah, e filme que o jornal disponibilizava era de ISO 400. Às vezes trabalhava com ele “puxado”. Mas era aí o problema, diferente do cartão de memória não dava para trocar o ISO no mesmo filme. Pois o filme “puxado” exigia uma revelação “puxada”.  As pautas noturnas de polícia, eventos e futebol eu já saía com o filme puxado em 1600 ou 3200. Era tudo mais trabalhoso. Chagava da pauta, revelava o filme, secava rapidamente e ampliava. Mas tinha que esmaltar a foto para secá-la rapidamente em uma esmaltadora. Melhorava a impressão o brilho do esmalte, não podia ser fosco. O que compensava era o amor pelo que eu fazia, não só eu, mas todos que trabalharam desta forma. Não importávamos passar a noite na redação. Perdi a conta das noites que dormia em cima dos jornais e acordava as quatro, cinco horas da manhã. Hoje também é bom, prazeroso, só que mais tranquilo. É só inserir o cartão no computador e descarregar todo aquele monte de foto.

Festa do Divino. © Christiano Diehl.

Fale mais sobre o seu trabalho em São Paulo?

Foi uma experiência muito boa. As matérias que cobri por lá me deu uma ótima “bagagem”. Peguei o processo que o Lula iniciou com o levante dos metalúrgicos. Tenho foto da época que o Luiz Medeiros era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. Junto com o Lula eles iniciaram a greve geral. Paralisou toda a cidade de São Paulo. Era o ano de 1980. Nesta época também trabalhei em um jornal que se chamava Voz Unidade, que era o jornal oficial do PCB (Partido Comunista Brasileiro), na época um partido ilegal. Ali tinha que trabalhar escondido. Quando o PCB se juntou ao Lula, para realizar o levante dos metalúrgicos, eu estava em Piracicaba dormindo. Era umas dez horas da noite quando telefonaram em minha casa. Era do jornal Voz Unidade e avisaram-me para estar domingo bem cedo num endereço que me passaram, para fotografar a reunião entre os líderes do PCB, Giocondo Dias, Salomão Malina, Hércules Corrêa com o Lula, Vicentinho, Alemão e toda a cúpula do PT. A reunião foi secreta e foi para organizar o movimento da Vila Euclides. Eu fotografava para o PCB e não tinha nenhum fotógrafo nesta reunião.

Um momento marcante com a fotografia?

