Roberto Ascari

Roberto Ascari. © 2012. Fábio Mendes.

O linense Roberto Ascari completará em setembro, no dia três, 62 anos de vida. Mesmo que as profecias Maias estejam corretas, ele terá a chance de – literalmente – apagar as velas do bolo. Como o fim do mundo foi prometido para dezembro, tenho tempo de mostrar para vocês um pouco da história deste fotógrafo e grande amigo, que me colocou no mundo da fotografia. Roberto tem 44 anos de profissão como fotógrafo e lojista, exatamente nesta ordem. Nascido, criado e formado profissionalmente na cidade de Lins, região centro-oeste do estado de São Paulo, a fotografia trouxe Roberto para Piracicaba. Ficou encantado pela cidade e decidiu transformá-la em lar. Trouxe sua mulher, a Dalva e aqui criou e educou seus dois filhos, o Guilherme e a Vivian. Está em “Pira” há 31 anos e já foi adotado pelo Lugar Onde o Peixe Para, é um piracicabano. Conheci o Roberto quando fui contratado para trabalhar na loja de fotografias, Zoom Bischof. A loja possuía laboratório para revelação e impressão de fotos para alta produção no tamanho 10×15 cm, que são as fotos “normais de 1 hora”, como os clientes pediam. A minha irmã Leila já trabalhava no Zoom e me indicou para o Roberto que era o gerente, e na confiança fui contratado. Foram doze anos da minha vida com a família Ascari. Com eles cresci, passei da adolescência para fase adulta, tiveram muita paciência com as minhas determinações e atitudes imaturas, mas aproveitei cada espaço físico e intelectual que puderam me oferecer. Todas estas decisões, posturas e crenças que pratico diariamente, são reflexos das inter-relações que me constituem como homem. Na minha pele e alma habita um pedaço do meu pai, mãe, irmãos, amigos, desafetos e da família Ascari – mais com o Roberto e Guilherme com quem o contato foi diário. Sou grato pela porta que me abriram e continuo traçando o caminho indicado.

Boa leitura!

Como foi o início com a fotografia?

Iniciei em 1968 numa empresa que se chamava Foto Euclydes, em Lins. Meu pai era amigo de um dos donos e então fui convidado a trabalhar ali. Comecei como auxiliar de “tudo”. Primeiro no laboratório lavando e fixando fotografias. Depois de dois, três meses aprendi a fotografar. Nesta época fotografava muito bailes de debutantes. Nestes bailes eu era treinado não para fotografar, mas para trocar filmes das câmeras. Eram Rolleiflex com filmes de 12 poses. Cinco fotógrafos e cinco pessoas para trocar os filmes das máquinas. Assim eu observava como fotografavam. Depois de seis meses comecei fotografar minha família e meus amigos para treinar. Até que chegou o momento de fotografar profissionalmente. Foi uma festa junina, em uma chácara, dos funcionários do hospital Santa Casa. Esta festa marcou para mim. Depois de “certa” hora, o pessoal já havia bebido bastante e o sanfoneiro da festa, usava uma perna de pau que sumiu. Foram encontra-la na fogueira e quase virou carvão. (risos). Esse foi o início, depois comecei a fotografar bailes de debutantes, outros eventos e fui crescendo junto com a empresa.

Um ano depois a empresa começou a fazer um trabalho que se chamava Salão da Criança (o trabalho era escolher uma cidade e a empresa enviava vinte fotógrafos e vinte vendedores. Primeiro o vendedor passava de porta em porta oferecendo fotos das crianças da casa, se houvesse, e no outro dia o fotógrafo realizava a sessão), então começamos a fotografar em outras cidades. Foi quando conheci Piracicaba, em 1969. A cidade marcou para mim, fiquei com ela na cabeça, tinha até bonde. Ficamos hospedados no Hotel Brasil, na rua Boa Morte onde o bonde passava em frente ao hotel. Havia o rio, a Agronomia (Esalq) e vários outros lugares bonitos que ficaram guardados em minha mente.

