Arquivo da tag: christiano diehl

Essio Pallone Filho

Essio Pallone Filho. © 2012. Fábio Mendes.

Essio Pallone Filho. © 2012. Fábio Mendes.

Há quem diga que a vida começa aos 40 anos. Esta idade para muitos é um marco, pois acreditam que percorreram e chegaram à metade do caminho. Deste ponto em diante é aproveitar ao máximo a vida e ir à busca de sonhos, sejam eles pessoais e/ou profissionais. Filosofia à parte, conhecer a história do fotógrafo Essio Pallone Filho nos faz refletir sobre quando e como começar a conquistar estes objetivos de vida. Pai de três filhas, Fabiana, Renata e Fernanda, Essio resolveu aos 44 anos preencher sua alma. Tornou-se fotógrafo. O caminho não foi e nem continua fácil, mas em 22 anos de profissão, o fotógrafo tem em seu acervo aproximadamente cem mil imagens dos mais variados assuntos. É um assíduo frequentador de mostras e concursos, o que o transforma num vencedor de prêmios e honrarias. Amante de bons casos – contou vários durante a entrevista – agora sua trajetória com a fotografia é que se transforma em uma boa história.

Quando iniciou na fotografia?

Em 1977 eu trabalhava no Banco do Commércio e Indústria de São Paulo S.A. (Comind) e surgiu uma vaga para trabalhar em Piracicaba. No dia 1º de abril de 1977 cheguei à cidade como bancário. Mas antes de começar a fotografar trabalhei também com selos. Existia um nicho no mercado, em que eu montava cartelas com selos para distribuir em banca de revistas. Só que o trabalho não me agradava e então resolvi trabalhar com filmagem e fotografia em 1991. Peguei meu material filatélico, vendi boa parte, mas sobraram alguns que guardo até hoje. Com o dinheiro comprei filmadora e máquina fotográfica e resolvi fazer um curso de fotografia em São Carlos, na Oficina Cultural, um órgão do governo que existe em algumas cidades. O curso foi ministrado por um professor da USP chamado Chico Vecchia e nos tornamos amigos, foi ele que me iniciou na fotografia. Com o vídeo fui autodidata, transferi todo conhecimento da fotografia para esta linguagem.

Como surgiu a sua vontade em fotografar?

Não saberia dizer para você. Em 1975 eu comecei a trabalhar no Comind lá na região de São Carlos e um dia viajei à São Paulo a trabalho e fui a famosa r. 25 de Março, na Galeria Pagé e comprei uma máquina fotográfica.  A marca era Petri, uma câmera de segunda linha, japonesa. Comecei a fotografar minha família, viagens e passeios. Fiquei com está máquina até 1991 quando comprei uma Minolta SRT com o fotógrafo Jorge. Ele tinha uma casa de fotografia na r. Benjamin Constant. Porém a recomendação do Chico era uma Canon FTB. Fui a São Paulo para comprá-la mas o preço elevado me impediu de adquiri-la. Mostrei a Minolta para o Chico e ele me disse que era a “máquina” da Minolta e fiz uma bela compra. A filmadora era uma Panasonic VHS.

E como foi a troca da profissão, bancário por fotógrafo?

Me inseri no mercado. Comecei a fotografar casamentos, aniversários, eventos e por aí foi. Mas a “coisa” estava difícil de engrenar e num determinado momento, em 1994, conheci uma professora do Colégio Luiz de Queiroz (CLQ), Wilma Gorgulho e nos tornamos grandes amigos. Ela me pediu para editar um vídeo de uma visita que o CLQ fez na Indústria Dedini.  Editei e comecei a trabalhar com o colégio. Foram oito anos fotografando e filmando para o CLQ.

Cemitério Nossa Senhora do Carmo. © Essio Pallone Filho

Cemitério Nossa Senhora do Carmo. © Essio Pallone Filho

Por que escolheu Piracicaba, já conhecia a cidade?

Vim à Piracicaba por causa do Banco, estava apreensivo em morar numa cidade nova. Outros costumes, nova sociedade, acreditava que encontraria dificuldades nos relacionamentos sociais. Tiveram duas pessoas muito legais que trabalhavam comigo no Comind, a Rose e o Mario Sbrissa – já falecido – que me receberam muito bem. Me convidavam para passear e fizeram me sentir à vontade por aqui. No banco eu tinha vários contatos com empresários, pois minha função era trabalhar com as empresas, então minha inserção com novas amizades foi tranquila.

Vinte um anos de fotografia, compartilhe algumas histórias.

Vinte um anos, sou jovem na fotografia, acabei de fazer a minha maioridade na profissão.  Quando comecei em 1991, na Oficina Cultural fizemos uma carga horária oficial de 210 horas, o que é bastante.  O tempo foi estendido porque o governo do Estado proporcionou papel, químico e filme. Então o Chico com boa vontade e nós alunos querendo aprender, realizamos perto de 500 horas de atividades. Isso foi um grande passo, pois preparávamos o químico, fotografava, revelávamos e por fim fazíamos as cópias no ampliador. Todo este processo me fez gostar da fotografia. Em Piracicaba montei um laboratório em meu apartamento no banheiro da empregada – que nunca apareceu para trabalhar.  Toda essa manipulação da fotografia analógica me fez gostar do preto e branco. Tenho uma foto premiada em segundo lugar pela cidade de Santa Maria da Serra, de um balão em preto e branco. Mais colorido que balões é difícil de encontrar. Mas o “lance” do prêmio foi o diferencial em utilizar o pxb para registrar o balão. Fotografo colorido, mas o meu foco é o preto e branco. Hoje capturo as imagens no digital e depois as manipulo no Photoshop transformando em pxb, sempre com a característica de fotografia autoral.

Balão no chão. © Essio Pallone Filho

Balão no chão. © Essio Pallone Filho

A primeira saída fotográfica individual que fiz, foi no bairro do Monte Alegre com uma série de fotos da igreja. O dia estava lindo, com nuvens e céu bonito num fim de tarde. Posicionei-me em alguns pontos com a câmera no tripé e fiz várias fotos da construção, realizei um estudo de arquitetura da igreja. Posteriormente estas fotos me levaram a registrar um grande acervo que possuo, cerca de 60 fazendas fotografadas no Estado de São Paulo.  Em 1993 aconteceu no Teatro Municipal Dr. Losso Netto, a primeira Mostra Fotográfica de Piracicaba. Pelo que sei foi a primeira e a última. Na mostra cada fotógrafo poderia enviar cinco fotos. Lembro-me que o primeiro colocado foi o Christiano Diehl, o segundo ficou com o Beto Brusantin e não me lembro do terceiro colocado. Enviei cinco fotos e três foram selecionadas. Fiquei contente, pois estava começando nunca havia participado de nada, não sabia qual era a característica de uma Mostra ou de um Salão. A partir desta mostra transformei a minha personalidade e mudei a minha relação com a fotografia e a cidade. Vale uma ressalva aqui: Piracicaba é uma cidade especial, tem uma conformação geográfica e uma beleza fotogênica rara dentro do Estado de São Paulo.  Mas como as pessoas vivem na cidade não notam essa beleza. Tem morador que passa pelo rio diariamente e não sabe se ele está cheio ou vazio, pois o rio é apenas um componente do seu trajeto. Quem fotografa vê estas coisas, se descer todo dia ao rio fará uma foto diferente.

Capela de São Pedro de Monte Alegre. © Essio Pallone Filho

Capela de São Pedro de Monte Alegre. © Essio Pallone Filho

Aqui em Piracicaba eu tinha mais ligação com os artistas plásticos, a Marilu (Trevisan), Luisa Libardi, (Antonio) Natal (Gonçalves), este pessoal bem conhecido da cidade. O contato com eles influenciou na minha fotografia. A visão do fotógrafo é uma, se ele trabalha com still, fotojornalismo, casamento ou qualquer especialidade ele terá um foco. Eu não tinha intenções, pela minha característica, de me especializar em apenas um produto, transito pela área da fotografia. Se ela é documental, autoral, se tenho que fotografar objetos e documentos, como fiz para um museu, um trabalho meramente burocrático. Mas tem que entender de iluminação para fotografar os documentos, do contrário se transforma em um desastre burocrático.

Você é um fotógrafo premiado, em 1997 conquistou o Mapa Cultural Paulista. Foram várias participações em concursos e mostras?

Depois da participação da mostra em 1993, comecei a enviar minhas fotos para salões de arte. Tenho mais de cem participações entre exposições coletivas, exposições individuais, concursos e mostras. O ano de 1997 foi um marco para mim. Havia o Mapa Cultural Paulista e conheci a Neide Maria Silva, que trabalhava no Teatro Municipal Dr. Losso Netto. Ela me disse: ‘Por que você não participa do Mapa com fotografia e vídeo?’.  Pedi então para me explicar o que era o Mapa. Já havia fotografado formas em árvores para uma exposição no Sesc chamada Clique o Sesc em São Carlos. A proposta era fotografar a unidade do Sesc São Carlos, e lá havia uma árvore – não existe mais – que tinha a forma de um dorso de mulher. O título da foto é Paixão Nacional, contrapondo com um comercial que dizia ser a paixão nacional a cerveja, o que eu acredito que para os homens seja o dorso de mulher e para as mulheres o dorso do homem. Utilizando a mesma ideia reuni cinco imagens e as enviei para o Mapa Cultural representando a cidade de São Carlos com foto e vídeo. O vídeo não passou para a segunda fase regional em Campinas, mas as fotos passaram. A final foi em São Paulo e um dos julgadores do concurso, me pediu para comparecer no dia do evento. Fui e a categoria fotografia foi a penúltima a ser apresentada. Quando anunciaram o terceiro e segundo colocados e meu nome não foi chamado pensei, minha presença era só para fazer pompa. Daí anunciou o primeiro colocado, Essio. A foto vencedora chamei de Pajé. Era a forma de uma máscara que visualizei no toco de uma árvore. A partir deste prêmio e desta série de cinco imagens, passei a fazer uma grande captação desta temática, olhar para uma casca de árvore e encontrar formas. Isto pode parecer fácil, mas tem que ver muitas árvores para encontrar uma imagem. Depois de capturar várias imagens realizei uma exposição que circulou na região de São Carlos com o nome de Esculturas Naturais. Tenho aproximadamente 150 imagens deste tema.

