Arquivo da tag: entrevista

Essio Pallone Filho

Essio Pallone Filho. © 2012. Fábio Mendes.

Essio Pallone Filho. © 2012. Fábio Mendes.

Há quem diga que a vida começa aos 40 anos. Esta idade para muitos é um marco, pois acreditam que percorreram e chegaram à metade do caminho. Deste ponto em diante é aproveitar ao máximo a vida e ir à busca de sonhos, sejam eles pessoais e/ou profissionais. Filosofia à parte, conhecer a história do fotógrafo Essio Pallone Filho nos faz refletir sobre quando e como começar a conquistar estes objetivos de vida. Pai de três filhas, Fabiana, Renata e Fernanda, Essio resolveu aos 44 anos preencher sua alma. Tornou-se fotógrafo. O caminho não foi e nem continua fácil, mas em 22 anos de profissão, o fotógrafo tem em seu acervo aproximadamente cem mil imagens dos mais variados assuntos. É um assíduo frequentador de mostras e concursos, o que o transforma num vencedor de prêmios e honrarias. Amante de bons casos – contou vários durante a entrevista – agora sua trajetória com a fotografia é que se transforma em uma boa história.

Quando iniciou na fotografia?

Em 1977 eu trabalhava no Banco do Commércio e Indústria de São Paulo S.A. (Comind) e surgiu uma vaga para trabalhar em Piracicaba. No dia 1º de abril de 1977 cheguei à cidade como bancário. Mas antes de começar a fotografar trabalhei também com selos. Existia um nicho no mercado, em que eu montava cartelas com selos para distribuir em banca de revistas. Só que o trabalho não me agradava e então resolvi trabalhar com filmagem e fotografia em 1991. Peguei meu material filatélico, vendi boa parte, mas sobraram alguns que guardo até hoje. Com o dinheiro comprei filmadora e máquina fotográfica e resolvi fazer um curso de fotografia em São Carlos, na Oficina Cultural, um órgão do governo que existe em algumas cidades. O curso foi ministrado por um professor da USP chamado Chico Vecchia e nos tornamos amigos, foi ele que me iniciou na fotografia. Com o vídeo fui autodidata, transferi todo conhecimento da fotografia para esta linguagem.

Como surgiu a sua vontade em fotografar?

Não saberia dizer para você. Em 1975 eu comecei a trabalhar no Comind lá na região de São Carlos e um dia viajei à São Paulo a trabalho e fui a famosa r. 25 de Março, na Galeria Pagé e comprei uma máquina fotográfica.  A marca era Petri, uma câmera de segunda linha, japonesa. Comecei a fotografar minha família, viagens e passeios. Fiquei com está máquina até 1991 quando comprei uma Minolta SRT com o fotógrafo Jorge. Ele tinha uma casa de fotografia na r. Benjamin Constant. Porém a recomendação do Chico era uma Canon FTB. Fui a São Paulo para comprá-la mas o preço elevado me impediu de adquiri-la. Mostrei a Minolta para o Chico e ele me disse que era a “máquina” da Minolta e fiz uma bela compra. A filmadora era uma Panasonic VHS.

E como foi a troca da profissão, bancário por fotógrafo?

Me inseri no mercado. Comecei a fotografar casamentos, aniversários, eventos e por aí foi. Mas a “coisa” estava difícil de engrenar e num determinado momento, em 1994, conheci uma professora do Colégio Luiz de Queiroz (CLQ), Wilma Gorgulho e nos tornamos grandes amigos. Ela me pediu para editar um vídeo de uma visita que o CLQ fez na Indústria Dedini.  Editei e comecei a trabalhar com o colégio. Foram oito anos fotografando e filmando para o CLQ.

Cemitério Nossa Senhora do Carmo. © Essio Pallone Filho

Cemitério Nossa Senhora do Carmo. © Essio Pallone Filho

Por que escolheu Piracicaba, já conhecia a cidade?

Vim à Piracicaba por causa do Banco, estava apreensivo em morar numa cidade nova. Outros costumes, nova sociedade, acreditava que encontraria dificuldades nos relacionamentos sociais. Tiveram duas pessoas muito legais que trabalhavam comigo no Comind, a Rose e o Mario Sbrissa – já falecido – que me receberam muito bem. Me convidavam para passear e fizeram me sentir à vontade por aqui. No banco eu tinha vários contatos com empresários, pois minha função era trabalhar com as empresas, então minha inserção com novas amizades foi tranquila.

Vinte um anos de fotografia, compartilhe algumas histórias.

Vinte um anos, sou jovem na fotografia, acabei de fazer a minha maioridade na profissão.  Quando comecei em 1991, na Oficina Cultural fizemos uma carga horária oficial de 210 horas, o que é bastante.  O tempo foi estendido porque o governo do Estado proporcionou papel, químico e filme. Então o Chico com boa vontade e nós alunos querendo aprender, realizamos perto de 500 horas de atividades. Isso foi um grande passo, pois preparávamos o químico, fotografava, revelávamos e por fim fazíamos as cópias no ampliador. Todo este processo me fez gostar da fotografia. Em Piracicaba montei um laboratório em meu apartamento no banheiro da empregada – que nunca apareceu para trabalhar.  Toda essa manipulação da fotografia analógica me fez gostar do preto e branco. Tenho uma foto premiada em segundo lugar pela cidade de Santa Maria da Serra, de um balão em preto e branco. Mais colorido que balões é difícil de encontrar. Mas o “lance” do prêmio foi o diferencial em utilizar o pxb para registrar o balão. Fotografo colorido, mas o meu foco é o preto e branco. Hoje capturo as imagens no digital e depois as manipulo no Photoshop transformando em pxb, sempre com a característica de fotografia autoral.

Balão no chão. © Essio Pallone Filho

Balão no chão. © Essio Pallone Filho

A primeira saída fotográfica individual que fiz, foi no bairro do Monte Alegre com uma série de fotos da igreja. O dia estava lindo, com nuvens e céu bonito num fim de tarde. Posicionei-me em alguns pontos com a câmera no tripé e fiz várias fotos da construção, realizei um estudo de arquitetura da igreja. Posteriormente estas fotos me levaram a registrar um grande acervo que possuo, cerca de 60 fazendas fotografadas no Estado de São Paulo.  Em 1993 aconteceu no Teatro Municipal Dr. Losso Netto, a primeira Mostra Fotográfica de Piracicaba. Pelo que sei foi a primeira e a última. Na mostra cada fotógrafo poderia enviar cinco fotos. Lembro-me que o primeiro colocado foi o Christiano Diehl, o segundo ficou com o Beto Brusantin e não me lembro do terceiro colocado. Enviei cinco fotos e três foram selecionadas. Fiquei contente, pois estava começando nunca havia participado de nada, não sabia qual era a característica de uma Mostra ou de um Salão. A partir desta mostra transformei a minha personalidade e mudei a minha relação com a fotografia e a cidade. Vale uma ressalva aqui: Piracicaba é uma cidade especial, tem uma conformação geográfica e uma beleza fotogênica rara dentro do Estado de São Paulo.  Mas como as pessoas vivem na cidade não notam essa beleza. Tem morador que passa pelo rio diariamente e não sabe se ele está cheio ou vazio, pois o rio é apenas um componente do seu trajeto. Quem fotografa vê estas coisas, se descer todo dia ao rio fará uma foto diferente.

Capela de São Pedro de Monte Alegre. © Essio Pallone Filho

Capela de São Pedro de Monte Alegre. © Essio Pallone Filho

Aqui em Piracicaba eu tinha mais ligação com os artistas plásticos, a Marilu (Trevisan), Luisa Libardi, (Antonio) Natal (Gonçalves), este pessoal bem conhecido da cidade. O contato com eles influenciou na minha fotografia. A visão do fotógrafo é uma, se ele trabalha com still, fotojornalismo, casamento ou qualquer especialidade ele terá um foco. Eu não tinha intenções, pela minha característica, de me especializar em apenas um produto, transito pela área da fotografia. Se ela é documental, autoral, se tenho que fotografar objetos e documentos, como fiz para um museu, um trabalho meramente burocrático. Mas tem que entender de iluminação para fotografar os documentos, do contrário se transforma em um desastre burocrático.

Você é um fotógrafo premiado, em 1997 conquistou o Mapa Cultural Paulista. Foram várias participações em concursos e mostras?

Depois da participação da mostra em 1993, comecei a enviar minhas fotos para salões de arte. Tenho mais de cem participações entre exposições coletivas, exposições individuais, concursos e mostras. O ano de 1997 foi um marco para mim. Havia o Mapa Cultural Paulista e conheci a Neide Maria Silva, que trabalhava no Teatro Municipal Dr. Losso Netto. Ela me disse: ‘Por que você não participa do Mapa com fotografia e vídeo?’.  Pedi então para me explicar o que era o Mapa. Já havia fotografado formas em árvores para uma exposição no Sesc chamada Clique o Sesc em São Carlos. A proposta era fotografar a unidade do Sesc São Carlos, e lá havia uma árvore – não existe mais – que tinha a forma de um dorso de mulher. O título da foto é Paixão Nacional, contrapondo com um comercial que dizia ser a paixão nacional a cerveja, o que eu acredito que para os homens seja o dorso de mulher e para as mulheres o dorso do homem. Utilizando a mesma ideia reuni cinco imagens e as enviei para o Mapa Cultural representando a cidade de São Carlos com foto e vídeo. O vídeo não passou para a segunda fase regional em Campinas, mas as fotos passaram. A final foi em São Paulo e um dos julgadores do concurso, me pediu para comparecer no dia do evento. Fui e a categoria fotografia foi a penúltima a ser apresentada. Quando anunciaram o terceiro e segundo colocados e meu nome não foi chamado pensei, minha presença era só para fazer pompa. Daí anunciou o primeiro colocado, Essio. A foto vencedora chamei de Pajé. Era a forma de uma máscara que visualizei no toco de uma árvore. A partir deste prêmio e desta série de cinco imagens, passei a fazer uma grande captação desta temática, olhar para uma casca de árvore e encontrar formas. Isto pode parecer fácil, mas tem que ver muitas árvores para encontrar uma imagem. Depois de capturar várias imagens realizei uma exposição que circulou na região de São Carlos com o nome de Esculturas Naturais. Tenho aproximadamente 150 imagens deste tema.

Paixão Nacional. © Essio Pallone Filho

Paixão Nacional. © Essio Pallone Filho

Mas a participação do Mapa não foi por Piracicaba?

Tudo o que fiz de 1991 a 2007 sempre foi por Piracicaba. Todas as participações em São Carlos ou em outras cidades neste período atuei como cidadão piracicabano. Entre os anos de 1998 e 1999 foram realizados eventos de balonismo em Piracicaba e o meu tesão era voar de balão. Quando eu tinha meus 18 e 19 anos fiz curso para ser piloto de avião. Só que infelizmente dois amigos morreram em um acidente aéreo e o meu pai que bancava o curso me disse, avião nunca mais. Mas gosto de voar. Tentei entrar para um grupo de balonismo em Piracicaba, só que os grupos são muito fechados.  Em São Carlos voei três vezes. Tenho uma parceria com a prefeitura em que eles me põem no balão e em troca cedo algumas fotos da cidade para eles. Possuo uma foto de balão, do piloto Feodor (Nenov) aqui de Piracicaba, que representou a Confederação Brasileira de Fotografia, num concurso em Andorra. A foto não foi premiada, mas selecionada junto com mais dez fotografias brasileiras. Estes concursos e mostras me estimulam a aprofundar no conhecimento da fotografia. Mês passado enviei fotos com meu amigo César Trimer para um concurso em Jaú chamado 2° Concurso de Fotografia Fateclique. A foto de César conquistou a segunda colocação e a minha, de uma gatinha fotografada no Engenho Central, conquistou menção honrosa.

Gatinha. © Essio Pallone Filho

Gatinha. © Essio Pallone Filho

Faço um paralelo entre os movimentos culturais de São Carlos e de Piracicaba. E como é ser fotógrafo em São Carlos?

Eu diria que no Estado de São Paulo neste eixo que a gente se encontra, pelas rodovias Bandeirantes, Anhanguera, Washington Luiz, até Ribeirão Preto faz parte de um grupo de cidades economicamente fortes. Boas estradas, ótima infraestrutura e no ramo da fotografia, muito parecidas. O forte são eventos, para ganhar dinheiro. A maioria dos fotógrafos estão neste segmento, depois vêm às formaturas, batizados, aniversários, confraternizações e por aí vai. Se você quiser ser um fotógrafo de still ou autoral é difícil. Em relação aos movimentos fotográficos, São Carlos teve dois fotoclubes fortes. Primeiro foi o Foto Cine Clube Sancarlense, que no ano passado resgatei sua história e realizei uma exposição no Sesc de São Carlos, com o apoio do Chico Galvão, que já foi programador cultural do Sesc Piracicaba. Em 1957 o Foto Cine Clube Sancarlense deixou de existir e então surgiu o Íris Foto Grupo. O Íris tinha um fotógrafo em especial chamado Paulo Pires que encabeçava o grupo. Todos os fotoclubes tem que ter alguém que encabece não para mandar, mas para tomar decisões, falar, conquistar espaços, promover concursos e entender mais de fotografia que os outros membros para dividir este conhecimento. O grupo fez um ótimo trabalho e teve grande influência em São Carlos. Todas as pessoas que gostavam de fotografia passavam pelo crivo do Pires para serem aceitas no grupo. Foi um grupo fechado e pequeno. Realizaram e participaram de concursos, vencendo alguns. O Pires ganhou inúmeros prêmios, até o Kikito conquistou, mas aí teve problemas de saúde e o Íris deixou de existir. Hoje em São Carlos temos um grupo de nove amigos fotógrafos chamado Fotosseio, que é uma brincadeira com as palavras “passeio fotográfico”. Estamos juntos desde 2005 com o único objetivo de fotografar e trocar informações. Há integrantes no grupo que estão passando do filme para o digital. Para algumas pessoas esta transposição foi relativamente fácil, mas para a grande maioria é difícil, principalmente para aquele que quer a fotografia esmerada. Primeiro você tem que descobrir os recursos da máquina digital, que são vários; você vai medir luz sem um fotômetro, pois o fotógrafo de filme usa um fotômetro manual. Ele ia até o assunto e marcava privilegiando as altas luzes ou as baixas luzes, ou uma média das luzes e fazia duas ou três fotos. Já a maioria dos fotógrafos que trabalham com digital fazem quinze fotos do mesmo assunto e depois escolhe a melhor. Eu não sei como isso vai fazer as pessoas aprender a fotografar. A única coisa é que vai fazer um monte de foto e será bom para o fabricante, pois queimará o CCD e terá que comprar outra máquina. As máquinas digitais top de linha têm validade de 150 mil fotos, já as top de linha de filmes, suportavam mais de 300 mil fotos.

Passeio fotográfico - 100 anos de Guião. © Essio Pallone Filho

Passeio fotográfico – 100 anos de Guião. © Essio Pallone Filho

Você tem uma ligação estreita com o Sesc, como surgiu esta parceria?

O primeiro passeio fotográfico do qual participei e fui um dos organizadores, foi junto com o Sesc de Piracicaba. A programadora cultural era na época e continua sendo a Marilia Azevedo Grillo. O passeio teve o nome de Ver Verão dentro do programa Sesc Verão. Foi então que passei a me interessar por passeios fotográficos. Neste período que fiz o passeio, algumas pessoas interessadas em fotografia e com o apoio do Sesc, foi criado o Núcleo Piracicabano de Fotografia. No primeiro encontra havia aproximadamente 60 pessoas. Mas fotógrafos são divididos em duas partes, o fotógrafo e o ego do fotógrafo. Não vou dizer que não tenho o meu, pois estes dois são difíceis de conviver.  Então o grupo foi reduzido e sobraram 15 membros. Realizávamos saídas fotográficas e participamos de uma saída em São Paulo, com a organização do fotógrafo Iatã Cannabrava com mais de 500 fotógrafos. Por causa do Sesc me reaproximei de São Carlos, minha irmã trabalhava na unidade de lá e junto com sua amiga Sueli, vieram para Piracicaba por causa da Bienal Naïfs do Brasil, e dormiram na minha casa. A Sueli encontrou uma garrafa cheia de fotografias em casa e disse que queria isso lá em São Carlos. Negociamos e fizemos uma exposição chamada Fotogarrafada que também foi para a unidade de São José do Rio Preto.

Fotogarrafada. © Essio Pallone Filho

Fotogarrafada. © Essio Pallone Filho

Piracicaba ou São Carlos?

Uma escolha difícil foram 30 anos em Piracicaba e tenho uma relação boa com muitas pessoas que nela vivem. Também conquistei muitas coisas materiais aqui. São Carlos foi o local que nasci e vivi minha infância, minha família é de lá. Mas tem uma terceira cidade, que moram duas das minhas três filhas – a Fabiana e a Renata – que é Poços de Caldas, também gosto muito.

E as fotografias de fazendas, como é este trabalho?

Em 1999 fui a São Carlos, participar de uma oficina promovida pelo Sesc com o fotógrafo Cláudio Edinger para fotografar a Fazenda Pinhal, pertencente a família Botelho. Foi aí que deu o start em fotografar fazendas. Comecei a frequentá-las e em 2002 houve um projeto em que comecei fotografar várias fazendas em São Carlos. Um tempo depois conheci o proprietário da Fazenda Nova em Mococa, e fiz dois calendários com as fotos de sua propriedade. Hoje tenho uma coleção de imagens de 60 fazendas no Estado de São Paulo e tenho mais 15 fazendas programadas para fotografar. Fiz duas exposições com estas imagens, as duas com o nome de Fazendas Paulistas. A primeira foram fotos de gente, a maior parte de boias-frias na colheita da cana. Na segunda exposição, mostrei vinte e cinco fazendas com mais uma foto de um detalhe da mesma. Para uma fazenda existir necessitava ter pelo menos uma igreja, serralheria, casa de colono, salão de festas e a casa do barão – geralmente imponente e num lugar estratégico para que tivesse uma visão de boa parte de sua propriedade. A Fazenda Santa Cecília em Cajuru tem uma história interessante sobre seu ex-dono, o Sampaio Moreira. Ele foi um industrial e morava na Av. Paulista em São Paulo. Todos seus vizinhos tinham imóveis ali porque eram barões do café e Moreira era o único que não tinha fazenda. Por conta disso enviou um funcionário ao interior do Estado para encontrar uma fazenda e comprá-la.  A Fazenda Santa Cecília tem aproximadamente 3.600 alqueires, com uma estação ferroviária maravilhosa, levada por Moreira.

Fazenda Pinhal. © Essio Pallone Filho

Fazenda Pinhal. © Essio Pallone Filho

Quando vou fotografar arquitetura levo um tripé que chega a quase três metros de altura. Para usá-lo também carrego uma escada de três degraus para alcançá-lo. Isso faz a diferença, pois na altura do chão, às vezes você registra muito chão e pouco céu na foto. Não adianta inclinar, pois tem a questão da perspectiva – vertical é vertical e horizontal é horizontal – tem que entender. Por isso carrego tudo isso comigo, tripé, escada, mais a bolsa cheia, é o esmero e o capricho que faz a diferença. Não possuo infelizmente, como o nobre colega de arte Ansel Adams, uma station wagon, um carro que em cima ele acoplou uma plataforma para colocar seu tripé. Se eu tivesse a lente de correção de paralelismo ou uma câmera de grande formato para corrigir a perspectiva, beleza. Mas não possuo e o fotógrafo não pode ter preguiça.

Há uma foto minha da Fazenda Santa Maria em São Carlos, que foi capa da revista Autoban. Para fazê-la subi em uma escada que estava sobre um trator dentro de uma carroceria de uma carreta. Eu estava a 4 metros do chão, pois era um sobrado e queria registrar suas linhas perfeitamente paralelas.

Fazenda Ibicaba. © Essio Pallone Filho

Fazenda Ibicaba. © Essio Pallone Filho

De que forma você cuida do seu acervo fotográfico?

Para responder esta pergunta vou te contar uma história. Meu primeiro emprego fui Operador de Máquina de Perfuração, na empresa Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Trabalhava no meio do nada, eram os operadores, as máquinas e a natureza. Depois trabalhei no almoxarifado da empresa PRM CPRM. Ali aprendi a ter disciplina para poder armazenar 35 mil itens que chegavam e saíam. Hoje meu arquivo fotográfico, tanto filme quanto digital, é organizado por ordem cronológica. Junto a isso tenho uma planilha de Excel em que coloco o dia da fotografia e de cada fotograma tem as informações do assunto geral registrado. Para os negativos fiz uma cópia de cada fotograma no tamanho 10x15cm, são aproximadamente 40 mil fotos. No digital o acervo é de 60 mil imagens. Fotografia de filme e fotografia digital são duas coisas distintas, situações, captações e resultados diferentes. Um negativo te dá outra resposta do digital. A fotografia digital tem em celular e têm lá no acelerador de partículas na Suíça, com 145 mil megapixels.

Quem são suas referências na fotografia?

O meu grande inspirador é o Ansel Adams, um perfeccionista da fotografia. Ele tem três livros publicados pela Editora Senac, A Câmera, O Negativo e A Cópia, que são uma bíblia. Leia e aprenda o seu conteúdo que irá adquirir uma base de conhecimento suficiente para ser um bom fotógrafo. Outros nomes: Marc Ferrez, Militão, Paulo Pires, Eduardo Salvatore, Sebastião Salgado, Gal Oppido, Juca Martins… Se eu ficar pensando vão aparecer vários nomes, há tem o Robert Doisneau, mas a memória agora “ferrou”, são muitas referências.