Não sei se foi o mais marcante, mas a mais polêmica foi em 1978 quando o João Herrmann e mais alguns líderes do PMDB, montaram uma frente de prefeitos do partido. Tinha o Luis Henrique – prefeito de Joinvile – que se tornou governador de Santa Catarina, o prefeito de Limeira, de São João da Boa Vista que era o Nelsinho Nicolau e vários outros. A primeira reunião desta frente foi em Joinvile, a segunda o João Herrmann trouxe para Piracicaba no Teatro Municipal. Eu estava ali como fotógrafo do gabinete do prefeito. Montaram uma mesa no palco que ocupavam as duas pontas com toda a cúpula do PMDB. Começava com o Ulisses Guimarães e terminava na outra extremidade com o vereador, Miltinho da Silva de Piracicaba. Na mesa estavam Franco Montoro, Ulisses Guimarães, João Herrmann, Ruth Escobar, Fernando Moraes e Alberto Goldman. O teatro estava cheio e como era época da ditadura toda a imprensa de Piracicaba, região e do Estado estavam presentes. Fiz todas as fotos e quando o João Herrmann foi encerrar o evento, eu estava lá em cima na fila B, sentado no degrau ao lado do Nelsinho Nicolau. A câmera estava no chão só que preparada para fotografar a última fala do João. Tudo ligado, câmera, flash, com a lente já puxada no zoom e focada. O João adorava discursar, eram apoteóticos seus discursos. Nestes dias, havia uma peça que iria estrear no teatro que se chamava Bent. Contava a história de um casal homossexual presos em um campo de concentração nazista. No cenário da peça desciam três enormes bandeiras, que ocupavam do teto até o chão do palco, com a suástica nazista. E estava eu ali aguardando para fotografar o João e boa parte da imprensa já havia ido embora. Filmadoras desligadas e os profissionais batendo papo, loucos para ir a um barzinho. O pessoal de fora queria conhecer a Rua do Porto para comer um “peixinho”. No encerramento de seu discurso o João Herrmann disse, “nós temos que nos unir e é contra isso que vamos lutar”, e combinou com o pessoal da área técnica que quando ele dissesse isso, desceriam as três bandeiras com as suásticas já instaladas no palco do teatro. Pediu um movimento bem rápido, as bandeiras desciam e imediatamente subiam. Só que ele se esqueceu das imagens e o que isso poderia gerar. Quando desceu eu vi aquilo e fiz duas fotos. Quando o pessoal da mesa virou para trás e viram as bandeiras, queriam se jogar para baixo da mesa para não sair nas fotos. Quando fiquei em pé e fiz as fotos, todos viraram para trás e perceberam que só eu tinha registrado o momento. Resumindo, deu a maior confusão. Todo mundo queria a foto, comprar a foto, o pessoal da Folha de S. Paulo pediu para eu por o preço na foto, o Estadão a mesma proposta, o motivo desta reunião era para lançar o candidato da oposição para concorrer à presidência. Eu, trabalhando para a Assessoria de Imprensa da Prefeitura dizia que não podia entregar ou vender a foto. Terminada a reunião toda a cúpula se reuniu no fundo do teatro e o João Hermann pediu para me chamar. Cheguei lá e ele me perguntou se eu tinha feito à foto e eu disse que sim. “Tem certeza?”, perguntou-me novamente e eu disse que sim. “Então vai embora com este material, vá para a sua casa e deixa a gente resolver aqui”, ordenou ele. Eram 2h e o João me liga em casa e pediu para eu voltar na reunião. Todos continuavam no teatro. “Está com a câmera?”, perguntou-me o João. Disse que estava. “Suma com esse material e amanhã cedo conversamos na prefeitura”, ordenou ele novamente. Revelei a foto e não deu “outra”, foco de ponta a ponta.

Foto permitida do Seminário Nacional de Prefeitos do PMDB. © Christiano Diehl.

O presidente da república João Figueiredo. © Christiano Diehl.

Não foi publicada?

Não foi. Na época eu também era partidário, de esquerda. Vieram uns agentes de São Paulo e me ofereceram muito dinheiro pela foto e eu dizia que não tinha mais, já tinha entregado-a para o meu empregador. Daí eles me perguntavam se pelo menos eu tinha a mesa formada e eu dizia que esta foto todos os fotógrafos tinham. Como eles sabiam que só eu tinha feito aquela, me fizeram a seguinte proposta. Eu venderia a foto da mesa e iria para Americana fotografar a peça Bent, que já tinha deixado Piracicaba. Entendeu o que queriam né? Poderiam falar que era autentica, pois a foto era do único fotógrafo que registrou o momento das bandeiras. Se eles conseguissem esta imagem, iriam empastelar o país dizendo que o MDB era um partido pró-nazista. Desestruturariam todo um trabalho de oposição. Acredito que nem conseguiriam realizar as Diretas Já.

Millôr Fernandes. © Christiano Diehl.

Que história! E momentos engraçados têm?

Tem uma com o Pauléo, fotografando a enchente no mesmo dia que o Adilson Maluf assumiu a prefeitura de Piracicaba. Fotografei a posse no gabinete da prefeitura que ficava em uma casa na rua do Rosário esquina com a rua São José, em que está instalado hoje  a Uniodonto. Terminei as fotos na prefeitura e já desci com o Pauléo na Rua do Porto. Estava frio e garoando.

Estava fotografando para qual jornal?