Roberto na CIA Fotográfica Euclydes em Lins, anos 60. Foto: Arquivo pessoal.

Em 1975 eu saí do Foto Euclydes. Neste ano a empresa possuía 400 funcionários e tinha laboratório colorido. Fui para São Paulo trabalhar na Procolor, no departamento que cuidava das grandes ampliações. Lá fazíamos painéis com emenda de cinco por dez metros. Era uma sala enorme e para segurar o papel na parede havia uma bomba de sucção que o prendia.  Fiquei dois anos no laboratório. Por problemas de saúde – eu que já estava casado – a minha mulher Dalva deu a luz a gêmeos, mas nasceram prematuros. Então o médico nos aconselhou a não ficar em São Paulo devido ao clima que não seria bom às crianças que estavam debilitadas. Então recebi um convite para trabalhar em um laboratório da Curti no Rio de Janeiro e não aceitei pela distância e as condições financeiras também não agradaram. A Procolor me fez uma proposta para trabalhar no interior do Estado. Voltei para Lins. O trabalho seria coletar serviços de fotografias na região. Eu coletava de Lins a Bauru e de Lins a Três Lagoas. Um dia eu ia até Bauru passando pelas cidades da região e no outro o mesmo serviço só que na região de Três Lagoas. No final do dia eu depositava os serviços no correio que iriam para o laboratório de São Paulo e retirava os que já estavam prontos. Fiquei dois anos e meio nesta rotina até que recebi um convite para trabalhar na CIA Fotográfica Irmão Hirano em Tupã. Eles não tinham loja, somente laboratório e equipe para fotografar formaturas. Durante uma conversa um dos proprietários da Hirano me perguntou se caso ele abrisse uma loja em Lins, eu iria trabalhar para eles lá. Disse que sim, pois estaria em casa. Fiquei um ano e meio nesta loja quando ele me chamou novamente com nova proposta. Disse que expandiriam o negócio* e me ofereceu a escolher trabalhar em, Ribeirão Preto, Bauru, Araraquara, Piracicaba, Sorocaba ou Campinas. Escolhi Piracicaba. Em 1981 cheguei aqui.

*A Hirano criou a rede Jetcolor com várias lojas de fotografias espalhadas pelo Brasil.


Lins foi uma cidade de muitos fotógrafos?

Sim, foi por causa do Foto Euclides. Como eu disse a empresa teve 400 funcionários e chegou a ter dois aviões. A Hirano também tinha dois aviões. A concorrência era esta, Lins com o Foto Euclides e Tupã com a Hirano. Só que a Euclides foi a pioneira, como consumia muito químico a Kodak dava muita assistência disponibilizando cursos mensais para nós funcionários. Fiz vários cursos, foi uma escola trabalhar no Euclides. A loja tinha doze “ampliadoristas” em doze cabines e cada um fazia de 2 mil a 2,5 mil fotos diariamente no tamanho 24×30 cm. O projeto Salão da Criança cobria o Estado de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Mais de cem fotógrafos trabalhavam para a empresa. Eu fui o sétimo funcionário da Euclides e depois de sete anos havia 400. A ascensão foi rápida, só que infelizmente eles entraram num trabalho em fazer toda a identificação do Brasil. O Registro de Identidade seria produzido dentro de uma área da Polícia Federal com a finalidade de termos uma identidade única no país. O Foto Euclides ganhou a concorrência. O governo exigiu da empresa que todos os laboratórios fossem construídos em áreas reservadas nos prédios da Polícia Federal. O início foi no Rio de Janeiro. Gastaram milhões para construir os locais que seriam instalados os laboratórios e equipamentos. Quando começou a produção o governo “estancou”, decidiu que não faria mais desta forma. Foi assim que quebrou o Foto Euclides, pois focaram muito tempo e dinheiro neste projeto e outros que deixaram para trás não conseguiram mais recuperar. Os proprietários eram o Eudorides e Antonio Aguiar.

