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Christiano Diehl

Nascido em Charqueada, Christiano Diehl Neto, 55, é fotógrafo e editor de fotografia do jornal Gazeta de Piracicaba. Até chegar a esta posição na profissão, Diehl passou por outras redações piracicabanas e de São Paulo. Viveu intensamente o final da ditadura militar no Brasil como fotógrafo e já perdeu filme para milico. Esteve presente nas grandes greves dos metalúrgicos paulistas e acompanhou o início do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, quando este era líder sindical. Trabalhou na sucursal de O Globo em São Paulo e na redação da Folha de S. Paulo. Mas foi no jornal do Partido Comunista Brasileiro que quase foi fotografar uma guerra latino-americana. Aqui em Piracicaba passou pelas redações do Diário de Piracicaba, Jornal de Piracicaba, assessoria de imprensa da prefeitura e foi até lojista. Fotografou grandes histórias piracicabanas tornando-se um profissional respeitável em nossa cidade. Christiano Diehl é um fotógrafo que literalmente dá o sangue pela profissão, como verificará na entrevista.

Christiano Diehl Neto. © 2012. Fábio Mendes.

Como foi o seu primeiro contato com a fotografia?

Eu morava em um sítio que se chama Vila Santa Luzia pertencente ao município de Charqueada-SP. Durante uma visita à Piracicaba na casa de um primo, Nivaldo Davanzo, ele tinha por hobby a fotografia. Possuía um quarto escuro em sua casa, ampliador e toda a “parafernalha” necessária para a produção e revelação de fotografia. Eu tinha 13 anos e fiquei curioso com tudo aquilo e perguntei a ele para quê serviam aquelas coisas. Meu primo mostrou-me como era feito o processo da fotografia. Colocou o negativo no ampliador, queimou o papel e fez a imagem aparecer no banho químico. Fiquei fascinado e aquilo não me saía mais da cabeça. Voltei para a minha rotina, mas sempre pensando em fotografia. Dois anos depois minha família mudou-se para Piracicaba e comecei a trabalhar numa financiadora de carros, depois escritório de contabilidade como office-boy, mas sempre desejando trabalhar com fotografia. Quando a loja Cine Foto Outsubo se instalou em Piracicaba na rua XV de Novembro, eu tinha um primo que trabalhava lá, o Roberto Diehl. Abriu uma vaga para auxiliar de laboratório fui lá, pedi o emprego e me aceitaram. Eu tinha uns 15, 16 anos, revelava filmes e lavava e secava fotos. Também aprendi a ampliar fotos Depois disso nunca mais abandonei a fotografia.  Junto a este trabalho eu estudava química no Colégio Dom Bosco. Depois de um ano estudando avisei a minha mãe que gostaria de ser somente fotógrafo em tempo integral. Não suportava química, ficar mexendo naqueles “tubinhos”. Ela não gostou, mas entendeu e até hoje fotografo.

Depois de um ano e meio no Outsubo fui trabalhar na Galeria Foto, que na época era a loja de fotografia mais forte na cidade. Tinha um volume muito grande de serviço. A loja existe até hoje na Galeria Gianetti. Neste trabalho comecei a fotografar profissionalmente eventos de empresas, casamentos e tudo mais neste segmento. Fiquei bom tempo na Galeria. Os proprietários eram o Carlos Alberto Cantarelli, fotógrafo antiguíssimo de Piracicaba e o Nelson que é proprietário até hoje. Depois trabalhei em estúdio de foto para documentação e então fui convidado para trabalhar num estúdio em Americana que tinha um nível mais profissional, pois além dos eventos, fotografava bastantes indústrias. De volta a Piracicaba fui trabalhar no jornal Diário de Piracicaba, Assessoria de Imprensa da prefeitura de Piracicaba na gestão do prefeito João Herrmann Neto e Jornal de Piracicaba. Na prefeitura, dois anos antes de terminar o mandato, João Herrmann criou um jornal no formato tabloide. Era semanal ese chamava Jornal do Povo. Foi aí que comecei no jornalismo, era 1977/78. Ele trouxe para editar este jornal o Paulo Markun, que foi apresentador do programa Roda Viva na TV Cultura, o Bonifácio Placeres, o Peninha, diagramador que era da Gazeta Mercantil e os repórteres eram a Filomena Sayão, hoje trabalha em uma agência de notícias em São Paulo, Valter Puga e Roberto Cabrini, que começou com a gente fazendo esporte. Também a Angela Furlan que é editora da Gazeta de Piracicaba, passou pelo Jornal do Povo. O jornal teve uma vida curta, foram dois anos. Em 1979 fechou no mês de fevereiro em. Estávamos na redação eu, Markun e Peninha quando soubemos do fechamento. Era 21h30 e o Markun sugeriu de irmos embora para São Paulo pedir emprego. Fui para casa fiz uma pequena mala de roupas e saímos os três num carro rumo a São Paulo. Chegamos e fomos direto para um bar que se chamava Quincas Borba Bar. A ideia do bar foi do Markun, pois o local era frequentado por muitos jornalistas. Chegando lá havia muitos repórteres, ilustradores e cartunistas. Ali estavam o Elifas Andreato, vários artistas, como a Bruna Lombardi e seu marido Carlos Alberto Riccelli e mais um monte de jornalistas do Globo e Estadão. Quando o Markun chegou fizeram àquela festa, “ê Piracicaba, encerrou lá?”, gritavam. Ele disse que estavam os três pedindo emprego e que ficaríamos na mesa do canto, se alguém soubesse de algum trabalho que fosse até a nossa mesa. Meia hora depois chegou um “cara” e nos disse que havia vaga no O Globo. No dia seguinte fomos lá e já começamos a trabalhar. Depois fui para a Folha de S. Paulo onde fiquei por um bom tempo. Acontece que o meu pai ficou enfermo, uma doença terminal e tive que voltar para Piracicaba. Antes de ele falecer eu já frequentava o estúdio do Henrique Spavieri e ele me passava trabalhos, pois eu tinha experiência em estúdio. Ele me ofereceu sociedade aceitei e trabalhamos juntos por dezessete anos.

Em primeiro plano o fotógrafo Christiano Diehl “pitando” um cigarro. © Arquivo Christiano Diehl.

Maestro Enrst Mahle. © Christiano Diehl.

Como foi a sua passagem pelo Jornal do Povo e como estava a política social piracicabana no fim da década de 70 e início da década de 80?

O João Herrmann Neto foi um prefeito polêmico, sua gestão foi agitada. Ele trouxe dois congressos da UNE (União Nacional dos Estudantes) em seu mandato, o que na época estava proibido, pois a UNE era considerada uma entidade ilegal. Também fez uma campanha muito forte para salvar o Rio Piracicaba. Entrou em sérias discussões com o governador Paulo Maluf por causa da barragem que retirava grande volume de água dos formadores do Rio Piracicaba e assim diminuía muito sua vazão. Numa dessas discussões ele “xingou” o governador , foi processado e teve que pagar uma multa. Pagou-a em moedas (risos).

Congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

O prefeito João Herrmann Neto discursa durante o congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

O sindicalista Luis Inácio Lula da Silva participa do congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

Protesto contra a retirada da águas do Rio Piracicaba pela Sabesp para abastecer a cidade de São Paulo. © Christiano Diehl.

Protesto contra a retirada da águas do Rio Piracicaba pela Sabesp para abastecer a cidade de São Paulo. © Christiano Diehl.

Você teve algum problema com a ditadura?

Tive. Eu estava cobrindo um comício em frente ao gabinete da prefeitura. Estava o Fernando Morais, Fernando Henrique Cardoso entre outros. De repente chegou o Dops e retiraram a câmera das minhas mãos, tiraram o rolo de filme e o levaram embora. Outro caso foi quando eu estava em um barzinho na rua Boa Morte com meus amigos de trabalho. Era final do expediente e tinha um pessoal estranho no bar.  De repente o dono do bar pede para a gente se retirar e não frequentar mais o local. Havia muitos homens da polícia infiltrados nas universidades, principalmente na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). Eu tinha um primo que era sargento, no 5° Gecam em Campinas, e ele me dizia que havia policiais infiltrados na Esalq, nos movimentos estudantis e DCEs. Era assim que agiam. Na época que foi preso o Francisco Salgot Castillon, prefeito de Piracicaba, foi o meu primo que montou guarda para o Salgot. Também montou guarda quando o Cecílio Elias Netto foi preso. Era conturbada a época. Também tive um caso, em São Paulo, quando começaram as greves no início do PT e do Lula. Fui cobrir uma destas greves, me derrubaram e novamente retiraram a minha câmera e pisaram nela.

Trotes e passeata realizada por estudantes da Esalq. © Christiano Diehl.

Trotes e passeata realizada por estudantes da Esalq. © Christiano Diehl.

Somente fazia o seu trabalho ou também militava?

Não tinha como não se envolver, pois 98% dos jornalistas eram de esquerda. A cicatriz que tenho nos lábios “ganhei” cobrindo uma greve. O proprietário da indústria me viu fotografando a greve dos seus funcionários e me deu um soco na boca. Ele usava um anel de formatura e isso fez um enorme corte em meus lábios.

Foi em Piracicaba?

Foi em Charqueada na empresa Viva Bem Rivaben.

Por que fechou o Jornal do Povo?

João Herrmann criou um jornal extremamente político, para fazer campanha, mostrar o seu trabalho. Engraçado que ele aceitava críticas. Ligava para o editor e dizia que havia um pessoal de um bairro reclamando, pedia para o repórter “meter a boca” no prefeito e na prefeitura. Quando acabou a sua administração acabou o jornal. Quase não havia propagandas por causa da ideologia, então não tinha como se sustentar.

Oscar Niemeyer. © Christiano Diehl.

E no Diário de Piracicaba, como foi a passagem por lá?

Tive momentos muito bons no Diário. Aprendi muito com o Cecílio, é um jornalista brilhante. Um dos melhores “pena” de Piracicaba. Concorde ou não, a forma como ele escreve é brilhante. O Cecílio dava liberdade para a gente trabalhar e nos incentivava votar na melhor reportagem e melhor foto do mês. Aos ganhadores era oferecido um jantar no Restaurante Arapuca na Rua do Porto como um brinde. Era muito saudável esta ação.