Para o Diário. Descemos e fotografamos. Inclusive estas fotos foram expostas na exposição Amandy de 2011. Para realizar as fotos, entrávamos nas ruas inundadas de calça, blusa plástica dupla face, câmera e bolsa penduradas e eu estava com uma bota cano curto de couro que tinha um zíper do lado e um salto carrapeta. Combinamos de entrar nas águas até sentirmos que era seguro. Entramos pela rua Morais Barros, e fomos descendo até atingir uma árvore grande em frente ao antigo Clube Regatas. O Pauléo fez uma foto minha dentro da água. Ficamos muito tempo nas águas e o pessoal que estava dentro do barracão da Irmandade do Divino tinham um garrafão de pinga que tomavam para amenizar o frio. Eles nos ofereciam e nós dois tomávamos também. Tomava um gole entrava na água e fotografava. Voltava bebia outro gole e para dentro da água novamente. O frio começou anestesiar as minhas pernas e o álcool a minha cabeça. (risos). Terminamos as fotos saí de lá peguei o meu carro e fui para casa. Era a hora do almoço e a minha mãe estava esperando eu e meu irmão para almoçarmos juntos. Comecei a subir a rampa de casa e me deu um “gelo” e comecei a mancar. Quando cheguei à porta da cozinha coloquei a mão no batente e minha mãe me viu branco daquele jeito, além do frio eram as várias pingas, e perguntou o que tinha acontecido. Falei para ela, “mãe, não tenho coragem de olhar para baixo, acho que a minha perna direita encolheu” (risos). Eu tinha perdido o salto carrapeta e não percebi. Quando cheguei até minha casa com a cachaça na cabeça fiquei com medo que a água tivesse encolhido a minha perna. Absurdo o que a bebida faz com a gente (risos).

Enchente do Rio Piracicaba. © Christiano Diehl.

Quais são suas referências na fotografia?

Gosto de vários fotógrafos. Gosto muito do trabalho do Pedro Martinelli. Quando eu estava na Folha gostava das fotos do Fernando Santos e Luis Carlos Murauskas. Trabalhei com o Jorge Araújo também na Folha, um fotógrafo espetacular. Sebastião Salgado, o trabalho que ele produz com branco e preto é fantástico. Não vi ninguém se igualar a ele com seu trabalho documental.

O que ainda não fotografou?

Guerra. Tive chance de ir e não fui por causa de família. Quando eu estava no jornal Voz Unidade, todo mês tinha reunião de avaliação e os jornalistas que cobriam para o PCB na América Latina, uma vez por mês vinham para cobrir a reunião do comitê em São Paulo. Naquela época quem cobria Nicarágua e Honduras era um repórter que se chamava Chico Hardi. Ele veio para entregar a sua avaliação de como estava o movimento comunista nestes países e pediu um fotógrafo para voltar com ele. Ofereceram-me a chance de ir. Eu queria, mas a minha mulher e a minha mãe quase teve um enfarte e o meu pai já não estava bem. Disse a eles que ficava para a próxima. Mas eu não sei hoje gostaria de fazer uma cobertura de guerra. É difícil não se envolver, pois sou muito emotivo. Acho que não faria um bom trabalho.

© Christiano Diehl.

O que a fotografia representa em sua vida?

É difícil de responder. Ela é muito importante em minha vida. Comecei a fotografar com 17 anos e hoje estou com 55, posso dizer que ela está comigo a vida toda. Por tudo o que olho, vejo foto. Vicia tanto o olhar que enquadro toda a cena que vejo. É muito gostoso. A fotografia nos ensina a ver as coisas mais belas e mais feias. As belas prevalecem. De um panorama você consegue captar um detalhe, parece que o nosso olho tem um zoom. Por exemplo, quando eu estava te esperando no hall, havia uma planta contra a luz, não sei o nome dela, as folhas parece uma espada, com bordas brancas e espinhos pretos. A luz contra a fez formar um leque perfeito dentro de um recorte em toda a planta. É assim que o fotógrafo enxerga. A fotografia te ensina a ver as coisas mais bonitas.

About these ads
Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

23 comentários sobre “Christiano Diehl

  1. Rodrigo Alves disse:

    Sempre tive vontade de ouvir/ler esta história da suástica, era uma das minhas grandes curiosidades, pois o João Herrmann sempre lembrava do episódio. Comentava bastante do Paulo Markun também, mas o Christiano foi bem descritivo para este periodo em que o JHN era prefeito. Muito legal a entrevista, verei agora pela TV Unimep. No entanto, ainda continuo intrigado: cadê a foto da suástica? Quero muito vê-lá! Parabéns Crhistiano e parabéns Fábio!

