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Essio Pallone Filho

Essio Pallone Filho. © 2012. Fábio Mendes.

Essio Pallone Filho. © 2012. Fábio Mendes.

Há quem diga que a vida começa aos 40 anos. Esta idade para muitos é um marco, pois acreditam que percorreram e chegaram à metade do caminho. Deste ponto em diante é aproveitar ao máximo a vida e ir à busca de sonhos, sejam eles pessoais e/ou profissionais. Filosofia à parte, conhecer a história do fotógrafo Essio Pallone Filho nos faz refletir sobre quando e como começar a conquistar estes objetivos de vida. Pai de três filhas, Fabiana, Renata e Fernanda, Essio resolveu aos 44 anos preencher sua alma. Tornou-se fotógrafo. O caminho não foi e nem continua fácil, mas em 22 anos de profissão, o fotógrafo tem em seu acervo aproximadamente cem mil imagens dos mais variados assuntos. É um assíduo frequentador de mostras e concursos, o que o transforma num vencedor de prêmios e honrarias. Amante de bons casos – contou vários durante a entrevista – agora sua trajetória com a fotografia é que se transforma em uma boa história.

Quando iniciou na fotografia?

Em 1977 eu trabalhava no Banco do Commércio e Indústria de São Paulo S.A. (Comind) e surgiu uma vaga para trabalhar em Piracicaba. No dia 1º de abril de 1977 cheguei à cidade como bancário. Mas antes de começar a fotografar trabalhei também com selos. Existia um nicho no mercado, em que eu montava cartelas com selos para distribuir em banca de revistas. Só que o trabalho não me agradava e então resolvi trabalhar com filmagem e fotografia em 1991. Peguei meu material filatélico, vendi boa parte, mas sobraram alguns que guardo até hoje. Com o dinheiro comprei filmadora e máquina fotográfica e resolvi fazer um curso de fotografia em São Carlos, na Oficina Cultural, um órgão do governo que existe em algumas cidades. O curso foi ministrado por um professor da USP chamado Chico Vecchia e nos tornamos amigos, foi ele que me iniciou na fotografia. Com o vídeo fui autodidata, transferi todo conhecimento da fotografia para esta linguagem.

Como surgiu a sua vontade em fotografar?

Não saberia dizer para você. Em 1975 eu comecei a trabalhar no Comind lá na região de São Carlos e um dia viajei à São Paulo a trabalho e fui a famosa r. 25 de Março, na Galeria Pagé e comprei uma máquina fotográfica.  A marca era Petri, uma câmera de segunda linha, japonesa. Comecei a fotografar minha família, viagens e passeios. Fiquei com está máquina até 1991 quando comprei uma Minolta SRT com o fotógrafo Jorge. Ele tinha uma casa de fotografia na r. Benjamin Constant. Porém a recomendação do Chico era uma Canon FTB. Fui a São Paulo para comprá-la mas o preço elevado me impediu de adquiri-la. Mostrei a Minolta para o Chico e ele me disse que era a “máquina” da Minolta e fiz uma bela compra. A filmadora era uma Panasonic VHS.

E como foi a troca da profissão, bancário por fotógrafo?

Me inseri no mercado. Comecei a fotografar casamentos, aniversários, eventos e por aí foi. Mas a “coisa” estava difícil de engrenar e num determinado momento, em 1994, conheci uma professora do Colégio Luiz de Queiroz (CLQ), Wilma Gorgulho e nos tornamos grandes amigos. Ela me pediu para editar um vídeo de uma visita que o CLQ fez na Indústria Dedini.  Editei e comecei a trabalhar com o colégio. Foram oito anos fotografando e filmando para o CLQ.

Cemitério Nossa Senhora do Carmo. © Essio Pallone Filho

Cemitério Nossa Senhora do Carmo. © Essio Pallone Filho

Por que escolheu Piracicaba, já conhecia a cidade?

Vim à Piracicaba por causa do Banco, estava apreensivo em morar numa cidade nova. Outros costumes, nova sociedade, acreditava que encontraria dificuldades nos relacionamentos sociais. Tiveram duas pessoas muito legais que trabalhavam comigo no Comind, a Rose e o Mario Sbrissa – já falecido – que me receberam muito bem. Me convidavam para passear e fizeram me sentir à vontade por aqui. No banco eu tinha vários contatos com empresários, pois minha função era trabalhar com as empresas, então minha inserção com novas amizades foi tranquila.

Vinte um anos de fotografia, compartilhe algumas histórias.

Vinte um anos, sou jovem na fotografia, acabei de fazer a minha maioridade na profissão.  Quando comecei em 1991, na Oficina Cultural fizemos uma carga horária oficial de 210 horas, o que é bastante.  O tempo foi estendido porque o governo do Estado proporcionou papel, químico e filme. Então o Chico com boa vontade e nós alunos querendo aprender, realizamos perto de 500 horas de atividades. Isso foi um grande passo, pois preparávamos o químico, fotografava, revelávamos e por fim fazíamos as cópias no ampliador. Todo este processo me fez gostar da fotografia. Em Piracicaba montei um laboratório em meu apartamento no banheiro da empregada – que nunca apareceu para trabalhar.  Toda essa manipulação da fotografia analógica me fez gostar do preto e branco. Tenho uma foto premiada em segundo lugar pela cidade de Santa Maria da Serra, de um balão em preto e branco. Mais colorido que balões é difícil de encontrar. Mas o “lance” do prêmio foi o diferencial em utilizar o pxb para registrar o balão. Fotografo colorido, mas o meu foco é o preto e branco. Hoje capturo as imagens no digital e depois as manipulo no Photoshop transformando em pxb, sempre com a característica de fotografia autoral.

Balão no chão. © Essio Pallone Filho

Balão no chão. © Essio Pallone Filho

A primeira saída fotográfica individual que fiz, foi no bairro do Monte Alegre com uma série de fotos da igreja. O dia estava lindo, com nuvens e céu bonito num fim de tarde. Posicionei-me em alguns pontos com a câmera no tripé e fiz várias fotos da construção, realizei um estudo de arquitetura da igreja. Posteriormente estas fotos me levaram a registrar um grande acervo que possuo, cerca de 60 fazendas fotografadas no Estado de São Paulo.  Em 1993 aconteceu no Teatro Municipal Dr. Losso Netto, a primeira Mostra Fotográfica de Piracicaba. Pelo que sei foi a primeira e a última. Na mostra cada fotógrafo poderia enviar cinco fotos. Lembro-me que o primeiro colocado foi o Christiano Diehl, o segundo ficou com o Beto Brusantin e não me lembro do terceiro colocado. Enviei cinco fotos e três foram selecionadas. Fiquei contente, pois estava começando nunca havia participado de nada, não sabia qual era a característica de uma Mostra ou de um Salão. A partir desta mostra transformei a minha personalidade e mudei a minha relação com a fotografia e a cidade. Vale uma ressalva aqui: Piracicaba é uma cidade especial, tem uma conformação geográfica e uma beleza fotogênica rara dentro do Estado de São Paulo.  Mas como as pessoas vivem na cidade não notam essa beleza. Tem morador que passa pelo rio diariamente e não sabe se ele está cheio ou vazio, pois o rio é apenas um componente do seu trajeto. Quem fotografa vê estas coisas, se descer todo dia ao rio fará uma foto diferente.

Capela de São Pedro de Monte Alegre. © Essio Pallone Filho

Capela de São Pedro de Monte Alegre. © Essio Pallone Filho

Aqui em Piracicaba eu tinha mais ligação com os artistas plásticos, a Marilu (Trevisan), Luisa Libardi, (Antonio) Natal (Gonçalves), este pessoal bem conhecido da cidade. O contato com eles influenciou na minha fotografia. A visão do fotógrafo é uma, se ele trabalha com still, fotojornalismo, casamento ou qualquer especialidade ele terá um foco. Eu não tinha intenções, pela minha característica, de me especializar em apenas um produto, transito pela área da fotografia. Se ela é documental, autoral, se tenho que fotografar objetos e documentos, como fiz para um museu, um trabalho meramente burocrático. Mas tem que entender de iluminação para fotografar os documentos, do contrário se transforma em um desastre burocrático.

Você é um fotógrafo premiado, em 1997 conquistou o Mapa Cultural Paulista. Foram várias participações em concursos e mostras?

Depois da participação da mostra em 1993, comecei a enviar minhas fotos para salões de arte. Tenho mais de cem participações entre exposições coletivas, exposições individuais, concursos e mostras. O ano de 1997 foi um marco para mim. Havia o Mapa Cultural Paulista e conheci a Neide Maria Silva, que trabalhava no Teatro Municipal Dr. Losso Netto. Ela me disse: ‘Por que você não participa do Mapa com fotografia e vídeo?’.  Pedi então para me explicar o que era o Mapa. Já havia fotografado formas em árvores para uma exposição no Sesc chamada Clique o Sesc em São Carlos. A proposta era fotografar a unidade do Sesc São Carlos, e lá havia uma árvore – não existe mais – que tinha a forma de um dorso de mulher. O título da foto é Paixão Nacional, contrapondo com um comercial que dizia ser a paixão nacional a cerveja, o que eu acredito que para os homens seja o dorso de mulher e para as mulheres o dorso do homem. Utilizando a mesma ideia reuni cinco imagens e as enviei para o Mapa Cultural representando a cidade de São Carlos com foto e vídeo. O vídeo não passou para a segunda fase regional em Campinas, mas as fotos passaram. A final foi em São Paulo e um dos julgadores do concurso, me pediu para comparecer no dia do evento. Fui e a categoria fotografia foi a penúltima a ser apresentada. Quando anunciaram o terceiro e segundo colocados e meu nome não foi chamado pensei, minha presença era só para fazer pompa. Daí anunciou o primeiro colocado, Essio. A foto vencedora chamei de Pajé. Era a forma de uma máscara que visualizei no toco de uma árvore. A partir deste prêmio e desta série de cinco imagens, passei a fazer uma grande captação desta temática, olhar para uma casca de árvore e encontrar formas. Isto pode parecer fácil, mas tem que ver muitas árvores para encontrar uma imagem. Depois de capturar várias imagens realizei uma exposição que circulou na região de São Carlos com o nome de Esculturas Naturais. Tenho aproximadamente 150 imagens deste tema.

