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Christiano Diehl

Nascido em Charqueada, Christiano Diehl Neto, 55, é fotógrafo e editor de fotografia do jornal Gazeta de Piracicaba. Até chegar a esta posição na profissão, Diehl passou por outras redações piracicabanas e de São Paulo. Viveu intensamente o final da ditadura militar no Brasil como fotógrafo e já perdeu filme para milico. Esteve presente nas grandes greves dos metalúrgicos paulistas e acompanhou o início do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, quando este era líder sindical. Trabalhou na sucursal de O Globo em São Paulo e na redação da Folha de S. Paulo. Mas foi no jornal do Partido Comunista Brasileiro que quase foi fotografar uma guerra latino-americana. Aqui em Piracicaba passou pelas redações do Diário de Piracicaba, Jornal de Piracicaba, assessoria de imprensa da prefeitura e foi até lojista. Fotografou grandes histórias piracicabanas tornando-se um profissional respeitável em nossa cidade. Christiano Diehl é um fotógrafo que literalmente dá o sangue pela profissão, como verificará na entrevista.

Christiano Diehl Neto. © 2012. Fábio Mendes.

Como foi o seu primeiro contato com a fotografia?

Eu morava em um sítio que se chama Vila Santa Luzia pertencente ao município de Charqueada-SP. Durante uma visita à Piracicaba na casa de um primo, Nivaldo Davanzo, ele tinha por hobby a fotografia. Possuía um quarto escuro em sua casa, ampliador e toda a “parafernalha” necessária para a produção e revelação de fotografia. Eu tinha 13 anos e fiquei curioso com tudo aquilo e perguntei a ele para quê serviam aquelas coisas. Meu primo mostrou-me como era feito o processo da fotografia. Colocou o negativo no ampliador, queimou o papel e fez a imagem aparecer no banho químico. Fiquei fascinado e aquilo não me saía mais da cabeça. Voltei para a minha rotina, mas sempre pensando em fotografia. Dois anos depois minha família mudou-se para Piracicaba e comecei a trabalhar numa financiadora de carros, depois escritório de contabilidade como office-boy, mas sempre desejando trabalhar com fotografia. Quando a loja Cine Foto Outsubo se instalou em Piracicaba na rua XV de Novembro, eu tinha um primo que trabalhava lá, o Roberto Diehl. Abriu uma vaga para auxiliar de laboratório fui lá, pedi o emprego e me aceitaram. Eu tinha uns 15, 16 anos, revelava filmes e lavava e secava fotos. Também aprendi a ampliar fotos Depois disso nunca mais abandonei a fotografia.  Junto a este trabalho eu estudava química no Colégio Dom Bosco. Depois de um ano estudando avisei a minha mãe que gostaria de ser somente fotógrafo em tempo integral. Não suportava química, ficar mexendo naqueles “tubinhos”. Ela não gostou, mas entendeu e até hoje fotografo.

Depois de um ano e meio no Outsubo fui trabalhar na Galeria Foto, que na época era a loja de fotografia mais forte na cidade. Tinha um volume muito grande de serviço. A loja existe até hoje na Galeria Gianetti. Neste trabalho comecei a fotografar profissionalmente eventos de empresas, casamentos e tudo mais neste segmento. Fiquei bom tempo na Galeria. Os proprietários eram o Carlos Alberto Cantarelli, fotógrafo antiguíssimo de Piracicaba e o Nelson que é proprietário até hoje. Depois trabalhei em estúdio de foto para documentação e então fui convidado para trabalhar num estúdio em Americana que tinha um nível mais profissional, pois além dos eventos, fotografava bastantes indústrias. De volta a Piracicaba fui trabalhar no jornal Diário de Piracicaba, Assessoria de Imprensa da prefeitura de Piracicaba na gestão do prefeito João Herrmann Neto e Jornal de Piracicaba. Na prefeitura, dois anos antes de terminar o mandato, João Herrmann criou um jornal no formato tabloide. Era semanal ese chamava Jornal do Povo. Foi aí que comecei no jornalismo, era 1977/78. Ele trouxe para editar este jornal o Paulo Markun, que foi apresentador do programa Roda Viva na TV Cultura, o Bonifácio Placeres, o Peninha, diagramador que era da Gazeta Mercantil e os repórteres eram a Filomena Sayão, hoje trabalha em uma agência de notícias em São Paulo, Valter Puga e Roberto Cabrini, que começou com a gente fazendo esporte. Também a Angela Furlan que é editora da Gazeta de Piracicaba, passou pelo Jornal do Povo. O jornal teve uma vida curta, foram dois anos. Em 1979 fechou no mês de fevereiro em. Estávamos na redação eu, Markun e Peninha quando soubemos do fechamento. Era 21h30 e o Markun sugeriu de irmos embora para São Paulo pedir emprego. Fui para casa fiz uma pequena mala de roupas e saímos os três num carro rumo a São Paulo. Chegamos e fomos direto para um bar que se chamava Quincas Borba Bar. A ideia do bar foi do Markun, pois o local era frequentado por muitos jornalistas. Chegando lá havia muitos repórteres, ilustradores e cartunistas. Ali estavam o Elifas Andreato, vários artistas, como a Bruna Lombardi e seu marido Carlos Alberto Riccelli e mais um monte de jornalistas do Globo e Estadão. Quando o Markun chegou fizeram àquela festa, “ê Piracicaba, encerrou lá?”, gritavam. Ele disse que estavam os três pedindo emprego e que ficaríamos na mesa do canto, se alguém soubesse de algum trabalho que fosse até a nossa mesa. Meia hora depois chegou um “cara” e nos disse que havia vaga no O Globo. No dia seguinte fomos lá e já começamos a trabalhar. Depois fui para a Folha de S. Paulo onde fiquei por um bom tempo. Acontece que o meu pai ficou enfermo, uma doença terminal e tive que voltar para Piracicaba. Antes de ele falecer eu já frequentava o estúdio do Henrique Spavieri e ele me passava trabalhos, pois eu tinha experiência em estúdio. Ele me ofereceu sociedade aceitei e trabalhamos juntos por dezessete anos.