Paixão Nacional. © Essio Pallone Filho

Paixão Nacional. © Essio Pallone Filho

Mas a participação do Mapa não foi por Piracicaba?

Tudo o que fiz de 1991 a 2007 sempre foi por Piracicaba. Todas as participações em São Carlos ou em outras cidades neste período atuei como cidadão piracicabano. Entre os anos de 1998 e 1999 foram realizados eventos de balonismo em Piracicaba e o meu tesão era voar de balão. Quando eu tinha meus 18 e 19 anos fiz curso para ser piloto de avião. Só que infelizmente dois amigos morreram em um acidente aéreo e o meu pai que bancava o curso me disse, avião nunca mais. Mas gosto de voar. Tentei entrar para um grupo de balonismo em Piracicaba, só que os grupos são muito fechados.  Em São Carlos voei três vezes. Tenho uma parceria com a prefeitura em que eles me põem no balão e em troca cedo algumas fotos da cidade para eles. Possuo uma foto de balão, do piloto Feodor (Nenov) aqui de Piracicaba, que representou a Confederação Brasileira de Fotografia, num concurso em Andorra. A foto não foi premiada, mas selecionada junto com mais dez fotografias brasileiras. Estes concursos e mostras me estimulam a aprofundar no conhecimento da fotografia. Mês passado enviei fotos com meu amigo César Trimer para um concurso em Jaú chamado 2° Concurso de Fotografia Fateclique. A foto de César conquistou a segunda colocação e a minha, de uma gatinha fotografada no Engenho Central, conquistou menção honrosa.

Gatinha. © Essio Pallone Filho

Gatinha. © Essio Pallone Filho

Faço um paralelo entre os movimentos culturais de São Carlos e de Piracicaba. E como é ser fotógrafo em São Carlos?

Eu diria que no Estado de São Paulo neste eixo que a gente se encontra, pelas rodovias Bandeirantes, Anhanguera, Washington Luiz, até Ribeirão Preto faz parte de um grupo de cidades economicamente fortes. Boas estradas, ótima infraestrutura e no ramo da fotografia, muito parecidas. O forte são eventos, para ganhar dinheiro. A maioria dos fotógrafos estão neste segmento, depois vêm às formaturas, batizados, aniversários, confraternizações e por aí vai. Se você quiser ser um fotógrafo de still ou autoral é difícil. Em relação aos movimentos fotográficos, São Carlos teve dois fotoclubes fortes. Primeiro foi o Foto Cine Clube Sancarlense, que no ano passado resgatei sua história e realizei uma exposição no Sesc de São Carlos, com o apoio do Chico Galvão, que já foi programador cultural do Sesc Piracicaba. Em 1957 o Foto Cine Clube Sancarlense deixou de existir e então surgiu o Íris Foto Grupo. O Íris tinha um fotógrafo em especial chamado Paulo Pires que encabeçava o grupo. Todos os fotoclubes tem que ter alguém que encabece não para mandar, mas para tomar decisões, falar, conquistar espaços, promover concursos e entender mais de fotografia que os outros membros para dividir este conhecimento. O grupo fez um ótimo trabalho e teve grande influência em São Carlos. Todas as pessoas que gostavam de fotografia passavam pelo crivo do Pires para serem aceitas no grupo. Foi um grupo fechado e pequeno. Realizaram e participaram de concursos, vencendo alguns. O Pires ganhou inúmeros prêmios, até o Kikito conquistou, mas aí teve problemas de saúde e o Íris deixou de existir. Hoje em São Carlos temos um grupo de nove amigos fotógrafos chamado Fotosseio, que é uma brincadeira com as palavras “passeio fotográfico”. Estamos juntos desde 2005 com o único objetivo de fotografar e trocar informações. Há integrantes no grupo que estão passando do filme para o digital. Para algumas pessoas esta transposição foi relativamente fácil, mas para a grande maioria é difícil, principalmente para aquele que quer a fotografia esmerada. Primeiro você tem que descobrir os recursos da máquina digital, que são vários; você vai medir luz sem um fotômetro, pois o fotógrafo de filme usa um fotômetro manual. Ele ia até o assunto e marcava privilegiando as altas luzes ou as baixas luzes, ou uma média das luzes e fazia duas ou três fotos. Já a maioria dos fotógrafos que trabalham com digital fazem quinze fotos do mesmo assunto e depois escolhe a melhor. Eu não sei como isso vai fazer as pessoas aprender a fotografar. A única coisa é que vai fazer um monte de foto e será bom para o fabricante, pois queimará o CCD e terá que comprar outra máquina. As máquinas digitais top de linha têm validade de 150 mil fotos, já as top de linha de filmes, suportavam mais de 300 mil fotos.

Passeio fotográfico - 100 anos de Guião. © Essio Pallone Filho

Passeio fotográfico – 100 anos de Guião. © Essio Pallone Filho

Você tem uma ligação estreita com o Sesc, como surgiu esta parceria?

O primeiro passeio fotográfico do qual participei e fui um dos organizadores, foi junto com o Sesc de Piracicaba. A programadora cultural era na época e continua sendo a Marilia Azevedo Grillo. O passeio teve o nome de Ver Verão dentro do programa Sesc Verão. Foi então que passei a me interessar por passeios fotográficos. Neste período que fiz o passeio, algumas pessoas interessadas em fotografia e com o apoio do Sesc, foi criado o Núcleo Piracicabano de Fotografia. No primeiro encontra havia aproximadamente 60 pessoas. Mas fotógrafos são divididos em duas partes, o fotógrafo e o ego do fotógrafo. Não vou dizer que não tenho o meu, pois estes dois são difíceis de conviver.  Então o grupo foi reduzido e sobraram 15 membros. Realizávamos saídas fotográficas e participamos de uma saída em São Paulo, com a organização do fotógrafo Iatã Cannabrava com mais de 500 fotógrafos. Por causa do Sesc me reaproximei de São Carlos, minha irmã trabalhava na unidade de lá e junto com sua amiga Sueli, vieram para Piracicaba por causa da Bienal Naïfs do Brasil, e dormiram na minha casa. A Sueli encontrou uma garrafa cheia de fotografias em casa e disse que queria isso lá em São Carlos. Negociamos e fizemos uma exposição chamada Fotogarrafada que também foi para a unidade de São José do Rio Preto.

Fotogarrafada. © Essio Pallone Filho

Fotogarrafada. © Essio Pallone Filho

Piracicaba ou São Carlos?

Uma escolha difícil foram 30 anos em Piracicaba e tenho uma relação boa com muitas pessoas que nela vivem. Também conquistei muitas coisas materiais aqui. São Carlos foi o local que nasci e vivi minha infância, minha família é de lá. Mas tem uma terceira cidade, que moram duas das minhas três filhas – a Fabiana e a Renata – que é Poços de Caldas, também gosto muito.

E as fotografias de fazendas, como é este trabalho?

Em 1999 fui a São Carlos, participar de uma oficina promovida pelo Sesc com o fotógrafo Cláudio Edinger para fotografar a Fazenda Pinhal, pertencente a família Botelho. Foi aí que deu o start em fotografar fazendas. Comecei a frequentá-las e em 2002 houve um projeto em que comecei fotografar várias fazendas em São Carlos. Um tempo depois conheci o proprietário da Fazenda Nova em Mococa, e fiz dois calendários com as fotos de sua propriedade. Hoje tenho uma coleção de imagens de 60 fazendas no Estado de São Paulo e tenho mais 15 fazendas programadas para fotografar. Fiz duas exposições com estas imagens, as duas com o nome de Fazendas Paulistas. A primeira foram fotos de gente, a maior parte de boias-frias na colheita da cana. Na segunda exposição, mostrei vinte e cinco fazendas com mais uma foto de um detalhe da mesma. Para uma fazenda existir necessitava ter pelo menos uma igreja, serralheria, casa de colono, salão de festas e a casa do barão – geralmente imponente e num lugar estratégico para que tivesse uma visão de boa parte de sua propriedade. A Fazenda Santa Cecília em Cajuru tem uma história interessante sobre seu ex-dono, o Sampaio Moreira. Ele foi um industrial e morava na Av. Paulista em São Paulo. Todos seus vizinhos tinham imóveis ali porque eram barões do café e Moreira era o único que não tinha fazenda. Por conta disso enviou um funcionário ao interior do Estado para encontrar uma fazenda e comprá-la.  A Fazenda Santa Cecília tem aproximadamente 3.600 alqueires, com uma estação ferroviária maravilhosa, levada por Moreira.

