Pauléo

Pauléo

Olá!

Conhece o Pauléo? Claro que conhece. Está quase que diariamente nas páginas do Jornal de Piracicaba. Não ele, mas sim o seu trabalho, o seu olhar, as suas fotos.  Talvez, também, caso more em Piracicaba, já viu um homem magro, alto e de barba, com uma câmera fotográfica em punho em algum canto da cidade. Foi assim que vi o Pauléo pela primeira vez, lá na escola Dr. Prudente, no bairro dos Alemães.  Eu devia estar na 4ª ou 5ª série quando todos os alunos foram chamados para ir ao pátio, festejar alguma data cívica. Durante as comemorações, me chama a atenção aquele “cara” alto andando de um lado para o outro com uma câmera na mão. Como um insight, viajo no tempo – para o futuro – e me vejo trabalhando com o Pauléo em formaturas ou ajudando o nosso “paizão” Henrique Spavieri em eventos pela cidade. Pena que não tive a oportunidade de trabalhar junto com esse excelente fotojornalista na redação do Jornal de Piracicaba. Minha passagem por lá foi breve e ao mesmo tempo em que o Pauléo fazia parte da equipe de fotógrafos do jornal O Liberal, da cidade de Americana.  Considero o Pauléo um ícone da fotografia piracicabana. Todo esse talento e história que esse fotógrafo traz em sua bagagem, Pauléo mantém uma postura simples em relação ao seu trabalho e ao mundo, difícil de encontrar numa sociedade tão sedenta por sucesso e fama em apenas 5 minutos de trabalho. Trago para vocês uma pequena parte de uma grande obra. Pauléo é Paulo Alcides Tibério, nascido em 13/04/1956. Piracicabano.

Como foi o início com a fotografia?

Comecei no Jornal de Piracicaba, fui registrado em 1972. Eu era reserva de entregador de jornal. Quando faltava alguém do setor eu cobria. Depois fui intercalador e auxiliar de distribuição na oficina. Após cinco anos, comecei a trabalhar no laboratório de fotografia convidado pelo Henrique Spavieri. Ensinou-me a revelar fotos e filmes e a fotografar. Ele não tinha muito tempo para ensinar, pois era o único fotógrafo do jornal na época e havia muito serviço. Assim que o Spavieri chegava da rua eu perguntava a ele qual a função dos botões da câmera e do flash. Explicava-me que um era para abertura, o outro para a velocidade, e assim fui aprendendo.

Comecei a fotografar em um sábado. O Spavieri foi visitar a mãe, que morava em Porto Feliz. Eu estava sozinho no jornal, revelando as fotos dele. Daí aconteceu um acidente em uma rodovia e o Geraldo Nunes, “grande” Geraldo, que era o editor da redação na época, foi procurar o Spavieri no laboratório e não o encontrou, pois já havia terminado o expediente dele. Vendo a situação me dispus a tentar fazer a foto e ele me disse: “Pega o carro e faz. Vamos ver no que vai dar.” Coloquei um filme na câmera, peguei o carro e fiz as fotos. Ficou tudo beleza, certinho e saiu na capa do jornal, só que naquele tempo não saía crédito nas fotos. Na segunda-feira o Spavieri chegou no jornal e perguntou quem tinha feito a foto. Eu disse que tinha sido eu e então ele mandou o jornal comprar mais uma máquina e um flash, pois começaria a ajudá-lo a fotografar.  Foi assim que comecei, já estávamos no final de 1979 ou começo de 1980, não me lembro bem. Eu fazia as fotos mais simples, que era fotografar buracos, reclamação de mato alto, mendigos dormindo, às vezes eles ficavam bravos e saiam correndo atrás de mim.

Protesto do Movmento dos Sem Teto. © Pauléo.

Você não teve nenhum contato com a fotografia antes do jornal?

Sempre gostei de fotografia. Tinha uma maquininha “xereta” com filme de 110 mm. Na escola, quando eu estava no meu 2° ano do ginásio, todas as festas eu fotografava. Sempre gostei de fotografia, quando apareceu essa chance, agarrei o máximo que pude. Era o que eu queria para mim.

Como era o processo da impressão das fotos do jornal na época em que começou a fotografar?

Naquele tempo fazia clichê. Hoje não tem mais nem fotolito, vai tudo direto para a chapa. Naquele tempo não. Fazia o fotolito e depois o clichê, que era uma folha de zinco e a foto vinha gravado nela. Depois ia para a impressão. Eram pontos grandes, não como hoje que é tudo ponto fino. Tinha que olhar a foto de longe para ficar bonito, olhava de perto e só via pontos.

Além da tecnologia, quais as diferenças do fotojornalismo de hoje em comparação com a década de 80?