Em primeiro plano o fotógrafo Christiano Diehl “pitando” um cigarro. © Arquivo Christiano Diehl.

Maestro Enrst Mahle. © Christiano Diehl.

Como foi a sua passagem pelo Jornal do Povo e como estava a política social piracicabana no fim da década de 70 e início da década de 80?

O João Herrmann Neto foi um prefeito polêmico, sua gestão foi agitada. Ele trouxe dois congressos da UNE (União Nacional dos Estudantes) em seu mandato, o que na época estava proibido, pois a UNE era considerada uma entidade ilegal. Também fez uma campanha muito forte para salvar o Rio Piracicaba. Entrou em sérias discussões com o governador Paulo Maluf por causa da barragem que retirava grande volume de água dos formadores do Rio Piracicaba e assim diminuía muito sua vazão. Numa dessas discussões ele “xingou” o governador , foi processado e teve que pagar uma multa. Pagou-a em moedas (risos).

Congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

O prefeito João Herrmann Neto discursa durante o congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

O sindicalista Luis Inácio Lula da Silva participa do congresso da UNE em Piracicaba. © Christiano Diehl.

Protesto contra a retirada da águas do Rio Piracicaba pela Sabesp para abastecer a cidade de São Paulo. © Christiano Diehl.

Protesto contra a retirada da águas do Rio Piracicaba pela Sabesp para abastecer a cidade de São Paulo. © Christiano Diehl.

Você teve algum problema com a ditadura?

Tive. Eu estava cobrindo um comício em frente ao gabinete da prefeitura. Estava o Fernando Morais, Fernando Henrique Cardoso entre outros. De repente chegou o Dops e retiraram a câmera das minhas mãos, tiraram o rolo de filme e o levaram embora. Outro caso foi quando eu estava em um barzinho na rua Boa Morte com meus amigos de trabalho. Era final do expediente e tinha um pessoal estranho no bar.  De repente o dono do bar pede para a gente se retirar e não frequentar mais o local. Havia muitos homens da polícia infiltrados nas universidades, principalmente na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz). Eu tinha um primo que era sargento, no 5° Gecam em Campinas, e ele me dizia que havia policiais infiltrados na Esalq, nos movimentos estudantis e DCEs. Era assim que agiam. Na época que foi preso o Francisco Salgot Castillon, prefeito de Piracicaba, foi o meu primo que montou guarda para o Salgot. Também montou guarda quando o Cecílio Elias Netto foi preso. Era conturbada a época. Também tive um caso, em São Paulo, quando começaram as greves no início do PT e do Lula. Fui cobrir uma destas greves, me derrubaram e novamente retiraram a minha câmera e pisaram nela.

Trotes e passeata realizada por estudantes da Esalq. © Christiano Diehl.

Trotes e passeata realizada por estudantes da Esalq. © Christiano Diehl.

Somente fazia o seu trabalho ou também militava?

Não tinha como não se envolver, pois 98% dos jornalistas eram de esquerda. A cicatriz que tenho nos lábios “ganhei” cobrindo uma greve. O proprietário da indústria me viu fotografando a greve dos seus funcionários e me deu um soco na boca. Ele usava um anel de formatura e isso fez um enorme corte em meus lábios.

Foi em Piracicaba?

Foi em Charqueada na empresa Viva Bem Rivaben.

Por que fechou o Jornal do Povo?

João Herrmann criou um jornal extremamente político, para fazer campanha, mostrar o seu trabalho. Engraçado que ele aceitava críticas. Ligava para o editor e dizia que havia um pessoal de um bairro reclamando, pedia para o repórter “meter a boca” no prefeito e na prefeitura. Quando acabou a sua administração acabou o jornal. Quase não havia propagandas por causa da ideologia, então não tinha como se sustentar.

Oscar Niemeyer. © Christiano Diehl.

E no Diário de Piracicaba, como foi a passagem por lá?

Tive momentos muito bons no Diário. Aprendi muito com o Cecílio, é um jornalista brilhante. Um dos melhores “pena” de Piracicaba. Concorde ou não, a forma como ele escreve é brilhante. O Cecílio dava liberdade para a gente trabalhar e nos incentivava votar na melhor reportagem e melhor foto do mês. Aos ganhadores era oferecido um jantar no Restaurante Arapuca na Rua do Porto como um brinde. Era muito saudável esta ação.