Paixão Nacional. © Essio Pallone Filho

Paixão Nacional. © Essio Pallone Filho

Mas a participação do Mapa não foi por Piracicaba?

Tudo o que fiz de 1991 a 2007 sempre foi por Piracicaba. Todas as participações em São Carlos ou em outras cidades neste período atuei como cidadão piracicabano. Entre os anos de 1998 e 1999 foram realizados eventos de balonismo em Piracicaba e o meu tesão era voar de balão. Quando eu tinha meus 18 e 19 anos fiz curso para ser piloto de avião. Só que infelizmente dois amigos morreram em um acidente aéreo e o meu pai que bancava o curso me disse, avião nunca mais. Mas gosto de voar. Tentei entrar para um grupo de balonismo em Piracicaba, só que os grupos são muito fechados.  Em São Carlos voei três vezes. Tenho uma parceria com a prefeitura em que eles me põem no balão e em troca cedo algumas fotos da cidade para eles. Possuo uma foto de balão, do piloto Feodor (Nenov) aqui de Piracicaba, que representou a Confederação Brasileira de Fotografia, num concurso em Andorra. A foto não foi premiada, mas selecionada junto com mais dez fotografias brasileiras. Estes concursos e mostras me estimulam a aprofundar no conhecimento da fotografia. Mês passado enviei fotos com meu amigo César Trimer para um concurso em Jaú chamado 2° Concurso de Fotografia Fateclique. A foto de César conquistou a segunda colocação e a minha, de uma gatinha fotografada no Engenho Central, conquistou menção honrosa.

Gatinha. © Essio Pallone Filho

Gatinha. © Essio Pallone Filho

Faço um paralelo entre os movimentos culturais de São Carlos e de Piracicaba. E como é ser fotógrafo em São Carlos?

Eu diria que no Estado de São Paulo neste eixo que a gente se encontra, pelas rodovias Bandeirantes, Anhanguera, Washington Luiz, até Ribeirão Preto faz parte de um grupo de cidades economicamente fortes. Boas estradas, ótima infraestrutura e no ramo da fotografia, muito parecidas. O forte são eventos, para ganhar dinheiro. A maioria dos fotógrafos estão neste segmento, depois vêm às formaturas, batizados, aniversários, confraternizações e por aí vai. Se você quiser ser um fotógrafo de still ou autoral é difícil. Em relação aos movimentos fotográficos, São Carlos teve dois fotoclubes fortes. Primeiro foi o Foto Cine Clube Sancarlense, que no ano passado resgatei sua história e realizei uma exposição no Sesc de São Carlos, com o apoio do Chico Galvão, que já foi programador cultural do Sesc Piracicaba. Em 1957 o Foto Cine Clube Sancarlense deixou de existir e então surgiu o Íris Foto Grupo. O Íris tinha um fotógrafo em especial chamado Paulo Pires que encabeçava o grupo. Todos os fotoclubes tem que ter alguém que encabece não para mandar, mas para tomar decisões, falar, conquistar espaços, promover concursos e entender mais de fotografia que os outros membros para dividir este conhecimento. O grupo fez um ótimo trabalho e teve grande influência em São Carlos. Todas as pessoas que gostavam de fotografia passavam pelo crivo do Pires para serem aceitas no grupo. Foi um grupo fechado e pequeno. Realizaram e participaram de concursos, vencendo alguns. O Pires ganhou inúmeros prêmios, até o Kikito conquistou, mas aí teve problemas de saúde e o Íris deixou de existir. Hoje em São Carlos temos um grupo de nove amigos fotógrafos chamado Fotosseio, que é uma brincadeira com as palavras “passeio fotográfico”. Estamos juntos desde 2005 com o único objetivo de fotografar e trocar informações. Há integrantes no grupo que estão passando do filme para o digital. Para algumas pessoas esta transposição foi relativamente fácil, mas para a grande maioria é difícil, principalmente para aquele que quer a fotografia esmerada. Primeiro você tem que descobrir os recursos da máquina digital, que são vários; você vai medir luz sem um fotômetro, pois o fotógrafo de filme usa um fotômetro manual. Ele ia até o assunto e marcava privilegiando as altas luzes ou as baixas luzes, ou uma média das luzes e fazia duas ou três fotos. Já a maioria dos fotógrafos que trabalham com digital fazem quinze fotos do mesmo assunto e depois escolhe a melhor. Eu não sei como isso vai fazer as pessoas aprender a fotografar. A única coisa é que vai fazer um monte de foto e será bom para o fabricante, pois queimará o CCD e terá que comprar outra máquina. As máquinas digitais top de linha têm validade de 150 mil fotos, já as top de linha de filmes, suportavam mais de 300 mil fotos.

Passeio fotográfico - 100 anos de Guião. © Essio Pallone Filho

Passeio fotográfico – 100 anos de Guião. © Essio Pallone Filho

Você tem uma ligação estreita com o Sesc, como surgiu esta parceria?

O primeiro passeio fotográfico do qual participei e fui um dos organizadores, foi junto com o Sesc de Piracicaba. A programadora cultural era na época e continua sendo a Marilia Azevedo Grillo. O passeio teve o nome de Ver Verão dentro do programa Sesc Verão. Foi então que passei a me interessar por passeios fotográficos. Neste período que fiz o passeio, algumas pessoas interessadas em fotografia e com o apoio do Sesc, foi criado o Núcleo Piracicabano de Fotografia. No primeiro encontra havia aproximadamente 60 pessoas. Mas fotógrafos são divididos em duas partes, o fotógrafo e o ego do fotógrafo. Não vou dizer que não tenho o meu, pois estes dois são difíceis de conviver.  Então o grupo foi reduzido e sobraram 15 membros. Realizávamos saídas fotográficas e participamos de uma saída em São Paulo, com a organização do fotógrafo Iatã Cannabrava com mais de 500 fotógrafos. Por causa do Sesc me reaproximei de São Carlos, minha irmã trabalhava na unidade de lá e junto com sua amiga Sueli, vieram para Piracicaba por causa da Bienal Naïfs do Brasil, e dormiram na minha casa. A Sueli encontrou uma garrafa cheia de fotografias em casa e disse que queria isso lá em São Carlos. Negociamos e fizemos uma exposição chamada Fotogarrafada que também foi para a unidade de São José do Rio Preto.

Fotogarrafada. © Essio Pallone Filho

Fotogarrafada. © Essio Pallone Filho

Piracicaba ou São Carlos?

Uma escolha difícil foram 30 anos em Piracicaba e tenho uma relação boa com muitas pessoas que nela vivem. Também conquistei muitas coisas materiais aqui. São Carlos foi o local que nasci e vivi minha infância, minha família é de lá. Mas tem uma terceira cidade, que moram duas das minhas três filhas – a Fabiana e a Renata – que é Poços de Caldas, também gosto muito.

E as fotografias de fazendas, como é este trabalho?

Em 1999 fui a São Carlos, participar de uma oficina promovida pelo Sesc com o fotógrafo Cláudio Edinger para fotografar a Fazenda Pinhal, pertencente a família Botelho. Foi aí que deu o start em fotografar fazendas. Comecei a frequentá-las e em 2002 houve um projeto em que comecei fotografar várias fazendas em São Carlos. Um tempo depois conheci o proprietário da Fazenda Nova em Mococa, e fiz dois calendários com as fotos de sua propriedade. Hoje tenho uma coleção de imagens de 60 fazendas no Estado de São Paulo e tenho mais 15 fazendas programadas para fotografar. Fiz duas exposições com estas imagens, as duas com o nome de Fazendas Paulistas. A primeira foram fotos de gente, a maior parte de boias-frias na colheita da cana. Na segunda exposição, mostrei vinte e cinco fazendas com mais uma foto de um detalhe da mesma. Para uma fazenda existir necessitava ter pelo menos uma igreja, serralheria, casa de colono, salão de festas e a casa do barão – geralmente imponente e num lugar estratégico para que tivesse uma visão de boa parte de sua propriedade. A Fazenda Santa Cecília em Cajuru tem uma história interessante sobre seu ex-dono, o Sampaio Moreira. Ele foi um industrial e morava na Av. Paulista em São Paulo. Todos seus vizinhos tinham imóveis ali porque eram barões do café e Moreira era o único que não tinha fazenda. Por conta disso enviou um funcionário ao interior do Estado para encontrar uma fazenda e comprá-la.  A Fazenda Santa Cecília tem aproximadamente 3.600 alqueires, com uma estação ferroviária maravilhosa, levada por Moreira.