Grande Otelo fugiu do hospital no Rio de Janeiro, internado com suspeita de edema pulmonar, veio de táxi à Piracicaba prestigiar o cinema que fora inaugurado com o seu nome. © Christiano Diehl.

Com quem trabalhou na redação do Diário?

Com fotógrafos trabalhei com o Diógenes Banzatto, Davi Negri e Nelson Campos com quem montei um estúdio e trabalhamos anos juntos. Até hoje fazemos alguns serviços, é um grande amigo que tenho e um ótimo fotógrafo.

Por quanto tempo trabalhou nesta redação?

Uns três, quatro anos. A minha saída foi logo após esta greve que levei o soco na boca.

E no Jornal de Piracicaba?

No JP fique por mais tempo.  Mas era simultâneo, fazia trabalho para o JP e para o estúdio que eu era sócio com o Henrique Spavieri. Nós fazíamos muitos trabalhos para o jornal no estúdio, produção de moda, social, personalidades e as reportagens que eu fazíamos nas ruas. No JP era eu o Pauléo e o Henrique. Depois veio o Bolly, que está até hoje como editor. Foi uns 16 anos de JP.

O cartunista Henfil durante o Salão de Humor de Piracicaba. © Christiano Diehl.

A loja Buda Som, que também era sua e do Henrique Spavieri foi referência no ramo da fotografia, como foi conciliar a carreira de fotógrafo e lojista?

Já tínhamos uma pequena loja na rua do Rosário. O Buda Som foi o seguinte, nós éramos sócios do estúdio e ali prestávamos serviços. O Henrique sempre quis montar uma loja e o Shiraga, proprietário da loja queria vendê-la para aposentar-se. A oportunidade apareceu e compramos. Importamos a primeira máquina de revelação na hora de Piracicaba, comum em lojas de fotografia hoje. Era da marca Noritsu e veio direto do Japão.

Quando você saiu do JP e do Buda Som ficou por um tempo fora das redações até retornar no jornal A Gazeta de Piracicaba. O que fotografou neste período?

Tenho uma empresa que se chama Diehl Estúdio Fotográfico e presto serviços fotográficos. Fotos industriais, publicidade e o meu forte que são as fotos aéreas que corresponde quase 80% do meu trabalho fora da Gazeta.

Como foi o convite para voltar a atuar em uma redação?

Apesar de ter esta empresa deixei muitos amigos pelas redações, o Lourenço Tayar é um destes amigos. Ele saiu do JP, me ligou e disse que estava alugando uma casa grande e sabia que o meu espaço era pequeno. Eu estava locado em um edifício na rua XV de Novembro. Avisou que havia uma sala grande e gostaria que eu fosse trabalhar junto com ele nesta casa. Instalei-me e sem me contar já estava com a ideia de montar um jornal. Ele pagava o aluguel e eu pagava a parte que ocupava. Continuava com as minhas fotos industriais e um dia me chamou com a Gazeta de Cambuí em mãos, que tem o mesmo formato da Gazeta de Piracicaba. Disse que era o jornal que montaria em Piracicaba e que gostaria que eu trabalhasse com ele. Fui o primeiro a ser chamado para trabalhar na Gazeta. Ele montou toda a estrutura e voltei ao fotojornalismo que é o que está em meu sangue.

O garoto que fumava “bitucas”. © Christiano Diehl.

Faça um recorte da sua vida em trabalhar com a fotografia na cidade de Piracicaba, nas décadas de 70, 80, 90 e dias atuais.

Fotografar quando eu comecei, não tinha “chute”, tinha que ter certeza do que estava fazendo. Não dava para “brincar” com foto como se faz hoje com a digital. Ficar fazendo inúmeros testes muda o ISO aqui, muda o ISO ali. Não saía com um monte de filme, era tudo caro. Trabalhávamos com economia. Eu saía para fazer várias pautas com dois no máximo três rolos de filme. Hoje tira duzentas fotos em um cartão que cabe mil. E no mesmo cartão pode alterar o ISO e imediatamente ver o resultado. As duzentas fotos da pauta de hoje eram dez fotos no negativo. Só que as dez tinham que sair boas, não podia perder. Ah, e filme que o jornal disponibilizava era de ISO 400. Às vezes trabalhava com ele “puxado”. Mas era aí o problema, diferente do cartão de memória não dava para trocar o ISO no mesmo filme. Pois o filme “puxado” exigia uma revelação “puxada”.  As pautas noturnas de polícia, eventos e futebol eu já saía com o filme puxado em 1600 ou 3200. Era tudo mais trabalhoso. Chagava da pauta, revelava o filme, secava rapidamente e ampliava. Mas tinha que esmaltar a foto para secá-la rapidamente em uma esmaltadora. Melhorava a impressão o brilho do esmalte, não podia ser fosco. O que compensava era o amor pelo que eu fazia, não só eu, mas todos que trabalharam desta forma. Não importávamos passar a noite na redação. Perdi a conta das noites que dormia em cima dos jornais e acordava as quatro, cinco horas da manhã. Hoje também é bom, prazeroso, só que mais tranquilo. É só inserir o cartão no computador e descarregar todo aquele monte de foto.

Festa do Divino. © Christiano Diehl.

Fale mais sobre o seu trabalho em São Paulo?

Foi uma experiência muito boa. As matérias que cobri por lá me deu uma ótima “bagagem”. Peguei o processo que o Lula iniciou com o levante dos metalúrgicos. Tenho foto da época que o Luiz Medeiros era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. Junto com o Lula eles iniciaram a greve geral. Paralisou toda a cidade de São Paulo. Era o ano de 1980. Nesta época também trabalhei em um jornal que se chamava Voz Unidade, que era o jornal oficial do PCB (Partido Comunista Brasileiro), na época um partido ilegal. Ali tinha que trabalhar escondido. Quando o PCB se juntou ao Lula, para realizar o levante dos metalúrgicos, eu estava em Piracicaba dormindo. Era umas dez horas da noite quando telefonaram em minha casa. Era do jornal Voz Unidade e avisaram-me para estar domingo bem cedo num endereço que me passaram, para fotografar a reunião entre os líderes do PCB, Giocondo Dias, Salomão Malina, Hércules Corrêa com o Lula, Vicentinho, Alemão e toda a cúpula do PT. A reunião foi secreta e foi para organizar o movimento da Vila Euclides. Eu fotografava para o PCB e não tinha nenhum fotógrafo nesta reunião.

Um momento marcante com a fotografia?

Não sei se foi o mais marcante, mas a mais polêmica foi em 1978 quando o João Herrmann e mais alguns líderes do PMDB, montaram uma frente de prefeitos do partido. Tinha o Luis Henrique – prefeito de Joinvile – que se tornou governador de Santa Catarina, o prefeito de Limeira, de São João da Boa Vista que era o Nelsinho Nicolau e vários outros. A primeira reunião desta frente foi em Joinvile, a segunda o João Herrmann trouxe para Piracicaba no Teatro Municipal. Eu estava ali como fotógrafo do gabinete do prefeito. Montaram uma mesa no palco que ocupavam as duas pontas com toda a cúpula do PMDB. Começava com o Ulisses Guimarães e terminava na outra extremidade com o vereador, Miltinho da Silva de Piracicaba. Na mesa estavam Franco Montoro, Ulisses Guimarães, João Herrmann, Ruth Escobar, Fernando Moraes e Alberto Goldman. O teatro estava cheio e como era época da ditadura toda a imprensa de Piracicaba, região e do Estado estavam presentes. Fiz todas as fotos e quando o João Herrmann foi encerrar o evento, eu estava lá em cima na fila B, sentado no degrau ao lado do Nelsinho Nicolau. A câmera estava no chão só que preparada para fotografar a última fala do João. Tudo ligado, câmera, flash, com a lente já puxada no zoom e focada. O João adorava discursar, eram apoteóticos seus discursos. Nestes dias, havia uma peça que iria estrear no teatro que se chamava Bent. Contava a história de um casal homossexual presos em um campo de concentração nazista. No cenário da peça desciam três enormes bandeiras, que ocupavam do teto até o chão do palco, com a suástica nazista. E estava eu ali aguardando para fotografar o João e boa parte da imprensa já havia ido embora. Filmadoras desligadas e os profissionais batendo papo, loucos para ir a um barzinho. O pessoal de fora queria conhecer a Rua do Porto para comer um “peixinho”. No encerramento de seu discurso o João Herrmann disse, “nós temos que nos unir e é contra isso que vamos lutar”, e combinou com o pessoal da área técnica que quando ele dissesse isso, desceriam as três bandeiras com as suásticas já instaladas no palco do teatro. Pediu um movimento bem rápido, as bandeiras desciam e imediatamente subiam. Só que ele se esqueceu das imagens e o que isso poderia gerar. Quando desceu eu vi aquilo e fiz duas fotos. Quando o pessoal da mesa virou para trás e viram as bandeiras, queriam se jogar para baixo da mesa para não sair nas fotos. Quando fiquei em pé e fiz as fotos, todos viraram para trás e perceberam que só eu tinha registrado o momento. Resumindo, deu a maior confusão. Todo mundo queria a foto, comprar a foto, o pessoal da Folha de S. Paulo pediu para eu por o preço na foto, o Estadão a mesma proposta, o motivo desta reunião era para lançar o candidato da oposição para concorrer à presidência. Eu, trabalhando para a Assessoria de Imprensa da Prefeitura dizia que não podia entregar ou vender a foto. Terminada a reunião toda a cúpula se reuniu no fundo do teatro e o João Hermann pediu para me chamar. Cheguei lá e ele me perguntou se eu tinha feito à foto e eu disse que sim. “Tem certeza?”, perguntou-me novamente e eu disse que sim. “Então vai embora com este material, vá para a sua casa e deixa a gente resolver aqui”, ordenou ele. Eram 2h e o João me liga em casa e pediu para eu voltar na reunião. Todos continuavam no teatro. “Está com a câmera?”, perguntou-me o João. Disse que estava. “Suma com esse material e amanhã cedo conversamos na prefeitura”, ordenou ele novamente. Revelei a foto e não deu “outra”, foco de ponta a ponta.

Foto permitida do Seminário Nacional de Prefeitos do PMDB. © Christiano Diehl.

O presidente da república João Figueiredo. © Christiano Diehl.

