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Essio Pallone Filho

Essio Pallone Filho. © 2012. Fábio Mendes.

Essio Pallone Filho. © 2012. Fábio Mendes.

Há quem diga que a vida começa aos 40 anos. Esta idade para muitos é um marco, pois acreditam que percorreram e chegaram à metade do caminho. Deste ponto em diante é aproveitar ao máximo a vida e ir à busca de sonhos, sejam eles pessoais e/ou profissionais. Filosofia à parte, conhecer a história do fotógrafo Essio Pallone Filho nos faz refletir sobre quando e como começar a conquistar estes objetivos de vida. Pai de três filhas, Fabiana, Renata e Fernanda, Essio resolveu aos 44 anos preencher sua alma. Tornou-se fotógrafo. O caminho não foi e nem continua fácil, mas em 22 anos de profissão, o fotógrafo tem em seu acervo aproximadamente cem mil imagens dos mais variados assuntos. É um assíduo frequentador de mostras e concursos, o que o transforma num vencedor de prêmios e honrarias. Amante de bons casos – contou vários durante a entrevista – agora sua trajetória com a fotografia é que se transforma em uma boa história.

Quando iniciou na fotografia?

Em 1977 eu trabalhava no Banco do Commércio e Indústria de São Paulo S.A. (Comind) e surgiu uma vaga para trabalhar em Piracicaba. No dia 1º de abril de 1977 cheguei à cidade como bancário. Mas antes de começar a fotografar trabalhei também com selos. Existia um nicho no mercado, em que eu montava cartelas com selos para distribuir em banca de revistas. Só que o trabalho não me agradava e então resolvi trabalhar com filmagem e fotografia em 1991. Peguei meu material filatélico, vendi boa parte, mas sobraram alguns que guardo até hoje. Com o dinheiro comprei filmadora e máquina fotográfica e resolvi fazer um curso de fotografia em São Carlos, na Oficina Cultural, um órgão do governo que existe em algumas cidades. O curso foi ministrado por um professor da USP chamado Chico Vecchia e nos tornamos amigos, foi ele que me iniciou na fotografia. Com o vídeo fui autodidata, transferi todo conhecimento da fotografia para esta linguagem.

Como surgiu a sua vontade em fotografar?

Não saberia dizer para você. Em 1975 eu comecei a trabalhar no Comind lá na região de São Carlos e um dia viajei à São Paulo a trabalho e fui a famosa r. 25 de Março, na Galeria Pagé e comprei uma máquina fotográfica.  A marca era Petri, uma câmera de segunda linha, japonesa. Comecei a fotografar minha família, viagens e passeios. Fiquei com está máquina até 1991 quando comprei uma Minolta SRT com o fotógrafo Jorge. Ele tinha uma casa de fotografia na r. Benjamin Constant. Porém a recomendação do Chico era uma Canon FTB. Fui a São Paulo para comprá-la mas o preço elevado me impediu de adquiri-la. Mostrei a Minolta para o Chico e ele me disse que era a “máquina” da Minolta e fiz uma bela compra. A filmadora era uma Panasonic VHS.

E como foi a troca da profissão, bancário por fotógrafo?

Me inseri no mercado. Comecei a fotografar casamentos, aniversários, eventos e por aí foi. Mas a “coisa” estava difícil de engrenar e num determinado momento, em 1994, conheci uma professora do Colégio Luiz de Queiroz (CLQ), Wilma Gorgulho e nos tornamos grandes amigos. Ela me pediu para editar um vídeo de uma visita que o CLQ fez na Indústria Dedini.  Editei e comecei a trabalhar com o colégio. Foram oito anos fotografando e filmando para o CLQ.

Cemitério Nossa Senhora do Carmo. © Essio Pallone Filho

Cemitério Nossa Senhora do Carmo. © Essio Pallone Filho

Por que escolheu Piracicaba, já conhecia a cidade?

Vim à Piracicaba por causa do Banco, estava apreensivo em morar numa cidade nova. Outros costumes, nova sociedade, acreditava que encontraria dificuldades nos relacionamentos sociais. Tiveram duas pessoas muito legais que trabalhavam comigo no Comind, a Rose e o Mario Sbrissa – já falecido – que me receberam muito bem. Me convidavam para passear e fizeram me sentir à vontade por aqui. No banco eu tinha vários contatos com empresários, pois minha função era trabalhar com as empresas, então minha inserção com novas amizades foi tranquila.