  2. João A.Siqueira Neto disse:

    Conheço o Cristiano através de seu trabalho, invejo as fotos aéreas.( pelas fotos e pela diversão ao voar) .
    Agora, após sua entrevista, ficamos conhecendo mais sobre um dos grande fotógrafos e, como todo grande artista, nunca é devidamente valorizado, assim como outros grandes fotógrafos de nossa terrinha .
    Acredito que, o Cristiano mantem vivo o mesmo garoto de 13 anos de idade, que foi apresentado ou melhor, foi contaminado pelo vírus da photografia.
    Parabéns pela excelente reportagem e,parabéns ao Cristiano, e que, nunca perca o “foco”.

    • Fábio Mendes disse:

      Faltou mostrar alguma foto aérea dele aqui. Mas o acervo dele é tão rico que foi difícil escolher o que mostrar. Concordo contigo, João, as pessoas de Piracicaba não sabem os valores que temos em nossa cidade. O Christiano é um destes valores.

      Muito obrigado pela visita!

      Inté!

  3. nelson campos disse:

    Chis, voce merece, esta até hoje batalhando, é bom as pessoas conhecerem sua tragetória, bons tempos de fugir dos milicos, e fotografar reuniões as escondidas para não ser preso e sumirem com a gente como tantos sumiram.
    Parabéns

  4. Fátima disse:

    Parabéns por toda essa trajetória e esforço para chegar onde chegou e Parabéns ao Fábio também, por entrevistar grandes ilustres do seu mundo profissional.

  5. Luisa Libardi disse:

    Ótima a reportagem! Grande fotógrafo o Christiano, sempre admirei o trabalho dele!
    Bom saber um pouco de seu percurso profissional.
    Parabéns!

  6. Antonio Roque Dechen disse:

    Parabens Fábio
    Excelente registro da brilhante trajetória do Cristiano
    Um abraço
    Antonio Roque Dechen

  7. mateus disse:

    parabens cristiano bela entrevista parabens fabio sempre acertando na escolha dos entrevistados parabens

  8. justino disse:

    CONHEÇO O CHRISTIANO DESDE A OUTOSUBO. O ROBERTÃO TAMBÉM.
    EMBORA NÃO TENHA CONHECIMENTO DE ALGUNS FATOS, OU AS CURIOSIDADES DESSES FATOS, SEMPRE SOUBE QUE SUA CARREIRA, NA PROFISSÃO, O LEVOU A SER O QUE É.
    PESSOA RESPONSÁVEL E CRIATIVA.
    SOMOS AMIGOS DE LONGA DATA E ISSO, SUA HISTÓRIA, ME ENCHE DE ORGULHO. SABER QUE VC TEM EM SEU ROL DE AMIGOS UM PROFISSIONAL DO QUILATE DO CHRISTIANO.
    A VOCÊ, FÁBIO, NOSSO AGRADECIMENTO POR DESENTERRAR A HISTÓRIA DA FOTOGRAFIA. DE LEVAR PARA AS PESSOAS UM POUCO DA VIDA DE UM PROFISSIIONAL .
    MAIS UMA VEZ PARABÉNS.

  9. clau disse:

    Parabéns Fábio!!Adorei a entrevista..bjos

  10. Thiago Bernardino disse:

    Fabião,

    Parabéns pelo belo trabalho. História pura. Resgate de um passado cheio de informações ricas.

    grande abraço
    Thiago

  11. Stella Herrmann disse:

    Christiano, parabéns pelo trabalho. e obrigada por contar um pouquinho da história do querido e inesquecível João Herrmann Neto.
    Gostaria de saber, se você teria mais fotos do JHN. Adoraria mostrá-las aos meus filhos, João Herrmann e Francisco Herrmann, os netos mais novos de João.
    Agradeço desde já a atenção e o carinho.
    Stella Herrmann e Matheus Herrmann

  12. [...] Na mostra cada fotógrafo poderia enviar cinco fotos. Lembro-me que o primeiro colocado foi o Christiano Diehl, o segundo ficou com o Beto Brusantin e não me lembro do terceiro colocado. Enviei cinco fotos e [...]

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 28 outros seguidores