Não foi publicada?

Não foi. Na época eu também era partidário, de esquerda. Vieram uns agentes de São Paulo e me ofereceram muito dinheiro pela foto e eu dizia que não tinha mais, já tinha entregado-a para o meu empregador. Daí eles me perguntavam se pelo menos eu tinha a mesa formada e eu dizia que esta foto todos os fotógrafos tinham. Como eles sabiam que só eu tinha feito aquela, me fizeram a seguinte proposta. Eu venderia a foto da mesa e iria para Americana fotografar a peça Bent, que já tinha deixado Piracicaba. Entendeu o que queriam né? Poderiam falar que era autentica, pois a foto era do único fotógrafo que registrou o momento das bandeiras. Se eles conseguissem esta imagem, iriam empastelar o país dizendo que o MDB era um partido pró-nazista. Desestruturariam todo um trabalho de oposição. Acredito que nem conseguiriam realizar as Diretas Já.

Millôr Fernandes. © Christiano Diehl.

Que história! E momentos engraçados têm?

Tem uma com o Pauléo, fotografando a enchente no mesmo dia que o Adilson Maluf assumiu a prefeitura de Piracicaba. Fotografei a posse no gabinete da prefeitura que ficava em uma casa na rua do Rosário esquina com a rua São José, em que está instalado hoje  a Uniodonto. Terminei as fotos na prefeitura e já desci com o Pauléo na Rua do Porto. Estava frio e garoando.

Estava fotografando para qual jornal?

Para o Diário. Descemos e fotografamos. Inclusive estas fotos foram expostas na exposição Amandy de 2011. Para realizar as fotos, entrávamos nas ruas inundadas de calça, blusa plástica dupla face, câmera e bolsa penduradas e eu estava com uma bota cano curto de couro que tinha um zíper do lado e um salto carrapeta. Combinamos de entrar nas águas até sentirmos que era seguro. Entramos pela rua Morais Barros, e fomos descendo até atingir uma árvore grande em frente ao antigo Clube Regatas. O Pauléo fez uma foto minha dentro da água. Ficamos muito tempo nas águas e o pessoal que estava dentro do barracão da Irmandade do Divino tinham um garrafão de pinga que tomavam para amenizar o frio. Eles nos ofereciam e nós dois tomávamos também. Tomava um gole entrava na água e fotografava. Voltava bebia outro gole e para dentro da água novamente. O frio começou anestesiar as minhas pernas e o álcool a minha cabeça. (risos). Terminamos as fotos saí de lá peguei o meu carro e fui para casa. Era a hora do almoço e a minha mãe estava esperando eu e meu irmão para almoçarmos juntos. Comecei a subir a rampa de casa e me deu um “gelo” e comecei a mancar. Quando cheguei à porta da cozinha coloquei a mão no batente e minha mãe me viu branco daquele jeito, além do frio eram as várias pingas, e perguntou o que tinha acontecido. Falei para ela, “mãe, não tenho coragem de olhar para baixo, acho que a minha perna direita encolheu” (risos). Eu tinha perdido o salto carrapeta e não percebi. Quando cheguei até minha casa com a cachaça na cabeça fiquei com medo que a água tivesse encolhido a minha perna. Absurdo o que a bebida faz com a gente (risos).

Enchente do Rio Piracicaba. © Christiano Diehl.

Quais são suas referências na fotografia?

Gosto de vários fotógrafos. Gosto muito do trabalho do Pedro Martinelli. Quando eu estava na Folha gostava das fotos do Fernando Santos e Luis Carlos Murauskas. Trabalhei com o Jorge Araújo também na Folha, um fotógrafo espetacular. Sebastião Salgado, o trabalho que ele produz com branco e preto é fantástico. Não vi ninguém se igualar a ele com seu trabalho documental.

O que ainda não fotografou?

Guerra. Tive chance de ir e não fui por causa de família. Quando eu estava no jornal Voz Unidade, todo mês tinha reunião de avaliação e os jornalistas que cobriam para o PCB na América Latina, uma vez por mês vinham para cobrir a reunião do comitê em São Paulo. Naquela época quem cobria Nicarágua e Honduras era um repórter que se chamava Chico Hardi. Ele veio para entregar a sua avaliação de como estava o movimento comunista nestes países e pediu um fotógrafo para voltar com ele. Ofereceram-me a chance de ir. Eu queria, mas a minha mulher e a minha mãe quase teve um enfarte e o meu pai já não estava bem. Disse a eles que ficava para a próxima. Mas eu não sei hoje gostaria de fazer uma cobertura de guerra. É difícil não se envolver, pois sou muito emotivo. Acho que não faria um bom trabalho.

© Christiano Diehl.

O que a fotografia representa em sua vida?

É difícil de responder. Ela é muito importante em minha vida. Comecei a fotografar com 17 anos e hoje estou com 55, posso dizer que ela está comigo a vida toda. Por tudo o que olho, vejo foto. Vicia tanto o olhar que enquadro toda a cena que vejo. É muito gostoso. A fotografia nos ensina a ver as coisas mais belas e mais feias. As belas prevalecem. De um panorama você consegue captar um detalhe, parece que o nosso olho tem um zoom. Por exemplo, quando eu estava te esperando no hall, havia uma planta contra a luz, não sei o nome dela, as folhas parece uma espada, com bordas brancas e espinhos pretos. A luz contra a fez formar um leque perfeito dentro de um recorte em toda a planta. É assim que o fotógrafo enxerga. A fotografia te ensina a ver as coisas mais bonitas.

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Claudio Franchi

O piracicabano Claudio Alexandre Franchi frequenta quase todos os finais de semana igrejas, sítios, salões e outros variados locais para registrar casamentos. Com sua experiência de vinte e quatro anos, hoje Claudio Franchi, nascido em 04/06/1971 e o seu Studio A são famosos em coberturas fotográficas de uniões matrimoniais e eventos com “muita luz” como ele gosta de dizer. O começo foi difícil como da grande maioria que busca sucesso profissional, e neste ano de 2012 o fotógrafo quer compartilhar o seu “know-how” e oferece curso para quem estiver interessado em tornar-se um fotógrafo de eventos. Pai de três filhos – um menino e duas meninas – é casado e junto à esposa, tem uma companheira de lar e de trabalho, pois ela também fotografa. Segue abaixo um bate papo com o fotógrafo sobre o seu difícil aprendizado em que precisou melhorar sua postura diante do exigente mercado, para conquistar mais e melhores clientes. Uma breve aula para quem pretende entrar e competir nesta profissão.

Claudio Franchi. © 2011. Fábio Mendes.

Como iniciou com a fotografia?

Foi por necessidade financeira. Precisava de um emprego para ajudar a minha família e soube que a loja de fotografia Jetcolor precisava de balconista. A loja ficava na rua Governador Pedro de Toledo em frente a loja Baby Calçados. Havia uma banca de porta retratos e no balcão só mulheres podiam trabalhar. Minha função era olhar esta banca contra “trombadinhas” que poderiam roubar os produtos expostos. A loja fazia uma média de quinze reportagens de casamentos por sábado. Quase todos os fotógrafos da cidade faziam free-lance para a Jetcolor. Eu me interessei e comecei a ajudar os fotógrafos. Fui auxiliar do querido e saudoso, Antonio Prezotto. Isso foi em 1986. Em quatro meses deixei de olhar a banca para cuidar dos equipamentos fotográficos. Havia entre 40 a 50 baterias para recarregá-las toda a semana. Verificava os cabos dos flashes e montava as bolsas dos fotógrafos. O meu patrão era o Roberto Ascari, que hoje comanda a loja Spavieri. Eu também ajudava a montar os álbuns de casamento e isto me despertou uma vontade em fotografar. A Jetcolor abriu as portas para mim. Permitiam-me que levasse os equipamentos para casa nos finais de semana para me aprimorar tecnicamente. Eu levava uma câmera 6×6 – que tem os negativos maiores, de 120 mm – e flash Mecablitz, um equipamento difícil de trabalhar. Eu fotografava a minha família e o pessoal da loja analisava e corrigiam as fotos. Mas era tudo muito complicado, fotografava no final de semana, enviava os filmes na segunda-feira para Tupã e demorava uma semana para revelar. A impressão levava mais vinte dias para ficar pronta. Para você ver uma foto impressa levava um mês.

A Jetcolor foi referência de fotografia na cidade. Havia uma vitrine enorme no interior da loja onde ficavam as fotos dos casamentos, expostos. Os casais que passavam em frente da exposição, entravam e contratavam os serviços da loja. O Antonio Prezotto era o “relações públicas” da empresa. Ele que fechava os contratos dos casamentos. Havia poucos concorrentes nesta época. Eu não sou tão velho assim, mas o único que concorria era o Cícero (Correia dos Santos), que estava parando de fotografar casamentos, ele fotografava muitos clubes e seus carnavais.

© Foto Claudio Franchi/Studio A

Quanto tempo trabalhou nesta empresa?

Fiquei por um ano. Teve um sábado na loja que tivemos vinte casamentos e só havia dezenove fotógrafos. O Roberto me chamou e disse: “Não tem outra opção, você tem que ir”. Questionei que eu não tinha experiência e não tinha nem carteira de habilitação, pois era menor de idade. Mas não teve argumento. A loja tinha um fusca e me levaram até o evento que foi dentro da Usina Costa Pinto. Foi um casamento muito simples. Antigamente os casamentos eram feitos dentro de casa, menos requintados do que são hoje. Fui lá. Fiquei muito nervoso. Fiz oitenta fotos, que na época era um absurdo esta quantidade, pois os filmes tinham apenas doze chapas. Este foi o meu primeiro casamento.

Fotografou sozinho este casamento?

Sim. Na época não tinha equipe, no máximo um auxiliar. Eu auxiliava o Antonio Prezotto. Chamávamos de fotocélula. Não levávamos outras câmeras, era tudo muito simples e rápido. Se o casamento fosse às 18h, chegávamos às 17h45 e às 20h já estávamos em casa. Terminava a cerimônia na igreja, íamos para a Esalq, fazíamos de dez a quinze fotos. Depois partíamos para a festa, que era sempre na casa dos noivos, na cozinha com aquele aperto de tanta gente tinha um bolo com um champagne. Mais dez a quinze fotos. Depois mais fotos dos presentes e ir embora para casa. Não tinha toda a preparação que temos nos dias atuais. Hoje evolui, até demais.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Fora da Jetcolor qual foi o próximo passo?