Grande Otelo fugiu do hospital no Rio de Janeiro, internado com suspeita de edema pulmonar, veio de táxi à Piracicaba prestigiar o cinema que fora inaugurado com o seu nome. © Christiano Diehl.

Com quem trabalhou na redação do Diário?

Com fotógrafos trabalhei com o Diógenes Banzatto, Davi Negri e Nelson Campos com quem montei um estúdio e trabalhamos anos juntos. Até hoje fazemos alguns serviços, é um grande amigo que tenho e um ótimo fotógrafo.

Por quanto tempo trabalhou nesta redação?

Uns três, quatro anos. A minha saída foi logo após esta greve que levei o soco na boca.

E no Jornal de Piracicaba?

No JP fique por mais tempo.  Mas era simultâneo, fazia trabalho para o JP e para o estúdio que eu era sócio com o Henrique Spavieri. Nós fazíamos muitos trabalhos para o jornal no estúdio, produção de moda, social, personalidades e as reportagens que eu fazíamos nas ruas. No JP era eu o Pauléo e o Henrique. Depois veio o Bolly, que está até hoje como editor. Foi uns 16 anos de JP.

O cartunista Henfil durante o Salão de Humor de Piracicaba. © Christiano Diehl.

A loja Buda Som, que também era sua e do Henrique Spavieri foi referência no ramo da fotografia, como foi conciliar a carreira de fotógrafo e lojista?

Já tínhamos uma pequena loja na rua do Rosário. O Buda Som foi o seguinte, nós éramos sócios do estúdio e ali prestávamos serviços. O Henrique sempre quis montar uma loja e o Shiraga, proprietário da loja queria vendê-la para aposentar-se. A oportunidade apareceu e compramos. Importamos a primeira máquina de revelação na hora de Piracicaba, comum em lojas de fotografia hoje. Era da marca Noritsu e veio direto do Japão.

Quando você saiu do JP e do Buda Som ficou por um tempo fora das redações até retornar no jornal A Gazeta de Piracicaba. O que fotografou neste período?

Tenho uma empresa que se chama Diehl Estúdio Fotográfico e presto serviços fotográficos. Fotos industriais, publicidade e o meu forte que são as fotos aéreas que corresponde quase 80% do meu trabalho fora da Gazeta.

Como foi o convite para voltar a atuar em uma redação?

Apesar de ter esta empresa deixei muitos amigos pelas redações, o Lourenço Tayar é um destes amigos. Ele saiu do JP, me ligou e disse que estava alugando uma casa grande e sabia que o meu espaço era pequeno. Eu estava locado em um edifício na rua XV de Novembro. Avisou que havia uma sala grande e gostaria que eu fosse trabalhar junto com ele nesta casa. Instalei-me e sem me contar já estava com a ideia de montar um jornal. Ele pagava o aluguel e eu pagava a parte que ocupava. Continuava com as minhas fotos industriais e um dia me chamou com a Gazeta de Cambuí em mãos, que tem o mesmo formato da Gazeta de Piracicaba. Disse que era o jornal que montaria em Piracicaba e que gostaria que eu trabalhasse com ele. Fui o primeiro a ser chamado para trabalhar na Gazeta. Ele montou toda a estrutura e voltei ao fotojornalismo que é o que está em meu sangue.

O garoto que fumava “bitucas”. © Christiano Diehl.

Faça um recorte da sua vida em trabalhar com a fotografia na cidade de Piracicaba, nas décadas de 70, 80, 90 e dias atuais.

Fotografar quando eu comecei, não tinha “chute”, tinha que ter certeza do que estava fazendo. Não dava para “brincar” com foto como se faz hoje com a digital. Ficar fazendo inúmeros testes muda o ISO aqui, muda o ISO ali. Não saía com um monte de filme, era tudo caro. Trabalhávamos com economia. Eu saía para fazer várias pautas com dois no máximo três rolos de filme. Hoje tira duzentas fotos em um cartão que cabe mil. E no mesmo cartão pode alterar o ISO e imediatamente ver o resultado. As duzentas fotos da pauta de hoje eram dez fotos no negativo. Só que as dez tinham que sair boas, não podia perder. Ah, e filme que o jornal disponibilizava era de ISO 400. Às vezes trabalhava com ele “puxado”. Mas era aí o problema, diferente do cartão de memória não dava para trocar o ISO no mesmo filme. Pois o filme “puxado” exigia uma revelação “puxada”.  As pautas noturnas de polícia, eventos e futebol eu já saía com o filme puxado em 1600 ou 3200. Era tudo mais trabalhoso. Chagava da pauta, revelava o filme, secava rapidamente e ampliava. Mas tinha que esmaltar a foto para secá-la rapidamente em uma esmaltadora. Melhorava a impressão o brilho do esmalte, não podia ser fosco. O que compensava era o amor pelo que eu fazia, não só eu, mas todos que trabalharam desta forma. Não importávamos passar a noite na redação. Perdi a conta das noites que dormia em cima dos jornais e acordava as quatro, cinco horas da manhã. Hoje também é bom, prazeroso, só que mais tranquilo. É só inserir o cartão no computador e descarregar todo aquele monte de foto.