Vinte um anos de fotografia, compartilhe algumas histórias.

Vinte um anos, sou jovem na fotografia, acabei de fazer a minha maioridade na profissão.  Quando comecei em 1991, na Oficina Cultural fizemos uma carga horária oficial de 210 horas, o que é bastante.  O tempo foi estendido porque o governo do Estado proporcionou papel, químico e filme. Então o Chico com boa vontade e nós alunos querendo aprender, realizamos perto de 500 horas de atividades. Isso foi um grande passo, pois preparávamos o químico, fotografava, revelávamos e por fim fazíamos as cópias no ampliador. Todo este processo me fez gostar da fotografia. Em Piracicaba montei um laboratório em meu apartamento no banheiro da empregada – que nunca apareceu para trabalhar.  Toda essa manipulação da fotografia analógica me fez gostar do preto e branco. Tenho uma foto premiada em segundo lugar pela cidade de Santa Maria da Serra, de um balão em preto e branco. Mais colorido que balões é difícil de encontrar. Mas o “lance” do prêmio foi o diferencial em utilizar o pxb para registrar o balão. Fotografo colorido, mas o meu foco é o preto e branco. Hoje capturo as imagens no digital e depois as manipulo no Photoshop transformando em pxb, sempre com a característica de fotografia autoral.

Balão no chão. © Essio Pallone Filho

Balão no chão. © Essio Pallone Filho

A primeira saída fotográfica individual que fiz, foi no bairro do Monte Alegre com uma série de fotos da igreja. O dia estava lindo, com nuvens e céu bonito num fim de tarde. Posicionei-me em alguns pontos com a câmera no tripé e fiz várias fotos da construção, realizei um estudo de arquitetura da igreja. Posteriormente estas fotos me levaram a registrar um grande acervo que possuo, cerca de 60 fazendas fotografadas no Estado de São Paulo.  Em 1993 aconteceu no Teatro Municipal Dr. Losso Netto, a primeira Mostra Fotográfica de Piracicaba. Pelo que sei foi a primeira e a última. Na mostra cada fotógrafo poderia enviar cinco fotos. Lembro-me que o primeiro colocado foi o Christiano Diehl, o segundo ficou com o Beto Brusantin e não me lembro do terceiro colocado. Enviei cinco fotos e três foram selecionadas. Fiquei contente, pois estava começando nunca havia participado de nada, não sabia qual era a característica de uma Mostra ou de um Salão. A partir desta mostra transformei a minha personalidade e mudei a minha relação com a fotografia e a cidade. Vale uma ressalva aqui: Piracicaba é uma cidade especial, tem uma conformação geográfica e uma beleza fotogênica rara dentro do Estado de São Paulo.  Mas como as pessoas vivem na cidade não notam essa beleza. Tem morador que passa pelo rio diariamente e não sabe se ele está cheio ou vazio, pois o rio é apenas um componente do seu trajeto. Quem fotografa vê estas coisas, se descer todo dia ao rio fará uma foto diferente.

Capela de São Pedro de Monte Alegre. © Essio Pallone Filho

Capela de São Pedro de Monte Alegre. © Essio Pallone Filho

Aqui em Piracicaba eu tinha mais ligação com os artistas plásticos, a Marilu (Trevisan), Luisa Libardi, (Antonio) Natal (Gonçalves), este pessoal bem conhecido da cidade. O contato com eles influenciou na minha fotografia. A visão do fotógrafo é uma, se ele trabalha com still, fotojornalismo, casamento ou qualquer especialidade ele terá um foco. Eu não tinha intenções, pela minha característica, de me especializar em apenas um produto, transito pela área da fotografia. Se ela é documental, autoral, se tenho que fotografar objetos e documentos, como fiz para um museu, um trabalho meramente burocrático. Mas tem que entender de iluminação para fotografar os documentos, do contrário se transforma em um desastre burocrático.