Fazenda Pinhal. © Essio Pallone Filho

Fazenda Pinhal. © Essio Pallone Filho

Quando vou fotografar arquitetura levo um tripé que chega a quase três metros de altura. Para usá-lo também carrego uma escada de três degraus para alcançá-lo. Isso faz a diferença, pois na altura do chão, às vezes você registra muito chão e pouco céu na foto. Não adianta inclinar, pois tem a questão da perspectiva – vertical é vertical e horizontal é horizontal – tem que entender. Por isso carrego tudo isso comigo, tripé, escada, mais a bolsa cheia, é o esmero e o capricho que faz a diferença. Não possuo infelizmente, como o nobre colega de arte Ansel Adams, uma station wagon, um carro que em cima ele acoplou uma plataforma para colocar seu tripé. Se eu tivesse a lente de correção de paralelismo ou uma câmera de grande formato para corrigir a perspectiva, beleza. Mas não possuo e o fotógrafo não pode ter preguiça.

Há uma foto minha da Fazenda Santa Maria em São Carlos, que foi capa da revista Autoban. Para fazê-la subi em uma escada que estava sobre um trator dentro de uma carroceria de uma carreta. Eu estava a 4 metros do chão, pois era um sobrado e queria registrar suas linhas perfeitamente paralelas.

Fazenda Ibicaba. © Essio Pallone Filho

Fazenda Ibicaba. © Essio Pallone Filho

De que forma você cuida do seu acervo fotográfico?

Para responder esta pergunta vou te contar uma história. Meu primeiro emprego fui Operador de Máquina de Perfuração, na empresa Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Trabalhava no meio do nada, eram os operadores, as máquinas e a natureza. Depois trabalhei no almoxarifado da empresa PRM CPRM. Ali aprendi a ter disciplina para poder armazenar 35 mil itens que chegavam e saíam. Hoje meu arquivo fotográfico, tanto filme quanto digital, é organizado por ordem cronológica. Junto a isso tenho uma planilha de Excel em que coloco o dia da fotografia e de cada fotograma tem as informações do assunto geral registrado. Para os negativos fiz uma cópia de cada fotograma no tamanho 10x15cm, são aproximadamente 40 mil fotos. No digital o acervo é de 60 mil imagens. Fotografia de filme e fotografia digital são duas coisas distintas, situações, captações e resultados diferentes. Um negativo te dá outra resposta do digital. A fotografia digital tem em celular e têm lá no acelerador de partículas na Suíça, com 145 mil megapixels.

Quem são suas referências na fotografia?

O meu grande inspirador é o Ansel Adams, um perfeccionista da fotografia. Ele tem três livros publicados pela Editora Senac, A Câmera, O Negativo e A Cópia, que são uma bíblia. Leia e aprenda o seu conteúdo que irá adquirir uma base de conhecimento suficiente para ser um bom fotógrafo. Outros nomes: Marc Ferrez, Militão, Paulo Pires, Eduardo Salvatore, Sebastião Salgado, Gal Oppido, Juca Martins… Se eu ficar pensando vão aparecer vários nomes, há tem o Robert Doisneau, mas a memória agora “ferrou”, são muitas referências.

Rita Lee - Bossa n'roll. © Essio Pallone Filho

Rita Lee – Bossa n’roll. © Essio Pallone Filho

Em algum momento a fotografia te decepcionou?

O prazer de fotografar e o que estou fotografando não me dão nenhum tipo de decepção. A decepção vem do mercado profissional, em que o trabalho do fotógrafo não se remunera o que de fato vale. É difícil colocar no preço seu conhecimento e o esmero pelo trabalho, leva quase sempre o melhor preço. Se você acredita que qualquer um pode fotografar seu casamento, significa que seu casamento não vai durar muito tempo. (risos). Penso por aí. E agora a situação está bem complexa, pois a referência da fotografia hoje, todo mundo acha que a fotografia nasceu digital. A fotografia nasceu no século XIX, o primeiro registro em 3D foi em 1937. Era um par de fotografias em que você usava um instrumento chamado estereoscópico para ver o efeito. Na década de 50 foi moda o filme de terceira dimensão. Quando eu era criança meus pais me levaram no Cine Metro em São Paulo, para assistir um filme de demonstração em 3D. Todo mundo de óculos e aí começou o filme e na cena mostra uma pedra despencando de um morro. Meu pai não teve dúvidas, agachou atrás da cadeira da frente para as pedras não caírem em cima dele.  Isso foi na década de 50 e as pessoas acham que estas tecnologias nasceram hoje.

O que a fotografia representa para você?

Quando a fotografia começou as pessoas tinham medo de serem fotografadas, porque acreditavam que ela roubavam suas almas. Na realidade eu acredito que no retrato, o fotógrafo só consegue registrar aquilo que a pessoa transmite a ele. O enquadramento e a luz são apenas componentes da fotografia. Tem uma foto famosa do Winston Churchill em que ele está muito bravo. Percebendo a irritação do Churchill que reclamava pela demora do retrato, o fotógrafo, malicioso, esperou até o momento em que ele estava próximo a esmurrá-lo. Então capturou o sentimento que o retratado quis transmitir para a foto. Um dia um senhor no CLQ me pediu para deixá-lo bonito na foto. Disse a ele que só fotografaria o que conseguisse ou quisesse me mostrar. Quando a fotografia não é de gente eu situo ela como registro, e o trabalhar do fotógrafo para este registro é quando ele põe a sua alma ali. Retrato a alma vem de lá e registro a alma vai para lá.

Para encerrar, quando eu tinha treze anos queria ser piloto de Fórmula 1, só em 1993 acreditei que a fotografia era a alma da minha vida. Me dedico a ela de corpo e alma.

Engenho Central. © Essio Pallone Filho

Engenho Central. © Essio Pallone Filho

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Roberto Ascari

Roberto Ascari. © 2012. Fábio Mendes.

O linense Roberto Ascari completará em setembro, no dia três, 62 anos de vida. Mesmo que as profecias Maias estejam corretas, ele terá a chance de – literalmente – apagar as velas do bolo. Como o fim do mundo foi prometido para dezembro, tenho tempo de mostrar para vocês um pouco da história deste fotógrafo e grande amigo, que me colocou no mundo da fotografia. Roberto tem 44 anos de profissão como fotógrafo e lojista, exatamente nesta ordem. Nascido, criado e formado profissionalmente na cidade de Lins, região centro-oeste do estado de São Paulo, a fotografia trouxe Roberto para Piracicaba. Ficou encantado pela cidade e decidiu transformá-la em lar. Trouxe sua mulher, a Dalva e aqui criou e educou seus dois filhos, o Guilherme e a Vivian. Está em “Pira” há 31 anos e já foi adotado pelo Lugar Onde o Peixe Para, é um piracicabano. Conheci o Roberto quando fui contratado para trabalhar na loja de fotografias, Zoom Bischof. A loja possuía laboratório para revelação e impressão de fotos para alta produção no tamanho 10×15 cm, que são as fotos “normais de 1 hora”, como os clientes pediam. A minha irmã Leila já trabalhava no Zoom e me indicou para o Roberto que era o gerente, e na confiança fui contratado. Foram doze anos da minha vida com a família Ascari. Com eles cresci, passei da adolescência para fase adulta, tiveram muita paciência com as minhas determinações e atitudes imaturas, mas aproveitei cada espaço físico e intelectual que puderam me oferecer. Todas estas decisões, posturas e crenças que pratico diariamente, são reflexos das inter-relações que me constituem como homem. Na minha pele e alma habita um pedaço do meu pai, mãe, irmãos, amigos, desafetos e da família Ascari – mais com o Roberto e Guilherme com quem o contato foi diário. Sou grato pela porta que me abriram e continuo traçando o caminho indicado.

Boa leitura!

Como foi o início com a fotografia?

Iniciei em 1968 numa empresa que se chamava Foto Euclydes, em Lins. Meu pai era amigo de um dos donos e então fui convidado a trabalhar ali. Comecei como auxiliar de “tudo”. Primeiro no laboratório lavando e fixando fotografias. Depois de dois, três meses aprendi a fotografar. Nesta época fotografava muito bailes de debutantes. Nestes bailes eu era treinado não para fotografar, mas para trocar filmes das câmeras. Eram Rolleiflex com filmes de 12 poses. Cinco fotógrafos e cinco pessoas para trocar os filmes das máquinas. Assim eu observava como fotografavam. Depois de seis meses comecei fotografar minha família e meus amigos para treinar. Até que chegou o momento de fotografar profissionalmente. Foi uma festa junina, em uma chácara, dos funcionários do hospital Santa Casa. Esta festa marcou para mim. Depois de “certa” hora, o pessoal já havia bebido bastante e o sanfoneiro da festa, usava uma perna de pau que sumiu. Foram encontra-la na fogueira e quase virou carvão. (risos). Esse foi o início, depois comecei a fotografar bailes de debutantes, outros eventos e fui crescendo junto com a empresa.

Um ano depois a empresa começou a fazer um trabalho que se chamava Salão da Criança (o trabalho era escolher uma cidade e a empresa enviava vinte fotógrafos e vinte vendedores. Primeiro o vendedor passava de porta em porta oferecendo fotos das crianças da casa, se houvesse, e no outro dia o fotógrafo realizava a sessão), então começamos a fotografar em outras cidades. Foi quando conheci Piracicaba, em 1969. A cidade marcou para mim, fiquei com ela na cabeça, tinha até bonde. Ficamos hospedados no Hotel Brasil, na rua Boa Morte onde o bonde passava em frente ao hotel. Havia o rio, a Agronomia (Esalq) e vários outros lugares bonitos que ficaram guardados em minha mente.

Roberto na CIA Fotográfica Euclydes em Lins, anos 60. Foto: Arquivo pessoal.