Foto Euclydes, anos 60. Na parede, foto dos veículos da empresa. Foto: Arquivo pessoal.


Como era ser fotógrafo nos anos 70 e que equipamento usava?

Sempre fotografei nesta época com negativo 6×6 e Rolleiflex. Foi difícil comparado com a tecnologia de hoje. Era tudo no cálculo. O diafragma era aberto e fechado a cada nova distância. Mas era muito boa esta época. O fotógrafo nos anos 70 era muito respeitado, muito querido, tinha evento que você se sentia mais importante que a pessoa que te contratava. Nos bailes de debutantes, nós fotógrafos todos jovens, às vezes criávamos problemas com os outros rapazes da cidade em que estávamos trabalhando. As meninas ficavam todas ouriçadas com a gente, sabe como é, moço de outra cidade de smoking, a empresa era organizada. (risos) Hoje é diferente, “poluiu” a profissão.

Baile de debutante em Pirassununga, anos 70. Roberto posa ao lado da estrela da festa, o ator Flávio Galvão. Foto: Arquivo pessoal.

Baile de debutante em Mococa-SP, anos 70. Em destaque o grupo musical Os 3 do Rio e Roberto com a sua calça branca. Foto: Arquivo pessoal.


E como foi fotografar em Piracicaba na década de 80?

Tive muitos problemas com os fotógrafos daqui. Vim para gerenciar a loja e tinha metas a cumprir. A empresa quando se instalou em Piracicaba queria agregar todo o segmento da fotografia, além das revelações fazer coberturas de eventos sociais. Então montei uma equipe e contratei um relações públicas, mas a maioria dos fotógrafos contratados vinham de Tupã. Praticamente todos os funcionários da empresa fotografavam e eu tinha que chamá-los. A empresa se transformou em concorrente dos fotógrafos daqui e eu fui o “culpado”. Eu dizia para alguns fotógrafos que não adiantavam ficarem bravos comigo, apenas cumpria ordens. Um dos primeiros fotógrafos que quebrou esta estranheza foi o finado Celita. Eu gostava de futebol e um dia fui jogar no clube Ítalo e o Celita estava lá. Aproximamos-nos e na conversa contei a ele sobre a minha dificuldade com os fotógrafos daqui por eu ter que contratar os serviços de Tupã. Foi a primeira pessoa que entendeu o meu problema. Ele até me confessou que fazia uma imagem diferente de mim. Eu tinha uma meta de fazer reportagem fotográfica de dez casamentos por sábado ou até mais, já fiz até vinte casamentos num sábado pela empresa e a prioridade era trazer os nossos funcionários para fotografar. Além disso, eu tinha que gerenciar os outros setores da loja que era de médio porte, havia 18 funcionários. Mas no início fiquei com uma imagem negativa perante os fotógrafos. Fui administrando até que em 1986 a Jetcolor começou a passar por problemas financeiros, cresceram muito rápido e não se organizaram adequadamente. Já tinham perdido um mercado muito bom que eram as formaturas. Deixaram de lado e deram atenção só para as lojas. Surgiu então o grupo da Iguatemi da cidade de Marília, que comprou a rede Jetcolor. Acontece que a Iguatemi não trabalhava com funcionários homens, só com mulheres. Era assim em todos os setores, só o dono da rede que era homem. Começou a transição e depois de seis meses eu saí. Tínhamos duas lojas na rua Governador Pedro de Toledo.

Roberto se prepara para as fotos aéreas da cidade de Lins e região. Foto: Arquivo pessoal.


Ficou desempregado?