Festa do Divino. © Christiano Diehl.

Fale mais sobre o seu trabalho em São Paulo?

Foi uma experiência muito boa. As matérias que cobri por lá me deu uma ótima “bagagem”. Peguei o processo que o Lula iniciou com o levante dos metalúrgicos. Tenho foto da época que o Luiz Medeiros era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. Junto com o Lula eles iniciaram a greve geral. Paralisou toda a cidade de São Paulo. Era o ano de 1980. Nesta época também trabalhei em um jornal que se chamava Voz Unidade, que era o jornal oficial do PCB (Partido Comunista Brasileiro), na época um partido ilegal. Ali tinha que trabalhar escondido. Quando o PCB se juntou ao Lula, para realizar o levante dos metalúrgicos, eu estava em Piracicaba dormindo. Era umas dez horas da noite quando telefonaram em minha casa. Era do jornal Voz Unidade e avisaram-me para estar domingo bem cedo num endereço que me passaram, para fotografar a reunião entre os líderes do PCB, Giocondo Dias, Salomão Malina, Hércules Corrêa com o Lula, Vicentinho, Alemão e toda a cúpula do PT. A reunião foi secreta e foi para organizar o movimento da Vila Euclides. Eu fotografava para o PCB e não tinha nenhum fotógrafo nesta reunião.

Um momento marcante com a fotografia?

Não sei se foi o mais marcante, mas a mais polêmica foi em 1978 quando o João Herrmann e mais alguns líderes do PMDB, montaram uma frente de prefeitos do partido. Tinha o Luis Henrique – prefeito de Joinvile – que se tornou governador de Santa Catarina, o prefeito de Limeira, de São João da Boa Vista que era o Nelsinho Nicolau e vários outros. A primeira reunião desta frente foi em Joinvile, a segunda o João Herrmann trouxe para Piracicaba no Teatro Municipal. Eu estava ali como fotógrafo do gabinete do prefeito. Montaram uma mesa no palco que ocupavam as duas pontas com toda a cúpula do PMDB. Começava com o Ulisses Guimarães e terminava na outra extremidade com o vereador, Miltinho da Silva de Piracicaba. Na mesa estavam Franco Montoro, Ulisses Guimarães, João Herrmann, Ruth Escobar, Fernando Moraes e Alberto Goldman. O teatro estava cheio e como era época da ditadura toda a imprensa de Piracicaba, região e do Estado estavam presentes. Fiz todas as fotos e quando o João Herrmann foi encerrar o evento, eu estava lá em cima na fila B, sentado no degrau ao lado do Nelsinho Nicolau. A câmera estava no chão só que preparada para fotografar a última fala do João. Tudo ligado, câmera, flash, com a lente já puxada no zoom e focada. O João adorava discursar, eram apoteóticos seus discursos. Nestes dias, havia uma peça que iria estrear no teatro que se chamava Bent. Contava a história de um casal homossexual presos em um campo de concentração nazista. No cenário da peça desciam três enormes bandeiras, que ocupavam do teto até o chão do palco, com a suástica nazista. E estava eu ali aguardando para fotografar o João e boa parte da imprensa já havia ido embora. Filmadoras desligadas e os profissionais batendo papo, loucos para ir a um barzinho. O pessoal de fora queria conhecer a Rua do Porto para comer um “peixinho”. No encerramento de seu discurso o João Herrmann disse, “nós temos que nos unir e é contra isso que vamos lutar”, e combinou com o pessoal da área técnica que quando ele dissesse isso, desceriam as três bandeiras com as suásticas já instaladas no palco do teatro. Pediu um movimento bem rápido, as bandeiras desciam e imediatamente subiam. Só que ele se esqueceu das imagens e o que isso poderia gerar. Quando desceu eu vi aquilo e fiz duas fotos. Quando o pessoal da mesa virou para trás e viram as bandeiras, queriam se jogar para baixo da mesa para não sair nas fotos. Quando fiquei em pé e fiz as fotos, todos viraram para trás e perceberam que só eu tinha registrado o momento. Resumindo, deu a maior confusão. Todo mundo queria a foto, comprar a foto, o pessoal da Folha de S. Paulo pediu para eu por o preço na foto, o Estadão a mesma proposta, o motivo desta reunião era para lançar o candidato da oposição para concorrer à presidência. Eu, trabalhando para a Assessoria de Imprensa da Prefeitura dizia que não podia entregar ou vender a foto. Terminada a reunião toda a cúpula se reuniu no fundo do teatro e o João Hermann pediu para me chamar. Cheguei lá e ele me perguntou se eu tinha feito à foto e eu disse que sim. “Tem certeza?”, perguntou-me novamente e eu disse que sim. “Então vai embora com este material, vá para a sua casa e deixa a gente resolver aqui”, ordenou ele. Eram 2h e o João me liga em casa e pediu para eu voltar na reunião. Todos continuavam no teatro. “Está com a câmera?”, perguntou-me o João. Disse que estava. “Suma com esse material e amanhã cedo conversamos na prefeitura”, ordenou ele novamente. Revelei a foto e não deu “outra”, foco de ponta a ponta.

Foto permitida do Seminário Nacional de Prefeitos do PMDB. © Christiano Diehl.