Eu já quis montar o meu próprio negócio. Só que eu não tinha estrutura financeira. Pedi demissão, pois eles não queriam me mandar embora, ainda era útil para eles. Montei o Studio Classe A, isso em 1987 que ficava na casa da minha mãe. Era ilusório. Tinha uma cozinha, uma mesinha, mas não tinha como comprar os equipamentos.  Daí o pai do meu amigo Fábio Alcarde, o “Seo” Renato Alcarde, a quem sou muito grato, me levou para São Paulo. Disse-me que iria comprar os equipamentos para montar um estúdio junto com o seu filho. Eu não tinha condições de comprar. Minha câmera era uma Pratika TL5, que comprei do fotógrafo Olney Mendes. Eu era doido para pôr pilha na câmera e ver o fotômetro funcionar, que era de “palitinho”. Coloquei a pilha e não funcionou. Levei para consertar no Mário da Vila Rezende e ele me disse que a máquina não tinha nada por dentro, não havia fiação, era só uma caixa com obturador e diafragma. Quando eu disparava o obturador fazia um escândalo. Voltando para São Paulo, chegando lá fomos à rua Conselheiro Crispiniano, que era o sonho da maioria dos fotógrafos andar nesta rua onde tinha muitas lojas de fotografia. Durante a viagem no ônibus o “Seo” Renato me perguntou qual equipamento eu precisava. Na época a “máquina” era a Pentax K1000 que vinha com uma objetiva 50 mm. Também precisava de uma 28mm e um flash Frata. Para a minha surpresa, ele comprou duas K1000, dois flashes, duas bolsas, vários cabos, rádio-célula… Tudo o que eu precisava. Na volta eu parecia uma criança que acabou de ganhar um presente. Tudo novinho, na caixa, nada de Paraguai ou importado, tudo comprado na loja com nota fiscal. De volta em Piracicaba, o “Seo” Renato cedeu-nos uma sala em sua casa, comprou uma escrivaninha, foi na gráfica e fez contrato de casamento com auxilio de um advogado –  que uso até hoje – fez cartão de visita e nos disse: “Agora vocês vão ralar”. Aí começamos, eu e o Fábio a “ralar” na rua São José atrás do clube Palmeirão. Foi o início do Studio A. Tiramos o “Classe”, pois ficava muito grande o nome, Studio Classe A.

O início, ainda como Studio Classe A. © Foto: Arquivo/Claudio Franchi/Studio A

Mas era outra realidade. Quem iria nos contratar? Quem era Studio A? Aonde íamos “pegar” casamentos? Íamos aos cartórios e anotava o nome e endereço de cada noivo que iria se casar. Juntava tudo numa pasta, pegava a moto e ia aos endereços anotados bater na porta para oferecer o nosso serviço. Aqui que mora a Silvia? Aqui que mora o Paulo, que vai se casar? Apresentávamos o trabalho num álbum que levávamos embaixo do braço e mostrava para o (a) noivo (a). Algum casamento fechava, outro não. Mas vários noivos nos xingavam, pois eles davam endereço falso só para casar na igreja da Vila Rezende. O cidadão morava na Paulista e queria casar na Vila Rezende. Pegava qualquer endereço do mesmo bairro da igreja e colocava seu nome como morador. O real morador não agüentava mais atender tantos fotógrafos, pois além de nós, vários outros faziam esta prática. Trabalhamos por três anos neste esquema. Não tinha anúncio, guia de noivos e no jornal nem pensávamos, pois não tínhamos condições financeiras.  Dentro destas aventuras, pois íamos à noite fazer estas visitas, dois moleques, eu com 17 e ele com 16 anos, com uma moto sem carteira de habilitação, nos divertíamos, brincávamos e muitos davam risada da gente e não sabíamos o motivo. Quando fechava um casamento já subíamos na moto gastando o dinheiro, íamos ao shopping e um comprava uma blusa o outro uma calça… E assim era. Eu não tinha nada, nunca tive dinheiro.  O Fábio já era bem de vida. O pai dele sempre teve uma vida estável financeiramente. Para mim tudo era novo. Eu queria comprar, ter uma calça nova, um tênis, às vezes esquecíamos até das despesas relacionadas ao trabalho e gastávamos o dinheiro. Assim fomos trilhando.

Reportagem sobre o seu trabalho realizada em 1991. © Foto: Arquivo/Claudio Franchi/Studio A

Foram sócios até quando?

O “Seo” Renato hoje tem Alzheimer, mas continuo visitando-o. Gosto e devo muito da minha carreira a ele. Mas um dia ele chegou e disse: “Não quero esta vida para o Fábio”. Casamento você trabalha na sexta à noite, sábado à noite e ele gostaria que o Fábio fosse estudar. O que aconteceu e hoje ele é advogado. O pai dele rompeu a sociedade e me pediu para eu pagar da forma que eu pudesse o equipamento. Voltei para a casa da minha mãe. Assim comecei a trabalhar sozinho. Fui pagando o “Seo” Renato mensalmente. Foi em 1990. Trabalhar sozinho foi difícil, um sofrimento.  Eu não tinha mais o respaldo do Fábio e do seu pai. Fui emancipado com 14 anos, para eu poder abrir contas em banco e fazer movimentações financeiras. Daí comecei a correr atrás dos trabalhos sozinho. Já não tinha mais condução, apenas uma Vespa. Quando saía para fotografar o tempo tinha que estar legal. Às vezes eu entrava na igreja para fotografar um casamento e no final da cerimônia estava chovendo. Deixava a Vespa por lá e pegava carona com algum padrinho para ir à festa. Foi difícil, eu persisti mesmo! A instabilidade financeira era demais, pois além das minhas contas eu ajudava meus pais em casa. Vivi nesta labuta por oito anos, não conseguia me destacar no mercado. Eu queria “por a cabeça para fora”, mas não conseguia. Por vezes o trabalho não melhorava pela deficiência dos equipamentos. Lentes, flashes, cabos, tudo muito precário. Eu entrava tenso na igreja para fotografar um casamento. Tinha que torcer para o flash funcionar ou o cabo não quebrar. Algumas vezes pensei em desistir, mas nunca fui de estudar e ler. Sou uma pessoa que tudo que tenho vontade de fazer vou praticar. Admiro quem estuda e lê livros. Fiz apenas dois workshops em minha vida, pois não consigo ficar sentado e ouvir outra pessoa falar, não consigo. Se eu quero fazer uma foto, vou fazê-la do meu jeito.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Voltando as dificuldades, montei uma loja na rua Treze de Maio com estúdio. Comprei um laboratório, um erro enorme, de filme colorido e dei a Vespa de troco. Quando chegou o laboratório já era obsoleto, a pessoa me vendeu de má fé aproveitando da minha inexperiência. No fim fiquei com aquele “elefante branco” que nunca revelei uma foto sequer. Dava para imprimir até 30x40cm neste lab. Tinha estufa, inclusive quem a comprou foi o Henrique Spavieri. Consegui vender as bombas para um cara que mexia com isto e nos tanques plantei flores. Neste endereço as coisas continuavam muito difíceis. Eu não tinha nem aparência para atender os clientes. Tinha vinte poucos anos e sempre estava de bermuda, tênis, camiseta e boné. Comprei um fusca e estava sempre com o som alto. Na época quem se destacava eram, no vídeo o Domenico, que tinha uma estrutura invejável. Ele parava em frente à igreja com o seu furgão e desciam quatro ou cinco funcionários, todos com coletes. O Domenico hoje é meu amigo, mas nesta época ele era arrogante, não olhava na cara de ninguém, mas era o “cara” do casamento. Na fotografia era, quem eu admiro e me orientou muito, o Wilson Ernesto, da Focaliza. Ele foi uma referência no meu trabalho. Sempre o cito em qualquer conversa de fotografia. Vou citar nomes aqui de quem me ajudou, quem não ajudou não citarei nem contra e nem a favor. Um dia o Wilson me perguntou se eu gostava de fotografar. Nós, fotógrafos, tínhamos um ponto de encontro que ficava na loja Zoom Bischof, na rua Governador Pedro de Toledo, em frente a Farmácia do Povo. Na segunda-feira ali era o “point” dos fotógrafos. Todos contando suas histórias com os trabalhos de final de semana. Um contava que o padrinho caiu, outro falava que a máquina quebrou. Num destes dias o Wilson me chamou e falou: “Para você melhorar a primeira coisa é mudar a sua postura. Se eu fosse um cliente e te visse vestido assim não te contrataria. Bermuda, boné e camiseta? Mude a sua postura. Tem que ter um carro bom também. Este seu carro não passa confiança, pois sempre o vejo sujo, já é velho também. Imagine o seu trabalho, o seu álbum?” Aí ele me disse que estava com uma casa no bairro Santa Cecília com cinco vagas para carro na garagem. A casa era de aluguel, mas quem pagava eram os noivos. Ele dizia que os clientes quando viam sua casa já imaginavam que ele era um bom profissional, só pela residência já sentiam confiança. Infelizmente as coisas são assim. O consumidor compra com o olho. Mas depois deste conselho mudei a minha filosofia. É difícil dizer que fui o percussor, talvez alguém fez antes, mas desconheço, eu que iniciei em Piracicaba montar sala para atendimento dos noivos em loja/estúdio. Na minha sala coloquei sanca de gesso, ar condicionado e aí me diferenciei. Tinha dois ambientes com pisos diferentes. A mesa ficava na sala de cima enquanto os clientes aguardavam na sala abaixo. Os clientes me visitavam e depois iam aos concorrentes. Um atendia no balcão da loja, outro na sala de sua casa com o cachorro latindo no quintal ou uma criança chorando. Automaticamente comecei a atender clientes de classe financeira melhor que investiam mais em seus casamentos. Agora eu estava fotografando no Eventus, que era vitrine para qualquer fotógrafo. Encontrei o caminho. Comecei a me produzir fotografava de terno e gravata, adesivei o carro e impus a minha marca. Tudo isso sem ter noção nenhuma de marketing, a vida foi me ensinado. Foi um período que eu tinha apenas um concorrente, que continua na ativa, o Sartorello. Ele é um fotógrafo muito bom, um excelente profissional. É técnico, conhece muito iluminação. Antes de eu “entrar” era ele e também o Buti que dominavam os trabalhos da elite. Até chegar o Cláudio e começar a incomodar, e ficamos pareados os três até que, modéstia a parte, me destaquei mais que os dois, porque fui sempre buscando coisas diferentes. Eu já escaneava fotos e imprimia em papel fotográfico, na foto pxb eu pintava os buquês com aquarela deixando-os coloridos, imprimia a foto em seda e assim fui me diferenciando. Assim me estruturei.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Aí veio o digital.