Você é um fotógrafo premiado, em 1997 conquistou o Mapa Cultural Paulista. Foram várias participações em concursos e mostras?

Depois da participação da mostra em 1993, comecei a enviar minhas fotos para salões de arte. Tenho mais de cem participações entre exposições coletivas, exposições individuais, concursos e mostras. O ano de 1997 foi um marco para mim. Havia o Mapa Cultural Paulista e conheci a Neide Maria Silva, que trabalhava no Teatro Municipal Dr. Losso Netto. Ela me disse: ‘Por que você não participa do Mapa com fotografia e vídeo?’.  Pedi então para me explicar o que era o Mapa. Já havia fotografado formas em árvores para uma exposição no Sesc chamada Clique o Sesc em São Carlos. A proposta era fotografar a unidade do Sesc São Carlos, e lá havia uma árvore – não existe mais – que tinha a forma de um dorso de mulher. O título da foto é Paixão Nacional, contrapondo com um comercial que dizia ser a paixão nacional a cerveja, o que eu acredito que para os homens seja o dorso de mulher e para as mulheres o dorso do homem. Utilizando a mesma ideia reuni cinco imagens e as enviei para o Mapa Cultural representando a cidade de São Carlos com foto e vídeo. O vídeo não passou para a segunda fase regional em Campinas, mas as fotos passaram. A final foi em São Paulo e um dos julgadores do concurso, me pediu para comparecer no dia do evento. Fui e a categoria fotografia foi a penúltima a ser apresentada. Quando anunciaram o terceiro e segundo colocados e meu nome não foi chamado pensei, minha presença era só para fazer pompa. Daí anunciou o primeiro colocado, Essio. A foto vencedora chamei de Pajé. Era a forma de uma máscara que visualizei no toco de uma árvore. A partir deste prêmio e desta série de cinco imagens, passei a fazer uma grande captação desta temática, olhar para uma casca de árvore e encontrar formas. Isto pode parecer fácil, mas tem que ver muitas árvores para encontrar uma imagem. Depois de capturar várias imagens realizei uma exposição que circulou na região de São Carlos com o nome de Esculturas Naturais. Tenho aproximadamente 150 imagens deste tema.

Paixão Nacional. © Essio Pallone Filho

Paixão Nacional. © Essio Pallone Filho

Mas a participação do Mapa não foi por Piracicaba?

Tudo o que fiz de 1991 a 2007 sempre foi por Piracicaba. Todas as participações em São Carlos ou em outras cidades neste período atuei como cidadão piracicabano. Entre os anos de 1998 e 1999 foram realizados eventos de balonismo em Piracicaba e o meu tesão era voar de balão. Quando eu tinha meus 18 e 19 anos fiz curso para ser piloto de avião. Só que infelizmente dois amigos morreram em um acidente aéreo e o meu pai que bancava o curso me disse, avião nunca mais. Mas gosto de voar. Tentei entrar para um grupo de balonismo em Piracicaba, só que os grupos são muito fechados.  Em São Carlos voei três vezes. Tenho uma parceria com a prefeitura em que eles me põem no balão e em troca cedo algumas fotos da cidade para eles. Possuo uma foto de balão, do piloto Feodor (Nenov) aqui de Piracicaba, que representou a Confederação Brasileira de Fotografia, num concurso em Andorra. A foto não foi premiada, mas selecionada junto com mais dez fotografias brasileiras. Estes concursos e mostras me estimulam a aprofundar no conhecimento da fotografia. Mês passado enviei fotos com meu amigo César Trimer para um concurso em Jaú chamado 2° Concurso de Fotografia Fateclique. A foto de César conquistou a segunda colocação e a minha, de uma gatinha fotografada no Engenho Central, conquistou menção honrosa.

Gatinha. © Essio Pallone Filho

Gatinha. © Essio Pallone Filho

Faço um paralelo entre os movimentos culturais de São Carlos e de Piracicaba. E como é ser fotógrafo em São Carlos?