Rita Lee - Bossa n'roll. © Essio Pallone Filho

Rita Lee – Bossa n’roll. © Essio Pallone Filho

Em algum momento a fotografia te decepcionou?

O prazer de fotografar e o que estou fotografando não me dão nenhum tipo de decepção. A decepção vem do mercado profissional, em que o trabalho do fotógrafo não se remunera o que de fato vale. É difícil colocar no preço seu conhecimento e o esmero pelo trabalho, leva quase sempre o melhor preço. Se você acredita que qualquer um pode fotografar seu casamento, significa que seu casamento não vai durar muito tempo. (risos). Penso por aí. E agora a situação está bem complexa, pois a referência da fotografia hoje, todo mundo acha que a fotografia nasceu digital. A fotografia nasceu no século XIX, o primeiro registro em 3D foi em 1937. Era um par de fotografias em que você usava um instrumento chamado estereoscópico para ver o efeito. Na década de 50 foi moda o filme de terceira dimensão. Quando eu era criança meus pais me levaram no Cine Metro em São Paulo, para assistir um filme de demonstração em 3D. Todo mundo de óculos e aí começou o filme e na cena mostra uma pedra despencando de um morro. Meu pai não teve dúvidas, agachou atrás da cadeira da frente para as pedras não caírem em cima dele.  Isso foi na década de 50 e as pessoas acham que estas tecnologias nasceram hoje.

O que a fotografia representa para você?

Quando a fotografia começou as pessoas tinham medo de serem fotografadas, porque acreditavam que ela roubavam suas almas. Na realidade eu acredito que no retrato, o fotógrafo só consegue registrar aquilo que a pessoa transmite a ele. O enquadramento e a luz são apenas componentes da fotografia. Tem uma foto famosa do Winston Churchill em que ele está muito bravo. Percebendo a irritação do Churchill que reclamava pela demora do retrato, o fotógrafo, malicioso, esperou até o momento em que ele estava próximo a esmurrá-lo. Então capturou o sentimento que o retratado quis transmitir para a foto. Um dia um senhor no CLQ me pediu para deixá-lo bonito na foto. Disse a ele que só fotografaria o que conseguisse ou quisesse me mostrar. Quando a fotografia não é de gente eu situo ela como registro, e o trabalhar do fotógrafo para este registro é quando ele põe a sua alma ali. Retrato a alma vem de lá e registro a alma vai para lá.

Para encerrar, quando eu tinha treze anos queria ser piloto de Fórmula 1, só em 1993 acreditei que a fotografia era a alma da minha vida. Me dedico a ela de corpo e alma.

Engenho Central. © Essio Pallone Filho

Engenho Central. © Essio Pallone Filho

Anúncios
Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Roberto Ascari

Roberto Ascari. © 2012. Fábio Mendes.

O linense Roberto Ascari completará em setembro, no dia três, 62 anos de vida. Mesmo que as profecias Maias estejam corretas, ele terá a chance de – literalmente – apagar as velas do bolo. Como o fim do mundo foi prometido para dezembro, tenho tempo de mostrar para vocês um pouco da história deste fotógrafo e grande amigo, que me colocou no mundo da fotografia. Roberto tem 44 anos de profissão como fotógrafo e lojista, exatamente nesta ordem. Nascido, criado e formado profissionalmente na cidade de Lins, região centro-oeste do estado de São Paulo, a fotografia trouxe Roberto para Piracicaba. Ficou encantado pela cidade e decidiu transformá-la em lar. Trouxe sua mulher, a Dalva e aqui criou e educou seus dois filhos, o Guilherme e a Vivian. Está em “Pira” há 31 anos e já foi adotado pelo Lugar Onde o Peixe Para, é um piracicabano. Conheci o Roberto quando fui contratado para trabalhar na loja de fotografias, Zoom Bischof. A loja possuía laboratório para revelação e impressão de fotos para alta produção no tamanho 10×15 cm, que são as fotos “normais de 1 hora”, como os clientes pediam. A minha irmã Leila já trabalhava no Zoom e me indicou para o Roberto que era o gerente, e na confiança fui contratado. Foram doze anos da minha vida com a família Ascari. Com eles cresci, passei da adolescência para fase adulta, tiveram muita paciência com as minhas determinações e atitudes imaturas, mas aproveitei cada espaço físico e intelectual que puderam me oferecer. Todas estas decisões, posturas e crenças que pratico diariamente, são reflexos das inter-relações que me constituem como homem. Na minha pele e alma habita um pedaço do meu pai, mãe, irmãos, amigos, desafetos e da família Ascari – mais com o Roberto e Guilherme com quem o contato foi diário. Sou grato pela porta que me abriram e continuo traçando o caminho indicado.

Boa leitura!

Como foi o início com a fotografia?

Iniciei em 1968 numa empresa que se chamava Foto Euclydes, em Lins. Meu pai era amigo de um dos donos e então fui convidado a trabalhar ali. Comecei como auxiliar de “tudo”. Primeiro no laboratório lavando e fixando fotografias. Depois de dois, três meses aprendi a fotografar. Nesta época fotografava muito bailes de debutantes. Nestes bailes eu era treinado não para fotografar, mas para trocar filmes das câmeras. Eram Rolleiflex com filmes de 12 poses. Cinco fotógrafos e cinco pessoas para trocar os filmes das máquinas. Assim eu observava como fotografavam. Depois de seis meses comecei fotografar minha família e meus amigos para treinar. Até que chegou o momento de fotografar profissionalmente. Foi uma festa junina, em uma chácara, dos funcionários do hospital Santa Casa. Esta festa marcou para mim. Depois de “certa” hora, o pessoal já havia bebido bastante e o sanfoneiro da festa, usava uma perna de pau que sumiu. Foram encontra-la na fogueira e quase virou carvão. (risos). Esse foi o início, depois comecei a fotografar bailes de debutantes, outros eventos e fui crescendo junto com a empresa.

Um ano depois a empresa começou a fazer um trabalho que se chamava Salão da Criança (o trabalho era escolher uma cidade e a empresa enviava vinte fotógrafos e vinte vendedores. Primeiro o vendedor passava de porta em porta oferecendo fotos das crianças da casa, se houvesse, e no outro dia o fotógrafo realizava a sessão), então começamos a fotografar em outras cidades. Foi quando conheci Piracicaba, em 1969. A cidade marcou para mim, fiquei com ela na cabeça, tinha até bonde. Ficamos hospedados no Hotel Brasil, na rua Boa Morte onde o bonde passava em frente ao hotel. Havia o rio, a Agronomia (Esalq) e vários outros lugares bonitos que ficaram guardados em minha mente.

Roberto na CIA Fotográfica Euclydes em Lins, anos 60. Foto: Arquivo pessoal.

Em 1975 eu saí do Foto Euclydes. Neste ano a empresa possuía 400 funcionários e tinha laboratório colorido. Fui para São Paulo trabalhar na Procolor, no departamento que cuidava das grandes ampliações. Lá fazíamos painéis com emenda de cinco por dez metros. Era uma sala enorme e para segurar o papel na parede havia uma bomba de sucção que o prendia.  Fiquei dois anos no laboratório. Por problemas de saúde – eu que já estava casado – a minha mulher Dalva deu a luz a gêmeos, mas nasceram prematuros. Então o médico nos aconselhou a não ficar em São Paulo devido ao clima que não seria bom às crianças que estavam debilitadas. Então recebi um convite para trabalhar em um laboratório da Curti no Rio de Janeiro e não aceitei pela distância e as condições financeiras também não agradaram. A Procolor me fez uma proposta para trabalhar no interior do Estado. Voltei para Lins. O trabalho seria coletar serviços de fotografias na região. Eu coletava de Lins a Bauru e de Lins a Três Lagoas. Um dia eu ia até Bauru passando pelas cidades da região e no outro o mesmo serviço só que na região de Três Lagoas. No final do dia eu depositava os serviços no correio que iriam para o laboratório de São Paulo e retirava os que já estavam prontos. Fiquei dois anos e meio nesta rotina até que recebi um convite para trabalhar na CIA Fotográfica Irmão Hirano em Tupã. Eles não tinham loja, somente laboratório e equipe para fotografar formaturas. Durante uma conversa um dos proprietários da Hirano me perguntou se caso ele abrisse uma loja em Lins, eu iria trabalhar para eles lá. Disse que sim, pois estaria em casa. Fiquei um ano e meio nesta loja quando ele me chamou novamente com nova proposta. Disse que expandiriam o negócio* e me ofereceu a escolher trabalhar em, Ribeirão Preto, Bauru, Araraquara, Piracicaba, Sorocaba ou Campinas. Escolhi Piracicaba. Em 1981 cheguei aqui.

*A Hirano criou a rede Jetcolor com várias lojas de fotografias espalhadas pelo Brasil.


Lins foi uma cidade de muitos fotógrafos?

Sim, foi por causa do Foto Euclides. Como eu disse a empresa teve 400 funcionários e chegou a ter dois aviões. A Hirano também tinha dois aviões. A concorrência era esta, Lins com o Foto Euclides e Tupã com a Hirano. Só que a Euclides foi a pioneira, como consumia muito químico a Kodak dava muita assistência disponibilizando cursos mensais para nós funcionários. Fiz vários cursos, foi uma escola trabalhar no Euclides. A loja tinha doze “ampliadoristas” em doze cabines e cada um fazia de 2 mil a 2,5 mil fotos diariamente no tamanho 24×30 cm. O projeto Salão da Criança cobria o Estado de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Mais de cem fotógrafos trabalhavam para a empresa. Eu fui o sétimo funcionário da Euclides e depois de sete anos havia 400. A ascensão foi rápida, só que infelizmente eles entraram num trabalho em fazer toda a identificação do Brasil. O Registro de Identidade seria produzido dentro de uma área da Polícia Federal com a finalidade de termos uma identidade única no país. O Foto Euclides ganhou a concorrência. O governo exigiu da empresa que todos os laboratórios fossem construídos em áreas reservadas nos prédios da Polícia Federal. O início foi no Rio de Janeiro. Gastaram milhões para construir os locais que seriam instalados os laboratórios e equipamentos. Quando começou a produção o governo “estancou”, decidiu que não faria mais desta forma. Foi assim que quebrou o Foto Euclides, pois focaram muito tempo e dinheiro neste projeto e outros que deixaram para trás não conseguiram mais recuperar. Os proprietários eram o Eudorides e Antonio Aguiar.

Foto Euclydes, anos 60. Na parede, foto dos veículos da empresa. Foto: Arquivo pessoal.


Como era ser fotógrafo nos anos 70 e que equipamento usava?

Sempre fotografei nesta época com negativo 6×6 e Rolleiflex. Foi difícil comparado com a tecnologia de hoje. Era tudo no cálculo. O diafragma era aberto e fechado a cada nova distância. Mas era muito boa esta época. O fotógrafo nos anos 70 era muito respeitado, muito querido, tinha evento que você se sentia mais importante que a pessoa que te contratava. Nos bailes de debutantes, nós fotógrafos todos jovens, às vezes criávamos problemas com os outros rapazes da cidade em que estávamos trabalhando. As meninas ficavam todas ouriçadas com a gente, sabe como é, moço de outra cidade de smoking, a empresa era organizada. (risos) Hoje é diferente, “poluiu” a profissão.

Baile de debutante em Pirassununga, anos 70. Roberto posa ao lado da estrela da festa, o ator Flávio Galvão. Foto: Arquivo pessoal.

Baile de debutante em Mococa-SP, anos 70. Em destaque o grupo musical Os 3 do Rio e Roberto com a sua calça branca. Foto: Arquivo pessoal.


E como foi fotografar em Piracicaba na década de 80?

Tive muitos problemas com os fotógrafos daqui. Vim para gerenciar a loja e tinha metas a cumprir. A empresa quando se instalou em Piracicaba queria agregar todo o segmento da fotografia, além das revelações fazer coberturas de eventos sociais. Então montei uma equipe e contratei um relações públicas, mas a maioria dos fotógrafos contratados vinham de Tupã. Praticamente todos os funcionários da empresa fotografavam e eu tinha que chamá-los. A empresa se transformou em concorrente dos fotógrafos daqui e eu fui o “culpado”. Eu dizia para alguns fotógrafos que não adiantavam ficarem bravos comigo, apenas cumpria ordens. Um dos primeiros fotógrafos que quebrou esta estranheza foi o finado Celita. Eu gostava de futebol e um dia fui jogar no clube Ítalo e o Celita estava lá. Aproximamos-nos e na conversa contei a ele sobre a minha dificuldade com os fotógrafos daqui por eu ter que contratar os serviços de Tupã. Foi a primeira pessoa que entendeu o meu problema. Ele até me confessou que fazia uma imagem diferente de mim. Eu tinha uma meta de fazer reportagem fotográfica de dez casamentos por sábado ou até mais, já fiz até vinte casamentos num sábado pela empresa e a prioridade era trazer os nossos funcionários para fotografar. Além disso, eu tinha que gerenciar os outros setores da loja que era de médio porte, havia 18 funcionários. Mas no início fiquei com uma imagem negativa perante os fotógrafos. Fui administrando até que em 1986 a Jetcolor começou a passar por problemas financeiros, cresceram muito rápido e não se organizaram adequadamente. Já tinham perdido um mercado muito bom que eram as formaturas. Deixaram de lado e deram atenção só para as lojas. Surgiu então o grupo da Iguatemi da cidade de Marília, que comprou a rede Jetcolor. Acontece que a Iguatemi não trabalhava com funcionários homens, só com mulheres. Era assim em todos os setores, só o dono da rede que era homem. Começou a transição e depois de seis meses eu saí. Tínhamos duas lojas na rua Governador Pedro de Toledo.

Roberto se prepara para as fotos aéreas da cidade de Lins e região. Foto: Arquivo pessoal.


Ficou desempregado?

Recebi um convite para trabalhar em Santo André. Eu teria que gerenciar um mini shopping que tinha quatro lojas de fotografia. Fui mas senti que os meus filhos, Guilherme e Viviam, sentiriam dificuldades naquela realidade. Um dia, por acaso, reencontrei o Carlos Simon, um lojista de São Paulo que já havia conhecido e me perguntou o que eu estava fazendo ali. Expliquei o que havia acontecido e então ele me disse que eu não ficaria naquele lugar. Havia montado uma loja em Ribeirão Preto e queria me levar para lá. Durante a negociação ele me perguntou como era o mercado em Piracicaba. Comentei que não havia na cidade loja de revelação em 1 hora. Então ele me propôs montar uma loja em Piracicaba, o que para mim seria melhor. Mandou-me encontrar um endereço para montar a loja. Procurando me encontrei com o fotógrafo Jorge, que tinha loja na rua Governador Pedro de Toledo mas sem laboratório. Todo o serviço que ele captava enviava a São Paulo. Só que a população da cidade já cobrava um serviço mais rápido. Campinas já revelava em 1 hora, por que Piracicaba não? Também uma loja da Outsubo estava instalada na cidade e revelava com o prazo de um dia. Por conta destas dificuldades o Jorge aceitou a parceria, ele entrou com a loja e o Simon com os equipamentos que revelavam em 1 hora. Foi assim que nasceu o Zoom Bischof, em 1991. Trabalhávamos com público amador e profissional. Ficamos na rua Governador até o ano de 2000 quando foi vendido o ponto comercial.  Reabrimos a loja em outro ponto na rua Moraes Barros.

Entre este tempo em que o Zoom esteve na rua Governador,  eu com o Simon, adquirimos a loja Spavieri. Nesta época o Jorge não estava mais na sociedade, na separação ele ficou com outra loja que tínhamos na rua XV de Novembro.


Voltando para o Jetcolor, este local foi o celeiro de vários fotógrafos da cidade. Quem passou por ali?

Pelo Jetcolor passaram o Antonio Prezotto, o Luizinho que estudava engenharia na Unimep e fazia uns “bicos” com a gente. Cláudio Franchi, Élcio Fabretti, Marcelo Germano, Bolly Vieira, Maria que tem loja em Charqueada, Arlete que casou e se mudou para São Paulo, todos aprenderam a fotografar ali. Tem mais gente que me escapa da memória. Ah, tem o Milton Maiolo. De funcionários foram estes, eu acho, mas de free-lance foi muito mais. O Antonio Prezotto foi o primeiro, ele entrou na Jetcolor para trabalhar de relações públicas. Foi o Prezotto que trouxe o Bolly e o Élcio para a loja.

Tinha muito casamento, às vezes cinco, seis na Igreja Matriz da Vila Rezende, eu cuidava da cerimônia religiosa enquanto outros fotógrafos iam para a festa e Esalq.

Em frente ao Clube Ítalo, hoje Societá Italiana, encontro de fotógrafos. A partir do fundo da esq. para a dir.: Nicolau, Nélio Ferraz de Arruda (ex-prefeito de Piracicaba), Idálio Filetti, Cícero, Pauléo e Mário Penatti. Fued e Celita. William Zerbetto, Kenji Kawai, Davi Negri, Jorge, Mário Corvina, Turin e Nogueira. Décio Fonseca, Diógenes Banzatto, Bolly Vieira, Roberto Ascari e Marcos Muzzi. Anos 80. Foto: Arquivo pessoal.


Sei que é uma conversa velha e até chata, mas para você que além de fotógrafo é lojista como foi sentir na pele a transição do analógico para o digital? Qual a sua percepção depois de tamanha transformação?

O digital foi uma surpresa para muita gente. Até a Fuji e Kodak não esperavam que a transição fosse rápida como foi. Veja a situação destas empresas hoje. Mas agora se percebe as vantagens do digital. Abriu um mercado para qualquer pessoa fotografar. Você consegue comprar um equipamento fotográfico com vários recursos a baixos preços. Com três mil reais dá para comprar uma ótima câmera. Para quem presta serviço está ótimo, já para quem revela piorou. As fotos hoje ficam armazenadas em mídias e de 10 mil fotos feitas, enviam 10 para serem reveladas. O lance da foto é a curiosidade e no digital vê a foto quase no mesmo instante que fotografou. Na época do analógico abria a loja na segunda-feira formavam-se filas de pessoas para deixar seu filme para revelar e tinham pressa de ver as fotos. O auge aqui em Piracicaba foi no Jetcolor quando captamos 600 rolos de filmes em apenas um dia. O digital sacia a curiosidade e a revelação fica para depois, isso quando revela. Grandes empresas e fotógrafos tradicionais sumiram.


Conte um momento no Zoom Bischof?

No tempo do Bischof tinha a Leila Mendes, que era uma excelente profissional uma laboratorista de primeira linha. Outros bons funcionários foram a Ana Mendes, que continua com a gente, a Sandra Novaes, Vivian Nazato e o Fábio Mendes.  Um belo dia o Fábio veio e pediu a conta. Estranhei e perguntei o motivo. Ele disse que seria goleiro. Fiquei quieto e de repente chega a Leila e me pede, pelo amor de Deus para não dar a conta para ele. Fui lá, tentei convencê-lo, mas não teve jeito, saiu para ser goleiro. A mãe dele foi conversar comigo para eu não deixá-lo sair só que eu não podia fazer nada, não podia segurá-lo. Daí foi o Fábio embora treinar e eu conhecia o treinador dele, que era o Dimas. Perguntei a ele sobre o goleiro e ele me disse que era muito cedo para ele. Quando fala que é muito cedo no futebol é que não vai dar em nada. “Fábio volta trabalhar!” Aí o Fábio voltou. (risos)

Cumprimento ao candidato a Deputado Federal, Lula, em frente ao Zoom Bischof, na rua Governador Pedro de Toledo. Foto: Arquivo pessoal.


Algum momento marcante como fotógrafo?

Tive vários. Fotografei o advogado Roberto Abreu Sodré, Paulo Maluf, Clodovil, Gal Costa, a maioria fazendo free-lance para o jornal de Lins. Tenho várias histórias de casamentos, noivas que ficavam das 17h até, às 20h, dentro do carro e nada do noivo aparecer. Presenciei arranjo de flores na igreja caírem em cima de noivo e vários outros fatos engraçados. São momentos engraçados e tristes, como no caso dos noivos que não aparecem, que já presenciei. O gostoso é que tem casamento que fotografei em 1986 que não me lembrava mais e me param na rua para me cumprimentar pelas fotografias que fiz em seu casamento. Já aconteceu de me procurarem para fotografar o aniversário de 15 anos de filhos de casais que fotografei o casamento.

Triste foi uma vez que foram colocar o bolo na mesa e ele caiu todo no chão. Daí a noiva chorava porque não haveria a famosa foto com os padrinhos perto do bolo. Teve um dia que eu tinha dois casamentos, um deles era de um amigo. Como os horários do evento eram o mesmo enquanto eu fotografava um, enviei outro fotógrafo para o casamento do meu amigo. Quando encerrei o que eu estava fazendo fui fotografar a festa do meu amigo, que já estava no final. Só que parecia um velório. Este meu amigo havia tido um filho com outra mulher e esta o avisou que se ele se casasse com outra mulher estragaria seu casamento.  Como a situação era sigilosa, ele se cercou de segurança por todo o lado. Mas no meio da cerimônia acredito que o segurança bobeou e ela entrou. Quando o padre perguntou se havia algum impedimento ela gritou, tem sim e ergueu o menino dizendo, “olha o filhe desse…”.