No início eu desanimei. Saiu a Canon 10D e comprei. Acreditei ter feito o melhor negócio do mundo. Mas ela não dava retorno. Não sincronizava com o flash Metz. Usava o flash da Canon em sua sapata, mas a foto ou saía estourada ou fraca demais. Não tinha jeito, não havia condições de trabalho. Eu fazia o casamento com a digital de um lado e com filme no outro, fazia um pouco de cada. Quando eu mandava revelar as fotos digitais, pois se achava que era só descarregar e imprimir, as fotos vinham granuladas ou desfocadas. O foco não era preciso. As lentes não eram preparadas para as digitais. Pensei comigo, isso aí não vai “pegar” nunca! Tenho uma cultura que não abro mão de iluminação. Não consigo fotografar sozinho, sempre com equipe. O “meu” câmera três, foi treinado para trabalhar sem flash, ficam lindas estas fotos, mas eu não faço, não gosto de fotografar assim. Levo o meu auxiliar com um flash e jogo a luz onde quero. Um bom auxiliar é essencial, pois se ele não trabalha bem estraga sua foto. Sozinho você faz uma foto legal, mas com auxiliar se não souber posicioná-lo você não consegue um bom trabalho. Percebi no digital um fracasso, pois não dava para fotografar da forma como trabalho. Mas estavam em testes, pois logo começaram a chegar “os” equipamentos. Hoje “nem se fala”, você faz o que quer, dá até para brincar. Só que junto com a facilidade em fotografar veio mais trabalho. Com filme trabalhava eu e minha esposa. Hoje preciso de mais quatro pessoas. Um para tratar as fotos, um para editar, um para montar álbum, o meu servidor tem três HDs de 1,5 terabyte. Guardar estes arquivos não é fácil, pois adianta ter uma câmera de 21 megapixels e trabalhar em resolução menor? Trabalho com o melhor, se a extensão raw for o ideal, trabalho em raw. Mas sinto que o digital desvalorizou um pouco o fotógrafo profissional, pois hoje acreditam que todo mundo fotografa, pois todos têm uma câmera. O cara erra e já acerta na próxima. Granulou, está bonito! Na minha época com os filmes, pelo amor de Deus entregar uma foto fora de foco. Hoje é moda! Não a minha.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Eu vi uma reportagem com o Evandro Rocha, gosto e acompanho o seu trabalho. Um dia ele postou em seu blog umas fotos de casamento granuladas, mas deixou claro que foi a pedido do noivo. É muita moda! Há dois anos todo mundo queria fotografia de casamento em estilo jornalismo. Hoje é editorial, que é pose. Everton Rosa que é um “baita” fotógrafo, o seu diferencial é a iluminação, que é o mesmo que busco. Colocar uma noiva em pé com as mãos cruzadas num fundo branco não vejo graça. Eu proporciono fotos com luz, avancei nesta técnica. Fui a uma feira de fotografia em São Paulo onde o expositor falou que o importante é a expressão, não é o foco e nem o enquadramento. Eu não acho. Para mim o importante é o foco, o enquadramento e a expressão. Como que o foco não é importante? Então vamos todos tirar fotos sem foco! Até entendo que o verdadeiro profissional consegue ver uma foto fora de foco e falar, “puta foto”. Mas tem muita foto que você fala, “que porcaria”, porque o cara errou mesmo o foco. Então essas coisas desvalorizam um pouco o fotógrafo. Imagina que você vai fotografar um casamento com filme? Pare e pense. Você tirar duzentas fotos e não sabe o que está saindo. Só na segunda-feira você vai ver o que você fez. Esses que trabalhavam assim eram fotógrafos! Um (flash Frata) “fratinha” em cima e uma máquina na mão. Quatro metros, põe cinco seis. Um metro e meio? Onze. Aí é fotógrafo. Agora pegar uma câmara digital colocar um flash TTL em cima… Não desmereço o digital. Acho lindo, facilitou, mas se você filtrar passa muita gente.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Você aumentou sua estrutura, montou duas lojas com estúdio e reformou o seu escritório. Mesmo com esta facilidade do digital o mercado melhorou? Você se transformou em um empresário.

Eu sempre tive este objetivo de agregar junto ao casamento, loja e estúdio. Mas não tinha condições financeiras, pois não é barato ter e manter uma estrutura com loja e estúdio. Coloquei metas em minha vida e fui galgando. O primeiro objetivo era ter um espaço para trabalhar, um lugar para poder atender os meus clientes e não correr risco nenhum por causa de má condição financeira ou problemas de ter que devolver prédio sendo inquilino. Este foi o primeiro foco, que realizei. Comprei e fizemos uma reforma, pusemos o prédio no chão. A primeira etapa foi construir a minha sala no andar de cima, para ter este diferencial, lembrando o que aprendi com o Wilson Ernesto. O cliente tem que entrar aqui e dizer, “este é o lugar que vai ao meu casamento”.  Além de um trabalho bom, o cliente tem que se sentir confiante. Eu valorizo isto, além de apresentar um bom trabalho, mostrar uma boa estrutura física. Isso me faz bem. Houve uma época em que os móveis que tinha em meu estúdio eu não possuía na minha casa. A prioridade era aqui, a minha fonte de renda. A segunda etapa foi construir um estúdio. Todo mundo diz que tem estúdio. Isto aqui é um estúdio. Tem camarim, é climatizado com som ambiente, aqui o cliente fica à vontade. Quem está no andar de baixo não tem acesso ao andar de cima onde está o estúdio. Não só tenho o nome de estúdio como tenho “o” estúdio para atender um cliente de A a Z. Junto a tudo isto veio à necessidade de abrir outro negócio, porque só depender de casamento é complicado. Quando o movimento do casamento cai, financeiramente me afetava. Precisava de alternativa. Foi aí que montei o Kids. Comprei temas infantis personalizado, nada de montagens de photoshop em que fotografa a criança sentada e depois coloca no software. Decidi montar o Studio A Kids no Centro, na rua Moraes Barros. No endereço faço fotos para documentos, revelação e outros serviços relacionados à fotografia. Estamos com 1 ano e 7 meses. Estou muito feliz com o resultado. Dentro deste tempo, eu almejava algo mais no “meio” do Centro e aí montei outra loja igual a esta na rua XV de Novembro, entre a rua Governador Pedro de Toledo e a rua Benjamin Constant. A intenção era fechar a loja da rua Moraes e ir para lá, mas percebi que são públicos diferentes. Quem sobe a rua Moraes não desce a XV e vice e versa. Quem sobe a XV de Novembro geralmente saiu do Terminal Rodoviário e vai para o Centro fazer compras. Quem desce a Moraes Barros vem do outro lado da cidade e geralmente está de carro. O Studio A Kids da rua XV de Novembro se transformou em loja. Ali vendo pen drive, CD, câmera, GPS e montei estúdio. Virou uma cine-foto. Aqui onde estamos na rua Regente Feijó é outro público, é para a mãe que não quer ir até o Centro, prefere marcar hora e ter um atendimento personalizado. Aqui os clientes são as minhas noivas, que depois que ficam mães querem fotografar seus filhos comigo. Fidelizo meus clientes.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Quais são suas referências na fotografia, além do já citado Wilson Ernesto?

Gosto do Evandro Rocha e Everton Rosa. Acompanho o trabalho deles apesar do Everton Rosa, hoje eu não o enquadrar como fotógrafo, mas, como posso dizer… Não um “marqueteiro”, um cara que dá cursos, palestras, workshops, que está focado em vender o seu produto. Recentemente o Evandro Rocha também deu um curso e eu não pude ir por falta de tempo em tirar passaporte, pois as aulas foram em Paris. Eu gostaria muito de ter ido para poder montar um portfólio com fotos de uma igreja de lá e também viver uma experiência nova de fotografar em outro país, sentir um clima diferente. O Evandro Rocha é uma pessoa muito humilde, ele põe as fotos em seu blog e mostra a abertura, velocidade, máquina, objetiva e como ele fez a foto. É fácil de encontrá-lo conversei várias vezes com ele por telefone. Está sempre pronto para te atender. Eu me identifico com ele porque sou assim, converso com todo mundo. Hoje não fotografo mais em cartório, pois a maioria dos meus trabalhos os noivos fazem o casamento civil junto da festa, mas eu adorava ir à porta do cartório conversar com o Barbosa, Bonifácio, Antonio Prezotto, passava horas ali. Terminava o meu casamento e ficava por lá conversando e dando risadas, aquilo era uma terapia. Às vezes chegavam uns fotógrafos com nariz empinado que não conversava com ninguém. Eu trato as pessoas da mesma forma que gostaria que me tratassem.

Você nunca pensou em migrar para outra área da fotografia?

Esqueci-me de contar, mas trabalhei no jornal Diário de Piracicaba. Foi quando eu saí da Jetcolor. Trabalhava à noite, entrava às 16h e saía às 22h. Mas era muito precário, o Diário estava perto de encerrar suas atividades. Uma das fotos que fiz foi de um incêndio em um prédio na Praça José Bonifácio, próximo a loja A Musical. Estava eu e um fotógrafo do Jornal de Piracicaba, que não me lembro quem era, e fui empolgado para fotografar, mas o capitão da polícia autorizou primeiro o fotógrafo do JP. O incêndio já tinha sido controlado e os bombeiros deram roupas e capacete especial antes dele fazer as fotos. Na minha vez viraram as costas e foram embora. Subi na raça. O pessoal não estava mais nem aí com o Diário, pois estava em seu fim. Fiquei seis meses no jornal.

Com quem trabalhou no Diário de Piracicaba?