Eu diria que no Estado de São Paulo neste eixo que a gente se encontra, pelas rodovias Bandeirantes, Anhanguera, Washington Luiz, até Ribeirão Preto faz parte de um grupo de cidades economicamente fortes. Boas estradas, ótima infraestrutura e no ramo da fotografia, muito parecidas. O forte são eventos, para ganhar dinheiro. A maioria dos fotógrafos estão neste segmento, depois vêm às formaturas, batizados, aniversários, confraternizações e por aí vai. Se você quiser ser um fotógrafo de still ou autoral é difícil. Em relação aos movimentos fotográficos, São Carlos teve dois fotoclubes fortes. Primeiro foi o Foto Cine Clube Sancarlense, que no ano passado resgatei sua história e realizei uma exposição no Sesc de São Carlos, com o apoio do Chico Galvão, que já foi programador cultural do Sesc Piracicaba. Em 1957 o Foto Cine Clube Sancarlense deixou de existir e então surgiu o Íris Foto Grupo. O Íris tinha um fotógrafo em especial chamado Paulo Pires que encabeçava o grupo. Todos os fotoclubes tem que ter alguém que encabece não para mandar, mas para tomar decisões, falar, conquistar espaços, promover concursos e entender mais de fotografia que os outros membros para dividir este conhecimento. O grupo fez um ótimo trabalho e teve grande influência em São Carlos. Todas as pessoas que gostavam de fotografia passavam pelo crivo do Pires para serem aceitas no grupo. Foi um grupo fechado e pequeno. Realizaram e participaram de concursos, vencendo alguns. O Pires ganhou inúmeros prêmios, até o Kikito conquistou, mas aí teve problemas de saúde e o Íris deixou de existir. Hoje em São Carlos temos um grupo de nove amigos fotógrafos chamado Fotosseio, que é uma brincadeira com as palavras “passeio fotográfico”. Estamos juntos desde 2005 com o único objetivo de fotografar e trocar informações. Há integrantes no grupo que estão passando do filme para o digital. Para algumas pessoas esta transposição foi relativamente fácil, mas para a grande maioria é difícil, principalmente para aquele que quer a fotografia esmerada. Primeiro você tem que descobrir os recursos da máquina digital, que são vários; você vai medir luz sem um fotômetro, pois o fotógrafo de filme usa um fotômetro manual. Ele ia até o assunto e marcava privilegiando as altas luzes ou as baixas luzes, ou uma média das luzes e fazia duas ou três fotos. Já a maioria dos fotógrafos que trabalham com digital fazem quinze fotos do mesmo assunto e depois escolhe a melhor. Eu não sei como isso vai fazer as pessoas aprender a fotografar. A única coisa é que vai fazer um monte de foto e será bom para o fabricante, pois queimará o CCD e terá que comprar outra máquina. As máquinas digitais top de linha têm validade de 150 mil fotos, já as top de linha de filmes, suportavam mais de 300 mil fotos.

Passeio fotográfico - 100 anos de Guião. © Essio Pallone Filho

Passeio fotográfico – 100 anos de Guião. © Essio Pallone Filho

Você tem uma ligação estreita com o Sesc, como surgiu esta parceria?

O primeiro passeio fotográfico do qual participei e fui um dos organizadores, foi junto com o Sesc de Piracicaba. A programadora cultural era na época e continua sendo a Marilia Azevedo Grillo. O passeio teve o nome de Ver Verão dentro do programa Sesc Verão. Foi então que passei a me interessar por passeios fotográficos. Neste período que fiz o passeio, algumas pessoas interessadas em fotografia e com o apoio do Sesc, foi criado o Núcleo Piracicabano de Fotografia. No primeiro encontra havia aproximadamente 60 pessoas. Mas fotógrafos são divididos em duas partes, o fotógrafo e o ego do fotógrafo. Não vou dizer que não tenho o meu, pois estes dois são difíceis de conviver.  Então o grupo foi reduzido e sobraram 15 membros. Realizávamos saídas fotográficas e participamos de uma saída em São Paulo, com a organização do fotógrafo Iatã Cannabrava com mais de 500 fotógrafos. Por causa do Sesc me reaproximei de São Carlos, minha irmã trabalhava na unidade de lá e junto com sua amiga Sueli, vieram para Piracicaba por causa da Bienal Naïfs do Brasil, e dormiram na minha casa. A Sueli encontrou uma garrafa cheia de fotografias em casa e disse que queria isso lá em São Carlos. Negociamos e fizemos uma exposição chamada Fotogarrafada que também foi para a unidade de São José do Rio Preto.