Fazenda Pinhal. © Essio Pallone Filho

Fazenda Pinhal. © Essio Pallone Filho

Quando vou fotografar arquitetura levo um tripé que chega a quase três metros de altura. Para usá-lo também carrego uma escada de três degraus para alcançá-lo. Isso faz a diferença, pois na altura do chão, às vezes você registra muito chão e pouco céu na foto. Não adianta inclinar, pois tem a questão da perspectiva – vertical é vertical e horizontal é horizontal – tem que entender. Por isso carrego tudo isso comigo, tripé, escada, mais a bolsa cheia, é o esmero e o capricho que faz a diferença. Não possuo infelizmente, como o nobre colega de arte Ansel Adams, uma station wagon, um carro que em cima ele acoplou uma plataforma para colocar seu tripé. Se eu tivesse a lente de correção de paralelismo ou uma câmera de grande formato para corrigir a perspectiva, beleza. Mas não possuo e o fotógrafo não pode ter preguiça.

Há uma foto minha da Fazenda Santa Maria em São Carlos, que foi capa da revista Autoban. Para fazê-la subi em uma escada que estava sobre um trator dentro de uma carroceria de uma carreta. Eu estava a 4 metros do chão, pois era um sobrado e queria registrar suas linhas perfeitamente paralelas.

Fazenda Ibicaba. © Essio Pallone Filho

Fazenda Ibicaba. © Essio Pallone Filho

De que forma você cuida do seu acervo fotográfico?

Para responder esta pergunta vou te contar uma história. Meu primeiro emprego fui Operador de Máquina de Perfuração, na empresa Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Trabalhava no meio do nada, eram os operadores, as máquinas e a natureza. Depois trabalhei no almoxarifado da empresa PRM CPRM. Ali aprendi a ter disciplina para poder armazenar 35 mil itens que chegavam e saíam. Hoje meu arquivo fotográfico, tanto filme quanto digital, é organizado por ordem cronológica. Junto a isso tenho uma planilha de Excel em que coloco o dia da fotografia e de cada fotograma tem as informações do assunto geral registrado. Para os negativos fiz uma cópia de cada fotograma no tamanho 10x15cm, são aproximadamente 40 mil fotos. No digital o acervo é de 60 mil imagens. Fotografia de filme e fotografia digital são duas coisas distintas, situações, captações e resultados diferentes. Um negativo te dá outra resposta do digital. A fotografia digital tem em celular e têm lá no acelerador de partículas na Suíça, com 145 mil megapixels.

Quem são suas referências na fotografia?

O meu grande inspirador é o Ansel Adams, um perfeccionista da fotografia. Ele tem três livros publicados pela Editora Senac, A Câmera, O Negativo e A Cópia, que são uma bíblia. Leia e aprenda o seu conteúdo que irá adquirir uma base de conhecimento suficiente para ser um bom fotógrafo. Outros nomes: Marc Ferrez, Militão, Paulo Pires, Eduardo Salvatore, Sebastião Salgado, Gal Oppido, Juca Martins… Se eu ficar pensando vão aparecer vários nomes, há tem o Robert Doisneau, mas a memória agora “ferrou”, são muitas referências.

Rita Lee - Bossa n'roll. © Essio Pallone Filho

Rita Lee – Bossa n’roll. © Essio Pallone Filho

Em algum momento a fotografia te decepcionou?

O prazer de fotografar e o que estou fotografando não me dão nenhum tipo de decepção. A decepção vem do mercado profissional, em que o trabalho do fotógrafo não se remunera o que de fato vale. É difícil colocar no preço seu conhecimento e o esmero pelo trabalho, leva quase sempre o melhor preço. Se você acredita que qualquer um pode fotografar seu casamento, significa que seu casamento não vai durar muito tempo. (risos). Penso por aí. E agora a situação está bem complexa, pois a referência da fotografia hoje, todo mundo acha que a fotografia nasceu digital. A fotografia nasceu no século XIX, o primeiro registro em 3D foi em 1937. Era um par de fotografias em que você usava um instrumento chamado estereoscópico para ver o efeito. Na década de 50 foi moda o filme de terceira dimensão. Quando eu era criança meus pais me levaram no Cine Metro em São Paulo, para assistir um filme de demonstração em 3D. Todo mundo de óculos e aí começou o filme e na cena mostra uma pedra despencando de um morro. Meu pai não teve dúvidas, agachou atrás da cadeira da frente para as pedras não caírem em cima dele.  Isso foi na década de 50 e as pessoas acham que estas tecnologias nasceram hoje.

O que a fotografia representa para você?

Quando a fotografia começou as pessoas tinham medo de serem fotografadas, porque acreditavam que ela roubavam suas almas. Na realidade eu acredito que no retrato, o fotógrafo só consegue registrar aquilo que a pessoa transmite a ele. O enquadramento e a luz são apenas componentes da fotografia. Tem uma foto famosa do Winston Churchill em que ele está muito bravo. Percebendo a irritação do Churchill que reclamava pela demora do retrato, o fotógrafo, malicioso, esperou até o momento em que ele estava próximo a esmurrá-lo. Então capturou o sentimento que o retratado quis transmitir para a foto. Um dia um senhor no CLQ me pediu para deixá-lo bonito na foto. Disse a ele que só fotografaria o que conseguisse ou quisesse me mostrar. Quando a fotografia não é de gente eu situo ela como registro, e o trabalhar do fotógrafo para este registro é quando ele põe a sua alma ali. Retrato a alma vem de lá e registro a alma vai para lá.

Para encerrar, quando eu tinha treze anos queria ser piloto de Fórmula 1, só em 1993 acreditei que a fotografia era a alma da minha vida. Me dedico a ela de corpo e alma.

Engenho Central. © Essio Pallone Filho

Engenho Central. © Essio Pallone Filho

Anúncios
Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Christiano Diehl

Nascido em Charqueada, Christiano Diehl Neto, 55, é fotógrafo e editor de fotografia do jornal Gazeta de Piracicaba. Até chegar a esta posição na profissão, Diehl passou por outras redações piracicabanas e de São Paulo. Viveu intensamente o final da ditadura militar no Brasil como fotógrafo e já perdeu filme para milico. Esteve presente nas grandes greves dos metalúrgicos paulistas e acompanhou o início do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, quando este era líder sindical. Trabalhou na sucursal de O Globo em São Paulo e na redação da Folha de S. Paulo. Mas foi no jornal do Partido Comunista Brasileiro que quase foi fotografar uma guerra latino-americana. Aqui em Piracicaba passou pelas redações do Diário de Piracicaba, Jornal de Piracicaba, assessoria de imprensa da prefeitura e foi até lojista. Fotografou grandes histórias piracicabanas tornando-se um profissional respeitável em nossa cidade. Christiano Diehl é um fotógrafo que literalmente dá o sangue pela profissão, como verificará na entrevista.

Christiano Diehl Neto. © 2012. Fábio Mendes.

Como foi o seu primeiro contato com a fotografia?

Eu morava em um sítio que se chama Vila Santa Luzia pertencente ao município de Charqueada-SP. Durante uma visita à Piracicaba na casa de um primo, Nivaldo Davanzo, ele tinha por hobby a fotografia. Possuía um quarto escuro em sua casa, ampliador e toda a “parafernalha” necessária para a produção e revelação de fotografia. Eu tinha 13 anos e fiquei curioso com tudo aquilo e perguntei a ele para quê serviam aquelas coisas. Meu primo mostrou-me como era feito o processo da fotografia. Colocou o negativo no ampliador, queimou o papel e fez a imagem aparecer no banho químico. Fiquei fascinado e aquilo não me saía mais da cabeça. Voltei para a minha rotina, mas sempre pensando em fotografia. Dois anos depois minha família mudou-se para Piracicaba e comecei a trabalhar numa financiadora de carros, depois escritório de contabilidade como office-boy, mas sempre desejando trabalhar com fotografia. Quando a loja Cine Foto Outsubo se instalou em Piracicaba na rua XV de Novembro, eu tinha um primo que trabalhava lá, o Roberto Diehl. Abriu uma vaga para auxiliar de laboratório fui lá, pedi o emprego e me aceitaram. Eu tinha uns 15, 16 anos, revelava filmes e lavava e secava fotos. Também aprendi a ampliar fotos Depois disso nunca mais abandonei a fotografia.  Junto a este trabalho eu estudava química no Colégio Dom Bosco. Depois de um ano estudando avisei a minha mãe que gostaria de ser somente fotógrafo em tempo integral. Não suportava química, ficar mexendo naqueles “tubinhos”. Ela não gostou, mas entendeu e até hoje fotografo.