Outro caso também foi na Igreja Nossa Senhora Aparecida. O padre era um japonês que morava com sua irmã. Um dia fui lá fotografar um casamento e costumava chegar meia hora antes da cerimônia. Desci do carro e a irmã do padre já me chamou dizendo que iria dar problema o casamento. Perguntei o motivo e ela disse que apareceu uma mulher nervosa dizendo que quem iria se casar era o seu namorado.  Logo chegou o noivo, um crioulo alto, e a irmã do padre foi logo o avisando. Ele ficou preocupado e quando os convidados estavam chegando apareceu a suposta namorada com uma faca enorme. O noivo correu para os fundos da igreja e entrou numa sala e a mulher com a faca procurando ele. De repente chegou uma amiga desta mulher com uma barra de ferro. Queriam pegar o noivo de qualquer jeito. Aquilo se transformou em uma confusão até que chegou a polícia. O problema é que nem os policiais conseguiam pegar as mulheres de tão alteradas que estavam, diziam que só sairiam dali depois de matar o noivo. Com o tempo conseguiram acalmá-las e convenceram-nas a irem embora. Mas depois durante a cerimônia o noivo olhava mais para trás nas portas da igreja do que para o padre, com medo que a mulher voltasse para pegá-lo. (risos)

E teve outro casamento muito engraçado. Na igreja da matriz da Vila Rezende era um casamento atrás do outro. Eu tinha três casamentos neste dia. Fotografei um, esperei o próximo, fotografei mais um, esperei novamente e fotografaria o último casamento que era às 21h30. Em um dos intervalos, fui ao bar que tem na esquina da igreja para tomar uma água. Comprei a água e vi um grupo de rapazes bebendo e no meio notei um rapaz moreno vestido inteiro de branco. Terminei a água e voltei para a igreja esperar a hora do meu casamento. Chegou o momento a noiva apareceu e cadê o noivo? Espera, espera, espera e o padre Jorge ficava nervoso, ele foi lá fora e fez a noiva entrar até o altar. Alguém o descobriu no bar, era o de roupa branca que eu tinha visto e disse que iria buscá-lo. Daí entra o cidadão pelo corredor da igreja chorando com as mãos no rosto. Em vez de a noiva entrar chorando, como era costume, foi o noivo que entrou. Ele chorou a cerimônia inteira que nem uma criança. Todos na igreja davam risada de ver a situação do noivo, até o padre Jorge dava risada. (risos)


Durante uma conversa que tive com o fotógrafo Cláudio Franchi, ele disse que tinha saudades do encontro dos fotógrafos nas segundas-feiras em frente à loja Zoom Bischof. Ali todos contavam suas vitórias, derrotas e momentos cômicos dos trabalhos do final de semana. A fotografia te deu muitas amizades com outros fotógrafos?

Mais ou menos. Eu era concorrente deles, mas evitava. Se algum cliente dissesse que já tinha cotado o trabalho de fulano eu nem entrava na concorrência pelo serviço. Só que eu tinha que fotografar também, pois o que eu ganhava não era suficiente para bancar os estudos dos meus filhos. Havia fotógrafos que não se importavam, mas outros ficavam com um pé atrás comigo. Conversava dava tapinhas nas costas, mas depois falava mal, não aceitava a situação. O grupo que se reunia era bom, tirando alguns que se achavam melhores que os outros.


Tem um fotógrafo na cidade que se chama Altamiro. Lembro-me que ele ficava parado em frente a Zoom Bischof quase o dia todo. Tentei conversar com ele algumas vezes, mas não obtive sucesso. Você conhece a história deste fotógrafo?

O Altamiro morava no bairro Vila Sônia. Um dia ele arrumou uma câmera Olympus Trip e começou a fotografar as famílias do seu bairro e levava para revelar na loja. Só que ele era alcoólatra e também sofreu um acidente, me parece que foi uma explosão que não sei maiores detalhes. Por conta disso ficou com dificuldades para conversar. Pouca gente entendia o que ele falava. Eu era uma das pessoas que dava atenção a ele e entendia um pouco do que ele dizia. Acredito que por isso ele ficava ali e até gostava. Tinha dia que chegava pela manhã e ia embora quase ao final do expediente. O problema é que ele voltou a beber e começou a incomodar os clientes. Enquanto ficava na dele eu não me importava só que fui obrigado a afastá-lo dali pelo transtorno que ele se transformou para os clientes. De vez em quando eu o vejo andando pela cidade. Parece que até hoje ele faz as fotos no seu bairro e no bairro Parque Orlando. Igual o trabalho que o Altamiro realizava, havia o Renê Mesquita, o “Nézinho do Jegue”, este fazia foto para ver em binóculo de crianças, sentada num carneirinho pintado de vermelho e amarelo. Tem uma história triste dele. Ele foi para São Paulo passar um fim de ano e resolveu levar o seu carneirinho para fazer um “bico” por lá. Foi quando o carneiro sumiu e ele descobriu que mataram e comeram o seu bichinho. Ele chorava porque mataram o seu carneirinho, era o seu ganha-pão. Ficou tão decepcionado que largou a fotografia. (risos)

Quantos fotógrafos como estes que eu ajudei. Vários não tinham dinheiro para comprar o filme. Eu entregava o filme na confiança a eles fotografavam, recebiam e depois me pagavam corretamente. Tiveram alguns que ajudei e levei prejuízo, mas faz parte do negócio, como costumam falar.


Quais foram as suas referências na sua profissão?

Quando eu comecei a fotografar as minhas referências se chamavam Euclydes Bredariol e Santos Garcia dois fotógrafos competentes da Foto Euclides, os dois são de Lins. Não erravam foco, nem abertura, me espelhei neles.  Aqui em Piracicaba eu gostava muito do trabalho do Henrique Spavieri e Christiano Diehl. Como eu revelava olhei o trabalho de muitos fotógrafos gostava de ver. Até hoje gosto de olhar. Tem amador que tem uma capacidade de fotografar impressionante. No fotojornalismo não tem ninguém igual ao Pauléo. Cada um se especializa em uma área. O Christiano, por exemplo, em fotografia aérea não tem igual. No casamento tem o Cláudio Franchi e o Filipe Paes que se dedicaram a este segmento. São fotógrafos que não pararam no tempo, estão sempre se atualizando.


São quarenta e três anos de fotografia, quais os planos na profissão agora?

Planos? Já deixei tudo para o meu filho, Guilherme. Daqui pra frente quero só ficar maneiro. Já me aposentei.


O que a fotografia representa em sua vida?

Representou tudo, pois é por conta dela que tenho o que possuo. E representa ainda hoje, pois continuo sobrevivendo dela. Posso não estar tão empenhado hoje, mas continuo lendo e acompanhando as novidades da área. Se precisar também fotografo com digital, não tenho nenhuma dificuldade. Mexo no computador, trabalho as fotos no photoshop. Gosto muito deste trabalho.

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , ,

Christiano Diehl

Nascido em Charqueada, Christiano Diehl Neto, 55, é fotógrafo e editor de fotografia do jornal Gazeta de Piracicaba. Até chegar a esta posição na profissão, Diehl passou por outras redações piracicabanas e de São Paulo. Viveu intensamente o final da ditadura militar no Brasil como fotógrafo e já perdeu filme para milico. Esteve presente nas grandes greves dos metalúrgicos paulistas e acompanhou o início do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, quando este era líder sindical. Trabalhou na sucursal de O Globo em São Paulo e na redação da Folha de S. Paulo. Mas foi no jornal do Partido Comunista Brasileiro que quase foi fotografar uma guerra latino-americana. Aqui em Piracicaba passou pelas redações do Diário de Piracicaba, Jornal de Piracicaba, assessoria de imprensa da prefeitura e foi até lojista. Fotografou grandes histórias piracicabanas tornando-se um profissional respeitável em nossa cidade. Christiano Diehl é um fotógrafo que literalmente dá o sangue pela profissão, como verificará na entrevista.

Christiano Diehl Neto. © 2012. Fábio Mendes.

Como foi o seu primeiro contato com a fotografia?

Eu morava em um sítio que se chama Vila Santa Luzia pertencente ao município de Charqueada-SP. Durante uma visita à Piracicaba na casa de um primo, Nivaldo Davanzo, ele tinha por hobby a fotografia. Possuía um quarto escuro em sua casa, ampliador e toda a “parafernalha” necessária para a produção e revelação de fotografia. Eu tinha 13 anos e fiquei curioso com tudo aquilo e perguntei a ele para quê serviam aquelas coisas. Meu primo mostrou-me como era feito o processo da fotografia. Colocou o negativo no ampliador, queimou o papel e fez a imagem aparecer no banho químico. Fiquei fascinado e aquilo não me saía mais da cabeça. Voltei para a minha rotina, mas sempre pensando em fotografia. Dois anos depois minha família mudou-se para Piracicaba e comecei a trabalhar numa financiadora de carros, depois escritório de contabilidade como office-boy, mas sempre desejando trabalhar com fotografia. Quando a loja Cine Foto Outsubo se instalou em Piracicaba na rua XV de Novembro, eu tinha um primo que trabalhava lá, o Roberto Diehl. Abriu uma vaga para auxiliar de laboratório fui lá, pedi o emprego e me aceitaram. Eu tinha uns 15, 16 anos, revelava filmes e lavava e secava fotos. Também aprendi a ampliar fotos Depois disso nunca mais abandonei a fotografia.  Junto a este trabalho eu estudava química no Colégio Dom Bosco. Depois de um ano estudando avisei a minha mãe que gostaria de ser somente fotógrafo em tempo integral. Não suportava química, ficar mexendo naqueles “tubinhos”. Ela não gostou, mas entendeu e até hoje fotografo.

Depois de um ano e meio no Outsubo fui trabalhar na Galeria Foto, que na época era a loja de fotografia mais forte na cidade. Tinha um volume muito grande de serviço. A loja existe até hoje na Galeria Gianetti. Neste trabalho comecei a fotografar profissionalmente eventos de empresas, casamentos e tudo mais neste segmento. Fiquei bom tempo na Galeria. Os proprietários eram o Carlos Alberto Cantarelli, fotógrafo antiguíssimo de Piracicaba e o Nelson que é proprietário até hoje. Depois trabalhei em estúdio de foto para documentação e então fui convidado para trabalhar num estúdio em Americana que tinha um nível mais profissional, pois além dos eventos, fotografava bastantes indústrias. De volta a Piracicaba fui trabalhar no jornal Diário de Piracicaba, Assessoria de Imprensa da prefeitura de Piracicaba na gestão do prefeito João Herrmann Neto e Jornal de Piracicaba. Na prefeitura, dois anos antes de terminar o mandato, João Herrmann criou um jornal no formato tabloide. Era semanal ese chamava Jornal do Povo. Foi aí que comecei no jornalismo, era 1977/78. Ele trouxe para editar este jornal o Paulo Markun, que foi apresentador do programa Roda Viva na TV Cultura, o Bonifácio Placeres, o Peninha, diagramador que era da Gazeta Mercantil e os repórteres eram a Filomena Sayão, hoje trabalha em uma agência de notícias em São Paulo, Valter Puga e Roberto Cabrini, que começou com a gente fazendo esporte. Também a Angela Furlan que é editora da Gazeta de Piracicaba, passou pelo Jornal do Povo. O jornal teve uma vida curta, foram dois anos. Em 1979 fechou no mês de fevereiro em. Estávamos na redação eu, Markun e Peninha quando soubemos do fechamento. Era 21h30 e o Markun sugeriu de irmos embora para São Paulo pedir emprego. Fui para casa fiz uma pequena mala de roupas e saímos os três num carro rumo a São Paulo. Chegamos e fomos direto para um bar que se chamava Quincas Borba Bar. A ideia do bar foi do Markun, pois o local era frequentado por muitos jornalistas. Chegando lá havia muitos repórteres, ilustradores e cartunistas. Ali estavam o Elifas Andreato, vários artistas, como a Bruna Lombardi e seu marido Carlos Alberto Riccelli e mais um monte de jornalistas do Globo e Estadão. Quando o Markun chegou fizeram àquela festa, “ê Piracicaba, encerrou lá?”, gritavam. Ele disse que estavam os três pedindo emprego e que ficaríamos na mesa do canto, se alguém soubesse de algum trabalho que fosse até a nossa mesa. Meia hora depois chegou um “cara” e nos disse que havia vaga no O Globo. No dia seguinte fomos lá e já começamos a trabalhar. Depois fui para a Folha de S. Paulo onde fiquei por um bom tempo. Acontece que o meu pai ficou enfermo, uma doença terminal e tive que voltar para Piracicaba. Antes de ele falecer eu já frequentava o estúdio do Henrique Spavieri e ele me passava trabalhos, pois eu tinha experiência em estúdio. Ele me ofereceu sociedade aceitei e trabalhamos juntos por dezessete anos.

Em primeiro plano o fotógrafo Christiano Diehl “pitando” um cigarro. © Arquivo Christiano Diehl.

Maestro Enrst Mahle. © Christiano Diehl.

Como foi a sua passagem pelo Jornal do Povo e como estava a política social piracicabana no fim da década de 70 e início da década de 80?

O João Herrmann Neto foi um prefeito polêmico, sua gestão foi agitada. Ele trouxe dois congressos da UNE (União Nacional dos Estudantes) em seu mandato, o que na época estava proibido, pois a UNE era considerada uma entidade ilegal. Também fez uma campanha muito forte para salvar o Rio Piracicaba. Entrou em sérias discussões com o governador Paulo Maluf por causa da barragem que retirava grande volume de água dos formadores do Rio Piracicaba e assim diminuía muito sua vazão. Numa dessas discussões ele “xingou” o governador , foi processado e teve que pagar uma multa. Pagou-a em moedas (risos).

Congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

O prefeito João Herrmann Neto discursa durante o congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

O sindicalista Luis Inácio Lula da Silva participa do congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

Protesto contra a retirada da águas do Rio Piracicaba pela Sabesp para abastecer a cidade de São Paulo. © Christiano Diehl.

Protesto contra a retirada da águas do Rio Piracicaba pela Sabesp para abastecer a cidade de São Paulo. © Christiano Diehl.

Você teve algum problema com a ditadura?

Tive. Eu estava cobrindo um comício em frente ao gabinete da prefeitura. Estava o Fernando Morais, Fernando Henrique Cardoso entre outros. De repente chegou o Dops e retiraram a câmera das minhas mãos, tiraram o rolo de filme e o levaram embora. Outro caso foi quando eu estava em um barzinho na rua Boa Morte com meus amigos de trabalho. Era final do expediente e tinha um pessoal estranho no bar.  De repente o dono do bar pede para a gente se retirar e não frequentar mais o local. Havia muitos homens da polícia infiltrados nas universidades, principalmente na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). Eu tinha um primo que era sargento, no 5° Gecam em Campinas, e ele me dizia que havia policiais infiltrados na Esalq, nos movimentos estudantis e DCEs. Era assim que agiam. Na época que foi preso o Francisco Salgot Castillon, prefeito de Piracicaba, foi o meu primo que montou guarda para o Salgot. Também montou guarda quando o Cecílio Elias Netto foi preso. Era conturbada a época. Também tive um caso, em São Paulo, quando começaram as greves no início do PT e do Lula. Fui cobrir uma destas greves, me derrubaram e novamente retiraram a minha câmera e pisaram nela.

Trotes e passeata realizada por estudantes da Esalq. © Christiano Diehl.

Trotes e passeata realizada por estudantes da Esalq. © Christiano Diehl.

Somente fazia o seu trabalho ou também militava?

Não tinha como não se envolver, pois 98% dos jornalistas eram de esquerda. A cicatriz que tenho nos lábios “ganhei” cobrindo uma greve. O proprietário da indústria me viu fotografando a greve dos seus funcionários e me deu um soco na boca. Ele usava um anel de formatura e isso fez um enorme corte em meus lábios.

Foi em Piracicaba?

Foi em Charqueada na empresa Viva Bem Rivaben.

Por que fechou o Jornal do Povo?

João Herrmann criou um jornal extremamente político, para fazer campanha, mostrar o seu trabalho. Engraçado que ele aceitava críticas. Ligava para o editor e dizia que havia um pessoal de um bairro reclamando, pedia para o repórter “meter a boca” no prefeito e na prefeitura. Quando acabou a sua administração acabou o jornal. Quase não havia propagandas por causa da ideologia, então não tinha como se sustentar.

Oscar Niemeyer. © Christiano Diehl.

E no Diário de Piracicaba, como foi a passagem por lá?

Tive momentos muito bons no Diário. Aprendi muito com o Cecílio, é um jornalista brilhante. Um dos melhores “pena” de Piracicaba. Concorde ou não, a forma como ele escreve é brilhante. O Cecílio dava liberdade para a gente trabalhar e nos incentivava votar na melhor reportagem e melhor foto do mês. Aos ganhadores era oferecido um jantar no Restaurante Arapuca na Rua do Porto como um brinde. Era muito saudável esta ação.

Grande Otelo fugiu do hospital no Rio de Janeiro, internado com suspeita de edema pulmonar, veio de táxi à Piracicaba prestigiar o cinema que fora inaugurado com o seu nome. © Christiano Diehl.

Com quem trabalhou na redação do Diário?

Com fotógrafos trabalhei com o Diógenes Banzatto, Davi Negri e Nelson Campos com quem montei um estúdio e trabalhamos anos juntos. Até hoje fazemos alguns serviços, é um grande amigo que tenho e um ótimo fotógrafo.

Por quanto tempo trabalhou nesta redação?

Uns três, quatro anos. A minha saída foi logo após esta greve que levei o soco na boca.

E no Jornal de Piracicaba?

No JP fique por mais tempo.  Mas era simultâneo, fazia trabalho para o JP e para o estúdio que eu era sócio com o Henrique Spavieri. Nós fazíamos muitos trabalhos para o jornal no estúdio, produção de moda, social, personalidades e as reportagens que eu fazíamos nas ruas. No JP era eu o Pauléo e o Henrique. Depois veio o Bolly, que está até hoje como editor. Foi uns 16 anos de JP.

O cartunista Henfil durante o Salão de Humor de Piracicaba. © Christiano Diehl.

A loja Buda Som, que também era sua e do Henrique Spavieri foi referência no ramo da fotografia, como foi conciliar a carreira de fotógrafo e lojista?

Já tínhamos uma pequena loja na rua do Rosário. O Buda Som foi o seguinte, nós éramos sócios do estúdio e ali prestávamos serviços. O Henrique sempre quis montar uma loja e o Shiraga, proprietário da loja queria vendê-la para aposentar-se. A oportunidade apareceu e compramos. Importamos a primeira máquina de revelação na hora de Piracicaba, comum em lojas de fotografia hoje. Era da marca Noritsu e veio direto do Japão.

Quando você saiu do JP e do Buda Som ficou por um tempo fora das redações até retornar no jornal A Gazeta de Piracicaba. O que fotografou neste período?

Tenho uma empresa que se chama Diehl Estúdio Fotográfico e presto serviços fotográficos. Fotos industriais, publicidade e o meu forte que são as fotos aéreas que corresponde quase 80% do meu trabalho fora da Gazeta.

Como foi o convite para voltar a atuar em uma redação?

Apesar de ter esta empresa deixei muitos amigos pelas redações, o Lourenço Tayar é um destes amigos. Ele saiu do JP, me ligou e disse que estava alugando uma casa grande e sabia que o meu espaço era pequeno. Eu estava locado em um edifício na rua XV de Novembro. Avisou que havia uma sala grande e gostaria que eu fosse trabalhar junto com ele nesta casa. Instalei-me e sem me contar já estava com a ideia de montar um jornal. Ele pagava o aluguel e eu pagava a parte que ocupava. Continuava com as minhas fotos industriais e um dia me chamou com a Gazeta de Cambuí em mãos, que tem o mesmo formato da Gazeta de Piracicaba. Disse que era o jornal que montaria em Piracicaba e que gostaria que eu trabalhasse com ele. Fui o primeiro a ser chamado para trabalhar na Gazeta. Ele montou toda a estrutura e voltei ao fotojornalismo que é o que está em meu sangue.

O garoto que fumava “bitucas”. © Christiano Diehl.

Faça um recorte da sua vida em trabalhar com a fotografia na cidade de Piracicaba, nas décadas de 70, 80, 90 e dias atuais.

Fotografar quando eu comecei, não tinha “chute”, tinha que ter certeza do que estava fazendo. Não dava para “brincar” com foto como se faz hoje com a digital. Ficar fazendo inúmeros testes muda o ISO aqui, muda o ISO ali. Não saía com um monte de filme, era tudo caro. Trabalhávamos com economia. Eu saía para fazer várias pautas com dois no máximo três rolos de filme. Hoje tira duzentas fotos em um cartão que cabe mil. E no mesmo cartão pode alterar o ISO e imediatamente ver o resultado. As duzentas fotos da pauta de hoje eram dez fotos no negativo. Só que as dez tinham que sair boas, não podia perder. Ah, e filme que o jornal disponibilizava era de ISO 400. Às vezes trabalhava com ele “puxado”. Mas era aí o problema, diferente do cartão de memória não dava para trocar o ISO no mesmo filme. Pois o filme “puxado” exigia uma revelação “puxada”.  As pautas noturnas de polícia, eventos e futebol eu já saía com o filme puxado em 1600 ou 3200. Era tudo mais trabalhoso. Chagava da pauta, revelava o filme, secava rapidamente e ampliava. Mas tinha que esmaltar a foto para secá-la rapidamente em uma esmaltadora. Melhorava a impressão o brilho do esmalte, não podia ser fosco. O que compensava era o amor pelo que eu fazia, não só eu, mas todos que trabalharam desta forma. Não importávamos passar a noite na redação. Perdi a conta das noites que dormia em cima dos jornais e acordava as quatro, cinco horas da manhã. Hoje também é bom, prazeroso, só que mais tranquilo. É só inserir o cartão no computador e descarregar todo aquele monte de foto.