Recebi um convite para trabalhar em Santo André. Eu teria que gerenciar um mini shopping que tinha quatro lojas de fotografia. Fui mas senti que os meus filhos, Guilherme e Viviam, sentiriam dificuldades naquela realidade. Um dia, por acaso, reencontrei o Carlos Simon, um lojista de São Paulo que já havia conhecido e me perguntou o que eu estava fazendo ali. Expliquei o que havia acontecido e então ele me disse que eu não ficaria naquele lugar. Havia montado uma loja em Ribeirão Preto e queria me levar para lá. Durante a negociação ele me perguntou como era o mercado em Piracicaba. Comentei que não havia na cidade loja de revelação em 1 hora. Então ele me propôs montar uma loja em Piracicaba, o que para mim seria melhor. Mandou-me encontrar um endereço para montar a loja. Procurando me encontrei com o fotógrafo Jorge, que tinha loja na rua Governador Pedro de Toledo mas sem laboratório. Todo o serviço que ele captava enviava a São Paulo. Só que a população da cidade já cobrava um serviço mais rápido. Campinas já revelava em 1 hora, por que Piracicaba não? Também uma loja da Outsubo estava instalada na cidade e revelava com o prazo de um dia. Por conta destas dificuldades o Jorge aceitou a parceria, ele entrou com a loja e o Simon com os equipamentos que revelavam em 1 hora. Foi assim que nasceu o Zoom Bischof, em 1991. Trabalhávamos com público amador e profissional. Ficamos na rua Governador até o ano de 2000 quando foi vendido o ponto comercial.  Reabrimos a loja em outro ponto na rua Moraes Barros.

Entre este tempo em que o Zoom esteve na rua Governador,  eu com o Simon, adquirimos a loja Spavieri. Nesta época o Jorge não estava mais na sociedade, na separação ele ficou com outra loja que tínhamos na rua XV de Novembro.


Voltando para o Jetcolor, este local foi o celeiro de vários fotógrafos da cidade. Quem passou por ali?

Pelo Jetcolor passaram o Antonio Prezotto, o Luizinho que estudava engenharia na Unimep e fazia uns “bicos” com a gente. Cláudio Franchi, Élcio Fabretti, Marcelo Germano, Bolly Vieira, Maria que tem loja em Charqueada, Arlete que casou e se mudou para São Paulo, todos aprenderam a fotografar ali. Tem mais gente que me escapa da memória. Ah, tem o Milton Maiolo. De funcionários foram estes, eu acho, mas de free-lance foi muito mais. O Antonio Prezotto foi o primeiro, ele entrou na Jetcolor para trabalhar de relações públicas. Foi o Prezotto que trouxe o Bolly e o Élcio para a loja.

Tinha muito casamento, às vezes cinco, seis na Igreja Matriz da Vila Rezende, eu cuidava da cerimônia religiosa enquanto outros fotógrafos iam para a festa e Esalq.

Em frente ao Clube Ítalo, hoje Societá Italiana, encontro de fotógrafos. A partir do fundo da esq. para a dir.: Nicolau, Nélio Ferraz de Arruda (ex-prefeito de Piracicaba), Idálio Filetti, Cícero, Pauléo e Mário Penatti. Fued e Celita. William Zerbetto, Kenji Kawai, Davi Negri, Jorge, Mário Corvina, Turin e Nogueira. Décio Fonseca, Diógenes Banzatto, Bolly Vieira, Roberto Ascari e Marcos Muzzi. Anos 80. Foto: Arquivo pessoal.


Sei que é uma conversa velha e até chata, mas para você que além de fotógrafo é lojista como foi sentir na pele a transição do analógico para o digital? Qual a sua percepção depois de tamanha transformação?

O digital foi uma surpresa para muita gente. Até a Fuji e Kodak não esperavam que a transição fosse rápida como foi. Veja a situação destas empresas hoje. Mas agora se percebe as vantagens do digital. Abriu um mercado para qualquer pessoa fotografar. Você consegue comprar um equipamento fotográfico com vários recursos a baixos preços. Com três mil reais dá para comprar uma ótima câmera. Para quem presta serviço está ótimo, já para quem revela piorou. As fotos hoje ficam armazenadas em mídias e de 10 mil fotos feitas, enviam 10 para serem reveladas. O lance da foto é a curiosidade e no digital vê a foto quase no mesmo instante que fotografou. Na época do analógico abria a loja na segunda-feira formavam-se filas de pessoas para deixar seu filme para revelar e tinham pressa de ver as fotos. O auge aqui em Piracicaba foi no Jetcolor quando captamos 600 rolos de filmes em apenas um dia. O digital sacia a curiosidade e a revelação fica para depois, isso quando revela. Grandes empresas e fotógrafos tradicionais sumiram.