Em 1975 eu saí do Foto Euclydes. Neste ano a empresa possuía 400 funcionários e tinha laboratório colorido. Fui para São Paulo trabalhar na Procolor, no departamento que cuidava das grandes ampliações. Lá fazíamos painéis com emenda de cinco por dez metros. Era uma sala enorme e para segurar o papel na parede havia uma bomba de sucção que o prendia.  Fiquei dois anos no laboratório. Por problemas de saúde – eu que já estava casado – a minha mulher Dalva deu a luz a gêmeos, mas nasceram prematuros. Então o médico nos aconselhou a não ficar em São Paulo devido ao clima que não seria bom às crianças que estavam debilitadas. Então recebi um convite para trabalhar em um laboratório da Curti no Rio de Janeiro e não aceitei pela distância e as condições financeiras também não agradaram. A Procolor me fez uma proposta para trabalhar no interior do Estado. Voltei para Lins. O trabalho seria coletar serviços de fotografias na região. Eu coletava de Lins a Bauru e de Lins a Três Lagoas. Um dia eu ia até Bauru passando pelas cidades da região e no outro o mesmo serviço só que na região de Três Lagoas. No final do dia eu depositava os serviços no correio que iriam para o laboratório de São Paulo e retirava os que já estavam prontos. Fiquei dois anos e meio nesta rotina até que recebi um convite para trabalhar na CIA Fotográfica Irmão Hirano em Tupã. Eles não tinham loja, somente laboratório e equipe para fotografar formaturas. Durante uma conversa um dos proprietários da Hirano me perguntou se caso ele abrisse uma loja em Lins, eu iria trabalhar para eles lá. Disse que sim, pois estaria em casa. Fiquei um ano e meio nesta loja quando ele me chamou novamente com nova proposta. Disse que expandiriam o negócio* e me ofereceu a escolher trabalhar em, Ribeirão Preto, Bauru, Araraquara, Piracicaba, Sorocaba ou Campinas. Escolhi Piracicaba. Em 1981 cheguei aqui.

*A Hirano criou a rede Jetcolor com várias lojas de fotografias espalhadas pelo Brasil.


Lins foi uma cidade de muitos fotógrafos?

Sim, foi por causa do Foto Euclides. Como eu disse a empresa teve 400 funcionários e chegou a ter dois aviões. A Hirano também tinha dois aviões. A concorrência era esta, Lins com o Foto Euclides e Tupã com a Hirano. Só que a Euclides foi a pioneira, como consumia muito químico a Kodak dava muita assistência disponibilizando cursos mensais para nós funcionários. Fiz vários cursos, foi uma escola trabalhar no Euclides. A loja tinha doze “ampliadoristas” em doze cabines e cada um fazia de 2 mil a 2,5 mil fotos diariamente no tamanho 24×30 cm. O projeto Salão da Criança cobria o Estado de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Mais de cem fotógrafos trabalhavam para a empresa. Eu fui o sétimo funcionário da Euclides e depois de sete anos havia 400. A ascensão foi rápida, só que infelizmente eles entraram num trabalho em fazer toda a identificação do Brasil. O Registro de Identidade seria produzido dentro de uma área da Polícia Federal com a finalidade de termos uma identidade única no país. O Foto Euclides ganhou a concorrência. O governo exigiu da empresa que todos os laboratórios fossem construídos em áreas reservadas nos prédios da Polícia Federal. O início foi no Rio de Janeiro. Gastaram milhões para construir os locais que seriam instalados os laboratórios e equipamentos. Quando começou a produção o governo “estancou”, decidiu que não faria mais desta forma. Foi assim que quebrou o Foto Euclides, pois focaram muito tempo e dinheiro neste projeto e outros que deixaram para trás não conseguiram mais recuperar. Os proprietários eram o Eudorides e Antonio Aguiar.

Foto Euclydes, anos 60. Na parede, foto dos veículos da empresa. Foto: Arquivo pessoal.


Como era ser fotógrafo nos anos 70 e que equipamento usava?

Sempre fotografei nesta época com negativo 6×6 e Rolleiflex. Foi difícil comparado com a tecnologia de hoje. Era tudo no cálculo. O diafragma era aberto e fechado a cada nova distância. Mas era muito boa esta época. O fotógrafo nos anos 70 era muito respeitado, muito querido, tinha evento que você se sentia mais importante que a pessoa que te contratava. Nos bailes de debutantes, nós fotógrafos todos jovens, às vezes criávamos problemas com os outros rapazes da cidade em que estávamos trabalhando. As meninas ficavam todas ouriçadas com a gente, sabe como é, moço de outra cidade de smoking, a empresa era organizada. (risos) Hoje é diferente, “poluiu” a profissão.

Baile de debutante em Pirassununga, anos 70. Roberto posa ao lado da estrela da festa, o ator Flávio Galvão. Foto: Arquivo pessoal.

Baile de debutante em Mococa-SP, anos 70. Em destaque o grupo musical Os 3 do Rio e Roberto com a sua calça branca. Foto: Arquivo pessoal.


E como foi fotografar em Piracicaba na década de 80?

Tive muitos problemas com os fotógrafos daqui. Vim para gerenciar a loja e tinha metas a cumprir. A empresa quando se instalou em Piracicaba queria agregar todo o segmento da fotografia, além das revelações fazer coberturas de eventos sociais. Então montei uma equipe e contratei um relações públicas, mas a maioria dos fotógrafos contratados vinham de Tupã. Praticamente todos os funcionários da empresa fotografavam e eu tinha que chamá-los. A empresa se transformou em concorrente dos fotógrafos daqui e eu fui o “culpado”. Eu dizia para alguns fotógrafos que não adiantavam ficarem bravos comigo, apenas cumpria ordens. Um dos primeiros fotógrafos que quebrou esta estranheza foi o finado Celita. Eu gostava de futebol e um dia fui jogar no clube Ítalo e o Celita estava lá. Aproximamos-nos e na conversa contei a ele sobre a minha dificuldade com os fotógrafos daqui por eu ter que contratar os serviços de Tupã. Foi a primeira pessoa que entendeu o meu problema. Ele até me confessou que fazia uma imagem diferente de mim. Eu tinha uma meta de fazer reportagem fotográfica de dez casamentos por sábado ou até mais, já fiz até vinte casamentos num sábado pela empresa e a prioridade era trazer os nossos funcionários para fotografar. Além disso, eu tinha que gerenciar os outros setores da loja que era de médio porte, havia 18 funcionários. Mas no início fiquei com uma imagem negativa perante os fotógrafos. Fui administrando até que em 1986 a Jetcolor começou a passar por problemas financeiros, cresceram muito rápido e não se organizaram adequadamente. Já tinham perdido um mercado muito bom que eram as formaturas. Deixaram de lado e deram atenção só para as lojas. Surgiu então o grupo da Iguatemi da cidade de Marília, que comprou a rede Jetcolor. Acontece que a Iguatemi não trabalhava com funcionários homens, só com mulheres. Era assim em todos os setores, só o dono da rede que era homem. Começou a transição e depois de seis meses eu saí. Tínhamos duas lojas na rua Governador Pedro de Toledo.

Roberto se prepara para as fotos aéreas da cidade de Lins e região. Foto: Arquivo pessoal.


Ficou desempregado?

Recebi um convite para trabalhar em Santo André. Eu teria que gerenciar um mini shopping que tinha quatro lojas de fotografia. Fui mas senti que os meus filhos, Guilherme e Viviam, sentiriam dificuldades naquela realidade. Um dia, por acaso, reencontrei o Carlos Simon, um lojista de São Paulo que já havia conhecido e me perguntou o que eu estava fazendo ali. Expliquei o que havia acontecido e então ele me disse que eu não ficaria naquele lugar. Havia montado uma loja em Ribeirão Preto e queria me levar para lá. Durante a negociação ele me perguntou como era o mercado em Piracicaba. Comentei que não havia na cidade loja de revelação em 1 hora. Então ele me propôs montar uma loja em Piracicaba, o que para mim seria melhor. Mandou-me encontrar um endereço para montar a loja. Procurando me encontrei com o fotógrafo Jorge, que tinha loja na rua Governador Pedro de Toledo mas sem laboratório. Todo o serviço que ele captava enviava a São Paulo. Só que a população da cidade já cobrava um serviço mais rápido. Campinas já revelava em 1 hora, por que Piracicaba não? Também uma loja da Outsubo estava instalada na cidade e revelava com o prazo de um dia. Por conta destas dificuldades o Jorge aceitou a parceria, ele entrou com a loja e o Simon com os equipamentos que revelavam em 1 hora. Foi assim que nasceu o Zoom Bischof, em 1991. Trabalhávamos com público amador e profissional. Ficamos na rua Governador até o ano de 2000 quando foi vendido o ponto comercial.  Reabrimos a loja em outro ponto na rua Moraes Barros.

Entre este tempo em que o Zoom esteve na rua Governador,  eu com o Simon, adquirimos a loja Spavieri. Nesta época o Jorge não estava mais na sociedade, na separação ele ficou com outra loja que tínhamos na rua XV de Novembro.


Voltando para o Jetcolor, este local foi o celeiro de vários fotógrafos da cidade. Quem passou por ali?

Pelo Jetcolor passaram o Antonio Prezotto, o Luizinho que estudava engenharia na Unimep e fazia uns “bicos” com a gente. Cláudio Franchi, Élcio Fabretti, Marcelo Germano, Bolly Vieira, Maria que tem loja em Charqueada, Arlete que casou e se mudou para São Paulo, todos aprenderam a fotografar ali. Tem mais gente que me escapa da memória. Ah, tem o Milton Maiolo. De funcionários foram estes, eu acho, mas de free-lance foi muito mais. O Antonio Prezotto foi o primeiro, ele entrou na Jetcolor para trabalhar de relações públicas. Foi o Prezotto que trouxe o Bolly e o Élcio para a loja.