Hoje é brincadeira. Naquele tempo você colocava um filme na máquina, não podia ficar gastando, tinha que economizar. Custava caro o filme preto e branco. Então, com esse filme, eu tinha que fazer cinco ou seis pautas. Chegava ao local da matéria e não ficava “tacando” o dedo na máquina e queimando foto. Eu olhava, via bem o que ia fazer. Tinha que entregar quatro ou cinco fotos de uma matéria, bem feita. Hoje produz duzentas fotos de uma matéria para escolher duas. Também ficou muito mais fácil, pois vê o que está produzindo. Antes tinha que contar com a sorte, pois se alguém fechasse o olho tinha perdido a foto.

Após fotografar os jogos do XV de Piracicaba à noite, você deixava os filmes revelando e ia jantar. Tinha que “puxar” os filmes. Não existiam filmes de 1600 ASA como tem hoje. Trabalhávamos com filme 400 ASA e puxávamos para 1600 ASA. Depois de um tempo apareceu um revelador novo, HC-110, esse era “violento”. Dois minutos revelava um filme puxado. Se passasse do tempo “estourava”, só que os pontos ficavam enormes. Ampliavam as fotos e apareciam os pontões, a foto ficava bem puxada. Mas saía. Quando terminava o jogo tarde, e a foto tinha que sair no jornal do dia seguinte, eu secava o filme na calça, bem na altura do joelho.

Defesa de Zetti. © Pauléo.

Conte sobre o seu trabalho como técnico de laboratório. Quando foi o início?

Eu trabalho na faculdade Unisal de Americana, faço a parte de estúdio e revelação em preto e branco. Dou assistência aos alunos que fazem foto publicitária e a revelar pxb. Comecei a convite do coordenador do curso, Paulo Tomazello. O funcionário anterior saiu e fui convidado para preencher a vaga. Já faz cinco anos que estou lá.

Dentro de tantos assuntos do fotojornalismo, o que você prefere fotografar?

No fotojornalismo tem que gostar de tudo, entendeu? Mas prefiro fotografar gente, movimentos sociais, como ocupação dos Sem Terra. Gosto dos excluídos, de quem sofre.

MST. © Pauléo.

Monalisa. © Pauléo.

Já fotografou alguma ocupação do Movimento dos Sem Terra?

Já fiz várias fotos de ocupação. Acompanhei um grupo que foi ocupar uma área até serem assentados. Foi em Americana, numa área que era só plantação de cana de açúcar. Esse terreno era do INCRA e conseguiram o direito da terra. Hoje eles plantam e colhem, está uma coisa bonita de se ver.

Fotografou algum conflito de fazendeiros com o MST?

Com fazendeiros não, mas com a polícia sim. Teve uma reintegração de posse e houve o conflito. Eu estava lá, fotografando.

E a foto do Chico Mendes, como foi?

O Chico Mendes veio até o CENA, fazer uma palestra, em uma semana de meio ambiente. Ele contou sobre as plantações de seringueiras que ele tinha no Acre e o problema com os fazendeiros que queriam acabar com essa plantação. Queriam acabar com o único meio de sobrevivência dele. E eu tive a oportunidade de fotografá-lo e foi à última foto dele, pois quando ele voltou para o Acre, foi assassinado. Ele sabia que iria morrer. A fotografia que fiz do Chico tinha um policial militar fazendo a segurança dele. Ele olha para o policial de ‘rabo do olho’, com desconfiança. Até da polícia ele desconfiava. Lembro-me que ele falou que sabia que não viveria por muito tempo, pois sofria muitas ameaças de morte. Não iriam segurar a barra dele.

Chico Mendes. © Pauléo.

Uma história marcante como fotógrafo?

Foi uma invasão de uma área verde, aqui em Piracicaba, e que hoje é um bairro. Não me lembro o nome do lugar, fica perto do bairro do Tatuapé. Foi uma invasão grande, um monte de gente construindo barracos e cheguei com a repórter, Cristiane Sanches, ela era novinha, estava começando. Comecei a fotografar e veio uma senhora com um nenezinho no colo todo sujo, o rostinho, a roupa, devia ter duas semanas de vida, bem novinho. E aquela senhora chegou até mim e disse: “Moço, a mãe dessa criança perguntou se você quer ficar com ela, pois não tem condição de criar e o nenê vai morrer”. Isso marcou muito, tanto para mim quanto para a Cristiane Sanches. A gente chorou, com a cena.

O pequeno músico e o seu cãozinho. © Pauléo.

Quais são suas referências na fotografia?

Eu aprendi com o Spavieri, gosto muito dele. Gosto do Sebastião Salgado, Pedro Martinelli e Jorge Araújo da Folha de S. Paulo.

 

Algum projeto?

Gostaria de fazer um livro de fotografia. Já está tudo separado, só falta o patrocínio.

Algum tema específico?

Chamará ‘Cenas do Cotidiano’, são meus trabalhos como fotojornalista.

Tiro. © Pauléo.

O que não fotografou?

O Papa. Gostaria de fotografar o Papa e não fotografei. Já fiz fotos de presidente, jogadores e políticos famosos. Mas o Papa ainda não.

Coletiva do presidente Lula. © Pauléo.

Você ficou quanto tempo trabalhando fora de Piracicaba. Como foi ficar longe da sua cidade?