O presidente da república João Figueiredo. © Christiano Diehl.

Não foi publicada?

Não foi. Na época eu também era partidário, de esquerda. Vieram uns agentes de São Paulo e me ofereceram muito dinheiro pela foto e eu dizia que não tinha mais, já tinha entregado-a para o meu empregador. Daí eles me perguntavam se pelo menos eu tinha a mesa formada e eu dizia que esta foto todos os fotógrafos tinham. Como eles sabiam que só eu tinha feito aquela, me fizeram a seguinte proposta. Eu venderia a foto da mesa e iria para Americana fotografar a peça Bent, que já tinha deixado Piracicaba. Entendeu o que queriam né? Poderiam falar que era autentica, pois a foto era do único fotógrafo que registrou o momento das bandeiras. Se eles conseguissem esta imagem, iriam empastelar o país dizendo que o MDB era um partido pró-nazista. Desestruturariam todo um trabalho de oposição. Acredito que nem conseguiriam realizar as Diretas Já.

Millôr Fernandes. © Christiano Diehl.

Que história! E momentos engraçados têm?

Tem uma com o Pauléo, fotografando a enchente no mesmo dia que o Adilson Maluf assumiu a prefeitura de Piracicaba. Fotografei a posse no gabinete da prefeitura que ficava em uma casa na rua do Rosário esquina com a rua São José, em que está instalado hoje  a Uniodonto. Terminei as fotos na prefeitura e já desci com o Pauléo na Rua do Porto. Estava frio e garoando.

Estava fotografando para qual jornal?

Para o Diário. Descemos e fotografamos. Inclusive estas fotos foram expostas na exposição Amandy de 2011. Para realizar as fotos, entrávamos nas ruas inundadas de calça, blusa plástica dupla face, câmera e bolsa penduradas e eu estava com uma bota cano curto de couro que tinha um zíper do lado e um salto carrapeta. Combinamos de entrar nas águas até sentirmos que era seguro. Entramos pela rua Morais Barros, e fomos descendo até atingir uma árvore grande em frente ao antigo Clube Regatas. O Pauléo fez uma foto minha dentro da água. Ficamos muito tempo nas águas e o pessoal que estava dentro do barracão da Irmandade do Divino tinham um garrafão de pinga que tomavam para amenizar o frio. Eles nos ofereciam e nós dois tomávamos também. Tomava um gole entrava na água e fotografava. Voltava bebia outro gole e para dentro da água novamente. O frio começou anestesiar as minhas pernas e o álcool a minha cabeça. (risos). Terminamos as fotos saí de lá peguei o meu carro e fui para casa. Era a hora do almoço e a minha mãe estava esperando eu e meu irmão para almoçarmos juntos. Comecei a subir a rampa de casa e me deu um “gelo” e comecei a mancar. Quando cheguei à porta da cozinha coloquei a mão no batente e minha mãe me viu branco daquele jeito, além do frio eram as várias pingas, e perguntou o que tinha acontecido. Falei para ela, “mãe, não tenho coragem de olhar para baixo, acho que a minha perna direita encolheu” (risos). Eu tinha perdido o salto carrapeta e não percebi. Quando cheguei até minha casa com a cachaça na cabeça fiquei com medo que a água tivesse encolhido a minha perna. Absurdo o que a bebida faz com a gente (risos).

Enchente do Rio Piracicaba. © Christiano Diehl.

Quais são suas referências na fotografia?

Gosto de vários fotógrafos. Gosto muito do trabalho do Pedro Martinelli. Quando eu estava na Folha gostava das fotos do Fernando Santos e Luis Carlos Murauskas. Trabalhei com o Jorge Araújo também na Folha, um fotógrafo espetacular. Sebastião Salgado, o trabalho que ele produz com branco e preto é fantástico. Não vi ninguém se igualar a ele com seu trabalho documental.

O que ainda não fotografou?

Guerra. Tive chance de ir e não fui por causa de família. Quando eu estava no jornal Voz Unidade, todo mês tinha reunião de avaliação e os jornalistas que cobriam para o PCB na América Latina, uma vez por mês vinham para cobrir a reunião do comitê em São Paulo. Naquela época quem cobria Nicarágua e Honduras era um repórter que se chamava Chico Hardi. Ele veio para entregar a sua avaliação de como estava o movimento comunista nestes países e pediu um fotógrafo para voltar com ele. Ofereceram-me a chance de ir. Eu queria, mas a minha mulher e a minha mãe quase teve um enfarte e o meu pai já não estava bem. Disse a eles que ficava para a próxima. Mas eu não sei hoje gostaria de fazer uma cobertura de guerra. É difícil não se envolver, pois sou muito emotivo. Acho que não faria um bom trabalho.

© Christiano Diehl.

O que a fotografia representa em sua vida?

É difícil de responder. Ela é muito importante em minha vida. Comecei a fotografar com 17 anos e hoje estou com 55, posso dizer que ela está comigo a vida toda. Por tudo o que olho, vejo foto. Vicia tanto o olhar que enquadro toda a cena que vejo. É muito gostoso. A fotografia nos ensina a ver as coisas mais belas e mais feias. As belas prevalecem. De um panorama você consegue captar um detalhe, parece que o nosso olho tem um zoom. Por exemplo, quando eu estava te esperando no hall, havia uma planta contra a luz, não sei o nome dela, as folhas parece uma espada, com bordas brancas e espinhos pretos. A luz contra a fez formar um leque perfeito dentro de um recorte em toda a planta. É assim que o fotógrafo enxerga. A fotografia te ensina a ver as coisas mais bonitas.