Conte um momento no Zoom Bischof?

No tempo do Bischof tinha a Leila Mendes, que era uma excelente profissional uma laboratorista de primeira linha. Outros bons funcionários foram a Ana Mendes, que continua com a gente, a Sandra Novaes, Vivian Nazato e o Fábio Mendes.  Um belo dia o Fábio veio e pediu a conta. Estranhei e perguntei o motivo. Ele disse que seria goleiro. Fiquei quieto e de repente chega a Leila e me pede, pelo amor de Deus para não dar a conta para ele. Fui lá, tentei convencê-lo, mas não teve jeito, saiu para ser goleiro. A mãe dele foi conversar comigo para eu não deixá-lo sair só que eu não podia fazer nada, não podia segurá-lo. Daí foi o Fábio embora treinar e eu conhecia o treinador dele, que era o Dimas. Perguntei a ele sobre o goleiro e ele me disse que era muito cedo para ele. Quando fala que é muito cedo no futebol é que não vai dar em nada. “Fábio volta trabalhar!” Aí o Fábio voltou. (risos)

Cumprimento ao candidato a Deputado Federal, Lula, em frente ao Zoom Bischof, na rua Governador Pedro de Toledo. Foto: Arquivo pessoal.


Algum momento marcante como fotógrafo?

Tive vários. Fotografei o advogado Roberto Abreu Sodré, Paulo Maluf, Clodovil, Gal Costa, a maioria fazendo free-lance para o jornal de Lins. Tenho várias histórias de casamentos, noivas que ficavam das 17h até, às 20h, dentro do carro e nada do noivo aparecer. Presenciei arranjo de flores na igreja caírem em cima de noivo e vários outros fatos engraçados. São momentos engraçados e tristes, como no caso dos noivos que não aparecem, que já presenciei. O gostoso é que tem casamento que fotografei em 1986 que não me lembrava mais e me param na rua para me cumprimentar pelas fotografias que fiz em seu casamento. Já aconteceu de me procurarem para fotografar o aniversário de 15 anos de filhos de casais que fotografei o casamento.

Triste foi uma vez que foram colocar o bolo na mesa e ele caiu todo no chão. Daí a noiva chorava porque não haveria a famosa foto com os padrinhos perto do bolo. Teve um dia que eu tinha dois casamentos, um deles era de um amigo. Como os horários do evento eram o mesmo enquanto eu fotografava um, enviei outro fotógrafo para o casamento do meu amigo. Quando encerrei o que eu estava fazendo fui fotografar a festa do meu amigo, que já estava no final. Só que parecia um velório. Este meu amigo havia tido um filho com outra mulher e esta o avisou que se ele se casasse com outra mulher estragaria seu casamento.  Como a situação era sigilosa, ele se cercou de segurança por todo o lado. Mas no meio da cerimônia acredito que o segurança bobeou e ela entrou. Quando o padre perguntou se havia algum impedimento ela gritou, tem sim e ergueu o menino dizendo, “olha o filhe desse…”.

Outro caso também foi na Igreja Nossa Senhora Aparecida. O padre era um japonês que morava com sua irmã. Um dia fui lá fotografar um casamento e costumava chegar meia hora antes da cerimônia. Desci do carro e a irmã do padre já me chamou dizendo que iria dar problema o casamento. Perguntei o motivo e ela disse que apareceu uma mulher nervosa dizendo que quem iria se casar era o seu namorado.  Logo chegou o noivo, um crioulo alto, e a irmã do padre foi logo o avisando. Ele ficou preocupado e quando os convidados estavam chegando apareceu a suposta namorada com uma faca enorme. O noivo correu para os fundos da igreja e entrou numa sala e a mulher com a faca procurando ele. De repente chegou uma amiga desta mulher com uma barra de ferro. Queriam pegar o noivo de qualquer jeito. Aquilo se transformou em uma confusão até que chegou a polícia. O problema é que nem os policiais conseguiam pegar as mulheres de tão alteradas que estavam, diziam que só sairiam dali depois de matar o noivo. Com o tempo conseguiram acalmá-las e convenceram-nas a irem embora. Mas depois durante a cerimônia o noivo olhava mais para trás nas portas da igreja do que para o padre, com medo que a mulher voltasse para pegá-lo. (risos)

