Jorge

Jorge

Olá caros. Hoje trago uma entrevista muito rica em fatos históricos de Piracicaba, e claro, de fotografia. Entrevisto o fotógrafo Altino Jorge Vieira, conhecido apenas por Jorge. Um piracicabano simples, nascido em 23/06/1940. Atuou ativamente nas reportagens fotográficas em nossa cidade nas décadas de 70 e 80. Depois também se transformou num grande lojista. Tive o prazer em ser seu funcionário por alguns anos. A conversa foi muito boa. Confira!


Quando começou a trabalhar com a fotografia?

Eu comecei a fotografar  com a família Bischof, eram os mais antigos fotógrafos de Piracicaba. Isso mais ou menos em 1957. Naquele tempo, antes de fotografar tinha que trabalhar em laboratório, aprender a revelar filmes, tudo em branco e preto. A  (loja) Bischof era a que mais revelava filmes em Piracicaba, uma média na época de 50 a 60 revelações por dia. Foi então que comecei a aprender a fotografar com aquelas ‘maquininhas’ antigas da Kodak,  fotografava times de futebol de bairros. Depois começou a vir aniversários de crianças e festas populares. Entre 1959 e 1960, comecei a adquirir máquinas melhores e fotografar eventos maiores, como casamentos e aniversários de quinze anos.

Nessa época, havia meia dúzia de fotógrafos conhecidos em Piracicaba. Tinha o Idálio Filetti, Cícero, Capreci, Lacôrte, na Vila Rezende tinha o Mário.  Mas voltando para o trabalho, o que eu gostava mesmo era de reportagem, trabalhei de free lance para o Diário de Piracicaba e Jornal de Piracicaba, as melhores fotos eu levava para os jornais que publicavam. Também fotografei muitos shows e os carnavais de Piracicaba que eram famosos, teve um ano que o cantor Fábio Júnior desfilou na Escola de Samba Zoom Zoom.

Outra lembrança, foi quando o cantor Roberto Carlos começou a ficar famoso, tinha no máximo quatro músicas de sucesso, e veio na cidade para um grande show no Cine Palácio, fui eu quem o fotografou. Já nos anos 70, além de trabalhar com os Bischof, abri minha loja, mas só estúdio e 3×4. Tinha dia que fazia mais de cem fotos 3×4. Fotografava e entregava depois de dois dias.

Quem eram os Bischof?

O pai dos Bischof, que não conheci, era alemão e veio para Piracicaba a mais de cem anos.Casou-se com uma Piracicabana e tiveram três filhos e três filhas. Dois dos filhos, que eram solteiros, Rodolfo e José Adolfo Bischof abriram a loja de fotografia na cidade. O Rodolfo teve uma doença grave e faleceu a mais de vinte anos e o José Adolfo faleceu em 2002. Apesar de eu ter minha própria loja, me mantive com eles, pois praticamente me criaram. Com o Adolfo fiquei até o último minuto de sua morte e tenho hoje na cidade uns bens que ele me deixou de herança, devo muito a família Bischof. A loja Bischof ficou minha a partir dos anos 80. Nos anos 90 fiz uma sociedade com um grupo de São Paulo e Ribeirão Preto e a loja passou a se chamar Zoom Bischof, no qual eu tinha 50%. Em 2004, desfizemos a sociedade. Hoje ainda tem a “Foto do Jorge”, na rua XV de Novembro, que passei para meus filhos. Perante a lei já sou aposentado, mas continuo fotografando.

Casa Bischof na Rua Governador Pedro de Toledo. Década de 80. Foto: Jorge.

Como era o seu trabalho no laboratório?

Durante dois anos, só revelava filmes e ampliava foto branco e preto do povão de Piracicaba. Fotos particulares. Ficava muito tempo dentro do laboratório, no começo sozinho, depois tive ajudante, ficava ali das cinco às onze horas da manhã. Uma coisa muito boa que aprendi com os Bischof era a se alimentar bem antes de entrar no laboratório, tomar bastante leite, dois litros por jornada de trabalho, pois os químicos tinham substâncias muito fortes. Muitos fotógrafos adoeceram por causa dos químicos, alguns até desenvolveram câncer e faleceram. Graças a Deus, com o conselho que recebi, nunca tive nenhuma doença grave. Também havia muito respeito em não mostrar aquilo que se revelava. Existia ética, pois muitas fotos não podiam ser vistas por ninguém. O trabalho no laboratório cresceu muito, tivemos vários auxiliares que depois se tornaram fotógrafos.

Quem foram esses auxiliares?

O meu amigo Celita, que já faleceu, começou comigo e depois trabalhou com o Lacôrte, foi uma grande amizade até o último dia de sua vida. Tem mais, mas não me recordo bem os nomes. Muita gente vinha para aprender, trabalhava por um tempo e depois iam se ‘virar’ sozinhos. No Zoom Bischof, o Cláudio (Franchi) trabalhou com nós, hoje ele está muito bem né! O Fábio (Mendes) também trabalhou na  Zoom. É muita gente; difícil guardar o nome de todos.