Festa do Divino. © Christiano Diehl.

Fale mais sobre o seu trabalho em São Paulo?

Foi uma experiência muito boa. As matérias que cobri por lá me deu uma ótima “bagagem”. Peguei o processo que o Lula iniciou com o levante dos metalúrgicos. Tenho foto da época que o Luiz Medeiros era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. Junto com o Lula eles iniciaram a greve geral. Paralisou toda a cidade de São Paulo. Era o ano de 1980. Nesta época também trabalhei em um jornal que se chamava Voz Unidade, que era o jornal oficial do PCB (Partido Comunista Brasileiro), na época um partido ilegal. Ali tinha que trabalhar escondido. Quando o PCB se juntou ao Lula, para realizar o levante dos metalúrgicos, eu estava em Piracicaba dormindo. Era umas dez horas da noite quando telefonaram em minha casa. Era do jornal Voz Unidade e avisaram-me para estar domingo bem cedo num endereço que me passaram, para fotografar a reunião entre os líderes do PCB, Giocondo Dias, Salomão Malina, Hércules Corrêa com o Lula, Vicentinho, Alemão e toda a cúpula do PT. A reunião foi secreta e foi para organizar o movimento da Vila Euclides. Eu fotografava para o PCB e não tinha nenhum fotógrafo nesta reunião.

Um momento marcante com a fotografia?

Não sei se foi o mais marcante, mas a mais polêmica foi em 1978 quando o João Herrmann e mais alguns líderes do PMDB, montaram uma frente de prefeitos do partido. Tinha o Luis Henrique – prefeito de Joinvile – que se tornou governador de Santa Catarina, o prefeito de Limeira, de São João da Boa Vista que era o Nelsinho Nicolau e vários outros. A primeira reunião desta frente foi em Joinvile, a segunda o João Herrmann trouxe para Piracicaba no Teatro Municipal. Eu estava ali como fotógrafo do gabinete do prefeito. Montaram uma mesa no palco que ocupavam as duas pontas com toda a cúpula do PMDB. Começava com o Ulisses Guimarães e terminava na outra extremidade com o vereador, Miltinho da Silva de Piracicaba. Na mesa estavam Franco Montoro, Ulisses Guimarães, João Herrmann, Ruth Escobar, Fernando Moraes e Alberto Goldman. O teatro estava cheio e como era época da ditadura toda a imprensa de Piracicaba, região e do Estado estavam presentes. Fiz todas as fotos e quando o João Herrmann foi encerrar o evento, eu estava lá em cima na fila B, sentado no degrau ao lado do Nelsinho Nicolau. A câmera estava no chão só que preparada para fotografar a última fala do João. Tudo ligado, câmera, flash, com a lente já puxada no zoom e focada. O João adorava discursar, eram apoteóticos seus discursos. Nestes dias, havia uma peça que iria estrear no teatro que se chamava Bent. Contava a história de um casal homossexual presos em um campo de concentração nazista. No cenário da peça desciam três enormes bandeiras, que ocupavam do teto até o chão do palco, com a suástica nazista. E estava eu ali aguardando para fotografar o João e boa parte da imprensa já havia ido embora. Filmadoras desligadas e os profissionais batendo papo, loucos para ir a um barzinho. O pessoal de fora queria conhecer a Rua do Porto para comer um “peixinho”. No encerramento de seu discurso o João Herrmann disse, “nós temos que nos unir e é contra isso que vamos lutar”, e combinou com o pessoal da área técnica que quando ele dissesse isso, desceriam as três bandeiras com as suásticas já instaladas no palco do teatro. Pediu um movimento bem rápido, as bandeiras desciam e imediatamente subiam. Só que ele se esqueceu das imagens e o que isso poderia gerar. Quando desceu eu vi aquilo e fiz duas fotos. Quando o pessoal da mesa virou para trás e viram as bandeiras, queriam se jogar para baixo da mesa para não sair nas fotos. Quando fiquei em pé e fiz as fotos, todos viraram para trás e perceberam que só eu tinha registrado o momento. Resumindo, deu a maior confusão. Todo mundo queria a foto, comprar a foto, o pessoal da Folha de S. Paulo pediu para eu por o preço na foto, o Estadão a mesma proposta, o motivo desta reunião era para lançar o candidato da oposição para concorrer à presidência. Eu, trabalhando para a Assessoria de Imprensa da Prefeitura dizia que não podia entregar ou vender a foto. Terminada a reunião toda a cúpula se reuniu no fundo do teatro e o João Hermann pediu para me chamar. Cheguei lá e ele me perguntou se eu tinha feito à foto e eu disse que sim. “Tem certeza?”, perguntou-me novamente e eu disse que sim. “Então vai embora com este material, vá para a sua casa e deixa a gente resolver aqui”, ordenou ele. Eram 2h e o João me liga em casa e pediu para eu voltar na reunião. Todos continuavam no teatro. “Está com a câmera?”, perguntou-me o João. Disse que estava. “Suma com esse material e amanhã cedo conversamos na prefeitura”, ordenou ele novamente. Revelei a foto e não deu “outra”, foco de ponta a ponta.

Foto permitida do Seminário Nacional de Prefeitos do PMDB. © Christiano Diehl.

O presidente da república João Figueiredo. © Christiano Diehl.

Não foi publicada?

Não foi. Na época eu também era partidário, de esquerda. Vieram uns agentes de São Paulo e me ofereceram muito dinheiro pela foto e eu dizia que não tinha mais, já tinha entregado-a para o meu empregador. Daí eles me perguntavam se pelo menos eu tinha a mesa formada e eu dizia que esta foto todos os fotógrafos tinham. Como eles sabiam que só eu tinha feito aquela, me fizeram a seguinte proposta. Eu venderia a foto da mesa e iria para Americana fotografar a peça Bent, que já tinha deixado Piracicaba. Entendeu o que queriam né? Poderiam falar que era autentica, pois a foto era do único fotógrafo que registrou o momento das bandeiras. Se eles conseguissem esta imagem, iriam empastelar o país dizendo que o MDB era um partido pró-nazista. Desestruturariam todo um trabalho de oposição. Acredito que nem conseguiriam realizar as Diretas Já.

Millôr Fernandes. © Christiano Diehl.

Que história! E momentos engraçados têm?

Tem uma com o Pauléo, fotografando a enchente no mesmo dia que o Adilson Maluf assumiu a prefeitura de Piracicaba. Fotografei a posse no gabinete da prefeitura que ficava em uma casa na rua do Rosário esquina com a rua São José, em que está instalado hoje  a Uniodonto. Terminei as fotos na prefeitura e já desci com o Pauléo na Rua do Porto. Estava frio e garoando.

Estava fotografando para qual jornal?

Para o Diário. Descemos e fotografamos. Inclusive estas fotos foram expostas na exposição Amandy de 2011. Para realizar as fotos, entrávamos nas ruas inundadas de calça, blusa plástica dupla face, câmera e bolsa penduradas e eu estava com uma bota cano curto de couro que tinha um zíper do lado e um salto carrapeta. Combinamos de entrar nas águas até sentirmos que era seguro. Entramos pela rua Morais Barros, e fomos descendo até atingir uma árvore grande em frente ao antigo Clube Regatas. O Pauléo fez uma foto minha dentro da água. Ficamos muito tempo nas águas e o pessoal que estava dentro do barracão da Irmandade do Divino tinham um garrafão de pinga que tomavam para amenizar o frio. Eles nos ofereciam e nós dois tomávamos também. Tomava um gole entrava na água e fotografava. Voltava bebia outro gole e para dentro da água novamente. O frio começou anestesiar as minhas pernas e o álcool a minha cabeça. (risos). Terminamos as fotos saí de lá peguei o meu carro e fui para casa. Era a hora do almoço e a minha mãe estava esperando eu e meu irmão para almoçarmos juntos. Comecei a subir a rampa de casa e me deu um “gelo” e comecei a mancar. Quando cheguei à porta da cozinha coloquei a mão no batente e minha mãe me viu branco daquele jeito, além do frio eram as várias pingas, e perguntou o que tinha acontecido. Falei para ela, “mãe, não tenho coragem de olhar para baixo, acho que a minha perna direita encolheu” (risos). Eu tinha perdido o salto carrapeta e não percebi. Quando cheguei até minha casa com a cachaça na cabeça fiquei com medo que a água tivesse encolhido a minha perna. Absurdo o que a bebida faz com a gente (risos).

Enchente do Rio Piracicaba. © Christiano Diehl.

Quais são suas referências na fotografia?

Gosto de vários fotógrafos. Gosto muito do trabalho do Pedro Martinelli. Quando eu estava na Folha gostava das fotos do Fernando Santos e Luis Carlos Murauskas. Trabalhei com o Jorge Araújo também na Folha, um fotógrafo espetacular. Sebastião Salgado, o trabalho que ele produz com branco e preto é fantástico. Não vi ninguém se igualar a ele com seu trabalho documental.

O que ainda não fotografou?

Guerra. Tive chance de ir e não fui por causa de família. Quando eu estava no jornal Voz Unidade, todo mês tinha reunião de avaliação e os jornalistas que cobriam para o PCB na América Latina, uma vez por mês vinham para cobrir a reunião do comitê em São Paulo. Naquela época quem cobria Nicarágua e Honduras era um repórter que se chamava Chico Hardi. Ele veio para entregar a sua avaliação de como estava o movimento comunista nestes países e pediu um fotógrafo para voltar com ele. Ofereceram-me a chance de ir. Eu queria, mas a minha mulher e a minha mãe quase teve um enfarte e o meu pai já não estava bem. Disse a eles que ficava para a próxima. Mas eu não sei hoje gostaria de fazer uma cobertura de guerra. É difícil não se envolver, pois sou muito emotivo. Acho que não faria um bom trabalho.

© Christiano Diehl.

O que a fotografia representa em sua vida?

É difícil de responder. Ela é muito importante em minha vida. Comecei a fotografar com 17 anos e hoje estou com 55, posso dizer que ela está comigo a vida toda. Por tudo o que olho, vejo foto. Vicia tanto o olhar que enquadro toda a cena que vejo. É muito gostoso. A fotografia nos ensina a ver as coisas mais belas e mais feias. As belas prevalecem. De um panorama você consegue captar um detalhe, parece que o nosso olho tem um zoom. Por exemplo, quando eu estava te esperando no hall, havia uma planta contra a luz, não sei o nome dela, as folhas parece uma espada, com bordas brancas e espinhos pretos. A luz contra a fez formar um leque perfeito dentro de um recorte em toda a planta. É assim que o fotógrafo enxerga. A fotografia te ensina a ver as coisas mais bonitas.

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Mateus Medeiros

Mateus Medeiros. © 2011. Fábio Mendes

A entrevista deste mês é com o fotógrafo Mateus Medeiros. Acima de um excelente profissional, tenho o Mateus como um grande amigo. Crescemos quase que juntos na profissão, ele um pouco antes de mim. Mateus carrega um coração imenso de amor, apesar do seu jeito “brucutu”, quem realmente o conhece sabe que é um doce de pessoa. Fiel aos amigos é um cara que os defende com unhas e dentes e faz da sua profissão uma filosofia de vida. Hoje Mateus fotografa para o Sindicato dos Metalúrgicos.

Conheça um pouco mais da história deste imenso fotógrafo piracicabano de 42 anos e pai de dois lindos filhos.

Boa leitura!

Como foi o início com a fotografia?

Eu nem imaginava que trabalharia com fotografia, tinha meus vinte e poucos anos e continuava sem uma profissão, estudava, mas estava procurando emprego. Fui ao Shopping Piracicaba, que tinha acabado de ser inaugurado, em 1991 para ver se encontrava algum trabalho, pois a minha mãe estava pegando no meu pé. Precisavam de um auxiliar para laboratório em uma loja de fotografia. Quando olhei aquele aquário (nome popular do minilab, pois é cercado por vidros) eu nem imaginava o que faziam lá dentro. Acho que foi destino trabalhar com fotografia. Entrei na loja e quem me atendeu foi o Humberto Alves de Oliveira, que era encarregado de minilab e me disse para voltar na próxima segunda-feira. De volta à loja com o currículo em mãos, descobri que o trabalho era revelar filmes fotográficos. Fiz um treinamento e deu certo. Foi o início. A loja era a Curt Laboratório Fotográfico, na época a maior rede de minilab da América Latina, a primeira loja de revelação em 1 hora de Piracicaba. Fui aprendendo e crescendo no minilab e de tanto ver câmeras fotográficas resolvi comprar uma, mas pedi ao Humberto alguma que só precisasse apertar o botão. Daí ele me questionou o porquê da facilidade e expliquei que eu não sabia fotografar. Pouco tempo depois, chegou à loja uma câmera Olympus “pretinha” que fazia tudo e com uma novidade, tirava os olhos vermelhos das pessoas. Ao lado desta câmera na prateleira havia uma Minolta Seagull que era reflex, com uma lente 50 mm, 1.4f. O preço da Minolta era alto e com o meu salário não conseguiria comprá-la, por isso nem me interessei. Disse ao Humberto que queria tirar retratos e fotos caseiras. Ele me disse para eu ficar com a Minolta, mas já respondi que ele estava louco, não conseguiria pagá-la. Também não iria conseguir mexer com aquela câmera. Foi quando ele disse que me ensinava. Coincidentemente dias depois desta conversa chegou um estúdio – na verdade uma cabine para fotos 3×4 – na loja e uma Nikon FM2 com uma “puta” lente 200 mm. Nas horas vagas o Humberto me ensinou a fotografar ali na cabine e o pessoal da loja começou a elogiar minhas fotos, “nossa que close bonito que você fez que expressão bonita que pegou da criança”, pensei, “caraca acho que é isso!”. Chamei o Humberto e disse a ele que ficaria com a Minolta, desde que me ensinasse. Foi então que me contou sua história, que veio de Goiás e que por lá fotografava casamentos. Ele tinha muita facilidade para ensinar. Só que em vez de comprar a Minolta, primeiro comprei uma Praktica MTL3 da Viviane, não me lembro o seu sobrenome, que tinha uma loja no bairro Vila Fátima e fazia fotos 3×4. Depois de um tempo guardei uma grana e aí sim comprei a Minolta. Eu fotografava de tudo, não saía de casa sem a câmera, a minha mãe achava que eu estava maluco, pois comecei tirar fotos de mosquitos no varal (risos). Pense eu com uma 50 mm fotografando esses mosquitos? Tinha que me aproximar bem, claro que na maioria das tentativas o mosquito ia embora, registrar um era difícil (risos). Fotografava flores e fiz muitas fotos da minha mãe. Profissionalmente comecei com fotos sociais, casamentos, aniversários e batizados e este último foi o primeiro trabalho que fiz.

Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Como captava os primeiros trabalhos?

Não me sentia seguro para fechar contratos era muita responsabilidade. Eu fotografava para o Francisco Franco, mais conhecido como Chico do Jupiá. O Grande Hotel em Águas de São Pedro era seu cliente, trabalhei anos ali. Pela loja eu captava meus clientes. Neste momento já tinha o meu flash Frata 140. Ah, também trabalhei para o Wlade, com ele fotografei várias formaturas.

Como se aperfeiçoava tecnicamente? Fazia cursos, frequentou alguma escola especializada?

Eu consumia muito fotografia, mas em livros, revistas e vídeos. Paguei caríssimo de uma vídeoaula da revista Iris Foto.

Você disse que começou a fazer fotos de eventos sociais, mas era um trabalho paralelo à loja em que trabalhava?

Isso. Na Color Center que mudou de nome para Quality Color, hoje Quality Fotografia, com o tempo fui recebendo as promoções de cargo. De auxiliar fui para revelador e mais tarde promovido para impressor. Como impressor eu aprendi muito com a fotografia olhando para os negativos revelados, já sabia quando estava sub-exposto, super-exposto e a correção que eu teria que dar para fazer a impressão daquela imagem. Com isso eu previa nas minhas fotos os erros que não poderia cometer. Como impressor eu ganhava bem, então investi em equipamento fotográfico. Comprei uma Canon EOS-5 e um flash Canon 540. Descobri o que eu queria fazer da vida, fotografar.

Geraldo Alckmin angariando votos em Piracicaba Rio das Pedras no famoso cafézinho. Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Quanto tempo trabalhou em minilab?

Trabalhei três anos na Color Center e então ela faliu. A Quality Color comprou a loja e fiquei por mais seis anos. Saí por um tempo, voltei quando abriram uma loja na rua Governador Pedro de Toledo e fiquei mais três anos. Saí e voltei novamente por mais um ano. Eu saía para comprar equipamento com o dinheiro da rescisão salarial. (risos)

Como entrou para o fotojornalismo?

Trabalhando na Quality Color conheci o Samir Baptista, que estava começando na fotografia também. Conversávamos bastante e um dia ele me disse sobre o Sindicato dos Jornalistas, em São Paulo e a opção de conseguir uma MTB (carteira nacional de jornalista é um documento de identidade, válido em todo o território nacional e só poderá obtê-la o profissional que tenha registro no Ministério do Trabalho) para trabalhar na imprensa. Até então eu nunca tinha feito um trabalho para jornal, mas eu acreditava que era fácil. Quando saí definitivamente do laboratório, comecei a frequentar o Buda Som, loja de fotografia do Henrique Spavieri e do Christiano Diehl. Fiz amizade com eles e nesta época conheci o Bolly Vieira e o Alessandro Maschio. O Spavieri começou a me chamar para fazer alguns trabalhos para ele e então me despertou a vontade de trabalhar em jornal. Movimentei-me para me sindicalizar e tirar a MTB, mas para isso eu precisava de um portfólio com fotos jornalísticas. Conversei com o Spavieri sobre as fotos e comecei a fazer alguns trabalhos para ele voltados para o fotojornalismo. Fiquei sabendo que dariam um curso para repórter fotográfico no Sindicato dos Jornalistas onde no final dariam a tão sonhada MTB. Avisei o Samir e fomos lá fazer. Não foi fácil, foram quatro finais de semana em São Paulo. Juntava a grana da semana que ganhava pelos serviços que eu fazia para o Spavieri,  Bolly e viajava.

Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Como era este curso que premiava com uma MTB?

A procura pelo documento era muito grande, pois sem ele você não conseguiria emprego em nenhum jornal. Daí abriu este curso, uma exceção para os fotógrafos que não tinham diploma. Foi uma porta para conquistar a MTB. Fiz o curso, não perdi uma aula e a prova final era fotografar em São Paulo como se fosse para um jornal. Detalhe, fotografar em cromo, não tinha chance era “foder” ou acertar. A pauta era: o que os paulistanos fazem para se divertir aos domingos. Formamos um grupo que não conhecia a cidade e nos disponibilizaram um instrutor. Ninguém gosta de ficar junto, fotógrafo é individualista para capturar a sua imagem. Levaram-nos ao bairro Bom Retiro e na Av. Paulista, tinha que entregar o material, às 15h30 e, às 14h30 estava na Paulista ainda. O instrutor nos tranquilizou e disse que daria tempo, mas as imagens tinham que ser entregues com legenda, explicar o que era a foto e as informações do local fotografado para um editor que estaria nos esperando. Com meia hora de antecedência chegamos ao sindicato. Organizei o material, mas sentia que eu não conseguiria passar. Eu estava muito inseguro na hora de fotografar, da chapa vinte até o final do rolo, coloquei a câmera no modo programa e “taquei o pau”, assim perdi o curso. Errei, tinha muita área de sombra e como eu disse o cromo não aceita erros. Fui conversar com o editor e ele me disse que até a chapa dezenove eu fui bem, as restantes não havia condições. Fui reprovado e o Samir aprovado. Toda a grana investida, boa parte a minha irmã que me ajudou, foi uma ducha de água fria em minha cabeça.

Voltei para a cidade, continuei com os meus trabalhos com foto social, com o Spavieri e comecei a fazer bastante trabalho para o Bolly. Direto eu perguntava a ele sobre uma possível vaga no Jornal de Piracicaba. Eu perguntava para todos os fotógrafos de lá. Diziam-me que era difícil entrar e o grupo de fotógrafos era bem fechado, mas um grupo do bem! Continuei os meus trabalhos, vários para o Spavieri, ele começou a me inserir no meio jornalístico. Nesse tempo voltei a ligar no Sindicato dos Jornalistas para saber se haveria mais curso para fotógrafo. Deu certo de ser a mesma pessoa de quando eu fiz e ele disse que me encaixaria em uma nova turma. Fui lá, mas desta vez foi diferente. O pessoal do sindicato sentiu a minha necessidade pelo documento e estavam menos frios comigo. Eu também estava mais preparado para o curso, antes da viagem fotografei muito cromo aqui em Piracicaba para me dar mais segurança. A pauta desta vez era moradores de rua. Passei tranquilo.

Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Quanto tempo foi entre os cursos, do primeiro para este último?

Foram três meses. Eu me encontrava com o Bolly na loja Spavieri na rua Boa Morte e avisava-o que logo estaria com a MTB, ele me dava a maior força. Quando liguei em São Paulo para saber do resultado me disseram que fui aprovado, até chorei de emoção. Não foi fácil para eu tirar a MTB.

Você trabalhou bastante com o Henrique Spavieri. Como é esta amizade?

A minha amizade com o Spavieri é de pai para filho. Ele me acolheu quando mais precisei, me ajudou muito. Também ajudei muito ele, foi uma troca justa de trabalhos. E hoje somos muito amigos.

Mateus Medeiros, Reniza e Henrique Spavieri. © 2006. Fábio Mendes.

Voltando a sua história, veio o Jornal de Piracicaba. Como foi a experiência em redação?