E teve outro casamento muito engraçado. Na igreja da matriz da Vila Rezende era um casamento atrás do outro. Eu tinha três casamentos neste dia. Fotografei um, esperei o próximo, fotografei mais um, esperei novamente e fotografaria o último casamento que era às 21h30. Em um dos intervalos, fui ao bar que tem na esquina da igreja para tomar uma água. Comprei a água e vi um grupo de rapazes bebendo e no meio notei um rapaz moreno vestido inteiro de branco. Terminei a água e voltei para a igreja esperar a hora do meu casamento. Chegou o momento a noiva apareceu e cadê o noivo? Espera, espera, espera e o padre Jorge ficava nervoso, ele foi lá fora e fez a noiva entrar até o altar. Alguém o descobriu no bar, era o de roupa branca que eu tinha visto e disse que iria buscá-lo. Daí entra o cidadão pelo corredor da igreja chorando com as mãos no rosto. Em vez de a noiva entrar chorando, como era costume, foi o noivo que entrou. Ele chorou a cerimônia inteira que nem uma criança. Todos na igreja davam risada de ver a situação do noivo, até o padre Jorge dava risada. (risos)


Durante uma conversa que tive com o fotógrafo Cláudio Franchi, ele disse que tinha saudades do encontro dos fotógrafos nas segundas-feiras em frente à loja Zoom Bischof. Ali todos contavam suas vitórias, derrotas e momentos cômicos dos trabalhos do final de semana. A fotografia te deu muitas amizades com outros fotógrafos?

Mais ou menos. Eu era concorrente deles, mas evitava. Se algum cliente dissesse que já tinha cotado o trabalho de fulano eu nem entrava na concorrência pelo serviço. Só que eu tinha que fotografar também, pois o que eu ganhava não era suficiente para bancar os estudos dos meus filhos. Havia fotógrafos que não se importavam, mas outros ficavam com um pé atrás comigo. Conversava dava tapinhas nas costas, mas depois falava mal, não aceitava a situação. O grupo que se reunia era bom, tirando alguns que se achavam melhores que os outros.


Tem um fotógrafo na cidade que se chama Altamiro. Lembro-me que ele ficava parado em frente a Zoom Bischof quase o dia todo. Tentei conversar com ele algumas vezes, mas não obtive sucesso. Você conhece a história deste fotógrafo?

O Altamiro morava no bairro Vila Sônia. Um dia ele arrumou uma câmera Olympus Trip e começou a fotografar as famílias do seu bairro e levava para revelar na loja. Só que ele era alcoólatra e também sofreu um acidente, me parece que foi uma explosão que não sei maiores detalhes. Por conta disso ficou com dificuldades para conversar. Pouca gente entendia o que ele falava. Eu era uma das pessoas que dava atenção a ele e entendia um pouco do que ele dizia. Acredito que por isso ele ficava ali e até gostava. Tinha dia que chegava pela manhã e ia embora quase ao final do expediente. O problema é que ele voltou a beber e começou a incomodar os clientes. Enquanto ficava na dele eu não me importava só que fui obrigado a afastá-lo dali pelo transtorno que ele se transformou para os clientes. De vez em quando eu o vejo andando pela cidade. Parece que até hoje ele faz as fotos no seu bairro e no bairro Parque Orlando. Igual o trabalho que o Altamiro realizava, havia o Renê Mesquita, o “Nézinho do Jegue”, este fazia foto para ver em binóculo de crianças, sentada num carneirinho pintado de vermelho e amarelo. Tem uma história triste dele. Ele foi para São Paulo passar um fim de ano e resolveu levar o seu carneirinho para fazer um “bico” por lá. Foi quando o carneiro sumiu e ele descobriu que mataram e comeram o seu bichinho. Ele chorava porque mataram o seu carneirinho, era o seu ganha-pão. Ficou tão decepcionado que largou a fotografia. (risos)