Fotogarrafada. © Essio Pallone Filho

Fotogarrafada. © Essio Pallone Filho

Piracicaba ou São Carlos?

Uma escolha difícil foram 30 anos em Piracicaba e tenho uma relação boa com muitas pessoas que nela vivem. Também conquistei muitas coisas materiais aqui. São Carlos foi o local que nasci e vivi minha infância, minha família é de lá. Mas tem uma terceira cidade, que moram duas das minhas três filhas – a Fabiana e a Renata – que é Poços de Caldas, também gosto muito.

E as fotografias de fazendas, como é este trabalho?

Em 1999 fui a São Carlos, participar de uma oficina promovida pelo Sesc com o fotógrafo Cláudio Edinger para fotografar a Fazenda Pinhal, pertencente a família Botelho. Foi aí que deu o start em fotografar fazendas. Comecei a frequentá-las e em 2002 houve um projeto em que comecei fotografar várias fazendas em São Carlos. Um tempo depois conheci o proprietário da Fazenda Nova em Mococa, e fiz dois calendários com as fotos de sua propriedade. Hoje tenho uma coleção de imagens de 60 fazendas no Estado de São Paulo e tenho mais 15 fazendas programadas para fotografar. Fiz duas exposições com estas imagens, as duas com o nome de Fazendas Paulistas. A primeira foram fotos de gente, a maior parte de boias-frias na colheita da cana. Na segunda exposição, mostrei vinte e cinco fazendas com mais uma foto de um detalhe da mesma. Para uma fazenda existir necessitava ter pelo menos uma igreja, serralheria, casa de colono, salão de festas e a casa do barão – geralmente imponente e num lugar estratégico para que tivesse uma visão de boa parte de sua propriedade. A Fazenda Santa Cecília em Cajuru tem uma história interessante sobre seu ex-dono, o Sampaio Moreira. Ele foi um industrial e morava na Av. Paulista em São Paulo. Todos seus vizinhos tinham imóveis ali porque eram barões do café e Moreira era o único que não tinha fazenda. Por conta disso enviou um funcionário ao interior do Estado para encontrar uma fazenda e comprá-la.  A Fazenda Santa Cecília tem aproximadamente 3.600 alqueires, com uma estação ferroviária maravilhosa, levada por Moreira.

Fazenda Pinhal. © Essio Pallone Filho

Fazenda Pinhal. © Essio Pallone Filho

Quando vou fotografar arquitetura levo um tripé que chega a quase três metros de altura. Para usá-lo também carrego uma escada de três degraus para alcançá-lo. Isso faz a diferença, pois na altura do chão, às vezes você registra muito chão e pouco céu na foto. Não adianta inclinar, pois tem a questão da perspectiva – vertical é vertical e horizontal é horizontal – tem que entender. Por isso carrego tudo isso comigo, tripé, escada, mais a bolsa cheia, é o esmero e o capricho que faz a diferença. Não possuo infelizmente, como o nobre colega de arte Ansel Adams, uma station wagon, um carro que em cima ele acoplou uma plataforma para colocar seu tripé. Se eu tivesse a lente de correção de paralelismo ou uma câmera de grande formato para corrigir a perspectiva, beleza. Mas não possuo e o fotógrafo não pode ter preguiça.

Há uma foto minha da Fazenda Santa Maria em São Carlos, que foi capa da revista Autoban. Para fazê-la subi em uma escada que estava sobre um trator dentro de uma carroceria de uma carreta. Eu estava a 4 metros do chão, pois era um sobrado e queria registrar suas linhas perfeitamente paralelas.

Fazenda Ibicaba. © Essio Pallone Filho

Fazenda Ibicaba. © Essio Pallone Filho

De que forma você cuida do seu acervo fotográfico?