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Mateus Medeiros

Mateus Medeiros. © 2011. Fábio Mendes

A entrevista deste mês é com o fotógrafo Mateus Medeiros. Acima de um excelente profissional, tenho o Mateus como um grande amigo. Crescemos quase que juntos na profissão, ele um pouco antes de mim. Mateus carrega um coração imenso de amor, apesar do seu jeito “brucutu”, quem realmente o conhece sabe que é um doce de pessoa. Fiel aos amigos é um cara que os defende com unhas e dentes e faz da sua profissão uma filosofia de vida. Hoje Mateus fotografa para o Sindicato dos Metalúrgicos.

Conheça um pouco mais da história deste imenso fotógrafo piracicabano de 42 anos e pai de dois lindos filhos.

Boa leitura!

Como foi o início com a fotografia?

Eu nem imaginava que trabalharia com fotografia, tinha meus vinte e poucos anos e continuava sem uma profissão, estudava, mas estava procurando emprego. Fui ao Shopping Piracicaba, que tinha acabado de ser inaugurado, em 1991 para ver se encontrava algum trabalho, pois a minha mãe estava pegando no meu pé. Precisavam de um auxiliar para laboratório em uma loja de fotografia. Quando olhei aquele aquário (nome popular do minilab, pois é cercado por vidros) eu nem imaginava o que faziam lá dentro. Acho que foi destino trabalhar com fotografia. Entrei na loja e quem me atendeu foi o Humberto Alves de Oliveira, que era encarregado de minilab e me disse para voltar na próxima segunda-feira. De volta à loja com o currículo em mãos, descobri que o trabalho era revelar filmes fotográficos. Fiz um treinamento e deu certo. Foi o início. A loja era a Curt Laboratório Fotográfico, na época a maior rede de minilab da América Latina, a primeira loja de revelação em 1 hora de Piracicaba. Fui aprendendo e crescendo no minilab e de tanto ver câmeras fotográficas resolvi comprar uma, mas pedi ao Humberto alguma que só precisasse apertar o botão. Daí ele me questionou o porquê da facilidade e expliquei que eu não sabia fotografar. Pouco tempo depois, chegou à loja uma câmera Olympus “pretinha” que fazia tudo e com uma novidade, tirava os olhos vermelhos das pessoas. Ao lado desta câmera na prateleira havia uma Minolta Seagull que era reflex, com uma lente 50 mm, 1.4f. O preço da Minolta era alto e com o meu salário não conseguiria comprá-la, por isso nem me interessei. Disse ao Humberto que queria tirar retratos e fotos caseiras. Ele me disse para eu ficar com a Minolta, mas já respondi que ele estava louco, não conseguiria pagá-la. Também não iria conseguir mexer com aquela câmera. Foi quando ele disse que me ensinava. Coincidentemente dias depois desta conversa chegou um estúdio – na verdade uma cabine para fotos 3×4 – na loja e uma Nikon FM2 com uma “puta” lente 200 mm. Nas horas vagas o Humberto me ensinou a fotografar ali na cabine e o pessoal da loja começou a elogiar minhas fotos, “nossa que close bonito que você fez que expressão bonita que pegou da criança”, pensei, “caraca acho que é isso!”. Chamei o Humberto e disse a ele que ficaria com a Minolta, desde que me ensinasse. Foi então que me contou sua história, que veio de Goiás e que por lá fotografava casamentos. Ele tinha muita facilidade para ensinar. Só que em vez de comprar a Minolta, primeiro comprei uma Praktica MTL3 da Viviane, não me lembro o seu sobrenome, que tinha uma loja no bairro Vila Fátima e fazia fotos 3×4. Depois de um tempo guardei uma grana e aí sim comprei a Minolta. Eu fotografava de tudo, não saía de casa sem a câmera, a minha mãe achava que eu estava maluco, pois comecei tirar fotos de mosquitos no varal (risos). Pense eu com uma 50 mm fotografando esses mosquitos? Tinha que me aproximar bem, claro que na maioria das tentativas o mosquito ia embora, registrar um era difícil (risos). Fotografava flores e fiz muitas fotos da minha mãe. Profissionalmente comecei com fotos sociais, casamentos, aniversários e batizados e este último foi o primeiro trabalho que fiz.

Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Como captava os primeiros trabalhos?

Não me sentia seguro para fechar contratos era muita responsabilidade. Eu fotografava para o Francisco Franco, mais conhecido como Chico do Jupiá. O Grande Hotel em Águas de São Pedro era seu cliente, trabalhei anos ali. Pela loja eu captava meus clientes. Neste momento já tinha o meu flash Frata 140. Ah, também trabalhei para o Wlade, com ele fotografei várias formaturas.

Como se aperfeiçoava tecnicamente? Fazia cursos, frequentou alguma escola especializada?