Com o Wanderlei do Carmo, que é assessor do vereador João Manoel. Não me recordo se entrei no lugar do Alessandro Maschio ou ele entrou em minha vaga. Realizei uma vontade de trabalhar em jornal.

Em 2010, você realizou uma exposição com fotos da Corrida São Silvestre. Como foi produzir este trabalho?

Foi um convite do Projeto Ilumina que trabalha com portadores de câncer e preza a qualidade de vida. Fui fotografar os anônimos da corrida, cadeirantes, cegos e portadores de alguma deficiência física. O objetivo era mostrar que se a pessoa não tem uma perna, ela também pode participar da corrida com a sua cadeira de rodas ou prótese. Enfim, mostrar que estas pessoas podem ter também qualidade de vida. As fotos foram expostas no Shopping Piracicaba e Unimep. Este trabalho foi gratificante, um dos que marcaram a minha vida. Fotografar paisagem não é a minha “praia”. Eu não consigo fazer um trabalho artístico sem estar amarrado com o lado comercial. Fiz um cruzeiro com minha família que passava por Argentina e Uruguai e levei a minha câmera profissional com duas objetivas para poder fazer umas fotos “diferentes”. A minha mulher pediu para eu guardar o equipamento, pois eu estava estressado. Eu não conseguia relaxar para fazer uma simples foto, me sentia como se estivesse trabalhando. Não consigo andar com os dois juntos, “trabalho e lazer”. Agora comprei uma câmera compacta, uma Sony cor de rosa, que dei para a minha filha e virou a câmera oficial de viagem da família, melhor do que o celular.

Corrida São Silvestre 2009. © Claudio Franchi/Studio A

Você disse que o trabalho que realizou na Corrida São Silvestre te marcou. Tem outros momentos marcantes?

Tem sim. Foi uma campanha que fiz para o banco de leite do Hospital dos Servidores de Cana sobre amamentação. Fiz várias fotos e acabei recebendo um prêmio entregue pelo prefeito Barjas Negri pela iniciativa em incentivar a doação de leite. Muitas crianças necessitam, pois há mulheres que não produzem leite materno. Dentre as várias fotos, fiz de um recém nascido pré maturo. Ele cabia na palma da minha mão. O bebê estava muito debilitado. Foi impactante e emocionante ver a luta da mãe, que não saía ao lado do filho, por sua vida. Confesso que não acreditei que o bebê resistiria. Faz pouco tempo aquela mãe veio até o meu estúdio com o seu filho para buscar a foto que fiz no dia. Já faz três anos que o fotografei no hospital. O menino ficou com sequelas, mas está vivo. Eu com a minha esposa choramos depois que ele saiu do estúdio. Foi inacreditável vê-lo novamente e sentir o carinho especial que sua mãe dava a ele.

© Claudio Franchi/Studio A

Um momento inusitado.

Fotografei um golpe de casamento. Um rapaz veio para Piracicaba e começou a namorar uma moça evangélica, infiltrou-se na igreja, mas era um golpista. O negócio dele era casar-se com a menina e levá-la para morar com ele em Belo Horizonte. Por conta da distância ele pediu aos convidados que em vez de comprar presente, dar o valor em dinheiro. Abriu uma conta com a noiva em uma agência bancária e os amigos e convidados depositavam o dinheiro. Casou-se na Igreja Metodista, fez festa e foi até a Esalq tirar fotos. Tudo beleza, até o dia seguinte quando o rapaz acorda e diz a sua esposa que vai comprar pão para o café da manhã. Tchau, não voltou mais e levou todo o dinheiro. A noiva foi parar no hospital e precisou de psiquiatra. A polícia veio atrás de mim para pegar foto do rapaz e descobriu que o malandro tinha uma ficha de dez golpes como este.

A Esalq transformou-se em um tradicional ponto para fotos de casamentos. Já foi parada obrigatória por todos os fotógrafos, pois era exigência dos noivos e também houve época que fotografar ali era brega. O que este espaço representa ou representou em seu trabalho?

Meu número de inscrição ali é oitenta e quatro. Para fotografar na Esalq é preciso ser cadastrado. Fotografei muito ali e põe muito nisto. O local era sinônimo de fotografia de casamento. Fazia parte de qualquer casamento da cidade. Na Esalq foi onde me destaquei. Por quê? Porque foi o que frisei, eu gosto de iluminação. Eu cheguei a trabalhar com três foto-célula. A maioria das sessões era à noite e por lá via um concorrente sozinho. Eu sabia que ele ia fazer uma pinta branca num espaço preto. Não tinha como ser diferente. Filme de ASA 100, máquina e lente ruim, pois a grande maioria era desprovida de bom equipamento. Eu, como levava a minha equipe, colocava um ajudante iluminando o fundo, outro o vestido e quando revelava dava para ver tudo bem iluminado. Lá tinha uma palmeira ou coqueiro com as folhas amarradas formando um coração. O primeiro fotógrafo que chegasse lá já amarrava e facilitava para os outros. Mas cada um com a sua técnica. Eu fazia montagens, colocava a câmera em um tripé e fazia múltiplas exposições da noiva no “campão”. Vieram os filtros que encaixavam nas lentes. Tinha o paralelo que facilitava esta foto, pois quadruplicava a noiva. A famosa foto do lago eu fazia com a câmera no tripé, cabo propulsor e deixava a exposição com dez segundos. Ficava lindo. Painel dos noivos no lago eu vendi muito. Depois de um tempo o casamento não se encerrava mais na Esalq ou na casa dos noivos só para cortar o bolo, começou ficar comum as grandes festas.  Só que os noivos queriam ir primeiro na festa e só depois na Esalq. Foi então que os fotógrafos se movimentaram e exigiram que as fotos na Esalq tinham que ser feitas antes da festa, pois justificávamos que além do cansaço havia o risco de roubarem os equipamentos. Assim começou a diminuir os ensaios por lá, pois os noivos gastam uma grana com as festas e não querem perder um minuto da diversão. Já faz uns quatro anos que não vou à Esalq. Quando surgem fotos externas vou ao Engenho Central ou na Estação da Paulista, mesmo assim foi apenas uma vez que aconteceu neste último ano. É uma pena, pois hoje virou um perfil da noiva virar uma celebridade. Ela chega à festa e o cerimonial pega e a leva para um quartinho, aí anuncia a entrada da noiva. O fotógrafo parece um paparazzo, tem que ficar fotografando de longe, não é este o propósito de você fotografar um casamento. A noiva me pagou para eu a fotografar. Não me pagou para eu ficar correndo atrás dela e “pegar” alguns lances. Depois vem a cobrança. Hoje você tem que ter uma postura. Prefiro não executar alguns trabalhos para depois eu não ter problemas. Eu já aviso os noivos como eu trabalho e peço a eles avisarem o cerimonial. Não posso por em risco o meu trabalho, pois na segunda-feira o cerimonial não existe mais para os noivos e eu vou existir durante uns três ou quatro meses ainda. “E a minha foto com a vovó? E a foto com o meu pai?” Ah, mas o cerimonial disse para eu esperar. “Mas você que é o fotógrafo”. Hoje tenho o meu tempo. Sou amigo e parceiro de várias cerimonialistas, pois sabem como trabalho. Peço 20 minutos para o ensaio e que não fique do meu lado de braços cruzados, pois me atrapalha. Sou rápido e dinâmico nas sessões, não fico “cozinhando” a noiva.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

O que você não fotografou?

Futebol. Não fotografei e nunca tive vontade. Acho lindas as fotos que vejo nos jornais, mas não é para mim.

O que não fotografou, mas tem vontade?

Sonho em fotografar foto subaquática. Já pesquisei lugares e equipamentos, mas a correria do dia a dia ainda não me permitiu. Hoje estou administrando melhor o meu tempo. Tenho horas para entrar e sair do estúdio, pois vivia em função do trabalho. Tenho uma família para cuidar.

O que a fotografia representa em sua vida?

Além de representar a minha profissão é o suporte que dou para a minha família. Sou apaixonado por fotografia de casamento. Acho lindo foto de criança, de gestante, sei e gosto de fotografar, mas entreguei esta área para a Karla, minha esposa. Já o prazer que tenho em fotografar um casamento é inexplicável. Faço com muita responsabilidade, pode ser um mega casamento como o mais simples dos casamentos. Eu não escolho o meu cliente. Este prazer brotou pelo reconhecimento que as pessoas me dão. Chego a um casamento e é comum pessoas me virem e dizer que fotografei o seu casamento há quinze anos e as fotos continuam lindas. Isto para mim é gratificação. Eu não conseguiria continuar se eu tivesse algumas decepções com a fotografia. Um trabalho perdido, mal feito ou mal elogiado eu não suportaria, encerraria a minha carreira. Junto a isto vem a parte financeira que quero dar aos meus filhos. Realizei muitos sonhos. Compro bastante equipamento, às vezes sem necessidade, mas gosto é um prazer. Não saio preocupado se vai quebrar, sempre tenho outro. O dia que eu parar de fotografar casamentos, daqui uns quatro ou cinco anos ficarei muito triste. A minha mulher acredita que não paro.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

 Nesta sexta-feira, 27, às 19h45, assista a entrevista na TV Unimep no canal 13 da NET Piracicaba.

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Nelson Campos

Olá, caros.

Hoje a prosa é com o fotógrafo Nelson Campos. Piracicabano, 56 anos de idade, casado com Augusta de Campos, tem dois filhos e atualmente conta com dois netos, um menino e uma menina. Este ano Campos completa 40 anos de profissão. Conheça um pouco das histórias desse fotógrafo que passou pela redação do Diário de Piracicaba, foi sócio de dois estúdios fotográfico com dois ótimos fotógrafos piracicabanos na década de 80 e um dos pioneiros na fotografia digital de Piracicaba. Hoje, especialista em fotografia publicitária e industrial. Campos é um fotógrafo atualizado, ganhou prêmio internacional com fotografia de natureza e também de manipulação fotográfica com o software Photoshop, mas está preocupado com os rumos da fotografia em sua área. Saiba o por que e conheça mais histórias desse personagem piracicabano que fez e continua a fazer recortes de nossa querida cidade.

Inté.

Nelson Campos. ©2011. Fábio Mendes

Como foi o inicio com a fotografia?