Conte mais sobre o show em Piracicaba em que fotografou o cantor Roberto Carlos.

Depois da apresentação do Cine Palácio, o Roberto Carlos voltou em outra grande festa, numa feira de agro-comercial em Piracicaba, no bairro da Paulista. Também o fotografei, por intermédio do jornalista Peter, pescando, quando ele comprou um rancho em Piracicaba. A Hebe Camargo fez show na praça e fotografei-a. Todas essas fotos eu tinha no meu grande acervo e a chuva acabou com tudo.

Como foi essa tragédia de perder seu acervo fotográfico?

Foi no ano de 1982 ou 83, deu uma grande chuva, foi uma das maiores enchentes do Rio Piracicaba, bem maior que deste ano de 2010. Eu tinha uma loja na Rua Benjamin Constant, 1123, e tinha o meu acervo lá. O prédio era velho e estourou uma calha. Com isso inundou a sala onde havia uma prateleira com várias caixas de sapatos, onde estavam guardados os negativos e fotos. Tinham fotos da inauguração do Barão de Serra Negra, Pelé, grandes políticos que compareceram em Piracicaba, como o Jânio Quadros e o Médici. Inclusive eu tenho uma foto do Médici, foi a única vez que a Rua Moraes Barros inverteu a mão. Em vez de subir, o Médici desceu a Moraes Barros. Tenho essa foto até hoje. Mas enfim, voltando ao acervo, chorei por várias horas quando vi os negativos todos grudados por causa da água, perdia ali uma história de mais de vinte anos.

Comitiva do presidente Médici 'desce' a Rua Moraes Barros. Foto: Jorge.

Você estava na cidade quando o prédio Comurba desmoronou?

No dia 6 de novembro de 1964, a data do desmoronamento, eu trabalhava com o Bischof. Era uma tarde e às vezes saíamos para descansar na porta da loja, para ver o povo passar e bater um papo. Por coincidência, mais ou menos entre 14h00 e 14h30, no momento que estávamos ali na porta escutamos um estrondo, da Rua Governador Pedro de Toledo, deu para ver bem uma enorme quantidade de poeira – pois não havia muitos prédios em Piracicaba – bem no meio da Praça José Bonifácio. Ficou cerca de uma hora aquela poeira no ar. Muita gente, na maior curiosidade correu até a praça para ver o que tinha acontecido, eu fui  junto. Voltei para a loja, peguei uma câmera e fiz fotos no local do acidente. Não dava para chegar muito perto de tanta poeira. De repente começou a aparecer polícia, bombeiro, a cidade não tinha a estrutura de hoje, veio o Corpo de Bombeiros de Campinas para ajudar. Fiz uma foto, que foi publicada no Estadão (jornal O Estado de S. Paulo) depois de dez dias.

Quem publicou sua foto no jornal O Estado de S. Paulo?

Foi o jornalista Rocha Netto. Ele gostava muito de esporte e enviava matérias sobre o assunto para os jornais, a maioria para a Gazeta Esportiva. Também tinha contato com o Estado e outras publicações. Sempre que precisava de fotos, eu e o fotógrafo Cícero cedíamos a ele. Um dia me procurou e perguntou se tinha alguma foto do Comurba. Como eu fotografei, entreguei a ele e depois de alguns dias saiu publicado no Estadão. Guardo a publicação como lembrança até hoje.

Além dessa, cedi mais de cem fotos para o Rocha Netto, que foram publicadas no grande livro que ele fez sobre a história do XV de Piracicaba. Inclusive tenho o livro guardado.

Foto do prédio Comurba após desmoronamento. Publicado no Jornal Estado de S. Paulo. Foto: Jorge.

Na década de 1970, havia em Piracicaba, uma associação de fotógrafos que você participava. Como funcionou e quem fez parte desse grupo?

Teve sim, na década de setenta, uma associação de fotógrafos, procurei o livro, a ata, para mostrar a você, mas não encontrei. Começou em 1971. Fizemos a Associação dos Fotógrafos Profissionais de Piracicaba que funcionou muito bem por alguns anos. Era presidente o Idálio Filetti, fui o 1° secretário e a maioria dos fotógrafos faziam parte. O objetivo era preservar o respeito entre os fotógrafos e para haver divisão, para cada um ter seu espaço. Quando tinha grandes formaturas na cidade, não era como hoje onde têm várias equipes, vinham fotógrafos de fora. Mas com a associação nos reuníamos e fotografávamos esses grandes eventos. Por um tempo funcionou, mas depois começou a haver deslealdade e concorrência dentro do grupo e acabou que paramos com a associação. Fui o último presidente. Durou uns dez ou quinze anos. Foi muito bacana.