Tinha muito casamento, às vezes cinco, seis na Igreja Matriz da Vila Rezende, eu cuidava da cerimônia religiosa enquanto outros fotógrafos iam para a festa e Esalq.

Em frente ao Clube Ítalo, hoje Societá Italiana, encontro de fotógrafos. A partir do fundo da esq. para a dir.: Nicolau, Nélio Ferraz de Arruda (ex-prefeito de Piracicaba), Idálio Filetti, Cícero, Pauléo e Mário Penatti. Fued e Celita. William Zerbetto, Kenji Kawai, Davi Negri, Jorge, Mário Corvina, Turin e Nogueira. Décio Fonseca, Diógenes Banzatto, Bolly Vieira, Roberto Ascari e Marcos Muzzi. Anos 80. Foto: Arquivo pessoal.


Sei que é uma conversa velha e até chata, mas para você que além de fotógrafo é lojista como foi sentir na pele a transição do analógico para o digital? Qual a sua percepção depois de tamanha transformação?

O digital foi uma surpresa para muita gente. Até a Fuji e Kodak não esperavam que a transição fosse rápida como foi. Veja a situação destas empresas hoje. Mas agora se percebe as vantagens do digital. Abriu um mercado para qualquer pessoa fotografar. Você consegue comprar um equipamento fotográfico com vários recursos a baixos preços. Com três mil reais dá para comprar uma ótima câmera. Para quem presta serviço está ótimo, já para quem revela piorou. As fotos hoje ficam armazenadas em mídias e de 10 mil fotos feitas, enviam 10 para serem reveladas. O lance da foto é a curiosidade e no digital vê a foto quase no mesmo instante que fotografou. Na época do analógico abria a loja na segunda-feira formavam-se filas de pessoas para deixar seu filme para revelar e tinham pressa de ver as fotos. O auge aqui em Piracicaba foi no Jetcolor quando captamos 600 rolos de filmes em apenas um dia. O digital sacia a curiosidade e a revelação fica para depois, isso quando revela. Grandes empresas e fotógrafos tradicionais sumiram.


Conte um momento no Zoom Bischof?

No tempo do Bischof tinha a Leila Mendes, que era uma excelente profissional uma laboratorista de primeira linha. Outros bons funcionários foram a Ana Mendes, que continua com a gente, a Sandra Novaes, Vivian Nazato e o Fábio Mendes.  Um belo dia o Fábio veio e pediu a conta. Estranhei e perguntei o motivo. Ele disse que seria goleiro. Fiquei quieto e de repente chega a Leila e me pede, pelo amor de Deus para não dar a conta para ele. Fui lá, tentei convencê-lo, mas não teve jeito, saiu para ser goleiro. A mãe dele foi conversar comigo para eu não deixá-lo sair só que eu não podia fazer nada, não podia segurá-lo. Daí foi o Fábio embora treinar e eu conhecia o treinador dele, que era o Dimas. Perguntei a ele sobre o goleiro e ele me disse que era muito cedo para ele. Quando fala que é muito cedo no futebol é que não vai dar em nada. “Fábio volta trabalhar!” Aí o Fábio voltou. (risos)

Cumprimento ao candidato a Deputado Federal, Lula, em frente ao Zoom Bischof, na rua Governador Pedro de Toledo. Foto: Arquivo pessoal.


Algum momento marcante como fotógrafo?

Tive vários. Fotografei o advogado Roberto Abreu Sodré, Paulo Maluf, Clodovil, Gal Costa, a maioria fazendo free-lance para o jornal de Lins. Tenho várias histórias de casamentos, noivas que ficavam das 17h até, às 20h, dentro do carro e nada do noivo aparecer. Presenciei arranjo de flores na igreja caírem em cima de noivo e vários outros fatos engraçados. São momentos engraçados e tristes, como no caso dos noivos que não aparecem, que já presenciei. O gostoso é que tem casamento que fotografei em 1986 que não me lembrava mais e me param na rua para me cumprimentar pelas fotografias que fiz em seu casamento. Já aconteceu de me procurarem para fotografar o aniversário de 15 anos de filhos de casais que fotografei o casamento.

Triste foi uma vez que foram colocar o bolo na mesa e ele caiu todo no chão. Daí a noiva chorava porque não haveria a famosa foto com os padrinhos perto do bolo. Teve um dia que eu tinha dois casamentos, um deles era de um amigo. Como os horários do evento eram o mesmo enquanto eu fotografava um, enviei outro fotógrafo para o casamento do meu amigo. Quando encerrei o que eu estava fazendo fui fotografar a festa do meu amigo, que já estava no final. Só que parecia um velório. Este meu amigo havia tido um filho com outra mulher e esta o avisou que se ele se casasse com outra mulher estragaria seu casamento.  Como a situação era sigilosa, ele se cercou de segurança por todo o lado. Mas no meio da cerimônia acredito que o segurança bobeou e ela entrou. Quando o padre perguntou se havia algum impedimento ela gritou, tem sim e ergueu o menino dizendo, “olha o filhe desse…”.

Outro caso também foi na Igreja Nossa Senhora Aparecida. O padre era um japonês que morava com sua irmã. Um dia fui lá fotografar um casamento e costumava chegar meia hora antes da cerimônia. Desci do carro e a irmã do padre já me chamou dizendo que iria dar problema o casamento. Perguntei o motivo e ela disse que apareceu uma mulher nervosa dizendo que quem iria se casar era o seu namorado.  Logo chegou o noivo, um crioulo alto, e a irmã do padre foi logo o avisando. Ele ficou preocupado e quando os convidados estavam chegando apareceu a suposta namorada com uma faca enorme. O noivo correu para os fundos da igreja e entrou numa sala e a mulher com a faca procurando ele. De repente chegou uma amiga desta mulher com uma barra de ferro. Queriam pegar o noivo de qualquer jeito. Aquilo se transformou em uma confusão até que chegou a polícia. O problema é que nem os policiais conseguiam pegar as mulheres de tão alteradas que estavam, diziam que só sairiam dali depois de matar o noivo. Com o tempo conseguiram acalmá-las e convenceram-nas a irem embora. Mas depois durante a cerimônia o noivo olhava mais para trás nas portas da igreja do que para o padre, com medo que a mulher voltasse para pegá-lo. (risos)

E teve outro casamento muito engraçado. Na igreja da matriz da Vila Rezende era um casamento atrás do outro. Eu tinha três casamentos neste dia. Fotografei um, esperei o próximo, fotografei mais um, esperei novamente e fotografaria o último casamento que era às 21h30. Em um dos intervalos, fui ao bar que tem na esquina da igreja para tomar uma água. Comprei a água e vi um grupo de rapazes bebendo e no meio notei um rapaz moreno vestido inteiro de branco. Terminei a água e voltei para a igreja esperar a hora do meu casamento. Chegou o momento a noiva apareceu e cadê o noivo? Espera, espera, espera e o padre Jorge ficava nervoso, ele foi lá fora e fez a noiva entrar até o altar. Alguém o descobriu no bar, era o de roupa branca que eu tinha visto e disse que iria buscá-lo. Daí entra o cidadão pelo corredor da igreja chorando com as mãos no rosto. Em vez de a noiva entrar chorando, como era costume, foi o noivo que entrou. Ele chorou a cerimônia inteira que nem uma criança. Todos na igreja davam risada de ver a situação do noivo, até o padre Jorge dava risada. (risos)


Durante uma conversa que tive com o fotógrafo Cláudio Franchi, ele disse que tinha saudades do encontro dos fotógrafos nas segundas-feiras em frente à loja Zoom Bischof. Ali todos contavam suas vitórias, derrotas e momentos cômicos dos trabalhos do final de semana. A fotografia te deu muitas amizades com outros fotógrafos?

Mais ou menos. Eu era concorrente deles, mas evitava. Se algum cliente dissesse que já tinha cotado o trabalho de fulano eu nem entrava na concorrência pelo serviço. Só que eu tinha que fotografar também, pois o que eu ganhava não era suficiente para bancar os estudos dos meus filhos. Havia fotógrafos que não se importavam, mas outros ficavam com um pé atrás comigo. Conversava dava tapinhas nas costas, mas depois falava mal, não aceitava a situação. O grupo que se reunia era bom, tirando alguns que se achavam melhores que os outros.


Tem um fotógrafo na cidade que se chama Altamiro. Lembro-me que ele ficava parado em frente a Zoom Bischof quase o dia todo. Tentei conversar com ele algumas vezes, mas não obtive sucesso. Você conhece a história deste fotógrafo?