Quantos fotógrafos como estes que eu ajudei. Vários não tinham dinheiro para comprar o filme. Eu entregava o filme na confiança a eles fotografavam, recebiam e depois me pagavam corretamente. Tiveram alguns que ajudei e levei prejuízo, mas faz parte do negócio, como costumam falar.


Quais foram as suas referências na sua profissão?

Quando eu comecei a fotografar as minhas referências se chamavam Euclydes Bredariol e Santos Garcia dois fotógrafos competentes da Foto Euclides, os dois são de Lins. Não erravam foco, nem abertura, me espelhei neles.  Aqui em Piracicaba eu gostava muito do trabalho do Henrique Spavieri e Christiano Diehl. Como eu revelava olhei o trabalho de muitos fotógrafos gostava de ver. Até hoje gosto de olhar. Tem amador que tem uma capacidade de fotografar impressionante. No fotojornalismo não tem ninguém igual ao Pauléo. Cada um se especializa em uma área. O Christiano, por exemplo, em fotografia aérea não tem igual. No casamento tem o Cláudio Franchi e o Filipe Paes que se dedicaram a este segmento. São fotógrafos que não pararam no tempo, estão sempre se atualizando.


São quarenta e três anos de fotografia, quais os planos na profissão agora?

Planos? Já deixei tudo para o meu filho, Guilherme. Daqui pra frente quero só ficar maneiro. Já me aposentei.


O que a fotografia representa em sua vida?

Representou tudo, pois é por conta dela que tenho o que possuo. E representa ainda hoje, pois continuo sobrevivendo dela. Posso não estar tão empenhado hoje, mas continuo lendo e acompanhando as novidades da área. Se precisar também fotografo com digital, não tenho nenhuma dificuldade. Mexo no computador, trabalho as fotos no photoshop. Gosto muito deste trabalho.

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22 pensamentos sobre “Roberto Ascari

  1. clau disse:

    FÁBIO…GOSTEI MUITO DA ENTREVISTA…O ROBERTO TBM FOTOGRAFOU MEU CASAMENTO,MAIS NÃO FOI NENHUM DESSES QUE ELE CONTOU,NÃO!!!!!RSRSRS
    PARABÉNS….BJOOOO

  2. Wesley Alisson disse:

    Muito bom a matéria, parabéns Fábio a história do Roberto êh muito rica, adorei, sempre vejo suas matérias e de muito bom gosto, :)

    • Fábio Mendes disse:

      Ô Wesley, quanto tempo hein?

      A história do Roberto além de rica é longa. Pena que não cabe tudo neste espaço. E bom saber que está de olho em meus trabalhos e melhor ainda receber seus elogios.

      No mais um grande abraço e inté!

  3. Sandra Novaes disse:

    Adorei a entrevista Roberto! A “Zoom Bischof” FAZ parte da minha vida! Obrigada pela oportunidade de ter trabalhado por 15 anos com vocês!
    Abraços.
    Sandra Novaes

  4. Elcio Fabretti disse:

    Nossa cara show de bola como sempre né Fabio, putz me fez voltar no tempo que delicia, relembrar de tantas pessoas queridas, algumas ja não estão mais conosco, só fazendo uma correção a Arlete foi pra Uberlandia, ah e faltou eu ali naquela foto,rsrsrs qta gente boa.Abçs.

    • Fábio Mendes disse:

      Obrigado Elcio! Percebi durante as entrevistas que já realizei com alguns fotógrafos, que esteve sempre presente com esta patota. Precisa compartilhar estas histórias com a gente. Que acha?