Mas antes dessa associação, a primeira equipe de fotógrafos para registrar os grandes eventos de Piracicaba foi o Cícero que criou. Os fotógrafos eram:  Cícero, Paulo Lacôrte, eu e o Celita. Fotografamos o maior baile de debutantes que teve na cidade, no Clube Coronel Barbosa. Era a ‘nata’ da sociedade. Para se ter uma idéia o paraninfo foi um dos homens mais ricos de Piracicaba, Dovilio Ometto, que trouxe a grande orquestra de Oscar Milani. Cada um dos fotógrafos ficou responsável por uma área do grande evento. Fiquei fotografando o apresentador, um artista da Rede Globo, que não recordo o nome, com as debutantes e com qualquer moça que quisesse fotografar com ele. Naquela noite registrei mais de 300 fotos só dele com as meninas e as mulheres do evento.

Você e o Cícero foram grandes amigos?

Sim, fomos. O Cícero me ajudou muito no início de minha carreira como fotógrafo. Os carnavais de rua éramos nós dois que fotografávamos. Os outros fotógrafos não faziam essa loucura. Ficar a noite inteira com três, quatro máquinas penduradas para não ficar trocando de filmes e aqueles flashes pesados da época eram cansativos demais. Hoje com a facilidade do digital ficou muito mais fácil. Você tira mil fotografias brincando.

Rainha do Carnaval de Piracicaba em 1980. Foto: Jorge.

Conte sobre a coleção de câmera fotográfica que possui.

Comecei a colecionar por causa das câmeras antigas dos Bischof. Apaixonei-me por elas. Comecei a receber muitas doações de câmeras por conta da evolução dos filmes. Conforme trocavam os formatos dos negativos, as pessoas trocavam as câmeras. Essas doações vinham de famílias antigas, que eram clientes da loja. Reuni mais de cem câmeras. Já expus no SESC e em Águas de São Pedro, a pedido do prefeito. A intenção é fazer uma exposição fixa dessas câmeras em minha loja. Só falta elaborar o espaço.

Qual a câmera mais antiga da coleção?

Tenho uma jóia rara, a Kodak nº 3. Não me lembro de quem ganhei essa câmera. Por conta de uma reportagem, um funcionário da Kodak me ligou e perguntou se eu a venderia. Na época não aceitei a proposta e não houve mais procura.

O que representa a fotografia em sua vida?

É duro de explicar. Fiquei muito popular, principalmente quando estava na ativa. Nessa época o fotógrafo era muito bem tratado. Em casamento era reservado o melhor lugar para eu sentar. Tratamento VIP. Fiz grandes amizades, até hoje as pessoas que fotografei visitam-me em minha loja. Essas amizades é o que mais a fotografia representa na minha vida.

O que não fotografou, mas pretende fotografar?

É difícil o que não fotografei.  Para se ter uma idéia, até defunto em velório eu fotografei. É uma cultura nordestina fazer o último retrato no caixão. Fiz muitas vezes. A única coisa que não fotografei foi parto. Não tive coragem nem dos meus filhos. Não nasci para ser médico.


Edição de texto: Fabiano da Rocha.


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15 pensamentos sobre “Jorge

  1. Fabiano disse:

    Ficou muito bom. Fotos muito legais.
    Valeu Fabio.

  2. Angela disse:

    Olá Fábio

    Gostei muito dessa entrevista e da história dele.
    Parabéns pelo blog, os posts são diferentes e interessantes.
    Abraços.
    Angela

  3. Luana disse:

    Que gostoso é conhecer um pouquinho da história de alguém que fez parte do contexto fotográfico de Piracicaba, entrelaçando história da fotografia e da cidade ao mesmo tempo. E que traz consigo um pouco da história do meu ‘local’ de trabalho.

    Pra mim, isso só faz eu me envolver mais com o que acontece nesse meio, que estou aprendendo cada vez mais e com muito mais a aprender.

    E também com a história da cidade, embora esteja ‘a pouco’ tempo aqui, Piracicaba já se tornou uma cidade muito querida.

    Por essas e outras histórias e pelo mundo fotográfico ‘piracicabano’ compartilhado aqui, pelo processo de busca, te dou os parabéns mais uma vez (pro Rober também), estou adorando.

    Só falta o vídeo agora né…

    Rober: cadê?

    rsrssrs….

    beijão Fá ;)

    Lua.

  4. Luana disse:

    Cadê o vídeo?

  5. elaine disse:

    gostaria de saber se vc tem fotos da rainha e rei momo do carnaval de 1982 de pira

  6. Gosto particularmente da forma como compartilha os momentos do passado. Ter a oportunidade de ver as cenas e ‘viver’ um pouco sobre como as coisas funcionavam antigamente é realmente único. Parabéns!

  7. Wladir Santos disse:

    Excelente a entrevista, e os fatos relatados compõem, por si sós, um período glorioso da história de Piracicaba, que os fotógrafos conseguiram congelar no tempo. Tirei várias fotos nesse estúdio

  8. […] e passeios. Fiquei com está máquina até 1991 quando comprei uma Minolta SRT com o fotógrafo Jorge. Ele tinha uma casa de fotografia na r. Benjamin Constant. Porém a recomendação do Chico era uma […]

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