Foi difícil entrar para trabalhar ali. Fui amadurecendo a ideia de um dia poder trabalhar no JP. Os fotógrafos dali eram unidos, se respeitavam muito. Quando entrei pude perceber o que foi essa união. Assim que eu conquistei a MTB eu ficava enchendo o “saco” do Bolly para ele me contratar. Na época quem comandava o JP era o Lourenço Tayar. O Bolly conversava comigo, me dizia que precisavam de outro fotógrafo, para fazer as fotos do departamento comercial e era para eu ter paciência. Fiz amizade com os outros fotógrafos de lá e eles sentiram a minha vontade e sabiam que eu teria muito que aprender. Mas a minha esperança estava se esgotando. Já estava um ano e meio com a MTB e nada de JP. Eu já tinha a minha filha e precisava trabalhar, a grana dos freelancers não dava mais. De repente aconteceu uma mudança radical no JP. Muita gente saiu e dentre estes estava o fotógrafo Pauléo. Pouco tempo depois o Bolly me ligou, pediu para eu ficar na retaguarda, pois a vaga iria abrir. Passou uma semana e eu agoniado. Até que ele me ligou, pediu para nos encontrarmos na loja Spavieri e que iria me levar até o jornal. Também avisou que era para levar o meu portfólio e fui lá com ele, uma pasta gigante cheia de fotos. Deu tudo certo. Ele disse que eu faria as fotos comerciais do jornal no lugar do Marcelo Germano que tinha ido para a redação no lugar do Pauléo. Com o tempo e aos poucos o Bolly disse que eu entraria para a redação, assim não me “fritaria” se me jogasse ali dentro sem experiência, começaria pelas beiradas. Ótimo! Em nenhum momento questionei, fui para o comercial. O editor do JP nesta época era o Mário Evangelista. Isso foi em 2001.

Cresci muito no JP não só profissionalmente, mas também na ética. Aprendi a respeitar mais os espaços das pessoas com o Marcelo Germano, Alessandro Maschio, Bolly e Henrique Spavieri. O que me favoreceu ali dentro é que não estacionei. As oportunidades que apareciam ou que o Bolly me dava, eu abraçava. Fazia o trabalho e o Bolly gostava do resultado. O editor Mário Evangelista era uma pessoa muito exigente, todo mundo cresceu trabalhando com ele, o Bolly me falava que jornalisticamente o JP havia dado um salto.

Tomei muita “porrada” no aprendizado para trabalhar em uma redação, mas sempre tive o apoio dos amigos fotógrafos, principalmente do Bolly, nosso editor de fotografia, que segurava a bronca. Precisava chorar, era ali com ele, só que quando tinha que cobrar ele fazia isso bem. Trabalhava com muita gente, era editor de repórter, editor de caderno, editora chefe, tinha que trazer um produto bom da rua, muita gente iria avaliar o resultado. O Bolly me deu muita força, dizia que me daria uma pauta e que eu conseguiria resolver. Eu pegava a pauta e destrinchava. Hoje digo que os fotógrafos com quem trabalhei no JP são meus irmãos e só tenho a agradecer a empresa que foi sempre ótima para mim. Foram oito anos e dez meses e trabalhar no JP foi um sonho realizado.

Marcelo Germano, Bolly Vieira com seu filho Francisco, Mário Evangelista, Henrique Spavieri, Mateus Medeiros com o seu filho Lucca e Alessandro Maschio. © 2008. Fábio Mendes.

Uma história marcante com a fotografia?

Quando eu comecei a me despontar no JP, não ser melhor do que ninguém, pois ali você recebia o seu mérito, mas se começasse a se gabar já te abafavam faziam cair a sua “ficha”. Mas o que me marcou foi ter a possibilidade de fotografar o Papa Bento XVI, junto do ótimo repórter Ronaldo Vitória, fotografei o Cirque du Soleil, shows, festivais de inverno em Campos de Jordão e muito mais. O Bolly me passava estas pautas que eram de super responsabilidade e eu trazia um bom material. Outro momento marcante foi fotografar futebol, fiz fotos do meu time o Palmeiras aqui no Barão de Serra Negra. E claro, fotografar a pobreza, principalmente quando tem criança envolvida é sempre marcante. Inclusive tenho uma foto de uma criança toda suja raspando o garfo no chão e comendo. Era difícil não se envolver, mas eu estava ali para buscar uma foto e me concentrava nisto. Depois na redação é que você começa a relembrar e sentir os problemas retratados.

Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Papa Bento XVI. Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Projetos?

Eu gosto muito de expor meus trabalhos. A minha primeira individual foi Olhares a Beira Rio, a repórter Celiana Perina que escreveu o texto da exposição. Foi muito legal, recebi bastante apoio, inclusive do JP. Mas a primeira exposição foi coletiva com os fotógrafos do JP no Sindicato dos Bancários. A individual foi no Centro Cultural Martha Watts. A ideia desta exposição individual nasceu em Santa Maria da Serra. Tenho um sobrinho que mora ali e é pescador. Eu ia a passeio e comecei a fazer algumas fotos dele pescando e da comunidade ribeirinha. Andava com a máquina e fazia foto de tudo. Minha irmã reclamava dizendo que não me aguentava mais “tirando” fotos. (risos). Mostrei as fotos de Santa Maria da Serra para o Fábio Mendes, na época trabalhava no laboratório da loja Spavieri e me disse que merecia exposição. Com a ideia de expor encorpei o projeto e fui fotografar os pescadores no Rio Piracicaba. Comecei na rampa em frente ao antigo Clube Regatas e desci o rio. Assim nasceu a exposição. Piracicaba precisa de mais espaço para os fotógrafos expor, mas trabalhos sérios não florzinhas e bichinhos. Tem que ter uma história por trás. Eu comecei com o negativo, aprendi no dia-a-dia. Hoje está muito fácil fotografar com o digital. Depois fiz mais uma exposição coletiva com o Cláudio Coradine, Davi Negri, Marcelo Germano e Alessandro Maschio no Sesc Piracicaba sobre esporte, também foi muito legal. A última foi do Amandy, a melhor de todas. O fator maior desta exposição foi a possibilidade de reunir todos os repórteres fotográficos da cidade. Foi fantástico! A exposição foi sobre a enchente do Rio Piracicaba de 2010 e todas as mídias cobriram. Parece que a ideia foi do Antonio Trivelin, fotógrafo da Gazeta de Piracicaba. Ele mostrou suas fotos da enchente para o Sergio Furtuoso, da Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba), e juntos tiveram a ideia de reunir todos nós. As reuniões para a montagem da exposição aconteciam na Acipi e sempre era divertido. O legal era que todas as decisões foram coletivas e reunir o Jornal de Piracicaba, Gazeta de Piracicaba, A Tribuna Piracicabana e Câmara dos Vereadores em um mesmo evento foi show de bola.

Olhares a Beira Rio. Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Esportes. Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Amandy. Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

O que ainda não fotografou?

Um protesto “quente”, uma manifestação com polícia e aquela bagunça toda. Aqui em Piracicaba fotografei a retirada da população que invadiu as casas do bairro Gilda. A polícia avisou dias antes que retiraria os invasores e eu fiquei torcendo para que o Bolly me enviasse para lá, mas já estava certo que quem iria era o Alessandro Maschio. Só que o jornal achou melhor enviar dois fotógrafos. Fomos, eu e o Alessandro, às 5h para lá. Porém não houve resistência por parte dos moradores.

Desocupação Bairro Gilda. Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Desocupação Bairro Gilda. Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Em uma conversa com o Bolly ele me disse que você é fotógrafo de guerra, concordei com ele. O que acha desta observação.

Pode até ser. O Bolly teve um papel fundamental em meu trabalho, não é “rasgar a seda” porque ele sabe as oportunidades que me deu. Ele me jogava nas pautas, sentia que eu podia resolver. Quando vou fazer uma foto, se tiver que deitar no chão, sujar a roupa eu não ligo. Não fico na torcida, vou lá e trago a foto. Agora fotografar uma guerra… Eu sinto vontade sim. Se um dia eu for, algo muito remoto de acontecer eu visto o capacete, o colete e vou para a guerra. Não tenho pudor para fotografar. Só penso na minha foto, o que as pessoas vão achar dela em termos morais eu nem ligo. Um dia fui fazer uma foto do local onde será construído o novo presídio na estrada que vai para Limeira, e conversando com moradores próximos disseram que ali é área de preservação e que a construção do presídio iria acabar com tudo ali. Fui até lá para fotografar essa história. Realmente o lugar é bonito, muitas árvores, um riachinho que forma um riozinho, tem até uma pequena cachoeira. Fiquei no barranco com um Sol bem de frente atrapalhando a foto. Estava eu, o repórter Araripe Castilho e mais duas pessoas da região que nos levaram até o local. A luz não me ajudava, olhei para esquerda, para a direita, pedi para o Araripe segurar a câmera e disse para ele ficar quieto. Tirei a minha camisa, a calça e fiquei só de cueca. Peguei a câmera e entrei no riozinho. Ele não acreditava que eu estava fazendo aquilo e começou a me filmar com o seu celular. (risos). Mas fiz a foto como eu queria, foi capa do dia seguinte. Não faço isso para aparecer, me encomendaram uma foto e tenho que fazer da melhor forma possível. Na redação virou uma “zoação”, eu gordão só de cueca no meio do rio, foi só risada.

Quais são suas referências na fotografia?

Sebastião Salgado, Jorge Araújo e aqui em Piracicaba é Bolly e Alessandro Maschio. O Alessandro me deu muita visão no trabalho. Estes jornalisticamente, no comercial o Marcelo Germano me ensinou muito também.

Defina a fotografia em sua vida.

Ainda busco a fotografia, não tenho “a” foto. A fotografia é a luz que guia o meu caminho.

Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Etiquetado , , , , , , , , , ,

Claudio Franchi

O piracicabano Claudio Alexandre Franchi frequenta quase todos os finais de semana igrejas, sítios, salões e outros variados locais para registrar casamentos. Com sua experiência de vinte e quatro anos, hoje Claudio Franchi, nascido em 04/06/1971 e o seu Studio A são famosos em coberturas fotográficas de uniões matrimoniais e eventos com “muita luz” como ele gosta de dizer. O começo foi difícil como da grande maioria que busca sucesso profissional, e neste ano de 2012 o fotógrafo quer compartilhar o seu “know-how” e oferece curso para quem estiver interessado em tornar-se um fotógrafo de eventos. Pai de três filhos – um menino e duas meninas – é casado e junto à esposa, tem uma companheira de lar e de trabalho, pois ela também fotografa. Segue abaixo um bate papo com o fotógrafo sobre o seu difícil aprendizado em que precisou melhorar sua postura diante do exigente mercado, para conquistar mais e melhores clientes. Uma breve aula para quem pretende entrar e competir nesta profissão.

Claudio Franchi. © 2011. Fábio Mendes.

Como iniciou com a fotografia?

Foi por necessidade financeira. Precisava de um emprego para ajudar a minha família e soube que a loja de fotografia Jetcolor precisava de balconista. A loja ficava na rua Governador Pedro de Toledo em frente a loja Baby Calçados. Havia uma banca de porta retratos e no balcão só mulheres podiam trabalhar. Minha função era olhar esta banca contra “trombadinhas” que poderiam roubar os produtos expostos. A loja fazia uma média de quinze reportagens de casamentos por sábado. Quase todos os fotógrafos da cidade faziam free-lance para a Jetcolor. Eu me interessei e comecei a ajudar os fotógrafos. Fui auxiliar do querido e saudoso, Antonio Prezotto. Isso foi em 1986. Em quatro meses deixei de olhar a banca para cuidar dos equipamentos fotográficos. Havia entre 40 a 50 baterias para recarregá-las toda a semana. Verificava os cabos dos flashes e montava as bolsas dos fotógrafos. O meu patrão era o Roberto Ascari, que hoje comanda a loja Spavieri. Eu também ajudava a montar os álbuns de casamento e isto me despertou uma vontade em fotografar. A Jetcolor abriu as portas para mim. Permitiam-me que levasse os equipamentos para casa nos finais de semana para me aprimorar tecnicamente. Eu levava uma câmera 6×6 – que tem os negativos maiores, de 120 mm – e flash Mecablitz, um equipamento difícil de trabalhar. Eu fotografava a minha família e o pessoal da loja analisava e corrigiam as fotos. Mas era tudo muito complicado, fotografava no final de semana, enviava os filmes na segunda-feira para Tupã e demorava uma semana para revelar. A impressão levava mais vinte dias para ficar pronta. Para você ver uma foto impressa levava um mês.

A Jetcolor foi referência de fotografia na cidade. Havia uma vitrine enorme no interior da loja onde ficavam as fotos dos casamentos, expostos. Os casais que passavam em frente da exposição, entravam e contratavam os serviços da loja. O Antonio Prezotto era o “relações públicas” da empresa. Ele que fechava os contratos dos casamentos. Havia poucos concorrentes nesta época. Eu não sou tão velho assim, mas o único que concorria era o Cícero (Correia dos Santos), que estava parando de fotografar casamentos, ele fotografava muitos clubes e seus carnavais.

© Foto Claudio Franchi/Studio A

Quanto tempo trabalhou nesta empresa?

Fiquei por um ano. Teve um sábado na loja que tivemos vinte casamentos e só havia dezenove fotógrafos. O Roberto me chamou e disse: “Não tem outra opção, você tem que ir”. Questionei que eu não tinha experiência e não tinha nem carteira de habilitação, pois era menor de idade. Mas não teve argumento. A loja tinha um fusca e me levaram até o evento que foi dentro da Usina Costa Pinto. Foi um casamento muito simples. Antigamente os casamentos eram feitos dentro de casa, menos requintados do que são hoje. Fui lá. Fiquei muito nervoso. Fiz oitenta fotos, que na época era um absurdo esta quantidade, pois os filmes tinham apenas doze chapas. Este foi o meu primeiro casamento.

Fotografou sozinho este casamento?

Sim. Na época não tinha equipe, no máximo um auxiliar. Eu auxiliava o Antonio Prezotto. Chamávamos de fotocélula. Não levávamos outras câmeras, era tudo muito simples e rápido. Se o casamento fosse às 18h, chegávamos às 17h45 e às 20h já estávamos em casa. Terminava a cerimônia na igreja, íamos para a Esalq, fazíamos de dez a quinze fotos. Depois partíamos para a festa, que era sempre na casa dos noivos, na cozinha com aquele aperto de tanta gente tinha um bolo com um champagne. Mais dez a quinze fotos. Depois mais fotos dos presentes e ir embora para casa. Não tinha toda a preparação que temos nos dias atuais. Hoje evolui, até demais.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Fora da Jetcolor qual foi o próximo passo?

Eu já quis montar o meu próprio negócio. Só que eu não tinha estrutura financeira. Pedi demissão, pois eles não queriam me mandar embora, ainda era útil para eles. Montei o Studio Classe A, isso em 1987 que ficava na casa da minha mãe. Era ilusório. Tinha uma cozinha, uma mesinha, mas não tinha como comprar os equipamentos.  Daí o pai do meu amigo Fábio Alcarde, o “Seo” Renato Alcarde, a quem sou muito grato, me levou para São Paulo. Disse-me que iria comprar os equipamentos para montar um estúdio junto com o seu filho. Eu não tinha condições de comprar. Minha câmera era uma Pratika TL5, que comprei do fotógrafo Olney Mendes. Eu era doido para pôr pilha na câmera e ver o fotômetro funcionar, que era de “palitinho”. Coloquei a pilha e não funcionou. Levei para consertar no Mário da Vila Rezende e ele me disse que a máquina não tinha nada por dentro, não havia fiação, era só uma caixa com obturador e diafragma. Quando eu disparava o obturador fazia um escândalo. Voltando para São Paulo, chegando lá fomos à rua Conselheiro Crispiniano, que era o sonho da maioria dos fotógrafos andar nesta rua onde tinha muitas lojas de fotografia. Durante a viagem no ônibus o “Seo” Renato me perguntou qual equipamento eu precisava. Na época a “máquina” era a Pentax K1000 que vinha com uma objetiva 50 mm. Também precisava de uma 28mm e um flash Frata. Para a minha surpresa, ele comprou duas K1000, dois flashes, duas bolsas, vários cabos, rádio-célula… Tudo o que eu precisava. Na volta eu parecia uma criança que acabou de ganhar um presente. Tudo novinho, na caixa, nada de Paraguai ou importado, tudo comprado na loja com nota fiscal. De volta em Piracicaba, o “Seo” Renato cedeu-nos uma sala em sua casa, comprou uma escrivaninha, foi na gráfica e fez contrato de casamento com auxilio de um advogado –  que uso até hoje – fez cartão de visita e nos disse: “Agora vocês vão ralar”. Aí começamos, eu e o Fábio a “ralar” na rua São José atrás do clube Palmeirão. Foi o início do Studio A. Tiramos o “Classe”, pois ficava muito grande o nome, Studio Classe A.

O início, ainda como Studio Classe A. © Foto: Arquivo/Claudio Franchi/Studio A

Mas era outra realidade. Quem iria nos contratar? Quem era Studio A? Aonde íamos “pegar” casamentos? Íamos aos cartórios e anotava o nome e endereço de cada noivo que iria se casar. Juntava tudo numa pasta, pegava a moto e ia aos endereços anotados bater na porta para oferecer o nosso serviço. Aqui que mora a Silvia? Aqui que mora o Paulo, que vai se casar? Apresentávamos o trabalho num álbum que levávamos embaixo do braço e mostrava para o (a) noivo (a). Algum casamento fechava, outro não. Mas vários noivos nos xingavam, pois eles davam endereço falso só para casar na igreja da Vila Rezende. O cidadão morava na Paulista e queria casar na Vila Rezende. Pegava qualquer endereço do mesmo bairro da igreja e colocava seu nome como morador. O real morador não agüentava mais atender tantos fotógrafos, pois além de nós, vários outros faziam esta prática. Trabalhamos por três anos neste esquema. Não tinha anúncio, guia de noivos e no jornal nem pensávamos, pois não tínhamos condições financeiras.  Dentro destas aventuras, pois íamos à noite fazer estas visitas, dois moleques, eu com 17 e ele com 16 anos, com uma moto sem carteira de habilitação, nos divertíamos, brincávamos e muitos davam risada da gente e não sabíamos o motivo. Quando fechava um casamento já subíamos na moto gastando o dinheiro, íamos ao shopping e um comprava uma blusa o outro uma calça… E assim era. Eu não tinha nada, nunca tive dinheiro.  O Fábio já era bem de vida. O pai dele sempre teve uma vida estável financeiramente. Para mim tudo era novo. Eu queria comprar, ter uma calça nova, um tênis, às vezes esquecíamos até das despesas relacionadas ao trabalho e gastávamos o dinheiro. Assim fomos trilhando.

Reportagem sobre o seu trabalho realizada em 1991. © Foto: Arquivo/Claudio Franchi/Studio A

Foram sócios até quando?