      Obrigado pela correção.

      Abração e inté!

  5. Anônimo disse:

    adorei a entrevista, o Roberto deu meu primeiro emprego com 15anos sou muito grata a ele, conheço todo esse pessoal ,hoje ainda trabalho com ele.abrigada por tudo. Abraços Eliana Zerimar

  6. leila mendes brambilla disse:

    Nossa voltei no tempo, que saudades…
    Gosto muito do Roberto sempre um amigo, muito bom comigo me ajudou muito. 12 anos de zoom bischof.
    Parabéns Fabio, a entrevista tá show..
    Ps( Ainda bem que vc não foi goleiro, rsrs caso contrário não teríamos essas recordações e entrevistas legais, e nem suas fotografias maravilhosas vc é um ótimo profissional)bjs….

  7. Marcelo germano disse:

    Parabéns Roberto Ascari vc faz parte da minha vida profissional vc que Me ensinou os primeiros Click admiro e agradeço muito ótima entrevista. Fabio

  8. Guilherme Ascari disse:

    Pô Fabio! ficou muito bacana a entrevista, esta de parabéns!!! Realmente é um tunel do tempo com boas recordações, principalmente as da Zoom Bischof na qual tive o privilégio de vivênciar tb, muitas coisas boas, tenho saudades daquela loja. Se para muitas pessoas o Sr Roberto Ascari foi importante, imaginem para mim… só tenha a agradecer a esse homen.
    Abraços.
    Guilherme Ascari.

  9. Paulo Afonso Fernandes de Carvalho disse:

    Roberto, gostei muito da entrevista….já era tempo de alguém reconhecer o valor de seu trabalho e sua competência profissional, além da figura que representa em Piracicaba como profissional da fotografia. Você, também, fotografou meu noivado e casamento, não daquele jeito inusitado que contou alguns… Não conheci nenhum fotógrafo como você. Um execelente profissional, um homem de bem, um excelente pai e chefe de família. Teu pai – Augusto Ascari, certamente está orgulhoso do filho que deixou neste mundo… e seu irmão que trabalha com você também o tem como um homem realizado profissionalmente. Suas irmãs o tem como um homem idependente que nunca quiz depender de ninguém…e por irmã, que é minha esposa, digo que és incomparável, inteligente, competente, e amoroso com todos que ocercam…você é uma pessoa muito querida por aqueles que o conhecem. Tudo de bom Roberto. Do seu cunhado Paulo Afonso

  10. Anônimo disse:

    Só agora consegui ver a entrevista mas adoreiiii
    Parabens Fabio e qto a Zoom Bischof passei 17 anos lá…vcs eram minha segunda familia…vou dificil disvincular da zoom pra ter outro emprego
    Tenho orgulho pois la dei o meu melhor…cuidava da loja e dos clientes como se a loja fosse minha….beijos

  11. cristiane horto disse:

    ola como vai …. gostaria de saber se o sr waldemar soares fez parte da equipe de fotografos a mais ou menos uns 45 anos a atras ? sabe e que ele e meu pai biologico e gostaria muito de entrar em contato com ele , se souber por favor entre em contato comigo , meu cel 44 91391339 ou 44 33421045 , ele era casado com maria de lourdes costa soares , e teve mais duas filhas …. por favor me ajudem …. obrigada …fique COM DEUS

  12. Oi Roberto tudo bem? minha mae trabalhou na foto euclides em lins, gostaria de saber se foi na sua época, o nome dela era Zoraide,aguardo resposta obrigada!!!!

  13. Jose Marcio Pereira disse:

    Li esta entrevista com atenção, e revi este filme em minha memória, pois acompanhei e participei de algumas etapas da vida profissional do Roberto Ascari,…é uma bela história profissional e também pessoal,… sim o Roberto merece a gratidão de muitos, PARABÉNS

  14. Marcel disse:

    Que legal, hoje eu estou ao lado do Euclydes de Aguiar que contribuiu na carreira do Roberto dentro da empresa Foto Euclydes!!!

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