Para responder esta pergunta vou te contar uma história. Meu primeiro emprego fui Operador de Máquina de Perfuração, na empresa Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Trabalhava no meio do nada, eram os operadores, as máquinas e a natureza. Depois trabalhei no almoxarifado da empresa PRM CPRM. Ali aprendi a ter disciplina para poder armazenar 35 mil itens que chegavam e saíam. Hoje meu arquivo fotográfico, tanto filme quanto digital, é organizado por ordem cronológica. Junto a isso tenho uma planilha de Excel em que coloco o dia da fotografia e de cada fotograma tem as informações do assunto geral registrado. Para os negativos fiz uma cópia de cada fotograma no tamanho 10x15cm, são aproximadamente 40 mil fotos. No digital o acervo é de 60 mil imagens. Fotografia de filme e fotografia digital são duas coisas distintas, situações, captações e resultados diferentes. Um negativo te dá outra resposta do digital. A fotografia digital tem em celular e têm lá no acelerador de partículas na Suíça, com 145 mil megapixels.

Quem são suas referências na fotografia?

O meu grande inspirador é o Ansel Adams, um perfeccionista da fotografia. Ele tem três livros publicados pela Editora Senac, A Câmera, O Negativo e A Cópia, que são uma bíblia. Leia e aprenda o seu conteúdo que irá adquirir uma base de conhecimento suficiente para ser um bom fotógrafo. Outros nomes: Marc Ferrez, Militão, Paulo Pires, Eduardo Salvatore, Sebastião Salgado, Gal Oppido, Juca Martins… Se eu ficar pensando vão aparecer vários nomes, há tem o Robert Doisneau, mas a memória agora “ferrou”, são muitas referências.

Rita Lee - Bossa n'roll. © Essio Pallone Filho

Rita Lee – Bossa n’roll. © Essio Pallone Filho

Em algum momento a fotografia te decepcionou?

O prazer de fotografar e o que estou fotografando não me dão nenhum tipo de decepção. A decepção vem do mercado profissional, em que o trabalho do fotógrafo não se remunera o que de fato vale. É difícil colocar no preço seu conhecimento e o esmero pelo trabalho, leva quase sempre o melhor preço. Se você acredita que qualquer um pode fotografar seu casamento, significa que seu casamento não vai durar muito tempo. (risos). Penso por aí. E agora a situação está bem complexa, pois a referência da fotografia hoje, todo mundo acha que a fotografia nasceu digital. A fotografia nasceu no século XIX, o primeiro registro em 3D foi em 1937. Era um par de fotografias em que você usava um instrumento chamado estereoscópico para ver o efeito. Na década de 50 foi moda o filme de terceira dimensão. Quando eu era criança meus pais me levaram no Cine Metro em São Paulo, para assistir um filme de demonstração em 3D. Todo mundo de óculos e aí começou o filme e na cena mostra uma pedra despencando de um morro. Meu pai não teve dúvidas, agachou atrás da cadeira da frente para as pedras não caírem em cima dele.  Isso foi na década de 50 e as pessoas acham que estas tecnologias nasceram hoje.

O que a fotografia representa para você?

Quando a fotografia começou as pessoas tinham medo de serem fotografadas, porque acreditavam que ela roubavam suas almas. Na realidade eu acredito que no retrato, o fotógrafo só consegue registrar aquilo que a pessoa transmite a ele. O enquadramento e a luz são apenas componentes da fotografia. Tem uma foto famosa do Winston Churchill em que ele está muito bravo. Percebendo a irritação do Churchill que reclamava pela demora do retrato, o fotógrafo, malicioso, esperou até o momento em que ele estava próximo a esmurrá-lo. Então capturou o sentimento que o retratado quis transmitir para a foto. Um dia um senhor no CLQ me pediu para deixá-lo bonito na foto. Disse a ele que só fotografaria o que conseguisse ou quisesse me mostrar. Quando a fotografia não é de gente eu situo ela como registro, e o trabalhar do fotógrafo para este registro é quando ele põe a sua alma ali. Retrato a alma vem de lá e registro a alma vai para lá.

Para encerrar, quando eu tinha treze anos queria ser piloto de Fórmula 1, só em 1993 acreditei que a fotografia era a alma da minha vida. Me dedico a ela de corpo e alma.

Engenho Central. © Essio Pallone Filho

Engenho Central. © Essio Pallone Filho

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