O “Seo” Renato hoje tem Alzheimer, mas continuo visitando-o. Gosto e devo muito da minha carreira a ele. Mas um dia ele chegou e disse: “Não quero esta vida para o Fábio”. Casamento você trabalha na sexta à noite, sábado à noite e ele gostaria que o Fábio fosse estudar. O que aconteceu e hoje ele é advogado. O pai dele rompeu a sociedade e me pediu para eu pagar da forma que eu pudesse o equipamento. Voltei para a casa da minha mãe. Assim comecei a trabalhar sozinho. Fui pagando o “Seo” Renato mensalmente. Foi em 1990. Trabalhar sozinho foi difícil, um sofrimento.  Eu não tinha mais o respaldo do Fábio e do seu pai. Fui emancipado com 14 anos, para eu poder abrir contas em banco e fazer movimentações financeiras. Daí comecei a correr atrás dos trabalhos sozinho. Já não tinha mais condução, apenas uma Vespa. Quando saía para fotografar o tempo tinha que estar legal. Às vezes eu entrava na igreja para fotografar um casamento e no final da cerimônia estava chovendo. Deixava a Vespa por lá e pegava carona com algum padrinho para ir à festa. Foi difícil, eu persisti mesmo! A instabilidade financeira era demais, pois além das minhas contas eu ajudava meus pais em casa. Vivi nesta labuta por oito anos, não conseguia me destacar no mercado. Eu queria “por a cabeça para fora”, mas não conseguia. Por vezes o trabalho não melhorava pela deficiência dos equipamentos. Lentes, flashes, cabos, tudo muito precário. Eu entrava tenso na igreja para fotografar um casamento. Tinha que torcer para o flash funcionar ou o cabo não quebrar. Algumas vezes pensei em desistir, mas nunca fui de estudar e ler. Sou uma pessoa que tudo que tenho vontade de fazer vou praticar. Admiro quem estuda e lê livros. Fiz apenas dois workshops em minha vida, pois não consigo ficar sentado e ouvir outra pessoa falar, não consigo. Se eu quero fazer uma foto, vou fazê-la do meu jeito.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Voltando as dificuldades, montei uma loja na rua Treze de Maio com estúdio. Comprei um laboratório, um erro enorme, de filme colorido e dei a Vespa de troco. Quando chegou o laboratório já era obsoleto, a pessoa me vendeu de má fé aproveitando da minha inexperiência. No fim fiquei com aquele “elefante branco” que nunca revelei uma foto sequer. Dava para imprimir até 30x40cm neste lab. Tinha estufa, inclusive quem a comprou foi o Henrique Spavieri. Consegui vender as bombas para um cara que mexia com isto e nos tanques plantei flores. Neste endereço as coisas continuavam muito difíceis. Eu não tinha nem aparência para atender os clientes. Tinha vinte poucos anos e sempre estava de bermuda, tênis, camiseta e boné. Comprei um fusca e estava sempre com o som alto. Na época quem se destacava eram, no vídeo o Domenico, que tinha uma estrutura invejável. Ele parava em frente à igreja com o seu furgão e desciam quatro ou cinco funcionários, todos com coletes. O Domenico hoje é meu amigo, mas nesta época ele era arrogante, não olhava na cara de ninguém, mas era o “cara” do casamento. Na fotografia era, quem eu admiro e me orientou muito, o Wilson Ernesto, da Focaliza. Ele foi uma referência no meu trabalho. Sempre o cito em qualquer conversa de fotografia. Vou citar nomes aqui de quem me ajudou, quem não ajudou não citarei nem contra e nem a favor. Um dia o Wilson me perguntou se eu gostava de fotografar. Nós, fotógrafos, tínhamos um ponto de encontro que ficava na loja Zoom Bischof, na rua Governador Pedro de Toledo, em frente a Farmácia do Povo. Na segunda-feira ali era o “point” dos fotógrafos. Todos contando suas histórias com os trabalhos de final de semana. Um contava que o padrinho caiu, outro falava que a máquina quebrou. Num destes dias o Wilson me chamou e falou: “Para você melhorar a primeira coisa é mudar a sua postura. Se eu fosse um cliente e te visse vestido assim não te contrataria. Bermuda, boné e camiseta? Mude a sua postura. Tem que ter um carro bom também. Este seu carro não passa confiança, pois sempre o vejo sujo, já é velho também. Imagine o seu trabalho, o seu álbum?” Aí ele me disse que estava com uma casa no bairro Santa Cecília com cinco vagas para carro na garagem. A casa era de aluguel, mas quem pagava eram os noivos. Ele dizia que os clientes quando viam sua casa já imaginavam que ele era um bom profissional, só pela residência já sentiam confiança. Infelizmente as coisas são assim. O consumidor compra com o olho. Mas depois deste conselho mudei a minha filosofia. É difícil dizer que fui o percussor, talvez alguém fez antes, mas desconheço, eu que iniciei em Piracicaba montar sala para atendimento dos noivos em loja/estúdio. Na minha sala coloquei sanca de gesso, ar condicionado e aí me diferenciei. Tinha dois ambientes com pisos diferentes. A mesa ficava na sala de cima enquanto os clientes aguardavam na sala abaixo. Os clientes me visitavam e depois iam aos concorrentes. Um atendia no balcão da loja, outro na sala de sua casa com o cachorro latindo no quintal ou uma criança chorando. Automaticamente comecei a atender clientes de classe financeira melhor que investiam mais em seus casamentos. Agora eu estava fotografando no Eventus, que era vitrine para qualquer fotógrafo. Encontrei o caminho. Comecei a me produzir fotografava de terno e gravata, adesivei o carro e impus a minha marca. Tudo isso sem ter noção nenhuma de marketing, a vida foi me ensinado. Foi um período que eu tinha apenas um concorrente, que continua na ativa, o Sartorello. Ele é um fotógrafo muito bom, um excelente profissional. É técnico, conhece muito iluminação. Antes de eu “entrar” era ele e também o Buti que dominavam os trabalhos da elite. Até chegar o Cláudio e começar a incomodar, e ficamos pareados os três até que, modéstia a parte, me destaquei mais que os dois, porque fui sempre buscando coisas diferentes. Eu já escaneava fotos e imprimia em papel fotográfico, na foto pxb eu pintava os buquês com aquarela deixando-os coloridos, imprimia a foto em seda e assim fui me diferenciando. Assim me estruturei.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Aí veio o digital.

No início eu desanimei. Saiu a Canon 10D e comprei. Acreditei ter feito o melhor negócio do mundo. Mas ela não dava retorno. Não sincronizava com o flash Metz. Usava o flash da Canon em sua sapata, mas a foto ou saía estourada ou fraca demais. Não tinha jeito, não havia condições de trabalho. Eu fazia o casamento com a digital de um lado e com filme no outro, fazia um pouco de cada. Quando eu mandava revelar as fotos digitais, pois se achava que era só descarregar e imprimir, as fotos vinham granuladas ou desfocadas. O foco não era preciso. As lentes não eram preparadas para as digitais. Pensei comigo, isso aí não vai “pegar” nunca! Tenho uma cultura que não abro mão de iluminação. Não consigo fotografar sozinho, sempre com equipe. O “meu” câmera três, foi treinado para trabalhar sem flash, ficam lindas estas fotos, mas eu não faço, não gosto de fotografar assim. Levo o meu auxiliar com um flash e jogo a luz onde quero. Um bom auxiliar é essencial, pois se ele não trabalha bem estraga sua foto. Sozinho você faz uma foto legal, mas com auxiliar se não souber posicioná-lo você não consegue um bom trabalho. Percebi no digital um fracasso, pois não dava para fotografar da forma como trabalho. Mas estavam em testes, pois logo começaram a chegar “os” equipamentos. Hoje “nem se fala”, você faz o que quer, dá até para brincar. Só que junto com a facilidade em fotografar veio mais trabalho. Com filme trabalhava eu e minha esposa. Hoje preciso de mais quatro pessoas. Um para tratar as fotos, um para editar, um para montar álbum, o meu servidor tem três HDs de 1,5 terabyte. Guardar estes arquivos não é fácil, pois adianta ter uma câmera de 21 megapixels e trabalhar em resolução menor? Trabalho com o melhor, se a extensão raw for o ideal, trabalho em raw. Mas sinto que o digital desvalorizou um pouco o fotógrafo profissional, pois hoje acreditam que todo mundo fotografa, pois todos têm uma câmera. O cara erra e já acerta na próxima. Granulou, está bonito! Na minha época com os filmes, pelo amor de Deus entregar uma foto fora de foco. Hoje é moda! Não a minha.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Eu vi uma reportagem com o Evandro Rocha, gosto e acompanho o seu trabalho. Um dia ele postou em seu blog umas fotos de casamento granuladas, mas deixou claro que foi a pedido do noivo. É muita moda! Há dois anos todo mundo queria fotografia de casamento em estilo jornalismo. Hoje é editorial, que é pose. Everton Rosa que é um “baita” fotógrafo, o seu diferencial é a iluminação, que é o mesmo que busco. Colocar uma noiva em pé com as mãos cruzadas num fundo branco não vejo graça. Eu proporciono fotos com luz, avancei nesta técnica. Fui a uma feira de fotografia em São Paulo onde o expositor falou que o importante é a expressão, não é o foco e nem o enquadramento. Eu não acho. Para mim o importante é o foco, o enquadramento e a expressão. Como que o foco não é importante? Então vamos todos tirar fotos sem foco! Até entendo que o verdadeiro profissional consegue ver uma foto fora de foco e falar, “puta foto”. Mas tem muita foto que você fala, “que porcaria”, porque o cara errou mesmo o foco. Então essas coisas desvalorizam um pouco o fotógrafo. Imagina que você vai fotografar um casamento com filme? Pare e pense. Você tirar duzentas fotos e não sabe o que está saindo. Só na segunda-feira você vai ver o que você fez. Esses que trabalhavam assim eram fotógrafos! Um (flash Frata) “fratinha” em cima e uma máquina na mão. Quatro metros, põe cinco seis. Um metro e meio? Onze. Aí é fotógrafo. Agora pegar uma câmara digital colocar um flash TTL em cima… Não desmereço o digital. Acho lindo, facilitou, mas se você filtrar passa muita gente.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Você aumentou sua estrutura, montou duas lojas com estúdio e reformou o seu escritório. Mesmo com esta facilidade do digital o mercado melhorou? Você se transformou em um empresário.

Eu sempre tive este objetivo de agregar junto ao casamento, loja e estúdio. Mas não tinha condições financeiras, pois não é barato ter e manter uma estrutura com loja e estúdio. Coloquei metas em minha vida e fui galgando. O primeiro objetivo era ter um espaço para trabalhar, um lugar para poder atender os meus clientes e não correr risco nenhum por causa de má condição financeira ou problemas de ter que devolver prédio sendo inquilino. Este foi o primeiro foco, que realizei. Comprei e fizemos uma reforma, pusemos o prédio no chão. A primeira etapa foi construir a minha sala no andar de cima, para ter este diferencial, lembrando o que aprendi com o Wilson Ernesto. O cliente tem que entrar aqui e dizer, “este é o lugar que vai ao meu casamento”.  Além de um trabalho bom, o cliente tem que se sentir confiante. Eu valorizo isto, além de apresentar um bom trabalho, mostrar uma boa estrutura física. Isso me faz bem. Houve uma época em que os móveis que tinha em meu estúdio eu não possuía na minha casa. A prioridade era aqui, a minha fonte de renda. A segunda etapa foi construir um estúdio. Todo mundo diz que tem estúdio. Isto aqui é um estúdio. Tem camarim, é climatizado com som ambiente, aqui o cliente fica à vontade. Quem está no andar de baixo não tem acesso ao andar de cima onde está o estúdio. Não só tenho o nome de estúdio como tenho “o” estúdio para atender um cliente de A a Z. Junto a tudo isto veio à necessidade de abrir outro negócio, porque só depender de casamento é complicado. Quando o movimento do casamento cai, financeiramente me afetava. Precisava de alternativa. Foi aí que montei o Kids. Comprei temas infantis personalizado, nada de montagens de photoshop em que fotografa a criança sentada e depois coloca no software. Decidi montar o Studio A Kids no Centro, na rua Moraes Barros. No endereço faço fotos para documentos, revelação e outros serviços relacionados à fotografia. Estamos com 1 ano e 7 meses. Estou muito feliz com o resultado. Dentro deste tempo, eu almejava algo mais no “meio” do Centro e aí montei outra loja igual a esta na rua XV de Novembro, entre a rua Governador Pedro de Toledo e a rua Benjamin Constant. A intenção era fechar a loja da rua Moraes e ir para lá, mas percebi que são públicos diferentes. Quem sobe a rua Moraes não desce a XV e vice e versa. Quem sobe a XV de Novembro geralmente saiu do Terminal Rodoviário e vai para o Centro fazer compras. Quem desce a Moraes Barros vem do outro lado da cidade e geralmente está de carro. O Studio A Kids da rua XV de Novembro se transformou em loja. Ali vendo pen drive, CD, câmera, GPS e montei estúdio. Virou uma cine-foto. Aqui onde estamos na rua Regente Feijó é outro público, é para a mãe que não quer ir até o Centro, prefere marcar hora e ter um atendimento personalizado. Aqui os clientes são as minhas noivas, que depois que ficam mães querem fotografar seus filhos comigo. Fidelizo meus clientes.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Quais são suas referências na fotografia, além do já citado Wilson Ernesto?

Gosto do Evandro Rocha e Everton Rosa. Acompanho o trabalho deles apesar do Everton Rosa, hoje eu não o enquadrar como fotógrafo, mas, como posso dizer… Não um “marqueteiro”, um cara que dá cursos, palestras, workshops, que está focado em vender o seu produto. Recentemente o Evandro Rocha também deu um curso e eu não pude ir por falta de tempo em tirar passaporte, pois as aulas foram em Paris. Eu gostaria muito de ter ido para poder montar um portfólio com fotos de uma igreja de lá e também viver uma experiência nova de fotografar em outro país, sentir um clima diferente. O Evandro Rocha é uma pessoa muito humilde, ele põe as fotos em seu blog e mostra a abertura, velocidade, máquina, objetiva e como ele fez a foto. É fácil de encontrá-lo conversei várias vezes com ele por telefone. Está sempre pronto para te atender. Eu me identifico com ele porque sou assim, converso com todo mundo. Hoje não fotografo mais em cartório, pois a maioria dos meus trabalhos os noivos fazem o casamento civil junto da festa, mas eu adorava ir à porta do cartório conversar com o Barbosa, Bonifácio, Antonio Prezotto, passava horas ali. Terminava o meu casamento e ficava por lá conversando e dando risadas, aquilo era uma terapia. Às vezes chegavam uns fotógrafos com nariz empinado que não conversava com ninguém. Eu trato as pessoas da mesma forma que gostaria que me tratassem.

Você nunca pensou em migrar para outra área da fotografia?

Esqueci-me de contar, mas trabalhei no jornal Diário de Piracicaba. Foi quando eu saí da Jetcolor. Trabalhava à noite, entrava às 16h e saía às 22h. Mas era muito precário, o Diário estava perto de encerrar suas atividades. Uma das fotos que fiz foi de um incêndio em um prédio na Praça José Bonifácio, próximo a loja A Musical. Estava eu e um fotógrafo do Jornal de Piracicaba, que não me lembro quem era, e fui empolgado para fotografar, mas o capitão da polícia autorizou primeiro o fotógrafo do JP. O incêndio já tinha sido controlado e os bombeiros deram roupas e capacete especial antes dele fazer as fotos. Na minha vez viraram as costas e foram embora. Subi na raça. O pessoal não estava mais nem aí com o Diário, pois estava em seu fim. Fiquei seis meses no jornal.

Com quem trabalhou no Diário de Piracicaba?

Com o Wanderlei do Carmo, que é assessor do vereador João Manoel. Não me recordo se entrei no lugar do Alessandro Maschio ou ele entrou em minha vaga. Realizei uma vontade de trabalhar em jornal.

Em 2010, você realizou uma exposição com fotos da Corrida São Silvestre. Como foi produzir este trabalho?

Foi um convite do Projeto Ilumina que trabalha com portadores de câncer e preza a qualidade de vida. Fui fotografar os anônimos da corrida, cadeirantes, cegos e portadores de alguma deficiência física. O objetivo era mostrar que se a pessoa não tem uma perna, ela também pode participar da corrida com a sua cadeira de rodas ou prótese. Enfim, mostrar que estas pessoas podem ter também qualidade de vida. As fotos foram expostas no Shopping Piracicaba e Unimep. Este trabalho foi gratificante, um dos que marcaram a minha vida. Fotografar paisagem não é a minha “praia”. Eu não consigo fazer um trabalho artístico sem estar amarrado com o lado comercial. Fiz um cruzeiro com minha família que passava por Argentina e Uruguai e levei a minha câmera profissional com duas objetivas para poder fazer umas fotos “diferentes”. A minha mulher pediu para eu guardar o equipamento, pois eu estava estressado. Eu não conseguia relaxar para fazer uma simples foto, me sentia como se estivesse trabalhando. Não consigo andar com os dois juntos, “trabalho e lazer”. Agora comprei uma câmera compacta, uma Sony cor de rosa, que dei para a minha filha e virou a câmera oficial de viagem da família, melhor do que o celular.

Corrida São Silvestre 2009. © Claudio Franchi/Studio A

Você disse que o trabalho que realizou na Corrida São Silvestre te marcou. Tem outros momentos marcantes?

Tem sim. Foi uma campanha que fiz para o banco de leite do Hospital dos Servidores de Cana sobre amamentação. Fiz várias fotos e acabei recebendo um prêmio entregue pelo prefeito Barjas Negri pela iniciativa em incentivar a doação de leite. Muitas crianças necessitam, pois há mulheres que não produzem leite materno. Dentre as várias fotos, fiz de um recém nascido pré maturo. Ele cabia na palma da minha mão. O bebê estava muito debilitado. Foi impactante e emocionante ver a luta da mãe, que não saía ao lado do filho, por sua vida. Confesso que não acreditei que o bebê resistiria. Faz pouco tempo aquela mãe veio até o meu estúdio com o seu filho para buscar a foto que fiz no dia. Já faz três anos que o fotografei no hospital. O menino ficou com sequelas, mas está vivo. Eu com a minha esposa choramos depois que ele saiu do estúdio. Foi inacreditável vê-lo novamente e sentir o carinho especial que sua mãe dava a ele.

© Claudio Franchi/Studio A

Um momento inusitado.

Fotografei um golpe de casamento. Um rapaz veio para Piracicaba e começou a namorar uma moça evangélica, infiltrou-se na igreja, mas era um golpista. O negócio dele era casar-se com a menina e levá-la para morar com ele em Belo Horizonte. Por conta da distância ele pediu aos convidados que em vez de comprar presente, dar o valor em dinheiro. Abriu uma conta com a noiva em uma agência bancária e os amigos e convidados depositavam o dinheiro. Casou-se na Igreja Metodista, fez festa e foi até a Esalq tirar fotos. Tudo beleza, até o dia seguinte quando o rapaz acorda e diz a sua esposa que vai comprar pão para o café da manhã. Tchau, não voltou mais e levou todo o dinheiro. A noiva foi parar no hospital e precisou de psiquiatra. A polícia veio atrás de mim para pegar foto do rapaz e descobriu que o malandro tinha uma ficha de dez golpes como este.

A Esalq transformou-se em um tradicional ponto para fotos de casamentos. Já foi parada obrigatória por todos os fotógrafos, pois era exigência dos noivos e também houve época que fotografar ali era brega. O que este espaço representa ou representou em seu trabalho?

Meu número de inscrição ali é oitenta e quatro. Para fotografar na Esalq é preciso ser cadastrado. Fotografei muito ali e põe muito nisto. O local era sinônimo de fotografia de casamento. Fazia parte de qualquer casamento da cidade. Na Esalq foi onde me destaquei. Por quê? Porque foi o que frisei, eu gosto de iluminação. Eu cheguei a trabalhar com três foto-célula. A maioria das sessões era à noite e por lá via um concorrente sozinho. Eu sabia que ele ia fazer uma pinta branca num espaço preto. Não tinha como ser diferente. Filme de ASA 100, máquina e lente ruim, pois a grande maioria era desprovida de bom equipamento. Eu, como levava a minha equipe, colocava um ajudante iluminando o fundo, outro o vestido e quando revelava dava para ver tudo bem iluminado. Lá tinha uma palmeira ou coqueiro com as folhas amarradas formando um coração. O primeiro fotógrafo que chegasse lá já amarrava e facilitava para os outros. Mas cada um com a sua técnica. Eu fazia montagens, colocava a câmera em um tripé e fazia múltiplas exposições da noiva no “campão”. Vieram os filtros que encaixavam nas lentes. Tinha o paralelo que facilitava esta foto, pois quadruplicava a noiva. A famosa foto do lago eu fazia com a câmera no tripé, cabo propulsor e deixava a exposição com dez segundos. Ficava lindo. Painel dos noivos no lago eu vendi muito. Depois de um tempo o casamento não se encerrava mais na Esalq ou na casa dos noivos só para cortar o bolo, começou ficar comum as grandes festas.  Só que os noivos queriam ir primeiro na festa e só depois na Esalq. Foi então que os fotógrafos se movimentaram e exigiram que as fotos na Esalq tinham que ser feitas antes da festa, pois justificávamos que além do cansaço havia o risco de roubarem os equipamentos. Assim começou a diminuir os ensaios por lá, pois os noivos gastam uma grana com as festas e não querem perder um minuto da diversão. Já faz uns quatro anos que não vou à Esalq. Quando surgem fotos externas vou ao Engenho Central ou na Estação da Paulista, mesmo assim foi apenas uma vez que aconteceu neste último ano. É uma pena, pois hoje virou um perfil da noiva virar uma celebridade. Ela chega à festa e o cerimonial pega e a leva para um quartinho, aí anuncia a entrada da noiva. O fotógrafo parece um paparazzo, tem que ficar fotografando de longe, não é este o propósito de você fotografar um casamento. A noiva me pagou para eu a fotografar. Não me pagou para eu ficar correndo atrás dela e “pegar” alguns lances. Depois vem a cobrança. Hoje você tem que ter uma postura. Prefiro não executar alguns trabalhos para depois eu não ter problemas. Eu já aviso os noivos como eu trabalho e peço a eles avisarem o cerimonial. Não posso por em risco o meu trabalho, pois na segunda-feira o cerimonial não existe mais para os noivos e eu vou existir durante uns três ou quatro meses ainda. “E a minha foto com a vovó? E a foto com o meu pai?” Ah, mas o cerimonial disse para eu esperar. “Mas você que é o fotógrafo”. Hoje tenho o meu tempo. Sou amigo e parceiro de várias cerimonialistas, pois sabem como trabalho. Peço 20 minutos para o ensaio e que não fique do meu lado de braços cruzados, pois me atrapalha. Sou rápido e dinâmico nas sessões, não fico “cozinhando” a noiva.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

O que você não fotografou?

Futebol. Não fotografei e nunca tive vontade. Acho lindas as fotos que vejo nos jornais, mas não é para mim.

O que não fotografou, mas tem vontade?

Sonho em fotografar foto subaquática. Já pesquisei lugares e equipamentos, mas a correria do dia a dia ainda não me permitiu. Hoje estou administrando melhor o meu tempo. Tenho horas para entrar e sair do estúdio, pois vivia em função do trabalho. Tenho uma família para cuidar.

O que a fotografia representa em sua vida?

Além de representar a minha profissão é o suporte que dou para a minha família. Sou apaixonado por fotografia de casamento. Acho lindo foto de criança, de gestante, sei e gosto de fotografar, mas entreguei esta área para a Karla, minha esposa. Já o prazer que tenho em fotografar um casamento é inexplicável. Faço com muita responsabilidade, pode ser um mega casamento como o mais simples dos casamentos. Eu não escolho o meu cliente. Este prazer brotou pelo reconhecimento que as pessoas me dão. Chego a um casamento e é comum pessoas me virem e dizer que fotografei o seu casamento há quinze anos e as fotos continuam lindas. Isto para mim é gratificação. Eu não conseguiria continuar se eu tivesse algumas decepções com a fotografia. Um trabalho perdido, mal feito ou mal elogiado eu não suportaria, encerraria a minha carreira. Junto a isto vem a parte financeira que quero dar aos meus filhos. Realizei muitos sonhos. Compro bastante equipamento, às vezes sem necessidade, mas gosto é um prazer. Não saio preocupado se vai quebrar, sempre tenho outro. O dia que eu parar de fotografar casamentos, daqui uns quatro ou cinco anos ficarei muito triste. A minha mulher acredita que não paro.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

 Nesta sexta-feira, 27, às 19h45, assista a entrevista na TV Unimep no canal 13 da NET Piracicaba.