Eu comecei na fotografia como hobby. Tinha 16 ou 17 anos. Meu tio era fotógrafo no Mirante, era um lambe-lambe. Chamava-se Sebastião. Fazia umas fotinhas que revelava dentro da máquina caixão. Igual tem em Pirapora, ele fazia aqui no Mirante. Desde criança eu o via trabalhar. Mas na adolescência quem me deu as primeiras dicas foi o Paulo Kawai do Foto Fuji, com quem eu tinha muita amizade. Comprava equipamentos e químicos para revelação com ele. Eu tinha umas câmeras antigas, de filme 127, e comprava revelador e ampliador para revelar as minhas próprias fotos. Apaixonei-me.  A imagem, quando começa a aparecer no revelador, é uma mágica. Cativou-me. Envolvi a minha vida nisso. Descobri o meu caminho. É apaixonante. Eu comprava livros técnicos para me aperfeiçoar, mas percebi que sem uma escola eu não progrediria. Larguei os meus estudos aqui em Piracicaba e fui para São Paulo atrás de conhecimento. Fui trabalhar em uma importadora de equipamento fotográfico e entrei na escola de fotografia do Senac, que hoje transformou-se em faculdade. Isso foi em 1972. Fiz um ano de curso. Vi desde o princípio da fotografia, estúdio, externa, iluminação, revelação colorida… Foi um ano “puxado”. Valeu a pena. Voltei para Piracicaba por causa de uma fatalidade. Eu morava perto do edifício Joelma e quando pegou fogo fiz umas fotos e vim pra Piracicaba. Trouxe as imagens para o jornal Diário de Piracicaba que foram publicadas. Nesse momento convidaram-me para trabalhar no jornal. Fiquei tão traumatizado pelo incêndio que aceitei o convite.

Mulher sendo salva por homens do Corpo de Bombeiros em enchente na Rua do Porto – Piracicaba na década de 80. Foto: Nelson Campos.

Quando entrou para o Diário havia mais fotógrafos na redação?

Tinha o Henrique (Spavieri) que era o antigo “clicherista”. Como não havia mais essa função, pois o novo processo era em offset, ele começou a fotografar também. Trabalhamos juntos por seis meses até que ele foi chamado pra prefeitura e deixou o jornal. Fiquei sozinho. Fotografava os eventos sociais, acidentes de veículos na madrugada. Uma vez fui até de paletó e gravata fotografar um acidente, pois eu estava trabalhando em um evento de grande porte e no meio da festa fui chamado para a ocorrência. São coisas da vida. (risos).

Protesto de estudantes, na praça José Bonifácio, por melhor ensino. Foto: Nelson Campos.

Como era a rotina de trabalho no Diário de Piracicaba. Quem eram os editores e repórteres enquanto ficou por lá.

Entrei no começo do ano de 1973 e o hoje dono de A Tribuna Piracicabana, Evaldo Vicente, era o revisor. O Mário Terra era o colunista social. Cecílo Elias Neto, o proprietário. Tinha o Roberto Cera que fazia uma página chamada recados, que foi um dos idealizadores do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. O Cera fazia novelinhas, iguais vemos em quadrinhos, mas com fotografias. Contava histórias com as fotos. Era gostoso, foi a empresa que trabalhei com mais liberdade e prazer. Acredito que todos os fotógrafos e repórteres que passaram por lá tem a mesma opinião. Não havia ditadura nas editorias. Eu fiz uma matéria, não foi publicada, houve risco de morte. Eu com o falecido Ari Gomes, um excelente repórter, começamos a investigar sumiços de crianças na cidade de Piracicaba em 1981. Chegamos bem próximo da pessoa que sequestrava as crianças. Porém alguém foi falar com o editor, que era o Cecílio, que nos aconselhou a parar, pois algo de ruim poderia acontecer conosco. Foi um desestímulo, sabendo que a nossa vida corria risco de morte. Fazíamos a reportagem por conta própria, mas dessa vez o Cecílio nos obrigou a parar com a investigação.

O cantor Ney Matogrosso durante show em Piracicaba. Foto: Nelson Campos.

E após o Diário?

Eu tive duas fases no Diário. Trabalhei de 1973 até 1975. Depois montei um estúdio, quando o Diário mudou da rua Prudente de Moraes para a rua São José. Por coincidência o meu estúdio era bem em frente ao jornal, na rua São José. Fiquei com o estúdio por três anos quando o Diário me chamou novamente, em 1980. Fiquei até o final do ano de 1981. Jornal é ótimo, excelente, mas você trabalha 24 horas por dia. Você é um eterno jornalista. Quando pensa que está de folga acontece algo na sua frente e não tem como não fazer. A remuneração também é baixa. Por toda a dedicação do jornalista, a remuneração é baixa. Daí, parti para a fotografia publicitária. Abandonei o jornalismo. Se continuasse, trabalharia a vida inteira e não teria nada. Já tinha dois filhos e precisava de mais dinheiro para poder criar bem as crianças.

Teve uma foto que fez de um atropelamento. Como aconteceu?

Essa foto foi feita em 1980 ou 81, não me lembro a data precisa. Saí do Diário, na rua São José, para ir até a Unimep, na rua Boa Morte. Fui caminhando. No abrigo de ônibus, atrás da Igreja Catedral, eu vi que um senhor de idade ia atravessar a rua. Atravessou sem olhar se vinham carros. Vi um carro que não conseguiria parar. O instinto me levou a fazer uma sequência de fotos. Fotografei toda a cena, ele sendo atropelado, arremessado, caído no chão cheio de sangue, até as pessoas olharem de perto e chegar o resgate. Imediatamente voltei pro Diário e não fiz a matéria na Unimep. O atropelamento era um acontecimento mais importante. Na vida de um repórter-fotográfico isso acontece de quinhentos fotógrafos para um. Revelei as fotos, falei com o Mário Evangelista, que era repórter do jornal nessa época, e ele já foi buscar as informações na polícia para escrever a matéria. Pronta a matéria, fomos publicá-la quando o editor-chefe, Luiz Tomazi, que trabalhava na Folha de S. Paulo e veio para o Diário, viu as fotos e disse: “Não, isso não pode ser publicado”. Questionei e ele me disse que era muito chocante. Permitiu que saísse apenas uma fotografia com a notícia. Escolhemos a foto e publicamos. No outro dia publicamos outra foto e acompanhávamos o estado de saúde do atropelado, que estava muito mal. No terceiro dia publicamos outra e no quarto dia ele veio a falecer. Conseguimos publicar quatro fotos, mas uma em cada dia. Dessa forma, o editor disse que não chocaria as pessoas. Alguns dias depois, houve o atentado contra o papa, João Paulo 2º, que levou um tiro. O editor, que proibiu de publicar a sequencia fotográfica do atropelamento, me pediu para fotografar o atentado na televisão, que era o recurso que tínhamos na época. Esperei aparecer na TV e fiz as fotos. Revelei o filme e entreguei uma fotografia para o editor. Então ele me perguntou sobre as outras fotografias. Perguntei a ele, por que ele queria as outras fotografias? Ele me disse que queria todas as fotografias. Encerrei dizendo que ele iria publicar apenas uma, pois o atropelamento foi chocante, mas o tiro que deram no Papa foi muito mais chocante. Se ele morresse, no outro dia ele publicaria outra foto e, se não morresse, também publicaria. Igual o atropelamento. Daí houve uma grande discussão, nos desentendemos, mas não foi por isso que saí do Diário, a briga, e sim o desestímulo em ter um trabalho que jamais iria acontecer novamente, ter sido cortado. Pedi demissão e fui fazer fotografia publicitária, que é o que mais gosto de fazer. Mas no jornal tem histórias que faz a gente dar boas risadas. Chegava de uma matéria, revelava o filme, mas demorava a secar e não tinha tempo para esperar. Eu tinha uma técnica. Passava o filme no álcool, erguia-o com as mãos, botava fogo embaixo ele subia e quando chegava à outra ponta em cima, balançava, apagava e estava seco. Já ampliava a foto, o importante era a agilidade a rapidez e não a qualidade. Tomazi trouxe um fotógrafo da Folha, Toninho, um senhor de idade avançada, e ele me viu fazendo isso. Na Folha ele era simplesmente fotógrafo, não precisava revelar, lá tinha o laboratorista. Aqui não, ele tinha que revelar. Um dia ele chegou ao jornal depois de fotografar um jogo do XV de Piracicaba, era umas 22h ou 23h, e precisava revelar a foto para sair no dia seguinte. Passou álcool no filme só que o segurou esticado. Aquilo virou um torresmo. Perdeu todo o serviço. O jornal ficou sem foto do XV. (risos)

Retrato do rei Roberto Carlos. Foto: Nelson Campos.

E então você saiu novamente do jornal. Montou outro estúdio?

Sim. Montei o único estúdio na época que tinha gerador e cabeça de flash. O Christiano Diehl virou meu sócio. Ficamos dois anos e meio juntos. Fazíamos publicidade, embora tivéssemos e temos ainda um grande problema com jornais. Ficamos 25 anos sem ter uma agência publicitária em Piracicaba. O jornal vendia o espaço, dava a arte e a fotografia, fazia tudo. Como é que uma agência iria cobrar se o jornal dava de graça? Limeira tinha agência, Rio Claro, Americana, todos os lugares tinham. Já Piracicaba não havia condições de uma agência sobreviver. A publicidade aqui tinha espaço quando era folder, catálogo, mas era pouco serviço. Teve uma agência que ficou um bom tempo, mas pereceu por pouco serviço. No estúdio procurávamos fazer books, pôsteres e uma série de coisas para sobreviver, e esperava as fotos publicitárias que aos poucos foram chegando.

Cartão natalino. Foto: Nelson Campos.

Assim era o mercado na década de 80?