Depois de um ano e meio no Outsubo fui trabalhar na Galeria Foto, que na época era a loja de fotografia mais forte na cidade. Tinha um volume muito grande de serviço. A loja existe até hoje na Galeria Gianetti. Neste trabalho comecei a fotografar profissionalmente eventos de empresas, casamentos e tudo mais neste segmento. Fiquei bom tempo na Galeria. Os proprietários eram o Carlos Alberto Cantarelli, fotógrafo antiguíssimo de Piracicaba e o Nelson que é proprietário até hoje. Depois trabalhei em estúdio de foto para documentação e então fui convidado para trabalhar num estúdio em Americana que tinha um nível mais profissional, pois além dos eventos, fotografava bastantes indústrias. De volta a Piracicaba fui trabalhar no jornal Diário de Piracicaba, Assessoria de Imprensa da prefeitura de Piracicaba na gestão do prefeito João Herrmann Neto e Jornal de Piracicaba. Na prefeitura, dois anos antes de terminar o mandato, João Herrmann criou um jornal no formato tabloide. Era semanal ese chamava Jornal do Povo. Foi aí que comecei no jornalismo, era 1977/78. Ele trouxe para editar este jornal o Paulo Markun, que foi apresentador do programa Roda Viva na TV Cultura, o Bonifácio Placeres, o Peninha, diagramador que era da Gazeta Mercantil e os repórteres eram a Filomena Sayão, hoje trabalha em uma agência de notícias em São Paulo, Valter Puga e Roberto Cabrini, que começou com a gente fazendo esporte. Também a Angela Furlan que é editora da Gazeta de Piracicaba, passou pelo Jornal do Povo. O jornal teve uma vida curta, foram dois anos. Em 1979 fechou no mês de fevereiro em. Estávamos na redação eu, Markun e Peninha quando soubemos do fechamento. Era 21h30 e o Markun sugeriu de irmos embora para São Paulo pedir emprego. Fui para casa fiz uma pequena mala de roupas e saímos os três num carro rumo a São Paulo. Chegamos e fomos direto para um bar que se chamava Quincas Borba Bar. A ideia do bar foi do Markun, pois o local era frequentado por muitos jornalistas. Chegando lá havia muitos repórteres, ilustradores e cartunistas. Ali estavam o Elifas Andreato, vários artistas, como a Bruna Lombardi e seu marido Carlos Alberto Riccelli e mais um monte de jornalistas do Globo e Estadão. Quando o Markun chegou fizeram àquela festa, “ê Piracicaba, encerrou lá?”, gritavam. Ele disse que estavam os três pedindo emprego e que ficaríamos na mesa do canto, se alguém soubesse de algum trabalho que fosse até a nossa mesa. Meia hora depois chegou um “cara” e nos disse que havia vaga no O Globo. No dia seguinte fomos lá e já começamos a trabalhar. Depois fui para a Folha de S. Paulo onde fiquei por um bom tempo. Acontece que o meu pai ficou enfermo, uma doença terminal e tive que voltar para Piracicaba. Antes de ele falecer eu já frequentava o estúdio do Henrique Spavieri e ele me passava trabalhos, pois eu tinha experiência em estúdio. Ele me ofereceu sociedade aceitei e trabalhamos juntos por dezessete anos.

Em primeiro plano o fotógrafo Christiano Diehl “pitando” um cigarro. © Arquivo Christiano Diehl.

Maestro Enrst Mahle. © Christiano Diehl.

Como foi a sua passagem pelo Jornal do Povo e como estava a política social piracicabana no fim da década de 70 e início da década de 80?

O João Herrmann Neto foi um prefeito polêmico, sua gestão foi agitada. Ele trouxe dois congressos da UNE (União Nacional dos Estudantes) em seu mandato, o que na época estava proibido, pois a UNE era considerada uma entidade ilegal. Também fez uma campanha muito forte para salvar o Rio Piracicaba. Entrou em sérias discussões com o governador Paulo Maluf por causa da barragem que retirava grande volume de água dos formadores do Rio Piracicaba e assim diminuía muito sua vazão. Numa dessas discussões ele “xingou” o governador , foi processado e teve que pagar uma multa. Pagou-a em moedas (risos).

Congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

O prefeito João Herrmann Neto discursa durante o congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

O sindicalista Luis Inácio Lula da Silva participa do congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

Protesto contra a retirada da águas do Rio Piracicaba pela Sabesp para abastecer a cidade de São Paulo. © Christiano Diehl.

Protesto contra a retirada da águas do Rio Piracicaba pela Sabesp para abastecer a cidade de São Paulo. © Christiano Diehl.

Você teve algum problema com a ditadura?

Tive. Eu estava cobrindo um comício em frente ao gabinete da prefeitura. Estava o Fernando Morais, Fernando Henrique Cardoso entre outros. De repente chegou o Dops e retiraram a câmera das minhas mãos, tiraram o rolo de filme e o levaram embora. Outro caso foi quando eu estava em um barzinho na rua Boa Morte com meus amigos de trabalho. Era final do expediente e tinha um pessoal estranho no bar.  De repente o dono do bar pede para a gente se retirar e não frequentar mais o local. Havia muitos homens da polícia infiltrados nas universidades, principalmente na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). Eu tinha um primo que era sargento, no 5° Gecam em Campinas, e ele me dizia que havia policiais infiltrados na Esalq, nos movimentos estudantis e DCEs. Era assim que agiam. Na época que foi preso o Francisco Salgot Castillon, prefeito de Piracicaba, foi o meu primo que montou guarda para o Salgot. Também montou guarda quando o Cecílio Elias Netto foi preso. Era conturbada a época. Também tive um caso, em São Paulo, quando começaram as greves no início do PT e do Lula. Fui cobrir uma destas greves, me derrubaram e novamente retiraram a minha câmera e pisaram nela.

Trotes e passeata realizada por estudantes da Esalq. © Christiano Diehl.

Trotes e passeata realizada por estudantes da Esalq. © Christiano Diehl.

Somente fazia o seu trabalho ou também militava?

Não tinha como não se envolver, pois 98% dos jornalistas eram de esquerda. A cicatriz que tenho nos lábios “ganhei” cobrindo uma greve. O proprietário da indústria me viu fotografando a greve dos seus funcionários e me deu um soco na boca. Ele usava um anel de formatura e isso fez um enorme corte em meus lábios.

Foi em Piracicaba?

Foi em Charqueada na empresa Viva Bem Rivaben.

Por que fechou o Jornal do Povo?

João Herrmann criou um jornal extremamente político, para fazer campanha, mostrar o seu trabalho. Engraçado que ele aceitava críticas. Ligava para o editor e dizia que havia um pessoal de um bairro reclamando, pedia para o repórter “meter a boca” no prefeito e na prefeitura. Quando acabou a sua administração acabou o jornal. Quase não havia propagandas por causa da ideologia, então não tinha como se sustentar.

Oscar Niemeyer. © Christiano Diehl.

E no Diário de Piracicaba, como foi a passagem por lá?

Tive momentos muito bons no Diário. Aprendi muito com o Cecílio, é um jornalista brilhante. Um dos melhores “pena” de Piracicaba. Concorde ou não, a forma como ele escreve é brilhante. O Cecílio dava liberdade para a gente trabalhar e nos incentivava votar na melhor reportagem e melhor foto do mês. Aos ganhadores era oferecido um jantar no Restaurante Arapuca na Rua do Porto como um brinde. Era muito saudável esta ação.

Grande Otelo fugiu do hospital no Rio de Janeiro, internado com suspeita de edema pulmonar, veio de táxi à Piracicaba prestigiar o cinema que fora inaugurado com o seu nome. © Christiano Diehl.

Com quem trabalhou na redação do Diário?

Com fotógrafos trabalhei com o Diógenes Banzatto, Davi Negri e Nelson Campos com quem montei um estúdio e trabalhamos anos juntos. Até hoje fazemos alguns serviços, é um grande amigo que tenho e um ótimo fotógrafo.

Por quanto tempo trabalhou nesta redação?

Uns três, quatro anos. A minha saída foi logo após esta greve que levei o soco na boca.

E no Jornal de Piracicaba?

No JP fique por mais tempo.  Mas era simultâneo, fazia trabalho para o JP e para o estúdio que eu era sócio com o Henrique Spavieri. Nós fazíamos muitos trabalhos para o jornal no estúdio, produção de moda, social, personalidades e as reportagens que eu fazíamos nas ruas. No JP era eu o Pauléo e o Henrique. Depois veio o Bolly, que está até hoje como editor. Foi uns 16 anos de JP.

O cartunista Henfil durante o Salão de Humor de Piracicaba. © Christiano Diehl.

A loja Buda Som, que também era sua e do Henrique Spavieri foi referência no ramo da fotografia, como foi conciliar a carreira de fotógrafo e lojista?

Já tínhamos uma pequena loja na rua do Rosário. O Buda Som foi o seguinte, nós éramos sócios do estúdio e ali prestávamos serviços. O Henrique sempre quis montar uma loja e o Shiraga, proprietário da loja queria vendê-la para aposentar-se. A oportunidade apareceu e compramos. Importamos a primeira máquina de revelação na hora de Piracicaba, comum em lojas de fotografia hoje. Era da marca Noritsu e veio direto do Japão.

Quando você saiu do JP e do Buda Som ficou por um tempo fora das redações até retornar no jornal A Gazeta de Piracicaba. O que fotografou neste período?

Tenho uma empresa que se chama Diehl Estúdio Fotográfico e presto serviços fotográficos. Fotos industriais, publicidade e o meu forte que são as fotos aéreas que corresponde quase 80% do meu trabalho fora da Gazeta.

Como foi o convite para voltar a atuar em uma redação?

Apesar de ter esta empresa deixei muitos amigos pelas redações, o Lourenço Tayar é um destes amigos. Ele saiu do JP, me ligou e disse que estava alugando uma casa grande e sabia que o meu espaço era pequeno. Eu estava locado em um edifício na rua XV de Novembro. Avisou que havia uma sala grande e gostaria que eu fosse trabalhar junto com ele nesta casa. Instalei-me e sem me contar já estava com a ideia de montar um jornal. Ele pagava o aluguel e eu pagava a parte que ocupava. Continuava com as minhas fotos industriais e um dia me chamou com a Gazeta de Cambuí em mãos, que tem o mesmo formato da Gazeta de Piracicaba. Disse que era o jornal que montaria em Piracicaba e que gostaria que eu trabalhasse com ele. Fui o primeiro a ser chamado para trabalhar na Gazeta. Ele montou toda a estrutura e voltei ao fotojornalismo que é o que está em meu sangue.