Etiquetado , , , , , , , , ,

Nelson Campos

Olá, caros.

Hoje a prosa é com o fotógrafo Nelson Campos. Piracicabano, 56 anos de idade, casado com Augusta de Campos, tem dois filhos e atualmente conta com dois netos, um menino e uma menina. Este ano Campos completa 40 anos de profissão. Conheça um pouco das histórias desse fotógrafo que passou pela redação do Diário de Piracicaba, foi sócio de dois estúdios fotográfico com dois ótimos fotógrafos piracicabanos na década de 80 e um dos pioneiros na fotografia digital de Piracicaba. Hoje, especialista em fotografia publicitária e industrial. Campos é um fotógrafo atualizado, ganhou prêmio internacional com fotografia de natureza e também de manipulação fotográfica com o software Photoshop, mas está preocupado com os rumos da fotografia em sua área. Saiba o por que e conheça mais histórias desse personagem piracicabano que fez e continua a fazer recortes de nossa querida cidade.

Inté.

Nelson Campos. ©2011. Fábio Mendes

Como foi o inicio com a fotografia?

Eu comecei na fotografia como hobby. Tinha 16 ou 17 anos. Meu tio era fotógrafo no Mirante, era um lambe-lambe. Chamava-se Sebastião. Fazia umas fotinhas que revelava dentro da máquina caixão. Igual tem em Pirapora, ele fazia aqui no Mirante. Desde criança eu o via trabalhar. Mas na adolescência quem me deu as primeiras dicas foi o Paulo Kawai do Foto Fuji, com quem eu tinha muita amizade. Comprava equipamentos e químicos para revelação com ele. Eu tinha umas câmeras antigas, de filme 127, e comprava revelador e ampliador para revelar as minhas próprias fotos. Apaixonei-me.  A imagem, quando começa a aparecer no revelador, é uma mágica. Cativou-me. Envolvi a minha vida nisso. Descobri o meu caminho. É apaixonante. Eu comprava livros técnicos para me aperfeiçoar, mas percebi que sem uma escola eu não progrediria. Larguei os meus estudos aqui em Piracicaba e fui para São Paulo atrás de conhecimento. Fui trabalhar em uma importadora de equipamento fotográfico e entrei na escola de fotografia do Senac, que hoje transformou-se em faculdade. Isso foi em 1972. Fiz um ano de curso. Vi desde o princípio da fotografia, estúdio, externa, iluminação, revelação colorida… Foi um ano “puxado”. Valeu a pena. Voltei para Piracicaba por causa de uma fatalidade. Eu morava perto do edifício Joelma e quando pegou fogo fiz umas fotos e vim pra Piracicaba. Trouxe as imagens para o jornal Diário de Piracicaba que foram publicadas. Nesse momento convidaram-me para trabalhar no jornal. Fiquei tão traumatizado pelo incêndio que aceitei o convite.

Mulher sendo salva por homens do Corpo de Bombeiros em enchente na Rua do Porto – Piracicaba na década de 80. Foto: Nelson Campos.

Quando entrou para o Diário havia mais fotógrafos na redação?

Tinha o Henrique (Spavieri) que era o antigo “clicherista”. Como não havia mais essa função, pois o novo processo era em offset, ele começou a fotografar também. Trabalhamos juntos por seis meses até que ele foi chamado pra prefeitura e deixou o jornal. Fiquei sozinho. Fotografava os eventos sociais, acidentes de veículos na madrugada. Uma vez fui até de paletó e gravata fotografar um acidente, pois eu estava trabalhando em um evento de grande porte e no meio da festa fui chamado para a ocorrência. São coisas da vida. (risos).

Protesto de estudantes, na praça José Bonifácio, por melhor ensino. Foto: Nelson Campos.

Como era a rotina de trabalho no Diário de Piracicaba. Quem eram os editores e repórteres enquanto ficou por lá.

Entrei no começo do ano de 1973 e o hoje dono de A Tribuna Piracicabana, Evaldo Vicente, era o revisor. O Mário Terra era o colunista social. Cecílo Elias Neto, o proprietário. Tinha o Roberto Cera que fazia uma página chamada recados, que foi um dos idealizadores do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. O Cera fazia novelinhas, iguais vemos em quadrinhos, mas com fotografias. Contava histórias com as fotos. Era gostoso, foi a empresa que trabalhei com mais liberdade e prazer. Acredito que todos os fotógrafos e repórteres que passaram por lá tem a mesma opinião. Não havia ditadura nas editorias. Eu fiz uma matéria, não foi publicada, houve risco de morte. Eu com o falecido Ari Gomes, um excelente repórter, começamos a investigar sumiços de crianças na cidade de Piracicaba em 1981. Chegamos bem próximo da pessoa que sequestrava as crianças. Porém alguém foi falar com o editor, que era o Cecílio, que nos aconselhou a parar, pois algo de ruim poderia acontecer conosco. Foi um desestímulo, sabendo que a nossa vida corria risco de morte. Fazíamos a reportagem por conta própria, mas dessa vez o Cecílio nos obrigou a parar com a investigação.

O cantor Ney Matogrosso durante show em Piracicaba. Foto: Nelson Campos.

E após o Diário?

Eu tive duas fases no Diário. Trabalhei de 1973 até 1975. Depois montei um estúdio, quando o Diário mudou da rua Prudente de Moraes para a rua São José. Por coincidência o meu estúdio era bem em frente ao jornal, na rua São José. Fiquei com o estúdio por três anos quando o Diário me chamou novamente, em 1980. Fiquei até o final do ano de 1981. Jornal é ótimo, excelente, mas você trabalha 24 horas por dia. Você é um eterno jornalista. Quando pensa que está de folga acontece algo na sua frente e não tem como não fazer. A remuneração também é baixa. Por toda a dedicação do jornalista, a remuneração é baixa. Daí, parti para a fotografia publicitária. Abandonei o jornalismo. Se continuasse, trabalharia a vida inteira e não teria nada. Já tinha dois filhos e precisava de mais dinheiro para poder criar bem as crianças.

Teve uma foto que fez de um atropelamento. Como aconteceu?

Essa foto foi feita em 1980 ou 81, não me lembro a data precisa. Saí do Diário, na rua São José, para ir até a Unimep, na rua Boa Morte. Fui caminhando. No abrigo de ônibus, atrás da Igreja Catedral, eu vi que um senhor de idade ia atravessar a rua. Atravessou sem olhar se vinham carros. Vi um carro que não conseguiria parar. O instinto me levou a fazer uma sequência de fotos. Fotografei toda a cena, ele sendo atropelado, arremessado, caído no chão cheio de sangue, até as pessoas olharem de perto e chegar o resgate. Imediatamente voltei pro Diário e não fiz a matéria na Unimep. O atropelamento era um acontecimento mais importante. Na vida de um repórter-fotográfico isso acontece de quinhentos fotógrafos para um. Revelei as fotos, falei com o Mário Evangelista, que era repórter do jornal nessa época, e ele já foi buscar as informações na polícia para escrever a matéria. Pronta a matéria, fomos publicá-la quando o editor-chefe, Luiz Tomazi, que trabalhava na Folha de S. Paulo e veio para o Diário, viu as fotos e disse: “Não, isso não pode ser publicado”. Questionei e ele me disse que era muito chocante. Permitiu que saísse apenas uma fotografia com a notícia. Escolhemos a foto e publicamos. No outro dia publicamos outra foto e acompanhávamos o estado de saúde do atropelado, que estava muito mal. No terceiro dia publicamos outra e no quarto dia ele veio a falecer. Conseguimos publicar quatro fotos, mas uma em cada dia. Dessa forma, o editor disse que não chocaria as pessoas. Alguns dias depois, houve o atentado contra o papa, João Paulo 2º, que levou um tiro. O editor, que proibiu de publicar a sequencia fotográfica do atropelamento, me pediu para fotografar o atentado na televisão, que era o recurso que tínhamos na época. Esperei aparecer na TV e fiz as fotos. Revelei o filme e entreguei uma fotografia para o editor. Então ele me perguntou sobre as outras fotografias. Perguntei a ele, por que ele queria as outras fotografias? Ele me disse que queria todas as fotografias. Encerrei dizendo que ele iria publicar apenas uma, pois o atropelamento foi chocante, mas o tiro que deram no Papa foi muito mais chocante. Se ele morresse, no outro dia ele publicaria outra foto e, se não morresse, também publicaria. Igual o atropelamento. Daí houve uma grande discussão, nos desentendemos, mas não foi por isso que saí do Diário, a briga, e sim o desestímulo em ter um trabalho que jamais iria acontecer novamente, ter sido cortado. Pedi demissão e fui fazer fotografia publicitária, que é o que mais gosto de fazer. Mas no jornal tem histórias que faz a gente dar boas risadas. Chegava de uma matéria, revelava o filme, mas demorava a secar e não tinha tempo para esperar. Eu tinha uma técnica. Passava o filme no álcool, erguia-o com as mãos, botava fogo embaixo ele subia e quando chegava à outra ponta em cima, balançava, apagava e estava seco. Já ampliava a foto, o importante era a agilidade a rapidez e não a qualidade. Tomazi trouxe um fotógrafo da Folha, Toninho, um senhor de idade avançada, e ele me viu fazendo isso. Na Folha ele era simplesmente fotógrafo, não precisava revelar, lá tinha o laboratorista. Aqui não, ele tinha que revelar. Um dia ele chegou ao jornal depois de fotografar um jogo do XV de Piracicaba, era umas 22h ou 23h, e precisava revelar a foto para sair no dia seguinte. Passou álcool no filme só que o segurou esticado. Aquilo virou um torresmo. Perdeu todo o serviço. O jornal ficou sem foto do XV. (risos)

Retrato do rei Roberto Carlos. Foto: Nelson Campos.

E então você saiu novamente do jornal. Montou outro estúdio?

Sim. Montei o único estúdio na época que tinha gerador e cabeça de flash. O Christiano Diehl virou meu sócio. Ficamos dois anos e meio juntos. Fazíamos publicidade, embora tivéssemos e temos ainda um grande problema com jornais. Ficamos 25 anos sem ter uma agência publicitária em Piracicaba. O jornal vendia o espaço, dava a arte e a fotografia, fazia tudo. Como é que uma agência iria cobrar se o jornal dava de graça? Limeira tinha agência, Rio Claro, Americana, todos os lugares tinham. Já Piracicaba não havia condições de uma agência sobreviver. A publicidade aqui tinha espaço quando era folder, catálogo, mas era pouco serviço. Teve uma agência que ficou um bom tempo, mas pereceu por pouco serviço. No estúdio procurávamos fazer books, pôsteres e uma série de coisas para sobreviver, e esperava as fotos publicitárias que aos poucos foram chegando.

Cartão natalino. Foto: Nelson Campos.

Assim era o mercado na década de 80?

Para a fotografia industrial era excelente. Hoje pega um menino, vai numas dessas casas que vendem computador em trinta prestações, uma câmera de R$ 2 mil reais – a câmera e o flash são automáticos – no computador faz “alguma coisinha”, envia para o laboratório que corrige o que continua errado e faz a sua fotografia. Julga-se um fotógrafo, não que não seja, pois está exercendo a profissão, mas não tem o conhecimento necessário. Não sabe o que acontece quando aperta o botão, por que aquela luz, por que não. Eu comecei no digital em 1998. A primeira câmera que comprei, tenho a nota fiscal, em Nova Iorque, paguei 3.900 dólares. Tinha 1.75 megapixels. Foi a primeira câmera profissional que trocava objetiva. Eu estudei toda a transição do analógico para o digital. A partir de 2000 comecei a trabalhar com fotografia digital, desisti do analógico. Mas antes dessa mudança, ganhava-se muito dinheiro, o fotógrafo tinha que ser fotógrafo. Tinha que ter o seu laboratório, pois um não revelava para o outro fotógrafo. Tinha que saber o que fazia. Na publicidade usávamos cromo ou slides, como alguns chamam. Eram grandes, 6×6, 6×9 e não permite erro. Só o fotógrafo conseguia. Ninguém se atrevia a fazer. Nessa época fotógrafo ganhava muito dinheiro. Com as indústrias era só cromo que dava para fazer em impressão colorida na gráfica. Não havia outra opção.

Foi difícil se adaptar a outra tecnologia?

Não. Comecei a usar o Photoshop em 1997. Fiz cursos com profissionais americanos, como Dean Collins, um dos melhores fotógrafos do mundo, exclusivo da Hasselblad, Kodak e General Motors. Então fui estudando. Acompanhava e pesquisava bastante. Quando eu abri a minha lojinha para fazer foto documental, que a minha esposa “toca”, eu escrevi na parede, foto digital. Muita gente passava inclusive fotógrafos e riam de mim. Eles falavam: “Ah, é foto digital, vou aí e coloco o dedo?”. Ouvi muito isso (risos). Não tinham noção do que era, mesmo sendo fotógrafo. Eu estava adiantado, quando ainda pensavam em adquirir câmeras analógicas, já tinha vendido as minhas. O futuro era digital.

O fotógrafo posa ao lado da atriz Pepita Rodrigues. Arquivo pessoal.

Trabalhou com fotografia social?

Sim. Em 1983, quando eu saí do Diário, montamos um estúdio, o Henrique Spavieri e eu. Chamava Spavieri Studio e fazíamos muito social. Todo final de semana tinha casamento, aniversário de 15 anos e tal. Só que chega um momento, eu não vi os meus filhos crescerem, quando percebi já estavam grandes, queria os finais de semana para mim. Hoje, tenho um espaço em casa, onde recebo meus amigos, fotógrafos, gosto de receber pessoas e para isso não posso ficar pegando casamentos. Se o casamento é no sábado, tenho que ficar concentrado na sexta-feira, nada de comer comida diferente, bebidas, pois existe o risco de passar mal no dia seguinte. Uma concentração de 48 horas. Isso não dá mais para mim.

Um momento marcante na profissão.

Foi o atropelamento que já citei. A inauguração do autódromo de Jacarepaguá, em 1978, quando o Emerson Fittipaldi ficou em segundo lugar. A única vez que foi ao pódio ali. Alguns acidentes de carro, na época do jornal. As imagens ficam na mente. Algumas não são boas. Lembro da história do fotógrafo (Kevin Carter), que fez uma imagem de uma criança fraca com um corvo ao fundo esperando ela morrer. Logo depois ele se suicidou em função disso. São imagens que ficam e mexem com a gente. Tem pessoas que falam que acostuma. Mas não é bem assim, nos machuca.

Você ganhou um prêmio internacional. Qual foi o tema?

O tema foi natureza. Ganhei o prêmio em Washington sem imaginar essa possibilidade. Aqui em Piracicaba teve uma mostra que depois virou um concurso com o título “O Verde de Piracicaba”. Participei e não que tinha feito a melhor fotografia, mas jurei para mim que jamais participaria de qualquer concurso fotográfico no Brasil. O que aconteceu foi inexplicável. Um cara que não era fotógrafo pegou uma câmera e foi até o mercado. Ele fotografou um pé de alface com um preço absurdo, caro, extremamente caro. Ganhou o concurso. O verde de Piracicaba, um pé de alface, R$ 10 reais. Havia fotos maravilhosas. Nunca mais eu participaria de concurso. Aí recebi um e-mail com esse concurso nos EUA. Mandei uma foto completamente despretensiosa. A flor de uma árvore que tem muito por aqui, principalmente na Rua do Porto, onde eu fotografei. Essa flor nasce em cima da árvore. Só que nos EUA não existe essa árvore. Ficaram curiosos. Começaram a enviar várias perguntas e fui respondendo. Tive que buscar informações na Esalq para o que eu não sabia, como o nome científico da árvore e fui abastecendo as dúvidas deles. Acredito que o prêmio não tenha sido pela qualidade visual e sim pela raridade da flor. Fiz a imagem com uma tele de 500 mm. Só que infelizmente não recebi o prêmio, que era 5.000 dólares. Para eu ir pra lá, ficava em 7.000 dólares, pois tinha que ficar uma semana em um hotel e participar de convenções. Eu tenho um filho, que na época morava em Chicago, fica perto de Washington, e ele se prontificou em buscar para mim. Mas a organização não autorizou, pois tinha que fazer matérias e entrevistas comigo. Disseram que o “pessoal” da National Geographic gostariam de me conhecer. Então deixei pra lá. Não compensava.

Foto premiada em concurso internacional. Foto: Nelson Campos.

Pra você, que é um visionário, qual o próximo passo da fotografia?

Estou estudando e não sei se a minha cabeça acompanha, mas o próximo passo é o 3D. Eliminará 80% da fotografia. Por exemplo, se alguém pede uma fotografia de um carro, a fábrica tem o desenho dele em 3D. Com isso em mãos é só jogar em um software específico, colorir o carro e ambientar. Qualquer objeto que você tenha o desenho em 3D, dá para por textura, cor e tudo mais. Depois de pronta acha que é uma fotografia do objeto, mas é tudo virtual. Esse é a próxima etapa da fotografia digital. Os grandes estúdios já trabalham assim, mas acho que eu não vou conseguir. É muita informação. Eu participo do Photoshop Conference, o maior evento de Photoshop da América Latina. Vou lá e fico nas primeiras duas horas do dia, pois começa às 9h e vai até as 19h, param só uma hora pro almoço, e consigo assimilar. Depois não dá mais. São “baldes” de informações. Photoshop é um instrumento ilimitado. Eu duvido que alguém acompanhe todo o evento e consiga assimilar tudo. Você vê o Alexandre Keese, um dos maiores operadores de Photoshop, falando duas horas, é impressionante o que ele conhece. Faz assim, faz assim, faz assim, pronto, está feito! Coisas que demoro 40 minutos para fazer, ele faz em dois minutos. Vou aprimorando, mas chego a um ponto que a minha cabeça não assimila.

Algum projeto?

Estou com um projeto de fotografar a Patagônia. Tive convites para ir a Machu Picchu, tenho um convite para fotografar todo o interior do Brasil. Mas são muitos dias fora. Não tenho condição financeira de ficar sem trabalhar por 20 dias. No convite não pago nada, mas não posso me ausentar por tanto tempo. Eu quero ir para a Patagônia. Fui convidado por duas vezes. Estou me preparando, logo vou. Eu vendo muitas fotografias que faço em hora de lazer, principalmente para decoração. Painéis de três, quatro, cinco metros. Nos finais de semana levanto bem cedo, pego a minha câmera, chamo minha esposa e vamos entrando pro meio do mato. Uma vez peguei uma estrada de terra em Charqueada-SP e fui sair no Anhembi-SP. Nesse passeio vendi quatro fotografias. Das cachoeiras de Brotas-SP tenho bastante foto. Hoje não desço mais nas cachoeiras. Descer até desço, mas subir não dá mais (risos).

Quais são as suas referências na fotografia?

Na publicidade tenho como espelho, que infelizmente já faleceu, Dean Collins. Fiz um curso com ele, foi maravilhoso. Aprendi muito. Guardo os livros e apostilas até hoje. O curso chamava Sobre a anatomia de um estúdio, muito bom. Tem um fotógrafo de Piracicaba, que é muito bom, mas pula muito de ramo, que é o Tadeu Fessel. Admiro o Christiano Diehl. Agora, ímpar se chama Pauléo. Embora tenha começado a fotografar bem depois de mim, entrou no jornal como entregador. Você pode chamar 30 fotógrafos e pedir para fazer uma foto específica. Os 30 fazem. Se for o Pauléo ele tira uma fotografia e diz: “Está aí a foto” e resolve. Gosto muito dele. Gosto e admiro. Ele não fez curso e nada, mas tem uma visão diferente.

Trabalho publicitário. Fotos: Nelson Campos.

O que a fotografia representa em sua vida?

Representou o meu sustento e de toda a minha família. Tudo o que conquistei em minha vida foi por conta da fotografia. Não tive outro emprego. Mas a fotografia representa para mim a perpetuação de uma imagem. Agora virou moda pegar uma fotografia antiga de Piracicaba e decorar ambientes. Mas se não tivesse esse registro, não saberíamos como foi o passado. A fotografia é história. Tem que preservar a imagem, mesmo que esteja fora de foco ou tremida, preserve. Não tem outra definição, fotografia é a história. Antes, por conta da fotografia que era cara, temos poucas imagens do passado. Agora com o digital não temos mais nenhuma. Todo mundo tem uma câmera digital. Tiram 500 fotografias. Mas ele não sabe que ali na câmera ele tem um cartão de memória 1, 2 ou 3 gigabytes e quer tirar 2.000 fotografias nesse espaço. Para isso reduzem a resolução, fotografa, “põe” no computador e acha linda. Vá imprimir. Não existe condição! Isso quando não apagam a foto por falta de espaço no computador. A fotografia digital, enquanto virtual, para se perder é a coisa mais fácil do mundo. Pega um CD, riscou, não lê mais e perde tudo. Eu acredito que vamos ficar uns 15 anos sem história. Eu sei de profissionais que guardam arquivos e outros que depois de dois anos jogam as imagens fora. Gravar em um DVD e deixá-lo quieto de cinco até sete anos ele suporta. Depois desse tempo, faça outra cópia para não perder as fotos. Esse pessoal amador que tira um monte de fotos e guardam em HD, entra um vírus tem que formatar e tchau tudo. Vai ter muita família que não vai ter foto do filho crescendo. Tirou 500 fotos? Escolhe 30 e revele. O papel dura 100 anos.