O Altamiro morava no bairro Vila Sônia. Um dia ele arrumou uma câmera Olympus Trip e começou a fotografar as famílias do seu bairro e levava para revelar na loja. Só que ele era alcoólatra e também sofreu um acidente, me parece que foi uma explosão que não sei maiores detalhes. Por conta disso ficou com dificuldades para conversar. Pouca gente entendia o que ele falava. Eu era uma das pessoas que dava atenção a ele e entendia um pouco do que ele dizia. Acredito que por isso ele ficava ali e até gostava. Tinha dia que chegava pela manhã e ia embora quase ao final do expediente. O problema é que ele voltou a beber e começou a incomodar os clientes. Enquanto ficava na dele eu não me importava só que fui obrigado a afastá-lo dali pelo transtorno que ele se transformou para os clientes. De vez em quando eu o vejo andando pela cidade. Parece que até hoje ele faz as fotos no seu bairro e no bairro Parque Orlando. Igual o trabalho que o Altamiro realizava, havia o Renê Mesquita, o “Nézinho do Jegue”, este fazia foto para ver em binóculo de crianças, sentada num carneirinho pintado de vermelho e amarelo. Tem uma história triste dele. Ele foi para São Paulo passar um fim de ano e resolveu levar o seu carneirinho para fazer um “bico” por lá. Foi quando o carneiro sumiu e ele descobriu que mataram e comeram o seu bichinho. Ele chorava porque mataram o seu carneirinho, era o seu ganha-pão. Ficou tão decepcionado que largou a fotografia. (risos)

Quantos fotógrafos como estes que eu ajudei. Vários não tinham dinheiro para comprar o filme. Eu entregava o filme na confiança a eles fotografavam, recebiam e depois me pagavam corretamente. Tiveram alguns que ajudei e levei prejuízo, mas faz parte do negócio, como costumam falar.


Quais foram as suas referências na sua profissão?

Quando eu comecei a fotografar as minhas referências se chamavam Euclydes Bredariol e Santos Garcia dois fotógrafos competentes da Foto Euclides, os dois são de Lins. Não erravam foco, nem abertura, me espelhei neles.  Aqui em Piracicaba eu gostava muito do trabalho do Henrique Spavieri e Christiano Diehl. Como eu revelava olhei o trabalho de muitos fotógrafos gostava de ver. Até hoje gosto de olhar. Tem amador que tem uma capacidade de fotografar impressionante. No fotojornalismo não tem ninguém igual ao Pauléo. Cada um se especializa em uma área. O Christiano, por exemplo, em fotografia aérea não tem igual. No casamento tem o Cláudio Franchi e o Filipe Paes que se dedicaram a este segmento. São fotógrafos que não pararam no tempo, estão sempre se atualizando.


São quarenta e três anos de fotografia, quais os planos na profissão agora?

Planos? Já deixei tudo para o meu filho, Guilherme. Daqui pra frente quero só ficar maneiro. Já me aposentei.


O que a fotografia representa em sua vida?

Representou tudo, pois é por conta dela que tenho o que possuo. E representa ainda hoje, pois continuo sobrevivendo dela. Posso não estar tão empenhado hoje, mas continuo lendo e acompanhando as novidades da área. Se precisar também fotografo com digital, não tenho nenhuma dificuldade. Mexo no computador, trabalho as fotos no photoshop. Gosto muito deste trabalho.

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Christiano Diehl

Nascido em Charqueada, Christiano Diehl Neto, 55, é fotógrafo e editor de fotografia do jornal Gazeta de Piracicaba. Até chegar a esta posição na profissão, Diehl passou por outras redações piracicabanas e de São Paulo. Viveu intensamente o final da ditadura militar no Brasil como fotógrafo e já perdeu filme para milico. Esteve presente nas grandes greves dos metalúrgicos paulistas e acompanhou o início do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, quando este era líder sindical. Trabalhou na sucursal de O Globo em São Paulo e na redação da Folha de S. Paulo. Mas foi no jornal do Partido Comunista Brasileiro que quase foi fotografar uma guerra latino-americana. Aqui em Piracicaba passou pelas redações do Diário de Piracicaba, Jornal de Piracicaba, assessoria de imprensa da prefeitura e foi até lojista. Fotografou grandes histórias piracicabanas tornando-se um profissional respeitável em nossa cidade. Christiano Diehl é um fotógrafo que literalmente dá o sangue pela profissão, como verificará na entrevista.

Christiano Diehl Neto. © 2012. Fábio Mendes.

Como foi o seu primeiro contato com a fotografia?

Eu morava em um sítio que se chama Vila Santa Luzia pertencente ao município de Charqueada-SP. Durante uma visita à Piracicaba na casa de um primo, Nivaldo Davanzo, ele tinha por hobby a fotografia. Possuía um quarto escuro em sua casa, ampliador e toda a “parafernalha” necessária para a produção e revelação de fotografia. Eu tinha 13 anos e fiquei curioso com tudo aquilo e perguntei a ele para quê serviam aquelas coisas. Meu primo mostrou-me como era feito o processo da fotografia. Colocou o negativo no ampliador, queimou o papel e fez a imagem aparecer no banho químico. Fiquei fascinado e aquilo não me saía mais da cabeça. Voltei para a minha rotina, mas sempre pensando em fotografia. Dois anos depois minha família mudou-se para Piracicaba e comecei a trabalhar numa financiadora de carros, depois escritório de contabilidade como office-boy, mas sempre desejando trabalhar com fotografia. Quando a loja Cine Foto Outsubo se instalou em Piracicaba na rua XV de Novembro, eu tinha um primo que trabalhava lá, o Roberto Diehl. Abriu uma vaga para auxiliar de laboratório fui lá, pedi o emprego e me aceitaram. Eu tinha uns 15, 16 anos, revelava filmes e lavava e secava fotos. Também aprendi a ampliar fotos Depois disso nunca mais abandonei a fotografia.  Junto a este trabalho eu estudava química no Colégio Dom Bosco. Depois de um ano estudando avisei a minha mãe que gostaria de ser somente fotógrafo em tempo integral. Não suportava química, ficar mexendo naqueles “tubinhos”. Ela não gostou, mas entendeu e até hoje fotografo.

Depois de um ano e meio no Outsubo fui trabalhar na Galeria Foto, que na época era a loja de fotografia mais forte na cidade. Tinha um volume muito grande de serviço. A loja existe até hoje na Galeria Gianetti. Neste trabalho comecei a fotografar profissionalmente eventos de empresas, casamentos e tudo mais neste segmento. Fiquei bom tempo na Galeria. Os proprietários eram o Carlos Alberto Cantarelli, fotógrafo antiguíssimo de Piracicaba e o Nelson que é proprietário até hoje. Depois trabalhei em estúdio de foto para documentação e então fui convidado para trabalhar num estúdio em Americana que tinha um nível mais profissional, pois além dos eventos, fotografava bastantes indústrias. De volta a Piracicaba fui trabalhar no jornal Diário de Piracicaba, Assessoria de Imprensa da prefeitura de Piracicaba na gestão do prefeito João Herrmann Neto e Jornal de Piracicaba. Na prefeitura, dois anos antes de terminar o mandato, João Herrmann criou um jornal no formato tabloide. Era semanal ese chamava Jornal do Povo. Foi aí que comecei no jornalismo, era 1977/78. Ele trouxe para editar este jornal o Paulo Markun, que foi apresentador do programa Roda Viva na TV Cultura, o Bonifácio Placeres, o Peninha, diagramador que era da Gazeta Mercantil e os repórteres eram a Filomena Sayão, hoje trabalha em uma agência de notícias em São Paulo, Valter Puga e Roberto Cabrini, que começou com a gente fazendo esporte. Também a Angela Furlan que é editora da Gazeta de Piracicaba, passou pelo Jornal do Povo. O jornal teve uma vida curta, foram dois anos. Em 1979 fechou no mês de fevereiro em. Estávamos na redação eu, Markun e Peninha quando soubemos do fechamento. Era 21h30 e o Markun sugeriu de irmos embora para São Paulo pedir emprego. Fui para casa fiz uma pequena mala de roupas e saímos os três num carro rumo a São Paulo. Chegamos e fomos direto para um bar que se chamava Quincas Borba Bar. A ideia do bar foi do Markun, pois o local era frequentado por muitos jornalistas. Chegando lá havia muitos repórteres, ilustradores e cartunistas. Ali estavam o Elifas Andreato, vários artistas, como a Bruna Lombardi e seu marido Carlos Alberto Riccelli e mais um monte de jornalistas do Globo e Estadão. Quando o Markun chegou fizeram àquela festa, “ê Piracicaba, encerrou lá?”, gritavam. Ele disse que estavam os três pedindo emprego e que ficaríamos na mesa do canto, se alguém soubesse de algum trabalho que fosse até a nossa mesa. Meia hora depois chegou um “cara” e nos disse que havia vaga no O Globo. No dia seguinte fomos lá e já começamos a trabalhar. Depois fui para a Folha de S. Paulo onde fiquei por um bom tempo. Acontece que o meu pai ficou enfermo, uma doença terminal e tive que voltar para Piracicaba. Antes de ele falecer eu já frequentava o estúdio do Henrique Spavieri e ele me passava trabalhos, pois eu tinha experiência em estúdio. Ele me ofereceu sociedade aceitei e trabalhamos juntos por dezessete anos.

Em primeiro plano o fotógrafo Christiano Diehl “pitando” um cigarro. © Arquivo Christiano Diehl.

Maestro Enrst Mahle. © Christiano Diehl.

Como foi a sua passagem pelo Jornal do Povo e como estava a política social piracicabana no fim da década de 70 e início da década de 80?

O João Herrmann Neto foi um prefeito polêmico, sua gestão foi agitada. Ele trouxe dois congressos da UNE (União Nacional dos Estudantes) em seu mandato, o que na época estava proibido, pois a UNE era considerada uma entidade ilegal. Também fez uma campanha muito forte para salvar o Rio Piracicaba. Entrou em sérias discussões com o governador Paulo Maluf por causa da barragem que retirava grande volume de água dos formadores do Rio Piracicaba e assim diminuía muito sua vazão. Numa dessas discussões ele “xingou” o governador , foi processado e teve que pagar uma multa. Pagou-a em moedas (risos).

Congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

O prefeito João Herrmann Neto discursa durante o congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

O sindicalista Luis Inácio Lula da Silva participa do congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

Protesto contra a retirada da águas do Rio Piracicaba pela Sabesp para abastecer a cidade de São Paulo. © Christiano Diehl.

Protesto contra a retirada da águas do Rio Piracicaba pela Sabesp para abastecer a cidade de São Paulo. © Christiano Diehl.

Você teve algum problema com a ditadura?

Tive. Eu estava cobrindo um comício em frente ao gabinete da prefeitura. Estava o Fernando Morais, Fernando Henrique Cardoso entre outros. De repente chegou o Dops e retiraram a câmera das minhas mãos, tiraram o rolo de filme e o levaram embora. Outro caso foi quando eu estava em um barzinho na rua Boa Morte com meus amigos de trabalho. Era final do expediente e tinha um pessoal estranho no bar.  De repente o dono do bar pede para a gente se retirar e não frequentar mais o local. Havia muitos homens da polícia infiltrados nas universidades, principalmente na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). Eu tinha um primo que era sargento, no 5° Gecam em Campinas, e ele me dizia que havia policiais infiltrados na Esalq, nos movimentos estudantis e DCEs. Era assim que agiam. Na época que foi preso o Francisco Salgot Castillon, prefeito de Piracicaba, foi o meu primo que montou guarda para o Salgot. Também montou guarda quando o Cecílio Elias Netto foi preso. Era conturbada a época. Também tive um caso, em São Paulo, quando começaram as greves no início do PT e do Lula. Fui cobrir uma destas greves, me derrubaram e novamente retiraram a minha câmera e pisaram nela.

Trotes e passeata realizada por estudantes da Esalq. © Christiano Diehl.

Trotes e passeata realizada por estudantes da Esalq. © Christiano Diehl.

Somente fazia o seu trabalho ou também militava?

Não tinha como não se envolver, pois 98% dos jornalistas eram de esquerda. A cicatriz que tenho nos lábios “ganhei” cobrindo uma greve. O proprietário da indústria me viu fotografando a greve dos seus funcionários e me deu um soco na boca. Ele usava um anel de formatura e isso fez um enorme corte em meus lábios.

Foi em Piracicaba?

Foi em Charqueada na empresa Viva Bem Rivaben.

Por que fechou o Jornal do Povo?

João Herrmann criou um jornal extremamente político, para fazer campanha, mostrar o seu trabalho. Engraçado que ele aceitava críticas. Ligava para o editor e dizia que havia um pessoal de um bairro reclamando, pedia para o repórter “meter a boca” no prefeito e na prefeitura. Quando acabou a sua administração acabou o jornal. Quase não havia propagandas por causa da ideologia, então não tinha como se sustentar.

Oscar Niemeyer. © Christiano Diehl.

E no Diário de Piracicaba, como foi a passagem por lá?

Tive momentos muito bons no Diário. Aprendi muito com o Cecílio, é um jornalista brilhante. Um dos melhores “pena” de Piracicaba. Concorde ou não, a forma como ele escreve é brilhante. O Cecílio dava liberdade para a gente trabalhar e nos incentivava votar na melhor reportagem e melhor foto do mês. Aos ganhadores era oferecido um jantar no Restaurante Arapuca na Rua do Porto como um brinde. Era muito saudável esta ação.

Grande Otelo fugiu do hospital no Rio de Janeiro, internado com suspeita de edema pulmonar, veio de táxi à Piracicaba prestigiar o cinema que fora inaugurado com o seu nome. © Christiano Diehl.

Com quem trabalhou na redação do Diário?

Com fotógrafos trabalhei com o Diógenes Banzatto, Davi Negri e Nelson Campos com quem montei um estúdio e trabalhamos anos juntos. Até hoje fazemos alguns serviços, é um grande amigo que tenho e um ótimo fotógrafo.

Por quanto tempo trabalhou nesta redação?

Uns três, quatro anos. A minha saída foi logo após esta greve que levei o soco na boca.

E no Jornal de Piracicaba?

No JP fique por mais tempo.  Mas era simultâneo, fazia trabalho para o JP e para o estúdio que eu era sócio com o Henrique Spavieri. Nós fazíamos muitos trabalhos para o jornal no estúdio, produção de moda, social, personalidades e as reportagens que eu fazíamos nas ruas. No JP era eu o Pauléo e o Henrique. Depois veio o Bolly, que está até hoje como editor. Foi uns 16 anos de JP.

O cartunista Henfil durante o Salão de Humor de Piracicaba. © Christiano Diehl.

A loja Buda Som, que também era sua e do Henrique Spavieri foi referência no ramo da fotografia, como foi conciliar a carreira de fotógrafo e lojista?

Já tínhamos uma pequena loja na rua do Rosário. O Buda Som foi o seguinte, nós éramos sócios do estúdio e ali prestávamos serviços. O Henrique sempre quis montar uma loja e o Shiraga, proprietário da loja queria vendê-la para aposentar-se. A oportunidade apareceu e compramos. Importamos a primeira máquina de revelação na hora de Piracicaba, comum em lojas de fotografia hoje. Era da marca Noritsu e veio direto do Japão.

Quando você saiu do JP e do Buda Som ficou por um tempo fora das redações até retornar no jornal A Gazeta de Piracicaba. O que fotografou neste período?

Tenho uma empresa que se chama Diehl Estúdio Fotográfico e presto serviços fotográficos. Fotos industriais, publicidade e o meu forte que são as fotos aéreas que corresponde quase 80% do meu trabalho fora da Gazeta.

Como foi o convite para voltar a atuar em uma redação?

Apesar de ter esta empresa deixei muitos amigos pelas redações, o Lourenço Tayar é um destes amigos. Ele saiu do JP, me ligou e disse que estava alugando uma casa grande e sabia que o meu espaço era pequeno. Eu estava locado em um edifício na rua XV de Novembro. Avisou que havia uma sala grande e gostaria que eu fosse trabalhar junto com ele nesta casa. Instalei-me e sem me contar já estava com a ideia de montar um jornal. Ele pagava o aluguel e eu pagava a parte que ocupava. Continuava com as minhas fotos industriais e um dia me chamou com a Gazeta de Cambuí em mãos, que tem o mesmo formato da Gazeta de Piracicaba. Disse que era o jornal que montaria em Piracicaba e que gostaria que eu trabalhasse com ele. Fui o primeiro a ser chamado para trabalhar na Gazeta. Ele montou toda a estrutura e voltei ao fotojornalismo que é o que está em meu sangue.

O garoto que fumava “bitucas”. © Christiano Diehl.

Faça um recorte da sua vida em trabalhar com a fotografia na cidade de Piracicaba, nas décadas de 70, 80, 90 e dias atuais.

Fotografar quando eu comecei, não tinha “chute”, tinha que ter certeza do que estava fazendo. Não dava para “brincar” com foto como se faz hoje com a digital. Ficar fazendo inúmeros testes muda o ISO aqui, muda o ISO ali. Não saía com um monte de filme, era tudo caro. Trabalhávamos com economia. Eu saía para fazer várias pautas com dois no máximo três rolos de filme. Hoje tira duzentas fotos em um cartão que cabe mil. E no mesmo cartão pode alterar o ISO e imediatamente ver o resultado. As duzentas fotos da pauta de hoje eram dez fotos no negativo. Só que as dez tinham que sair boas, não podia perder. Ah, e filme que o jornal disponibilizava era de ISO 400. Às vezes trabalhava com ele “puxado”. Mas era aí o problema, diferente do cartão de memória não dava para trocar o ISO no mesmo filme. Pois o filme “puxado” exigia uma revelação “puxada”.  As pautas noturnas de polícia, eventos e futebol eu já saía com o filme puxado em 1600 ou 3200. Era tudo mais trabalhoso. Chagava da pauta, revelava o filme, secava rapidamente e ampliava. Mas tinha que esmaltar a foto para secá-la rapidamente em uma esmaltadora. Melhorava a impressão o brilho do esmalte, não podia ser fosco. O que compensava era o amor pelo que eu fazia, não só eu, mas todos que trabalharam desta forma. Não importávamos passar a noite na redação. Perdi a conta das noites que dormia em cima dos jornais e acordava as quatro, cinco horas da manhã. Hoje também é bom, prazeroso, só que mais tranquilo. É só inserir o cartão no computador e descarregar todo aquele monte de foto.

Festa do Divino. © Christiano Diehl.

Fale mais sobre o seu trabalho em São Paulo?

Foi uma experiência muito boa. As matérias que cobri por lá me deu uma ótima “bagagem”. Peguei o processo que o Lula iniciou com o levante dos metalúrgicos. Tenho foto da época que o Luiz Medeiros era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. Junto com o Lula eles iniciaram a greve geral. Paralisou toda a cidade de São Paulo. Era o ano de 1980. Nesta época também trabalhei em um jornal que se chamava Voz Unidade, que era o jornal oficial do PCB (Partido Comunista Brasileiro), na época um partido ilegal. Ali tinha que trabalhar escondido. Quando o PCB se juntou ao Lula, para realizar o levante dos metalúrgicos, eu estava em Piracicaba dormindo. Era umas dez horas da noite quando telefonaram em minha casa. Era do jornal Voz Unidade e avisaram-me para estar domingo bem cedo num endereço que me passaram, para fotografar a reunião entre os líderes do PCB, Giocondo Dias, Salomão Malina, Hércules Corrêa com o Lula, Vicentinho, Alemão e toda a cúpula do PT. A reunião foi secreta e foi para organizar o movimento da Vila Euclides. Eu fotografava para o PCB e não tinha nenhum fotógrafo nesta reunião.