O garoto que fumava “bitucas”. © Christiano Diehl.

Faça um recorte da sua vida em trabalhar com a fotografia na cidade de Piracicaba, nas décadas de 70, 80, 90 e dias atuais.

Fotografar quando eu comecei, não tinha “chute”, tinha que ter certeza do que estava fazendo. Não dava para “brincar” com foto como se faz hoje com a digital. Ficar fazendo inúmeros testes muda o ISO aqui, muda o ISO ali. Não saía com um monte de filme, era tudo caro. Trabalhávamos com economia. Eu saía para fazer várias pautas com dois no máximo três rolos de filme. Hoje tira duzentas fotos em um cartão que cabe mil. E no mesmo cartão pode alterar o ISO e imediatamente ver o resultado. As duzentas fotos da pauta de hoje eram dez fotos no negativo. Só que as dez tinham que sair boas, não podia perder. Ah, e filme que o jornal disponibilizava era de ISO 400. Às vezes trabalhava com ele “puxado”. Mas era aí o problema, diferente do cartão de memória não dava para trocar o ISO no mesmo filme. Pois o filme “puxado” exigia uma revelação “puxada”.  As pautas noturnas de polícia, eventos e futebol eu já saía com o filme puxado em 1600 ou 3200. Era tudo mais trabalhoso. Chagava da pauta, revelava o filme, secava rapidamente e ampliava. Mas tinha que esmaltar a foto para secá-la rapidamente em uma esmaltadora. Melhorava a impressão o brilho do esmalte, não podia ser fosco. O que compensava era o amor pelo que eu fazia, não só eu, mas todos que trabalharam desta forma. Não importávamos passar a noite na redação. Perdi a conta das noites que dormia em cima dos jornais e acordava as quatro, cinco horas da manhã. Hoje também é bom, prazeroso, só que mais tranquilo. É só inserir o cartão no computador e descarregar todo aquele monte de foto.

Festa do Divino. © Christiano Diehl.

Fale mais sobre o seu trabalho em São Paulo?

Foi uma experiência muito boa. As matérias que cobri por lá me deu uma ótima “bagagem”. Peguei o processo que o Lula iniciou com o levante dos metalúrgicos. Tenho foto da época que o Luiz Medeiros era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. Junto com o Lula eles iniciaram a greve geral. Paralisou toda a cidade de São Paulo. Era o ano de 1980. Nesta época também trabalhei em um jornal que se chamava Voz Unidade, que era o jornal oficial do PCB (Partido Comunista Brasileiro), na época um partido ilegal. Ali tinha que trabalhar escondido. Quando o PCB se juntou ao Lula, para realizar o levante dos metalúrgicos, eu estava em Piracicaba dormindo. Era umas dez horas da noite quando telefonaram em minha casa. Era do jornal Voz Unidade e avisaram-me para estar domingo bem cedo num endereço que me passaram, para fotografar a reunião entre os líderes do PCB, Giocondo Dias, Salomão Malina, Hércules Corrêa com o Lula, Vicentinho, Alemão e toda a cúpula do PT. A reunião foi secreta e foi para organizar o movimento da Vila Euclides. Eu fotografava para o PCB e não tinha nenhum fotógrafo nesta reunião.

Um momento marcante com a fotografia?

Não sei se foi o mais marcante, mas a mais polêmica foi em 1978 quando o João Herrmann e mais alguns líderes do PMDB, montaram uma frente de prefeitos do partido. Tinha o Luis Henrique – prefeito de Joinvile – que se tornou governador de Santa Catarina, o prefeito de Limeira, de São João da Boa Vista que era o Nelsinho Nicolau e vários outros. A primeira reunião desta frente foi em Joinvile, a segunda o João Herrmann trouxe para Piracicaba no Teatro Municipal. Eu estava ali como fotógrafo do gabinete do prefeito. Montaram uma mesa no palco que ocupavam as duas pontas com toda a cúpula do PMDB. Começava com o Ulisses Guimarães e terminava na outra extremidade com o vereador, Miltinho da Silva de Piracicaba. Na mesa estavam Franco Montoro, Ulisses Guimarães, João Herrmann, Ruth Escobar, Fernando Moraes e Alberto Goldman. O teatro estava cheio e como era época da ditadura toda a imprensa de Piracicaba, região e do Estado estavam presentes. Fiz todas as fotos e quando o João Herrmann foi encerrar o evento, eu estava lá em cima na fila B, sentado no degrau ao lado do Nelsinho Nicolau. A câmera estava no chão só que preparada para fotografar a última fala do João. Tudo ligado, câmera, flash, com a lente já puxada no zoom e focada. O João adorava discursar, eram apoteóticos seus discursos. Nestes dias, havia uma peça que iria estrear no teatro que se chamava Bent. Contava a história de um casal homossexual presos em um campo de concentração nazista. No cenário da peça desciam três enormes bandeiras, que ocupavam do teto até o chão do palco, com a suástica nazista. E estava eu ali aguardando para fotografar o João e boa parte da imprensa já havia ido embora. Filmadoras desligadas e os profissionais batendo papo, loucos para ir a um barzinho. O pessoal de fora queria conhecer a Rua do Porto para comer um “peixinho”. No encerramento de seu discurso o João Herrmann disse, “nós temos que nos unir e é contra isso que vamos lutar”, e combinou com o pessoal da área técnica que quando ele dissesse isso, desceriam as três bandeiras com as suásticas já instaladas no palco do teatro. Pediu um movimento bem rápido, as bandeiras desciam e imediatamente subiam. Só que ele se esqueceu das imagens e o que isso poderia gerar. Quando desceu eu vi aquilo e fiz duas fotos. Quando o pessoal da mesa virou para trás e viram as bandeiras, queriam se jogar para baixo da mesa para não sair nas fotos. Quando fiquei em pé e fiz as fotos, todos viraram para trás e perceberam que só eu tinha registrado o momento. Resumindo, deu a maior confusão. Todo mundo queria a foto, comprar a foto, o pessoal da Folha de S. Paulo pediu para eu por o preço na foto, o Estadão a mesma proposta, o motivo desta reunião era para lançar o candidato da oposição para concorrer à presidência. Eu, trabalhando para a Assessoria de Imprensa da Prefeitura dizia que não podia entregar ou vender a foto. Terminada a reunião toda a cúpula se reuniu no fundo do teatro e o João Hermann pediu para me chamar. Cheguei lá e ele me perguntou se eu tinha feito à foto e eu disse que sim. “Tem certeza?”, perguntou-me novamente e eu disse que sim. “Então vai embora com este material, vá para a sua casa e deixa a gente resolver aqui”, ordenou ele. Eram 2h e o João me liga em casa e pediu para eu voltar na reunião. Todos continuavam no teatro. “Está com a câmera?”, perguntou-me o João. Disse que estava. “Suma com esse material e amanhã cedo conversamos na prefeitura”, ordenou ele novamente. Revelei a foto e não deu “outra”, foco de ponta a ponta.

Foto permitida do Seminário Nacional de Prefeitos do PMDB. © Christiano Diehl.

O presidente da república João Figueiredo. © Christiano Diehl.

Não foi publicada?

Não foi. Na época eu também era partidário, de esquerda. Vieram uns agentes de São Paulo e me ofereceram muito dinheiro pela foto e eu dizia que não tinha mais, já tinha entregado-a para o meu empregador. Daí eles me perguntavam se pelo menos eu tinha a mesa formada e eu dizia que esta foto todos os fotógrafos tinham. Como eles sabiam que só eu tinha feito aquela, me fizeram a seguinte proposta. Eu venderia a foto da mesa e iria para Americana fotografar a peça Bent, que já tinha deixado Piracicaba. Entendeu o que queriam né? Poderiam falar que era autentica, pois a foto era do único fotógrafo que registrou o momento das bandeiras. Se eles conseguissem esta imagem, iriam empastelar o país dizendo que o MDB era um partido pró-nazista. Desestruturariam todo um trabalho de oposição. Acredito que nem conseguiriam realizar as Diretas Já.

Millôr Fernandes. © Christiano Diehl.

Que história! E momentos engraçados têm?

Tem uma com o Pauléo, fotografando a enchente no mesmo dia que o Adilson Maluf assumiu a prefeitura de Piracicaba. Fotografei a posse no gabinete da prefeitura que ficava em uma casa na rua do Rosário esquina com a rua São José, em que está instalado hoje  a Uniodonto. Terminei as fotos na prefeitura e já desci com o Pauléo na Rua do Porto. Estava frio e garoando.

Estava fotografando para qual jornal?