Site do Nelson Campos aqui.


Edição do texto: Rodrigo Alves

Etiquetado , , , , , ,

Jorge

Jorge

Olá caros. Hoje trago uma entrevista muito rica em fatos históricos de Piracicaba, e claro, de fotografia. Entrevisto o fotógrafo Altino Jorge Vieira, conhecido apenas por Jorge. Um piracicabano simples, nascido em 23/06/1940. Atuou ativamente nas reportagens fotográficas em nossa cidade nas décadas de 70 e 80. Depois também se transformou num grande lojista. Tive o prazer em ser seu funcionário por alguns anos. A conversa foi muito boa. Confira!


Quando começou a trabalhar com a fotografia?

Eu comecei a fotografar  com a família Bischof, eram os mais antigos fotógrafos de Piracicaba. Isso mais ou menos em 1957. Naquele tempo, antes de fotografar tinha que trabalhar em laboratório, aprender a revelar filmes, tudo em branco e preto. A  (loja) Bischof era a que mais revelava filmes em Piracicaba, uma média na época de 50 a 60 revelações por dia. Foi então que comecei a aprender a fotografar com aquelas ‘maquininhas’ antigas da Kodak,  fotografava times de futebol de bairros. Depois começou a vir aniversários de crianças e festas populares. Entre 1959 e 1960, comecei a adquirir máquinas melhores e fotografar eventos maiores, como casamentos e aniversários de quinze anos.

Nessa época, havia meia dúzia de fotógrafos conhecidos em Piracicaba. Tinha o Idálio Filetti, Cícero, Capreci, Lacôrte, na Vila Rezende tinha o Mário.  Mas voltando para o trabalho, o que eu gostava mesmo era de reportagem, trabalhei de free lance para o Diário de Piracicaba e Jornal de Piracicaba, as melhores fotos eu levava para os jornais que publicavam. Também fotografei muitos shows e os carnavais de Piracicaba que eram famosos, teve um ano que o cantor Fábio Júnior desfilou na Escola de Samba Zoom Zoom.

Outra lembrança, foi quando o cantor Roberto Carlos começou a ficar famoso, tinha no máximo quatro músicas de sucesso, e veio na cidade para um grande show no Cine Palácio, fui eu quem o fotografou. Já nos anos 70, além de trabalhar com os Bischof, abri minha loja, mas só estúdio e 3×4. Tinha dia que fazia mais de cem fotos 3×4. Fotografava e entregava depois de dois dias.

Quem eram os Bischof?

O pai dos Bischof, que não conheci, era alemão e veio para Piracicaba a mais de cem anos.Casou-se com uma Piracicabana e tiveram três filhos e três filhas. Dois dos filhos, que eram solteiros, Rodolfo e José Adolfo Bischof abriram a loja de fotografia na cidade. O Rodolfo teve uma doença grave e faleceu a mais de vinte anos e o José Adolfo faleceu em 2002. Apesar de eu ter minha própria loja, me mantive com eles, pois praticamente me criaram. Com o Adolfo fiquei até o último minuto de sua morte e tenho hoje na cidade uns bens que ele me deixou de herança, devo muito a família Bischof. A loja Bischof ficou minha a partir dos anos 80. Nos anos 90 fiz uma sociedade com um grupo de São Paulo e Ribeirão Preto e a loja passou a se chamar Zoom Bischof, no qual eu tinha 50%. Em 2004, desfizemos a sociedade. Hoje ainda tem a “Foto do Jorge”, na rua XV de Novembro, que passei para meus filhos. Perante a lei já sou aposentado, mas continuo fotografando.

Casa Bischof na Rua Governador Pedro de Toledo. Década de 80. Foto: Jorge.

Como era o seu trabalho no laboratório?

Durante dois anos, só revelava filmes e ampliava foto branco e preto do povão de Piracicaba. Fotos particulares. Ficava muito tempo dentro do laboratório, no começo sozinho, depois tive ajudante, ficava ali das cinco às onze horas da manhã. Uma coisa muito boa que aprendi com os Bischof era a se alimentar bem antes de entrar no laboratório, tomar bastante leite, dois litros por jornada de trabalho, pois os químicos tinham substâncias muito fortes. Muitos fotógrafos adoeceram por causa dos químicos, alguns até desenvolveram câncer e faleceram. Graças a Deus, com o conselho que recebi, nunca tive nenhuma doença grave. Também havia muito respeito em não mostrar aquilo que se revelava. Existia ética, pois muitas fotos não podiam ser vistas por ninguém. O trabalho no laboratório cresceu muito, tivemos vários auxiliares que depois se tornaram fotógrafos.

Quem foram esses auxiliares?

O meu amigo Celita, que já faleceu, começou comigo e depois trabalhou com o Lacôrte, foi uma grande amizade até o último dia de sua vida. Tem mais, mas não me recordo bem os nomes. Muita gente vinha para aprender, trabalhava por um tempo e depois iam se ‘virar’ sozinhos. No Zoom Bischof, o Cláudio (Franchi) trabalhou com nós, hoje ele está muito bem né! O Fábio (Mendes) também trabalhou na  Zoom. É muita gente; difícil guardar o nome de todos.

Conte mais sobre o show em Piracicaba em que fotografou o cantor Roberto Carlos.

Depois da apresentação do Cine Palácio, o Roberto Carlos voltou em outra grande festa, numa feira de agro-comercial em Piracicaba, no bairro da Paulista. Também o fotografei, por intermédio do jornalista Peter, pescando, quando ele comprou um rancho em Piracicaba. A Hebe Camargo fez show na praça e fotografei-a. Todas essas fotos eu tinha no meu grande acervo e a chuva acabou com tudo.

Como foi essa tragédia de perder seu acervo fotográfico?

Foi no ano de 1982 ou 83, deu uma grande chuva, foi uma das maiores enchentes do Rio Piracicaba, bem maior que deste ano de 2010. Eu tinha uma loja na Rua Benjamin Constant, 1123, e tinha o meu acervo lá. O prédio era velho e estourou uma calha. Com isso inundou a sala onde havia uma prateleira com várias caixas de sapatos, onde estavam guardados os negativos e fotos. Tinham fotos da inauguração do Barão de Serra Negra, Pelé, grandes políticos que compareceram em Piracicaba, como o Jânio Quadros e o Médici. Inclusive eu tenho uma foto do Médici, foi a única vez que a Rua Moraes Barros inverteu a mão. Em vez de subir, o Médici desceu a Moraes Barros. Tenho essa foto até hoje. Mas enfim, voltando ao acervo, chorei por várias horas quando vi os negativos todos grudados por causa da água, perdia ali uma história de mais de vinte anos.

Comitiva do presidente Médici 'desce' a Rua Moraes Barros. Foto: Jorge.

Você estava na cidade quando o prédio Comurba desmoronou?

No dia 6 de novembro de 1964, a data do desmoronamento, eu trabalhava com o Bischof. Era uma tarde e às vezes saíamos para descansar na porta da loja, para ver o povo passar e bater um papo. Por coincidência, mais ou menos entre 14h00 e 14h30, no momento que estávamos ali na porta escutamos um estrondo, da Rua Governador Pedro de Toledo, deu para ver bem uma enorme quantidade de poeira – pois não havia muitos prédios em Piracicaba – bem no meio da Praça José Bonifácio. Ficou cerca de uma hora aquela poeira no ar. Muita gente, na maior curiosidade correu até a praça para ver o que tinha acontecido, eu fui  junto. Voltei para a loja, peguei uma câmera e fiz fotos no local do acidente. Não dava para chegar muito perto de tanta poeira. De repente começou a aparecer polícia, bombeiro, a cidade não tinha a estrutura de hoje, veio o Corpo de Bombeiros de Campinas para ajudar. Fiz uma foto, que foi publicada no Estadão (jornal O Estado de S. Paulo) depois de dez dias.

Quem publicou sua foto no jornal O Estado de S. Paulo?

Foi o jornalista Rocha Netto. Ele gostava muito de esporte e enviava matérias sobre o assunto para os jornais, a maioria para a Gazeta Esportiva. Também tinha contato com o Estado e outras publicações. Sempre que precisava de fotos, eu e o fotógrafo Cícero cedíamos a ele. Um dia me procurou e perguntou se tinha alguma foto do Comurba. Como eu fotografei, entreguei a ele e depois de alguns dias saiu publicado no Estadão. Guardo a publicação como lembrança até hoje.

Além dessa, cedi mais de cem fotos para o Rocha Netto, que foram publicadas no grande livro que ele fez sobre a história do XV de Piracicaba. Inclusive tenho o livro guardado.

Foto do prédio Comurba após desmoronamento. Publicado no Jornal Estado de S. Paulo. Foto: Jorge.

Na década de 1970, havia em Piracicaba, uma associação de fotógrafos que você participava. Como funcionou e quem fez parte desse grupo?

Teve sim, na década de setenta, uma associação de fotógrafos, procurei o livro, a ata, para mostrar a você, mas não encontrei. Começou em 1971. Fizemos a Associação dos Fotógrafos Profissionais de Piracicaba que funcionou muito bem por alguns anos. Era presidente o Idálio Filetti, fui o 1° secretário e a maioria dos fotógrafos faziam parte. O objetivo era preservar o respeito entre os fotógrafos e para haver divisão, para cada um ter seu espaço. Quando tinha grandes formaturas na cidade, não era como hoje onde têm várias equipes, vinham fotógrafos de fora. Mas com a associação nos reuníamos e fotografávamos esses grandes eventos. Por um tempo funcionou, mas depois começou a haver deslealdade e concorrência dentro do grupo e acabou que paramos com a associação. Fui o último presidente. Durou uns dez ou quinze anos. Foi muito bacana.

Mas antes dessa associação, a primeira equipe de fotógrafos para registrar os grandes eventos de Piracicaba foi o Cícero que criou. Os fotógrafos eram:  Cícero, Paulo Lacôrte, eu e o Celita. Fotografamos o maior baile de debutantes que teve na cidade, no Clube Coronel Barbosa. Era a ‘nata’ da sociedade. Para se ter uma idéia o paraninfo foi um dos homens mais ricos de Piracicaba, Dovilio Ometto, que trouxe a grande orquestra de Oscar Milani. Cada um dos fotógrafos ficou responsável por uma área do grande evento. Fiquei fotografando o apresentador, um artista da Rede Globo, que não recordo o nome, com as debutantes e com qualquer moça que quisesse fotografar com ele. Naquela noite registrei mais de 300 fotos só dele com as meninas e as mulheres do evento.

Você e o Cícero foram grandes amigos?

Sim, fomos. O Cícero me ajudou muito no início de minha carreira como fotógrafo. Os carnavais de rua éramos nós dois que fotografávamos. Os outros fotógrafos não faziam essa loucura. Ficar a noite inteira com três, quatro máquinas penduradas para não ficar trocando de filmes e aqueles flashes pesados da época eram cansativos demais. Hoje com a facilidade do digital ficou muito mais fácil. Você tira mil fotografias brincando.

Rainha do Carnaval de Piracicaba em 1980. Foto: Jorge.

Conte sobre a coleção de câmera fotográfica que possui.

Comecei a colecionar por causa das câmeras antigas dos Bischof. Apaixonei-me por elas. Comecei a receber muitas doações de câmeras por conta da evolução dos filmes. Conforme trocavam os formatos dos negativos, as pessoas trocavam as câmeras. Essas doações vinham de famílias antigas, que eram clientes da loja. Reuni mais de cem câmeras. Já expus no SESC e em Águas de São Pedro, a pedido do prefeito. A intenção é fazer uma exposição fixa dessas câmeras em minha loja. Só falta elaborar o espaço.

Qual a câmera mais antiga da coleção?

Tenho uma jóia rara, a Kodak nº 3. Não me lembro de quem ganhei essa câmera. Por conta de uma reportagem, um funcionário da Kodak me ligou e perguntou se eu a venderia. Na época não aceitei a proposta e não houve mais procura.

O que representa a fotografia em sua vida?

É duro de explicar. Fiquei muito popular, principalmente quando estava na ativa. Nessa época o fotógrafo era muito bem tratado. Em casamento era reservado o melhor lugar para eu sentar. Tratamento VIP. Fiz grandes amizades, até hoje as pessoas que fotografei visitam-me em minha loja. Essas amizades é o que mais a fotografia representa na minha vida.

O que não fotografou, mas pretende fotografar?

É difícil o que não fotografei.  Para se ter uma idéia, até defunto em velório eu fotografei. É uma cultura nordestina fazer o último retrato no caixão. Fiz muitas vezes. A única coisa que não fotografei foi parto. Não tive coragem nem dos meus filhos. Não nasci para ser médico.


Edição de texto: Fabiano da Rocha.


Etiquetado , , ,

Nogueira

Nogueira

O fotógrafo Antonio Nogueira Neto, o ‘Seu’ Nogueira, nasceu em Araripe no Estado do Ceará e mora em Piracicaba desde ‘mocinho’, como gosta de dizer. Está a mais de cinqüenta anos casado e tem dois filhos. Em outubro de 2010 completa 80 anos. “Quanto mais vivo, mais aprendo, graças a Deus” diz. Conheço-o desde a época em que eu trabalhava no laboratório fotográfico da saudosa Zoom Bischof, da rua Governador Pedro de Toledo. Foi ali, que fiz grandes amizades com muitos fotógrafos de Piracicaba e região. Porém, quem buscou este fotógrafo para a entrevista, foi meu camarada Rober Capreci. Além de se conhecerem por causa da profissão, foram moradores do mesmo bairro, o dos Alemães, em que eu, por coincidência, vivi muitos anos de minha vida.
Segue a entrevista.

Quando começou a fotografar?

O ano não me lembro, faz mais de quarenta anos. Quando comecei ainda era foto branco e preto, depois que vieram as fotos coloridas. Eu fiz muita foto branco e preto, pôster, quadro, entregava e vendia ‘prá fora’. Naquele tempo, as coloridas vinham de São Paulo. Eu ia duas vezes por semana levar os serviços por lá.

Era sempre você que levava os serviços até lá?

O colorido no começo era, levava e trazia. Depois vieram os ‘viajantes’ deles (dos laboratórios) que faziam esse trabalho.

Como aprendeu a fotografar?

Prá falar a verdade, eu aprendi sozinho, eu e a máquina. Eu fiz curso de correspondência, mas a maior parte foi ‘lutando’ com a câmera. O curso apenas ensina a teoria.

Você tinha algum fotógrafo de referência no início da sua profissão?

Tinha o Jorge que eu gostava de conversar e o Turim, que me deu algumas lições para fotografar em igrejas.

Casa do Povoador em 1982. © Foto Nogueira.

Em laboratório, você já revelou e ampliou seus próprios trabalhos?

Eu tive laboratório, fazia revelações e depois passava em papel. Todos os tamanhos eu fazia, desde a 20×25 até 10×15, 30×40, 50×60. Quantos quadros eu fazia e vendia! Naquele tempo era bom, tinha bastantes clientes. Eu tinha até vendedor.

Em que área da fotografia atuava?

Eu fazia casamentos, batizados, aniversários, todos os ‘tipos’ de fotos. Dispensava casamentos de tanto que tinha. Batizados eu fazia quase todos os domingos, às vezes nas igrejas São José, São Judas Tadeu, na Vila Rezende. Muitos casamentos e batizados fiz com o padre Jorge. Hoje, por causa da minha visão que está fraca, meu filho Raul é quem faz os trabalhos.

Catedral de Santo Antonio nos anos 80. © Foto Nogueira.

O que mais gostava de fotografar?

Tudo. Fazia o que era preciso, casamentos, batizados e outros serviços que apareciam. Por causa da fotografia nunca fui empregado, sempre trabalhei por conta.

Algum momento marcante em quanto fotógrafo?

Não existem coisas que a gente põe na ‘cuca’ e nunca esquece. Pra mim tudo foi bom. Não tinha freguês ruim, todos eram bons, aquele que não pagava também considerava bom e assim é a vida.

Mas não tem nenhuma história curiosa pra contar?

Uma vez aconteceu, na igreja Bom Jesus, eu estava fotografando um casamento e a energia acabou. O padre continuou a celebrar e continuei a fotografar no escuro, com flash. Quando acabou o casamento o noivo perguntou se ia sair alguma foto. Eu disse a ele: “sai sim’’. Quando mandei revelar as fotos, tudo em ordem, tudo perfeito, porque o flash clareava tudo. Foi isso que lembro que me marcou, a energia acabou e o padre não parou de celebrar o casamento.

Nogueira com a família em 1982. Arquivo pessoal.

Mas como você acertava o foco no escuro?

Ah, a máquina já ficava no foco, deixava na distância ‘tal’ e depois é só apertar o gatilho. Conforme a distância, como daqui até aí ou um pouquinho mais longe já deixo no foco e não tem perigo não.

O que ainda não fotografou?

Não tenho mais vontade de fotografar, ainda mais hoje, que a visão não ajuda. Vamos deixando pros outros.

Assista a entrevista em vídeo.

Etiquetado , , , ,

Boni

José Bonifácio

José Bonifácio

“Piracicabano, graças a Deus”. Assim define-se de sua cidade natal, o fotógrafo José Bonifácio em seus 69 anos de idade. A primeira recordação que tenho do Bonifácio é do cartório de registro civil da Vila Rezende esperando algum casal de noivos distraídos, que se esqueceram de contratar um fotógrafo. Mas lá estava o Bonifácio para salvá-los. Claro que vários daqueles casamentos já o haviam contratado antecipadamente. Um tempo depois e com uma aproximação maior, por causa do laboratório em que eu trabalhava, descobri que o Bonifácio é o fotógrafo da Guarda Municipal. Esse ano faz ‘bodas de esmeralda’ na corporação. Sempre de bom humor e de um otimismo contagiante, o carismático Bonifácio concedeu essa entrevista ao programa Olhares, criado pelo profissional Rober Caprecci, agora em parceria  com o Fotografando Onde O Peixe Para. Confira.


Quando começou a fotografar?

Em 1970 eu entrei na Guarda Noturna e após fui requisitado a Polícia Técnica de Piracicaba para ser auxiliar do fotógrafo, que na época era o Joaquim Ferraz, conhecido como Quincas, que muito me ajudou.  Com a ajuda dele fui “subindo” cada vez mais, no serviço de fotografia. Passei realmente a trabalhar profissionalmente quando me deram crédito de confiança. Aí comecei a fotografar junto aos peritos da Polícia Técnica de Piracicaba, emprestado, como todos nós Guardas Civis, somos emprestados para as repartições da nossa cidade. E eu fui emprestado para a Polícia Técnica através de minha Guarda Noturna, e dali continuei dando segmento à fotografia da cidade de Piracicaba.

Lembro-me que no início, nós não tínhamos recursos, para fazer a fotografia à noite, precisávamos acender os faróis dos carros para que projetasse a luz no local que pudesse ser fotografado, era dessa forma. Com o decorrer do tempo é que foi melhorando, foi “surgindo” os flashes, facilitando o trabalho para nós profissionais. Costumo me expressar que naquela época para ser um fotógrafo tinha que ir até a NASA, fazer um teste e descer aqui para ser um profissional da fotografia, pois você tinha que fazer tudo, você “tirava” a foto, você revelava, tinha que saber de tudo. Hoje com a digital facilitou, pois a tecnologia está mudando tudo em nossas mãos. Sem menosprezar e esquecer o ontem, mas é “clarividente” que hoje é sem sombra de dúvida bem melhor. Porém eu continuo aprendendo, pois tenho em mim um fator, fotografia você nunca vai aprender totalmente, porque, diga-se de passagem, a cada dia a cada tempo, a fotografia se enobrece. São coisas que jamais vai atingir, jamais vai acabar a fotografia. A fotografia não vai acabar nunca, nunca mesmo.

O que te dá mais prazer na fotografia?

Para falar a verdade, tudo me dá prazer na fotografia, faço com muito amor, muito carinho, eu amo a fotografia, é a sequência de minha vida é tudo pra mim.

João Herrmann Neto conversando com guardas – Foto: José Bonifácio

Um momento que te marcou no trabalho com a fotografia?

Um momento que me marcou no trabalho foi, infelizmente, na época em que eu estava trabalhando com a Polícia Técnica, foram acidentes que a gente era obrigado a atender e de repente chegar ao local e deparar com aqueles “quadros”, que tinha que alguém fazer, e esse alguém seríamos nós, fotógrafos profissionais. Foram dez anos de Polícia Técnica.

 

Algum projeto em andamento?

Meu projeto é continuar crescendo cada vez mais, desde que Deus me permita, como fotógrafo. Eu sei o quanto sou valioso na minha profissão que exerço.

 

O que ainda não fotografou?

Na verdade, o meu sonho é sair um “pouco fora”, ir para o Pantanal Mato-grossense, os locais que realmente são deslumbrantes para a fotografia e tenho certeza que todos os profissionais desejam, sonham.

Posto da Guarda Noturna, Av. São Paulo – Paulicéia – Foto: José Bonifácio

Defina a fotografia em sua vida.

Fotografia na minha vida é a continuidade da vida que Deus está me dando, eu agradeço muito a Ele pelo fator de ter recebido esse dom, de ser o profissional que sou.

Desfile de 7 de Setembro 2009 – Foto: José Bonifácio

Entrevista em vídeo:

Inté.

Etiquetado , , ,