Um momento marcante com a fotografia?

Não sei se foi o mais marcante, mas a mais polêmica foi em 1978 quando o João Herrmann e mais alguns líderes do PMDB, montaram uma frente de prefeitos do partido. Tinha o Luis Henrique – prefeito de Joinvile – que se tornou governador de Santa Catarina, o prefeito de Limeira, de São João da Boa Vista que era o Nelsinho Nicolau e vários outros. A primeira reunião desta frente foi em Joinvile, a segunda o João Herrmann trouxe para Piracicaba no Teatro Municipal. Eu estava ali como fotógrafo do gabinete do prefeito. Montaram uma mesa no palco que ocupavam as duas pontas com toda a cúpula do PMDB. Começava com o Ulisses Guimarães e terminava na outra extremidade com o vereador, Miltinho da Silva de Piracicaba. Na mesa estavam Franco Montoro, Ulisses Guimarães, João Herrmann, Ruth Escobar, Fernando Moraes e Alberto Goldman. O teatro estava cheio e como era época da ditadura toda a imprensa de Piracicaba, região e do Estado estavam presentes. Fiz todas as fotos e quando o João Herrmann foi encerrar o evento, eu estava lá em cima na fila B, sentado no degrau ao lado do Nelsinho Nicolau. A câmera estava no chão só que preparada para fotografar a última fala do João. Tudo ligado, câmera, flash, com a lente já puxada no zoom e focada. O João adorava discursar, eram apoteóticos seus discursos. Nestes dias, havia uma peça que iria estrear no teatro que se chamava Bent. Contava a história de um casal homossexual presos em um campo de concentração nazista. No cenário da peça desciam três enormes bandeiras, que ocupavam do teto até o chão do palco, com a suástica nazista. E estava eu ali aguardando para fotografar o João e boa parte da imprensa já havia ido embora. Filmadoras desligadas e os profissionais batendo papo, loucos para ir a um barzinho. O pessoal de fora queria conhecer a Rua do Porto para comer um “peixinho”. No encerramento de seu discurso o João Herrmann disse, “nós temos que nos unir e é contra isso que vamos lutar”, e combinou com o pessoal da área técnica que quando ele dissesse isso, desceriam as três bandeiras com as suásticas já instaladas no palco do teatro. Pediu um movimento bem rápido, as bandeiras desciam e imediatamente subiam. Só que ele se esqueceu das imagens e o que isso poderia gerar. Quando desceu eu vi aquilo e fiz duas fotos. Quando o pessoal da mesa virou para trás e viram as bandeiras, queriam se jogar para baixo da mesa para não sair nas fotos. Quando fiquei em pé e fiz as fotos, todos viraram para trás e perceberam que só eu tinha registrado o momento. Resumindo, deu a maior confusão. Todo mundo queria a foto, comprar a foto, o pessoal da Folha de S. Paulo pediu para eu por o preço na foto, o Estadão a mesma proposta, o motivo desta reunião era para lançar o candidato da oposição para concorrer à presidência. Eu, trabalhando para a Assessoria de Imprensa da Prefeitura dizia que não podia entregar ou vender a foto. Terminada a reunião toda a cúpula se reuniu no fundo do teatro e o João Hermann pediu para me chamar. Cheguei lá e ele me perguntou se eu tinha feito à foto e eu disse que sim. “Tem certeza?”, perguntou-me novamente e eu disse que sim. “Então vai embora com este material, vá para a sua casa e deixa a gente resolver aqui”, ordenou ele. Eram 2h e o João me liga em casa e pediu para eu voltar na reunião. Todos continuavam no teatro. “Está com a câmera?”, perguntou-me o João. Disse que estava. “Suma com esse material e amanhã cedo conversamos na prefeitura”, ordenou ele novamente. Revelei a foto e não deu “outra”, foco de ponta a ponta.

Foto permitida do Seminário Nacional de Prefeitos do PMDB. © Christiano Diehl.

O presidente da república João Figueiredo. © Christiano Diehl.

Não foi publicada?

Não foi. Na época eu também era partidário, de esquerda. Vieram uns agentes de São Paulo e me ofereceram muito dinheiro pela foto e eu dizia que não tinha mais, já tinha entregado-a para o meu empregador. Daí eles me perguntavam se pelo menos eu tinha a mesa formada e eu dizia que esta foto todos os fotógrafos tinham. Como eles sabiam que só eu tinha feito aquela, me fizeram a seguinte proposta. Eu venderia a foto da mesa e iria para Americana fotografar a peça Bent, que já tinha deixado Piracicaba. Entendeu o que queriam né? Poderiam falar que era autentica, pois a foto era do único fotógrafo que registrou o momento das bandeiras. Se eles conseguissem esta imagem, iriam empastelar o país dizendo que o MDB era um partido pró-nazista. Desestruturariam todo um trabalho de oposição. Acredito que nem conseguiriam realizar as Diretas Já.

Millôr Fernandes. © Christiano Diehl.

Que história! E momentos engraçados têm?

Tem uma com o Pauléo, fotografando a enchente no mesmo dia que o Adilson Maluf assumiu a prefeitura de Piracicaba. Fotografei a posse no gabinete da prefeitura que ficava em uma casa na rua do Rosário esquina com a rua São José, em que está instalado hoje  a Uniodonto. Terminei as fotos na prefeitura e já desci com o Pauléo na Rua do Porto. Estava frio e garoando.

Estava fotografando para qual jornal?

Para o Diário. Descemos e fotografamos. Inclusive estas fotos foram expostas na exposição Amandy de 2011. Para realizar as fotos, entrávamos nas ruas inundadas de calça, blusa plástica dupla face, câmera e bolsa penduradas e eu estava com uma bota cano curto de couro que tinha um zíper do lado e um salto carrapeta. Combinamos de entrar nas águas até sentirmos que era seguro. Entramos pela rua Morais Barros, e fomos descendo até atingir uma árvore grande em frente ao antigo Clube Regatas. O Pauléo fez uma foto minha dentro da água. Ficamos muito tempo nas águas e o pessoal que estava dentro do barracão da Irmandade do Divino tinham um garrafão de pinga que tomavam para amenizar o frio. Eles nos ofereciam e nós dois tomávamos também. Tomava um gole entrava na água e fotografava. Voltava bebia outro gole e para dentro da água novamente. O frio começou anestesiar as minhas pernas e o álcool a minha cabeça. (risos). Terminamos as fotos saí de lá peguei o meu carro e fui para casa. Era a hora do almoço e a minha mãe estava esperando eu e meu irmão para almoçarmos juntos. Comecei a subir a rampa de casa e me deu um “gelo” e comecei a mancar. Quando cheguei à porta da cozinha coloquei a mão no batente e minha mãe me viu branco daquele jeito, além do frio eram as várias pingas, e perguntou o que tinha acontecido. Falei para ela, “mãe, não tenho coragem de olhar para baixo, acho que a minha perna direita encolheu” (risos). Eu tinha perdido o salto carrapeta e não percebi. Quando cheguei até minha casa com a cachaça na cabeça fiquei com medo que a água tivesse encolhido a minha perna. Absurdo o que a bebida faz com a gente (risos).

Enchente do Rio Piracicaba. © Christiano Diehl.

Quais são suas referências na fotografia?

Gosto de vários fotógrafos. Gosto muito do trabalho do Pedro Martinelli. Quando eu estava na Folha gostava das fotos do Fernando Santos e Luis Carlos Murauskas. Trabalhei com o Jorge Araújo também na Folha, um fotógrafo espetacular. Sebastião Salgado, o trabalho que ele produz com branco e preto é fantástico. Não vi ninguém se igualar a ele com seu trabalho documental.

O que ainda não fotografou?

Guerra. Tive chance de ir e não fui por causa de família. Quando eu estava no jornal Voz Unidade, todo mês tinha reunião de avaliação e os jornalistas que cobriam para o PCB na América Latina, uma vez por mês vinham para cobrir a reunião do comitê em São Paulo. Naquela época quem cobria Nicarágua e Honduras era um repórter que se chamava Chico Hardi. Ele veio para entregar a sua avaliação de como estava o movimento comunista nestes países e pediu um fotógrafo para voltar com ele. Ofereceram-me a chance de ir. Eu queria, mas a minha mulher e a minha mãe quase teve um enfarte e o meu pai já não estava bem. Disse a eles que ficava para a próxima. Mas eu não sei hoje gostaria de fazer uma cobertura de guerra. É difícil não se envolver, pois sou muito emotivo. Acho que não faria um bom trabalho.

© Christiano Diehl.

O que a fotografia representa em sua vida?

É difícil de responder. Ela é muito importante em minha vida. Comecei a fotografar com 17 anos e hoje estou com 55, posso dizer que ela está comigo a vida toda. Por tudo o que olho, vejo foto. Vicia tanto o olhar que enquadro toda a cena que vejo. É muito gostoso. A fotografia nos ensina a ver as coisas mais belas e mais feias. As belas prevalecem. De um panorama você consegue captar um detalhe, parece que o nosso olho tem um zoom. Por exemplo, quando eu estava te esperando no hall, havia uma planta contra a luz, não sei o nome dela, as folhas parece uma espada, com bordas brancas e espinhos pretos. A luz contra a fez formar um leque perfeito dentro de um recorte em toda a planta. É assim que o fotógrafo enxerga. A fotografia te ensina a ver as coisas mais bonitas.

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