Para o Diário. Descemos e fotografamos. Inclusive estas fotos foram expostas na exposição Amandy de 2011. Para realizar as fotos, entrávamos nas ruas inundadas de calça, blusa plástica dupla face, câmera e bolsa penduradas e eu estava com uma bota cano curto de couro que tinha um zíper do lado e um salto carrapeta. Combinamos de entrar nas águas até sentirmos que era seguro. Entramos pela rua Morais Barros, e fomos descendo até atingir uma árvore grande em frente ao antigo Clube Regatas. O Pauléo fez uma foto minha dentro da água. Ficamos muito tempo nas águas e o pessoal que estava dentro do barracão da Irmandade do Divino tinham um garrafão de pinga que tomavam para amenizar o frio. Eles nos ofereciam e nós dois tomávamos também. Tomava um gole entrava na água e fotografava. Voltava bebia outro gole e para dentro da água novamente. O frio começou anestesiar as minhas pernas e o álcool a minha cabeça. (risos). Terminamos as fotos saí de lá peguei o meu carro e fui para casa. Era a hora do almoço e a minha mãe estava esperando eu e meu irmão para almoçarmos juntos. Comecei a subir a rampa de casa e me deu um “gelo” e comecei a mancar. Quando cheguei à porta da cozinha coloquei a mão no batente e minha mãe me viu branco daquele jeito, além do frio eram as várias pingas, e perguntou o que tinha acontecido. Falei para ela, “mãe, não tenho coragem de olhar para baixo, acho que a minha perna direita encolheu” (risos). Eu tinha perdido o salto carrapeta e não percebi. Quando cheguei até minha casa com a cachaça na cabeça fiquei com medo que a água tivesse encolhido a minha perna. Absurdo o que a bebida faz com a gente (risos).

Enchente do Rio Piracicaba. © Christiano Diehl.

Quais são suas referências na fotografia?

Gosto de vários fotógrafos. Gosto muito do trabalho do Pedro Martinelli. Quando eu estava na Folha gostava das fotos do Fernando Santos e Luis Carlos Murauskas. Trabalhei com o Jorge Araújo também na Folha, um fotógrafo espetacular. Sebastião Salgado, o trabalho que ele produz com branco e preto é fantástico. Não vi ninguém se igualar a ele com seu trabalho documental.

O que ainda não fotografou?

Guerra. Tive chance de ir e não fui por causa de família. Quando eu estava no jornal Voz Unidade, todo mês tinha reunião de avaliação e os jornalistas que cobriam para o PCB na América Latina, uma vez por mês vinham para cobrir a reunião do comitê em São Paulo. Naquela época quem cobria Nicarágua e Honduras era um repórter que se chamava Chico Hardi. Ele veio para entregar a sua avaliação de como estava o movimento comunista nestes países e pediu um fotógrafo para voltar com ele. Ofereceram-me a chance de ir. Eu queria, mas a minha mulher e a minha mãe quase teve um enfarte e o meu pai já não estava bem. Disse a eles que ficava para a próxima. Mas eu não sei hoje gostaria de fazer uma cobertura de guerra. É difícil não se envolver, pois sou muito emotivo. Acho que não faria um bom trabalho.

© Christiano Diehl.

O que a fotografia representa em sua vida?

É difícil de responder. Ela é muito importante em minha vida. Comecei a fotografar com 17 anos e hoje estou com 55, posso dizer que ela está comigo a vida toda. Por tudo o que olho, vejo foto. Vicia tanto o olhar que enquadro toda a cena que vejo. É muito gostoso. A fotografia nos ensina a ver as coisas mais belas e mais feias. As belas prevalecem. De um panorama você consegue captar um detalhe, parece que o nosso olho tem um zoom. Por exemplo, quando eu estava te esperando no hall, havia uma planta contra a luz, não sei o nome dela, as folhas parece uma espada, com bordas brancas e espinhos pretos. A luz contra a fez formar um leque perfeito dentro de um recorte em toda a planta. É assim que o fotógrafo enxerga. A fotografia te ensina a ver as coisas mais bonitas.

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Em breve!

Em pé da esq. p/ dir.: Nilo Belotto, Del Rodrigues, Ivan Moretti, Cláudio Coradine, Fábio Rodrigues, Marcelo Germano, Alessandro Maschio e Bolly Vieira. Sentados: Daniel Damasceno, Christiano Diehl, Henrique Spavieri, Fábio Mendes, Antonio Trivelin e Mateus Medeiros. © 2012. Foto: Sérgio Furtuoso.

Em pé da esq. p/ dir.: Nilo Belotto, Del Rodrigues, Ivan Moretti, Cláudio Coradine, Sérgio Furtuoso, Fábio Rodrigues, Marcelo Germano, Alessandro Maschio e Bolly Vieira. Sentados: Daniel Damasceno, Christiano Diehl, Henrique Spavieri, Fábio Mendes, Antonio Trivelin e Mateus Medeiros. © 2012. Foto: Garçom amigo.

Patota! © 2012. Foto: Garçom amigo.

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , ,

Nelson Campos

Olá, caros.

Hoje a prosa é com o fotógrafo Nelson Campos. Piracicabano, 56 anos de idade, casado com Augusta de Campos, tem dois filhos e atualmente conta com dois netos, um menino e uma menina. Este ano Campos completa 40 anos de profissão. Conheça um pouco das histórias desse fotógrafo que passou pela redação do Diário de Piracicaba, foi sócio de dois estúdios fotográfico com dois ótimos fotógrafos piracicabanos na década de 80 e um dos pioneiros na fotografia digital de Piracicaba. Hoje, especialista em fotografia publicitária e industrial. Campos é um fotógrafo atualizado, ganhou prêmio internacional com fotografia de natureza e também de manipulação fotográfica com o software Photoshop, mas está preocupado com os rumos da fotografia em sua área. Saiba o por que e conheça mais histórias desse personagem piracicabano que fez e continua a fazer recortes de nossa querida cidade.

Inté.

Nelson Campos. ©2011. Fábio Mendes

Como foi o inicio com a fotografia?

Eu comecei na fotografia como hobby. Tinha 16 ou 17 anos. Meu tio era fotógrafo no Mirante, era um lambe-lambe. Chamava-se Sebastião. Fazia umas fotinhas que revelava dentro da máquina caixão. Igual tem em Pirapora, ele fazia aqui no Mirante. Desde criança eu o via trabalhar. Mas na adolescência quem me deu as primeiras dicas foi o Paulo Kawai do Foto Fuji, com quem eu tinha muita amizade. Comprava equipamentos e químicos para revelação com ele. Eu tinha umas câmeras antigas, de filme 127, e comprava revelador e ampliador para revelar as minhas próprias fotos. Apaixonei-me.  A imagem, quando começa a aparecer no revelador, é uma mágica. Cativou-me. Envolvi a minha vida nisso. Descobri o meu caminho. É apaixonante. Eu comprava livros técnicos para me aperfeiçoar, mas percebi que sem uma escola eu não progrediria. Larguei os meus estudos aqui em Piracicaba e fui para São Paulo atrás de conhecimento. Fui trabalhar em uma importadora de equipamento fotográfico e entrei na escola de fotografia do Senac, que hoje transformou-se em faculdade. Isso foi em 1972. Fiz um ano de curso. Vi desde o princípio da fotografia, estúdio, externa, iluminação, revelação colorida… Foi um ano “puxado”. Valeu a pena. Voltei para Piracicaba por causa de uma fatalidade. Eu morava perto do edifício Joelma e quando pegou fogo fiz umas fotos e vim pra Piracicaba. Trouxe as imagens para o jornal Diário de Piracicaba que foram publicadas. Nesse momento convidaram-me para trabalhar no jornal. Fiquei tão traumatizado pelo incêndio que aceitei o convite.

Mulher sendo salva por homens do Corpo de Bombeiros em enchente na Rua do Porto – Piracicaba na década de 80. Foto: Nelson Campos.

Quando entrou para o Diário havia mais fotógrafos na redação?

Tinha o Henrique (Spavieri) que era o antigo “clicherista”. Como não havia mais essa função, pois o novo processo era em offset, ele começou a fotografar também. Trabalhamos juntos por seis meses até que ele foi chamado pra prefeitura e deixou o jornal. Fiquei sozinho. Fotografava os eventos sociais, acidentes de veículos na madrugada. Uma vez fui até de paletó e gravata fotografar um acidente, pois eu estava trabalhando em um evento de grande porte e no meio da festa fui chamado para a ocorrência. São coisas da vida. (risos).

Protesto de estudantes, na praça José Bonifácio, por melhor ensino. Foto: Nelson Campos.

Como era a rotina de trabalho no Diário de Piracicaba. Quem eram os editores e repórteres enquanto ficou por lá.

Entrei no começo do ano de 1973 e o hoje dono de A Tribuna Piracicabana, Evaldo Vicente, era o revisor. O Mário Terra era o colunista social. Cecílo Elias Neto, o proprietário. Tinha o Roberto Cera que fazia uma página chamada recados, que foi um dos idealizadores do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. O Cera fazia novelinhas, iguais vemos em quadrinhos, mas com fotografias. Contava histórias com as fotos. Era gostoso, foi a empresa que trabalhei com mais liberdade e prazer. Acredito que todos os fotógrafos e repórteres que passaram por lá tem a mesma opinião. Não havia ditadura nas editorias. Eu fiz uma matéria, não foi publicada, houve risco de morte. Eu com o falecido Ari Gomes, um excelente repórter, começamos a investigar sumiços de crianças na cidade de Piracicaba em 1981. Chegamos bem próximo da pessoa que sequestrava as crianças. Porém alguém foi falar com o editor, que era o Cecílio, que nos aconselhou a parar, pois algo de ruim poderia acontecer conosco. Foi um desestímulo, sabendo que a nossa vida corria risco de morte. Fazíamos a reportagem por conta própria, mas dessa vez o Cecílio nos obrigou a parar com a investigação.