Para a fotografia industrial era excelente. Hoje pega um menino, vai numas dessas casas que vendem computador em trinta prestações, uma câmera de R$ 2 mil reais – a câmera e o flash são automáticos – no computador faz “alguma coisinha”, envia para o laboratório que corrige o que continua errado e faz a sua fotografia. Julga-se um fotógrafo, não que não seja, pois está exercendo a profissão, mas não tem o conhecimento necessário. Não sabe o que acontece quando aperta o botão, por que aquela luz, por que não. Eu comecei no digital em 1998. A primeira câmera que comprei, tenho a nota fiscal, em Nova Iorque, paguei 3.900 dólares. Tinha 1.75 megapixels. Foi a primeira câmera profissional que trocava objetiva. Eu estudei toda a transição do analógico para o digital. A partir de 2000 comecei a trabalhar com fotografia digital, desisti do analógico. Mas antes dessa mudança, ganhava-se muito dinheiro, o fotógrafo tinha que ser fotógrafo. Tinha que ter o seu laboratório, pois um não revelava para o outro fotógrafo. Tinha que saber o que fazia. Na publicidade usávamos cromo ou slides, como alguns chamam. Eram grandes, 6×6, 6×9 e não permite erro. Só o fotógrafo conseguia. Ninguém se atrevia a fazer. Nessa época fotógrafo ganhava muito dinheiro. Com as indústrias era só cromo que dava para fazer em impressão colorida na gráfica. Não havia outra opção.

Foi difícil se adaptar a outra tecnologia?

Não. Comecei a usar o Photoshop em 1997. Fiz cursos com profissionais americanos, como Dean Collins, um dos melhores fotógrafos do mundo, exclusivo da Hasselblad, Kodak e General Motors. Então fui estudando. Acompanhava e pesquisava bastante. Quando eu abri a minha lojinha para fazer foto documental, que a minha esposa “toca”, eu escrevi na parede, foto digital. Muita gente passava inclusive fotógrafos e riam de mim. Eles falavam: “Ah, é foto digital, vou aí e coloco o dedo?”. Ouvi muito isso (risos). Não tinham noção do que era, mesmo sendo fotógrafo. Eu estava adiantado, quando ainda pensavam em adquirir câmeras analógicas, já tinha vendido as minhas. O futuro era digital.

O fotógrafo posa ao lado da atriz Pepita Rodrigues. Arquivo pessoal.

Trabalhou com fotografia social?

Sim. Em 1983, quando eu saí do Diário, montamos um estúdio, o Henrique Spavieri e eu. Chamava Spavieri Studio e fazíamos muito social. Todo final de semana tinha casamento, aniversário de 15 anos e tal. Só que chega um momento, eu não vi os meus filhos crescerem, quando percebi já estavam grandes, queria os finais de semana para mim. Hoje, tenho um espaço em casa, onde recebo meus amigos, fotógrafos, gosto de receber pessoas e para isso não posso ficar pegando casamentos. Se o casamento é no sábado, tenho que ficar concentrado na sexta-feira, nada de comer comida diferente, bebidas, pois existe o risco de passar mal no dia seguinte. Uma concentração de 48 horas. Isso não dá mais para mim.

Um momento marcante na profissão.

Foi o atropelamento que já citei. A inauguração do autódromo de Jacarepaguá, em 1978, quando o Emerson Fittipaldi ficou em segundo lugar. A única vez que foi ao pódio ali. Alguns acidentes de carro, na época do jornal. As imagens ficam na mente. Algumas não são boas. Lembro da história do fotógrafo (Kevin Carter), que fez uma imagem de uma criança fraca com um corvo ao fundo esperando ela morrer. Logo depois ele se suicidou em função disso. São imagens que ficam e mexem com a gente. Tem pessoas que falam que acostuma. Mas não é bem assim, nos machuca.

Você ganhou um prêmio internacional. Qual foi o tema?

O tema foi natureza. Ganhei o prêmio em Washington sem imaginar essa possibilidade. Aqui em Piracicaba teve uma mostra que depois virou um concurso com o título “O Verde de Piracicaba”. Participei e não que tinha feito a melhor fotografia, mas jurei para mim que jamais participaria de qualquer concurso fotográfico no Brasil. O que aconteceu foi inexplicável. Um cara que não era fotógrafo pegou uma câmera e foi até o mercado. Ele fotografou um pé de alface com um preço absurdo, caro, extremamente caro. Ganhou o concurso. O verde de Piracicaba, um pé de alface, R$ 10 reais. Havia fotos maravilhosas. Nunca mais eu participaria de concurso. Aí recebi um e-mail com esse concurso nos EUA. Mandei uma foto completamente despretensiosa. A flor de uma árvore que tem muito por aqui, principalmente na Rua do Porto, onde eu fotografei. Essa flor nasce em cima da árvore. Só que nos EUA não existe essa árvore. Ficaram curiosos. Começaram a enviar várias perguntas e fui respondendo. Tive que buscar informações na Esalq para o que eu não sabia, como o nome científico da árvore e fui abastecendo as dúvidas deles. Acredito que o prêmio não tenha sido pela qualidade visual e sim pela raridade da flor. Fiz a imagem com uma tele de 500 mm. Só que infelizmente não recebi o prêmio, que era 5.000 dólares. Para eu ir pra lá, ficava em 7.000 dólares, pois tinha que ficar uma semana em um hotel e participar de convenções. Eu tenho um filho, que na época morava em Chicago, fica perto de Washington, e ele se prontificou em buscar para mim. Mas a organização não autorizou, pois tinha que fazer matérias e entrevistas comigo. Disseram que o “pessoal” da National Geographic gostariam de me conhecer. Então deixei pra lá. Não compensava.

Foto premiada em concurso internacional. Foto: Nelson Campos.

Pra você, que é um visionário, qual o próximo passo da fotografia?

Estou estudando e não sei se a minha cabeça acompanha, mas o próximo passo é o 3D. Eliminará 80% da fotografia. Por exemplo, se alguém pede uma fotografia de um carro, a fábrica tem o desenho dele em 3D. Com isso em mãos é só jogar em um software específico, colorir o carro e ambientar. Qualquer objeto que você tenha o desenho em 3D, dá para por textura, cor e tudo mais. Depois de pronta acha que é uma fotografia do objeto, mas é tudo virtual. Esse é a próxima etapa da fotografia digital. Os grandes estúdios já trabalham assim, mas acho que eu não vou conseguir. É muita informação. Eu participo do Photoshop Conference, o maior evento de Photoshop da América Latina. Vou lá e fico nas primeiras duas horas do dia, pois começa às 9h e vai até as 19h, param só uma hora pro almoço, e consigo assimilar. Depois não dá mais. São “baldes” de informações. Photoshop é um instrumento ilimitado. Eu duvido que alguém acompanhe todo o evento e consiga assimilar tudo. Você vê o Alexandre Keese, um dos maiores operadores de Photoshop, falando duas horas, é impressionante o que ele conhece. Faz assim, faz assim, faz assim, pronto, está feito! Coisas que demoro 40 minutos para fazer, ele faz em dois minutos. Vou aprimorando, mas chego a um ponto que a minha cabeça não assimila.

Algum projeto?

Estou com um projeto de fotografar a Patagônia. Tive convites para ir a Machu Picchu, tenho um convite para fotografar todo o interior do Brasil. Mas são muitos dias fora. Não tenho condição financeira de ficar sem trabalhar por 20 dias. No convite não pago nada, mas não posso me ausentar por tanto tempo. Eu quero ir para a Patagônia. Fui convidado por duas vezes. Estou me preparando, logo vou. Eu vendo muitas fotografias que faço em hora de lazer, principalmente para decoração. Painéis de três, quatro, cinco metros. Nos finais de semana levanto bem cedo, pego a minha câmera, chamo minha esposa e vamos entrando pro meio do mato. Uma vez peguei uma estrada de terra em Charqueada-SP e fui sair no Anhembi-SP. Nesse passeio vendi quatro fotografias. Das cachoeiras de Brotas-SP tenho bastante foto. Hoje não desço mais nas cachoeiras. Descer até desço, mas subir não dá mais (risos).

Quais são as suas referências na fotografia?

Na publicidade tenho como espelho, que infelizmente já faleceu, Dean Collins. Fiz um curso com ele, foi maravilhoso. Aprendi muito. Guardo os livros e apostilas até hoje. O curso chamava Sobre a anatomia de um estúdio, muito bom. Tem um fotógrafo de Piracicaba, que é muito bom, mas pula muito de ramo, que é o Tadeu Fessel. Admiro o Christiano Diehl. Agora, ímpar se chama Pauléo. Embora tenha começado a fotografar bem depois de mim, entrou no jornal como entregador. Você pode chamar 30 fotógrafos e pedir para fazer uma foto específica. Os 30 fazem. Se for o Pauléo ele tira uma fotografia e diz: “Está aí a foto” e resolve. Gosto muito dele. Gosto e admiro. Ele não fez curso e nada, mas tem uma visão diferente.

Trabalho publicitário. Fotos: Nelson Campos.

O que a fotografia representa em sua vida?

Representou o meu sustento e de toda a minha família. Tudo o que conquistei em minha vida foi por conta da fotografia. Não tive outro emprego. Mas a fotografia representa para mim a perpetuação de uma imagem. Agora virou moda pegar uma fotografia antiga de Piracicaba e decorar ambientes. Mas se não tivesse esse registro, não saberíamos como foi o passado. A fotografia é história. Tem que preservar a imagem, mesmo que esteja fora de foco ou tremida, preserve. Não tem outra definição, fotografia é a história. Antes, por conta da fotografia que era cara, temos poucas imagens do passado. Agora com o digital não temos mais nenhuma. Todo mundo tem uma câmera digital. Tiram 500 fotografias. Mas ele não sabe que ali na câmera ele tem um cartão de memória 1, 2 ou 3 gigabytes e quer tirar 2.000 fotografias nesse espaço. Para isso reduzem a resolução, fotografa, “põe” no computador e acha linda. Vá imprimir. Não existe condição! Isso quando não apagam a foto por falta de espaço no computador. A fotografia digital, enquanto virtual, para se perder é a coisa mais fácil do mundo. Pega um CD, riscou, não lê mais e perde tudo. Eu acredito que vamos ficar uns 15 anos sem história. Eu sei de profissionais que guardam arquivos e outros que depois de dois anos jogam as imagens fora. Gravar em um DVD e deixá-lo quieto de cinco até sete anos ele suporta. Depois desse tempo, faça outra cópia para não perder as fotos. Esse pessoal amador que tira um monte de fotos e guardam em HD, entra um vírus tem que formatar e tchau tudo. Vai ter muita família que não vai ter foto do filho crescendo. Tirou 500 fotos? Escolhe 30 e revele. O papel dura 100 anos.

Site do Nelson Campos aqui.


Edição do texto: Rodrigo Alves

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