Eu saí em 2000 para trabalhar no jornal ‘O Liberal’, de Americana. Fiquei nove anos lá. O Dr. Marcelo (Batuíra) me chamou e retornei, porque aqui é minha casa, adoro esse jornal.

Céu de Americana. © Pauléo.

O que a fotografia representa para a sua vida?

Fotografia pra mim é tudo. Não viveria sem uma máquina fotográfica. Poder parar o tempo num click é tudo, essa foto vai ficar para sempre. Parar o tempo num olhar.

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18 pensamentos sobre “Pauléo

  1. Fabiano disse:

    Muito bom Fabio. Pauléo é uma grande personalidade. Valeu tê-lo publicado.

  2. Rodrigo Alves disse:

    Cara, que Monalisa é essa? Impressionante esta foto (e as demais também). Já tinha ouvido falar por cima a história do Chico Mendes, mas foi muito legal ler aqui, com depoimentos do próprio Pauléo. Parabéns pelo projeto das entrevistas. Tô divulgando este post no Face para a galera! Abraço e um 2011 excelente!

  3. Acertou na mosca Fabião !!!

    Conheço o Pauléo há pouco tempo, bem menos que a maioria dos fotógrafos da cidade, mas tenho a impressão de conhecê-lo há décadas. Um cara de uma simplicidade de dar inveja e um talento extraordinário. Cada vez que o encontro nas pautas é um imenso prazer e alegria. Hoje o que posso dizer que sou honrado de te-lo conhecido. Obrigado por publicar Fabião !

  4. cristiane sanches disse:

    Alguns dos momentos mais importantes da minha carreira jornalística vivi ao lado deste, que para mim é um verdadeiro “poeta” da fotografia. Me emocionou a lembrança sobre o bebê que quiseram nos “doar” durante a invasão da área verde. Pauléo te um talento imensurável e uma simplicidade desconcertante. Que orgulho ser sua amiga e sua colega!!

  5. Impressionante cara. Verdadeiras obras de arte.
    Parabéns pela iniciativa de divulgar o melhor do trabalho fotográfico de nossa região.

  6. Daniele Ricci disse:

    Fabio,

    tive o privilégio e a honra de trabalhar com esse ser humano dos melhores. Pauléo acompanhou toda a minha vida, a de minha família, desde que eu tinha 17 anos e fui trabalhar no querido JP. Um equipe maravilhosa.
    Aliás, meu primeiro trabalho naquela redação (logo depois de formada), minha contratação, teve tudo a ver com ele. Era um teste, sobre o incômodo que um canteiro de obras de um supermercado estaria causando na estrada dos Marins, no Jupiá. Eu e Pauléo descobrimos que o canteiro estava ocupando uma área institucional, destinada pelo condomínio Colinas de Piracicaba, onde deveria existir uma escola (hoje, é a Hilda Jenny).
    Manchetamos (1ª manchete de uma foca fresca.. rs) e consegui o emprego, concorrendo com um repórter mais experiente e formado pela USP, que ainda era uma formação expressiva na época.

    Pauléo é um amigo e uma pessoa maravilhosa. Como a Cris (que tb é uma pessoa das melhores), tenho orgulho de tê-lo na minha vida.

  7. Sabrina Franzol disse:

    Fantástica a iniciativa de entrevistar o Pauléo, que faz fotos extraordinárias. Adorei conhece-lo um pouco mais no seu blog, Fábio. Parabéns! Um abraço.

  8. Katy Fabruzzi disse:

    Gostaria do contato do Pauléo e notícias do pessoal. Fui repórter do JP em 1987, obrigada.

  9. Parabéns pelo blog, muito bom!
    Quero especialmente agradecer o acesso à foto de Chico Mendes, de Pauléo, e informar que a inseri na postagem mais recente de meu blog A Foto Histórica (e suas histórias) no Brasil.
    É a que melhor conta a história dos que lutam pela terra no Brasil.
    Grato,
    abs,
    Aguinaldo Ramos

    • Fábio Mendes disse:

      Olá, Aguinaldo.

      Essa é a principal finalidade da fotografia. Recortar um momento do tempo e localizá-lo como uma lembrança ou pesquisa. Espero que a foto do Chico Mendes, feita pelo fotógrafo piracicabano Pauléo, caminhe muito mais e possa transformar-se em objeto de pesquisa. E claro, que a imagem desse líder seringueiro fixe na história de luta pelo bom uso da nossa terra contra os latifundiários que a consomem para enriquecimento próprio.

      Muito legal o seu trabalho com o blog.

      Só uma correção: o Chico Mendes está em Piracicaba e não Sorocaba como inseriu na legenda.

      Inté.

  10. Tem toda razão, Fábio.
    E que esta foto e estas histórias ajudem nesta luta, embora doa ver, agora mesmo, um novo Chico Mendes “nascendo”, mais um ativista descaradamente morto!
    Grato pelos comentários, vou passar para o blog.
    E perdão pelo engano.
    O problema não é das cidades, é da idade…
    Abs,
    Aguinaldo Ramos

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