O cantor Ney Matogrosso durante show em Piracicaba. Foto: Nelson Campos.

E após o Diário?

Eu tive duas fases no Diário. Trabalhei de 1973 até 1975. Depois montei um estúdio, quando o Diário mudou da rua Prudente de Moraes para a rua São José. Por coincidência o meu estúdio era bem em frente ao jornal, na rua São José. Fiquei com o estúdio por três anos quando o Diário me chamou novamente, em 1980. Fiquei até o final do ano de 1981. Jornal é ótimo, excelente, mas você trabalha 24 horas por dia. Você é um eterno jornalista. Quando pensa que está de folga acontece algo na sua frente e não tem como não fazer. A remuneração também é baixa. Por toda a dedicação do jornalista, a remuneração é baixa. Daí, parti para a fotografia publicitária. Abandonei o jornalismo. Se continuasse, trabalharia a vida inteira e não teria nada. Já tinha dois filhos e precisava de mais dinheiro para poder criar bem as crianças.

Teve uma foto que fez de um atropelamento. Como aconteceu?

Essa foto foi feita em 1980 ou 81, não me lembro a data precisa. Saí do Diário, na rua São José, para ir até a Unimep, na rua Boa Morte. Fui caminhando. No abrigo de ônibus, atrás da Igreja Catedral, eu vi que um senhor de idade ia atravessar a rua. Atravessou sem olhar se vinham carros. Vi um carro que não conseguiria parar. O instinto me levou a fazer uma sequência de fotos. Fotografei toda a cena, ele sendo atropelado, arremessado, caído no chão cheio de sangue, até as pessoas olharem de perto e chegar o resgate. Imediatamente voltei pro Diário e não fiz a matéria na Unimep. O atropelamento era um acontecimento mais importante. Na vida de um repórter-fotográfico isso acontece de quinhentos fotógrafos para um. Revelei as fotos, falei com o Mário Evangelista, que era repórter do jornal nessa época, e ele já foi buscar as informações na polícia para escrever a matéria. Pronta a matéria, fomos publicá-la quando o editor-chefe, Luiz Tomazi, que trabalhava na Folha de S. Paulo e veio para o Diário, viu as fotos e disse: “Não, isso não pode ser publicado”. Questionei e ele me disse que era muito chocante. Permitiu que saísse apenas uma fotografia com a notícia. Escolhemos a foto e publicamos. No outro dia publicamos outra foto e acompanhávamos o estado de saúde do atropelado, que estava muito mal. No terceiro dia publicamos outra e no quarto dia ele veio a falecer. Conseguimos publicar quatro fotos, mas uma em cada dia. Dessa forma, o editor disse que não chocaria as pessoas. Alguns dias depois, houve o atentado contra o papa, João Paulo 2º, que levou um tiro. O editor, que proibiu de publicar a sequencia fotográfica do atropelamento, me pediu para fotografar o atentado na televisão, que era o recurso que tínhamos na época. Esperei aparecer na TV e fiz as fotos. Revelei o filme e entreguei uma fotografia para o editor. Então ele me perguntou sobre as outras fotografias. Perguntei a ele, por que ele queria as outras fotografias? Ele me disse que queria todas as fotografias. Encerrei dizendo que ele iria publicar apenas uma, pois o atropelamento foi chocante, mas o tiro que deram no Papa foi muito mais chocante. Se ele morresse, no outro dia ele publicaria outra foto e, se não morresse, também publicaria. Igual o atropelamento. Daí houve uma grande discussão, nos desentendemos, mas não foi por isso que saí do Diário, a briga, e sim o desestímulo em ter um trabalho que jamais iria acontecer novamente, ter sido cortado. Pedi demissão e fui fazer fotografia publicitária, que é o que mais gosto de fazer. Mas no jornal tem histórias que faz a gente dar boas risadas. Chegava de uma matéria, revelava o filme, mas demorava a secar e não tinha tempo para esperar. Eu tinha uma técnica. Passava o filme no álcool, erguia-o com as mãos, botava fogo embaixo ele subia e quando chegava à outra ponta em cima, balançava, apagava e estava seco. Já ampliava a foto, o importante era a agilidade a rapidez e não a qualidade. Tomazi trouxe um fotógrafo da Folha, Toninho, um senhor de idade avançada, e ele me viu fazendo isso. Na Folha ele era simplesmente fotógrafo, não precisava revelar, lá tinha o laboratorista. Aqui não, ele tinha que revelar. Um dia ele chegou ao jornal depois de fotografar um jogo do XV de Piracicaba, era umas 22h ou 23h, e precisava revelar a foto para sair no dia seguinte. Passou álcool no filme só que o segurou esticado. Aquilo virou um torresmo. Perdeu todo o serviço. O jornal ficou sem foto do XV. (risos)

Retrato do rei Roberto Carlos. Foto: Nelson Campos.

E então você saiu novamente do jornal. Montou outro estúdio?

Sim. Montei o único estúdio na época que tinha gerador e cabeça de flash. O Christiano Diehl virou meu sócio. Ficamos dois anos e meio juntos. Fazíamos publicidade, embora tivéssemos e temos ainda um grande problema com jornais. Ficamos 25 anos sem ter uma agência publicitária em Piracicaba. O jornal vendia o espaço, dava a arte e a fotografia, fazia tudo. Como é que uma agência iria cobrar se o jornal dava de graça? Limeira tinha agência, Rio Claro, Americana, todos os lugares tinham. Já Piracicaba não havia condições de uma agência sobreviver. A publicidade aqui tinha espaço quando era folder, catálogo, mas era pouco serviço. Teve uma agência que ficou um bom tempo, mas pereceu por pouco serviço. No estúdio procurávamos fazer books, pôsteres e uma série de coisas para sobreviver, e esperava as fotos publicitárias que aos poucos foram chegando.

Cartão natalino. Foto: Nelson Campos.

Assim era o mercado na década de 80?

Para a fotografia industrial era excelente. Hoje pega um menino, vai numas dessas casas que vendem computador em trinta prestações, uma câmera de R$ 2 mil reais – a câmera e o flash são automáticos – no computador faz “alguma coisinha”, envia para o laboratório que corrige o que continua errado e faz a sua fotografia. Julga-se um fotógrafo, não que não seja, pois está exercendo a profissão, mas não tem o conhecimento necessário. Não sabe o que acontece quando aperta o botão, por que aquela luz, por que não. Eu comecei no digital em 1998. A primeira câmera que comprei, tenho a nota fiscal, em Nova Iorque, paguei 3.900 dólares. Tinha 1.75 megapixels. Foi a primeira câmera profissional que trocava objetiva. Eu estudei toda a transição do analógico para o digital. A partir de 2000 comecei a trabalhar com fotografia digital, desisti do analógico. Mas antes dessa mudança, ganhava-se muito dinheiro, o fotógrafo tinha que ser fotógrafo. Tinha que ter o seu laboratório, pois um não revelava para o outro fotógrafo. Tinha que saber o que fazia. Na publicidade usávamos cromo ou slides, como alguns chamam. Eram grandes, 6×6, 6×9 e não permite erro. Só o fotógrafo conseguia. Ninguém se atrevia a fazer. Nessa época fotógrafo ganhava muito dinheiro. Com as indústrias era só cromo que dava para fazer em impressão colorida na gráfica. Não havia outra opção.

Foi difícil se adaptar a outra tecnologia?

Não. Comecei a usar o Photoshop em 1997. Fiz cursos com profissionais americanos, como Dean Collins, um dos melhores fotógrafos do mundo, exclusivo da Hasselblad, Kodak e General Motors. Então fui estudando. Acompanhava e pesquisava bastante. Quando eu abri a minha lojinha para fazer foto documental, que a minha esposa “toca”, eu escrevi na parede, foto digital. Muita gente passava inclusive fotógrafos e riam de mim. Eles falavam: “Ah, é foto digital, vou aí e coloco o dedo?”. Ouvi muito isso (risos). Não tinham noção do que era, mesmo sendo fotógrafo. Eu estava adiantado, quando ainda pensavam em adquirir câmeras analógicas, já tinha vendido as minhas. O futuro era digital.

O fotógrafo posa ao lado da atriz Pepita Rodrigues. Arquivo pessoal.

Trabalhou com fotografia social?

Sim. Em 1983, quando eu saí do Diário, montamos um estúdio, o Henrique Spavieri e eu. Chamava Spavieri Studio e fazíamos muito social. Todo final de semana tinha casamento, aniversário de 15 anos e tal. Só que chega um momento, eu não vi os meus filhos crescerem, quando percebi já estavam grandes, queria os finais de semana para mim. Hoje, tenho um espaço em casa, onde recebo meus amigos, fotógrafos, gosto de receber pessoas e para isso não posso ficar pegando casamentos. Se o casamento é no sábado, tenho que ficar concentrado na sexta-feira, nada de comer comida diferente, bebidas, pois existe o risco de passar mal no dia seguinte. Uma concentração de 48 horas. Isso não dá mais para mim.

Um momento marcante na profissão.

Foi o atropelamento que já citei. A inauguração do autódromo de Jacarepaguá, em 1978, quando o Emerson Fittipaldi ficou em segundo lugar. A única vez que foi ao pódio ali. Alguns acidentes de carro, na época do jornal. As imagens ficam na mente. Algumas não são boas. Lembro da história do fotógrafo (Kevin Carter), que fez uma imagem de uma criança fraca com um corvo ao fundo esperando ela morrer. Logo depois ele se suicidou em função disso. São imagens que ficam e mexem com a gente. Tem pessoas que falam que acostuma. Mas não é bem assim, nos machuca.

Você ganhou um prêmio internacional. Qual foi o tema?

O tema foi natureza. Ganhei o prêmio em Washington sem imaginar essa possibilidade. Aqui em Piracicaba teve uma mostra que depois virou um concurso com o título “O Verde de Piracicaba”. Participei e não que tinha feito a melhor fotografia, mas jurei para mim que jamais participaria de qualquer concurso fotográfico no Brasil. O que aconteceu foi inexplicável. Um cara que não era fotógrafo pegou uma câmera e foi até o mercado. Ele fotografou um pé de alface com um preço absurdo, caro, extremamente caro. Ganhou o concurso. O verde de Piracicaba, um pé de alface, R$ 10 reais. Havia fotos maravilhosas. Nunca mais eu participaria de concurso. Aí recebi um e-mail com esse concurso nos EUA. Mandei uma foto completamente despretensiosa. A flor de uma árvore que tem muito por aqui, principalmente na Rua do Porto, onde eu fotografei. Essa flor nasce em cima da árvore. Só que nos EUA não existe essa árvore. Ficaram curiosos. Começaram a enviar várias perguntas e fui respondendo. Tive que buscar informações na Esalq para o que eu não sabia, como o nome científico da árvore e fui abastecendo as dúvidas deles. Acredito que o prêmio não tenha sido pela qualidade visual e sim pela raridade da flor. Fiz a imagem com uma tele de 500 mm. Só que infelizmente não recebi o prêmio, que era 5.000 dólares. Para eu ir pra lá, ficava em 7.000 dólares, pois tinha que ficar uma semana em um hotel e participar de convenções. Eu tenho um filho, que na época morava em Chicago, fica perto de Washington, e ele se prontificou em buscar para mim. Mas a organização não autorizou, pois tinha que fazer matérias e entrevistas comigo. Disseram que o “pessoal” da National Geographic gostariam de me conhecer. Então deixei pra lá. Não compensava.

Foto premiada em concurso internacional. Foto: Nelson Campos.

Pra você, que é um visionário, qual o próximo passo da fotografia?

Estou estudando e não sei se a minha cabeça acompanha, mas o próximo passo é o 3D. Eliminará 80% da fotografia. Por exemplo, se alguém pede uma fotografia de um carro, a fábrica tem o desenho dele em 3D. Com isso em mãos é só jogar em um software específico, colorir o carro e ambientar. Qualquer objeto que você tenha o desenho em 3D, dá para por textura, cor e tudo mais. Depois de pronta acha que é uma fotografia do objeto, mas é tudo virtual. Esse é a próxima etapa da fotografia digital. Os grandes estúdios já trabalham assim, mas acho que eu não vou conseguir. É muita informação. Eu participo do Photoshop Conference, o maior evento de Photoshop da América Latina. Vou lá e fico nas primeiras duas horas do dia, pois começa às 9h e vai até as 19h, param só uma hora pro almoço, e consigo assimilar. Depois não dá mais. São “baldes” de informações. Photoshop é um instrumento ilimitado. Eu duvido que alguém acompanhe todo o evento e consiga assimilar tudo. Você vê o Alexandre Keese, um dos maiores operadores de Photoshop, falando duas horas, é impressionante o que ele conhece. Faz assim, faz assim, faz assim, pronto, está feito! Coisas que demoro 40 minutos para fazer, ele faz em dois minutos. Vou aprimorando, mas chego a um ponto que a minha cabeça não assimila.

Algum projeto?

Estou com um projeto de fotografar a Patagônia. Tive convites para ir a Machu Picchu, tenho um convite para fotografar todo o interior do Brasil. Mas são muitos dias fora. Não tenho condição financeira de ficar sem trabalhar por 20 dias. No convite não pago nada, mas não posso me ausentar por tanto tempo. Eu quero ir para a Patagônia. Fui convidado por duas vezes. Estou me preparando, logo vou. Eu vendo muitas fotografias que faço em hora de lazer, principalmente para decoração. Painéis de três, quatro, cinco metros. Nos finais de semana levanto bem cedo, pego a minha câmera, chamo minha esposa e vamos entrando pro meio do mato. Uma vez peguei uma estrada de terra em Charqueada-SP e fui sair no Anhembi-SP. Nesse passeio vendi quatro fotografias. Das cachoeiras de Brotas-SP tenho bastante foto. Hoje não desço mais nas cachoeiras. Descer até desço, mas subir não dá mais (risos).

Quais são as suas referências na fotografia?

Na publicidade tenho como espelho, que infelizmente já faleceu, Dean Collins. Fiz um curso com ele, foi maravilhoso. Aprendi muito. Guardo os livros e apostilas até hoje. O curso chamava Sobre a anatomia de um estúdio, muito bom. Tem um fotógrafo de Piracicaba, que é muito bom, mas pula muito de ramo, que é o Tadeu Fessel. Admiro o Christiano Diehl. Agora, ímpar se chama Pauléo. Embora tenha começado a fotografar bem depois de mim, entrou no jornal como entregador. Você pode chamar 30 fotógrafos e pedir para fazer uma foto específica. Os 30 fazem. Se for o Pauléo ele tira uma fotografia e diz: “Está aí a foto” e resolve. Gosto muito dele. Gosto e admiro. Ele não fez curso e nada, mas tem uma visão diferente.

Trabalho publicitário. Fotos: Nelson Campos.

O que a fotografia representa em sua vida?

Representou o meu sustento e de toda a minha família. Tudo o que conquistei em minha vida foi por conta da fotografia. Não tive outro emprego. Mas a fotografia representa para mim a perpetuação de uma imagem. Agora virou moda pegar uma fotografia antiga de Piracicaba e decorar ambientes. Mas se não tivesse esse registro, não saberíamos como foi o passado. A fotografia é história. Tem que preservar a imagem, mesmo que esteja fora de foco ou tremida, preserve. Não tem outra definição, fotografia é a história. Antes, por conta da fotografia que era cara, temos poucas imagens do passado. Agora com o digital não temos mais nenhuma. Todo mundo tem uma câmera digital. Tiram 500 fotografias. Mas ele não sabe que ali na câmera ele tem um cartão de memória 1, 2 ou 3 gigabytes e quer tirar 2.000 fotografias nesse espaço. Para isso reduzem a resolução, fotografa, “põe” no computador e acha linda. Vá imprimir. Não existe condição! Isso quando não apagam a foto por falta de espaço no computador. A fotografia digital, enquanto virtual, para se perder é a coisa mais fácil do mundo. Pega um CD, riscou, não lê mais e perde tudo. Eu acredito que vamos ficar uns 15 anos sem história. Eu sei de profissionais que guardam arquivos e outros que depois de dois anos jogam as imagens fora. Gravar em um DVD e deixá-lo quieto de cinco até sete anos ele suporta. Depois desse tempo, faça outra cópia para não perder as fotos. Esse pessoal amador que tira um monte de fotos e guardam em HD, entra um vírus tem que formatar e tchau tudo. Vai ter muita família que não vai ter foto do filho crescendo. Tirou 500 fotos? Escolhe 30 e revele. O papel dura 100 anos.

Site do Nelson Campos aqui.


Edição do texto: Rodrigo Alves

Etiquetado , , , , , ,

Exposição fotográfica “amandy”

Olá, caros.

Imperdível a exposição, amandy, aberta ao público dia 16 de março. Acontece lá no Engenho Central, Armazém 14A. Horário de visita, das 9h às 17h. São fotos históricas e recentes das grandes enchentes acometidas pelo nosso Rio Piracicaba, captadas pelas lentes dos grandes fotojornalistas de nossa cidade. Enchentes que invadem casas, desabrigam pessoas mas que não ferem a imagem do nosso querido rio. Abaixo seguem: o cartaz de divulgação, a foto com os “culpados” destes registros e um divertido vídeo, feito pelo celular, que foi elaborado pelo fotógrafo Alessandro Maschio.

Confiram!

 

Cartaz de divulgação.
Da esq. pra dir. em pé: Alessandro Maschio, Cláudio Coradini, Henrique Spavieri, Mateus Medeiros, Davi Negri e Marcelo Germano. Agachados: Christiano Diehl, Pauléo, Antonio Trivelin, Daniel Damasceno e Bolly Vieira. Foto: Dani Ricci

Etiquetado , , , , , , , , , , , ,

Christiano Diehl no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, 2010

Alguns Mestres do Humor por Christiano Diehl

Recebo a informação que no 37° Salão Internacional de Humor de Piracicaba, considerado um dos maiores eventos de humor gráfico do mundo, realizado no Engenho Central, acontece uma exposição paralela do fotógrafo Christiano Diehl. Trata-se de uma mostra de retratos feitos por Diehl, de renomados e históricos caricaturistas nacionais, que contribuíram para o nosso Salão e para a história da comunicação visual brasileira.

Editor de fotografia do jornal Gazeta de Piracicaba, há tempos o fotógrafo registra o evento de humor gráfico. De relevante valor histórico, na exposição pode ser visto retratos de Millôr Fernandes, Luis Fernando Veríssimo, Henfil entre tantos outros estampados na parede, como um mosaico. Sensacional.

Parabéns Chris!

Mais informações aqui.

Colaborou: Luana Costa.

Alguns Mestres do Humor por Christiano Dihel

Etiquetado , , , , , , , , ,