Eu consumia muito fotografia, mas em livros, revistas e vídeos. Paguei caríssimo de uma vídeoaula da revista Iris Foto.

Você disse que começou a fazer fotos de eventos sociais, mas era um trabalho paralelo à loja em que trabalhava?

Isso. Na Color Center que mudou de nome para Quality Color, hoje Quality Fotografia, com o tempo fui recebendo as promoções de cargo. De auxiliar fui para revelador e mais tarde promovido para impressor. Como impressor eu aprendi muito com a fotografia olhando para os negativos revelados, já sabia quando estava sub-exposto, super-exposto e a correção que eu teria que dar para fazer a impressão daquela imagem. Com isso eu previa nas minhas fotos os erros que não poderia cometer. Como impressor eu ganhava bem, então investi em equipamento fotográfico. Comprei uma Canon EOS-5 e um flash Canon 540. Descobri o que eu queria fazer da vida, fotografar.

Geraldo Alckmin angariando votos em Piracicaba Rio das Pedras no famoso cafézinho. Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Quanto tempo trabalhou em minilab?

Trabalhei três anos na Color Center e então ela faliu. A Quality Color comprou a loja e fiquei por mais seis anos. Saí por um tempo, voltei quando abriram uma loja na rua Governador Pedro de Toledo e fiquei mais três anos. Saí e voltei novamente por mais um ano. Eu saía para comprar equipamento com o dinheiro da rescisão salarial. (risos)

Como entrou para o fotojornalismo?

Trabalhando na Quality Color conheci o Samir Baptista, que estava começando na fotografia também. Conversávamos bastante e um dia ele me disse sobre o Sindicato dos Jornalistas, em São Paulo e a opção de conseguir uma MTB (carteira nacional de jornalista é um documento de identidade, válido em todo o território nacional e só poderá obtê-la o profissional que tenha registro no Ministério do Trabalho) para trabalhar na imprensa. Até então eu nunca tinha feito um trabalho para jornal, mas eu acreditava que era fácil. Quando saí definitivamente do laboratório, comecei a frequentar o Buda Som, loja de fotografia do Henrique Spavieri e do Christiano Diehl. Fiz amizade com eles e nesta época conheci o Bolly Vieira e o Alessandro Maschio. O Spavieri começou a me chamar para fazer alguns trabalhos para ele e então me despertou a vontade de trabalhar em jornal. Movimentei-me para me sindicalizar e tirar a MTB, mas para isso eu precisava de um portfólio com fotos jornalísticas. Conversei com o Spavieri sobre as fotos e comecei a fazer alguns trabalhos para ele voltados para o fotojornalismo. Fiquei sabendo que dariam um curso para repórter fotográfico no Sindicato dos Jornalistas onde no final dariam a tão sonhada MTB. Avisei o Samir e fomos lá fazer. Não foi fácil, foram quatro finais de semana em São Paulo. Juntava a grana da semana que ganhava pelos serviços que eu fazia para o Spavieri,  Bolly e viajava.

Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Como era este curso que premiava com uma MTB?

A procura pelo documento era muito grande, pois sem ele você não conseguiria emprego em nenhum jornal. Daí abriu este curso, uma exceção para os fotógrafos que não tinham diploma. Foi uma porta para conquistar a MTB. Fiz o curso, não perdi uma aula e a prova final era fotografar em São Paulo como se fosse para um jornal. Detalhe, fotografar em cromo, não tinha chance era “foder” ou acertar. A pauta era: o que os paulistanos fazem para se divertir aos domingos. Formamos um grupo que não conhecia a cidade e nos disponibilizaram um instrutor. Ninguém gosta de ficar junto, fotógrafo é individualista para capturar a sua imagem. Levaram-nos ao bairro Bom Retiro e na Av. Paulista, tinha que entregar o material, às 15h30 e, às 14h30 estava na Paulista ainda. O instrutor nos tranquilizou e disse que daria tempo, mas as imagens tinham que ser entregues com legenda, explicar o que era a foto e as informações do local fotografado para um editor que estaria nos esperando. Com meia hora de antecedência chegamos ao sindicato. Organizei o material, mas sentia que eu não conseguiria passar. Eu estava muito inseguro na hora de fotografar, da chapa vinte até o final do rolo, coloquei a câmera no modo programa e “taquei o pau”, assim perdi o curso. Errei, tinha muita área de sombra e como eu disse o cromo não aceita erros. Fui conversar com o editor e ele me disse que até a chapa dezenove eu fui bem, as restantes não havia condições. Fui reprovado e o Samir aprovado. Toda a grana investida, boa parte a minha irmã que me ajudou, foi uma ducha de água fria em minha cabeça.

Voltei para a cidade, continuei com os meus trabalhos com foto social, com o Spavieri e comecei a fazer bastante trabalho para o Bolly. Direto eu perguntava a ele sobre uma possível vaga no Jornal de Piracicaba. Eu perguntava para todos os fotógrafos de lá. Diziam-me que era difícil entrar e o grupo de fotógrafos era bem fechado, mas um grupo do bem! Continuei os meus trabalhos, vários para o Spavieri, ele começou a me inserir no meio jornalístico. Nesse tempo voltei a ligar no Sindicato dos Jornalistas para saber se haveria mais curso para fotógrafo. Deu certo de ser a mesma pessoa de quando eu fiz e ele disse que me encaixaria em uma nova turma. Fui lá, mas desta vez foi diferente. O pessoal do sindicato sentiu a minha necessidade pelo documento e estavam menos frios comigo. Eu também estava mais preparado para o curso, antes da viagem fotografei muito cromo aqui em Piracicaba para me dar mais segurança. A pauta desta vez era moradores de rua. Passei tranquilo.

Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Quanto tempo foi entre os cursos, do primeiro para este último?

Foram três meses. Eu me encontrava com o Bolly na loja Spavieri na rua Boa Morte e avisava-o que logo estaria com a MTB, ele me dava a maior força. Quando liguei em São Paulo para saber do resultado me disseram que fui aprovado, até chorei de emoção. Não foi fácil para eu tirar a MTB.

Você trabalhou bastante com o Henrique Spavieri. Como é esta amizade?

A minha amizade com o Spavieri é de pai para filho. Ele me acolheu quando mais precisei, me ajudou muito. Também ajudei muito ele, foi uma troca justa de trabalhos. E hoje somos muito amigos.

Mateus Medeiros, Reniza e Henrique Spavieri. © 2006. Fábio Mendes.

Voltando a sua história, veio o Jornal de Piracicaba. Como foi a experiência em redação?

Foi difícil entrar para trabalhar ali. Fui amadurecendo a ideia de um dia poder trabalhar no JP. Os fotógrafos dali eram unidos, se respeitavam muito. Quando entrei pude perceber o que foi essa união. Assim que eu conquistei a MTB eu ficava enchendo o “saco” do Bolly para ele me contratar. Na época quem comandava o JP era o Lourenço Tayar. O Bolly conversava comigo, me dizia que precisavam de outro fotógrafo, para fazer as fotos do departamento comercial e era para eu ter paciência. Fiz amizade com os outros fotógrafos de lá e eles sentiram a minha vontade e sabiam que eu teria muito que aprender. Mas a minha esperança estava se esgotando. Já estava um ano e meio com a MTB e nada de JP. Eu já tinha a minha filha e precisava trabalhar, a grana dos freelancers não dava mais. De repente aconteceu uma mudança radical no JP. Muita gente saiu e dentre estes estava o fotógrafo Pauléo. Pouco tempo depois o Bolly me ligou, pediu para eu ficar na retaguarda, pois a vaga iria abrir. Passou uma semana e eu agoniado. Até que ele me ligou, pediu para nos encontrarmos na loja Spavieri e que iria me levar até o jornal. Também avisou que era para levar o meu portfólio e fui lá com ele, uma pasta gigante cheia de fotos. Deu tudo certo. Ele disse que eu faria as fotos comerciais do jornal no lugar do Marcelo Germano que tinha ido para a redação no lugar do Pauléo. Com o tempo e aos poucos o Bolly disse que eu entraria para a redação, assim não me “fritaria” se me jogasse ali dentro sem experiência, começaria pelas beiradas. Ótimo! Em nenhum momento questionei, fui para o comercial. O editor do JP nesta época era o Mário Evangelista. Isso foi em 2001.

Cresci muito no JP não só profissionalmente, mas também na ética. Aprendi a respeitar mais os espaços das pessoas com o Marcelo Germano, Alessandro Maschio, Bolly e Henrique Spavieri. O que me favoreceu ali dentro é que não estacionei. As oportunidades que apareciam ou que o Bolly me dava, eu abraçava. Fazia o trabalho e o Bolly gostava do resultado. O editor Mário Evangelista era uma pessoa muito exigente, todo mundo cresceu trabalhando com ele, o Bolly me falava que jornalisticamente o JP havia dado um salto.

Tomei muita “porrada” no aprendizado para trabalhar em uma redação, mas sempre tive o apoio dos amigos fotógrafos, principalmente do Bolly, nosso editor de fotografia, que segurava a bronca. Precisava chorar, era ali com ele, só que quando tinha que cobrar ele fazia isso bem. Trabalhava com muita gente, era editor de repórter, editor de caderno, editora chefe, tinha que trazer um produto bom da rua, muita gente iria avaliar o resultado. O Bolly me deu muita força, dizia que me daria uma pauta e que eu conseguiria resolver. Eu pegava a pauta e destrinchava. Hoje digo que os fotógrafos com quem trabalhei no JP são meus irmãos e só tenho a agradecer a empresa que foi sempre ótima para mim. Foram oito anos e dez meses e trabalhar no JP foi um sonho realizado.

Marcelo Germano, Bolly Vieira com seu filho Francisco, Mário Evangelista, Henrique Spavieri, Mateus Medeiros com o seu filho Lucca e Alessandro Maschio. © 2008. Fábio Mendes.

Uma história marcante com a fotografia?

Quando eu comecei a me despontar no JP, não ser melhor do que ninguém, pois ali você recebia o seu mérito, mas se começasse a se gabar já te abafavam faziam cair a sua “ficha”. Mas o que me marcou foi ter a possibilidade de fotografar o Papa Bento XVI, junto do ótimo repórter Ronaldo Vitória, fotografei o Cirque du Soleil, shows, festivais de inverno em Campos de Jordão e muito mais. O Bolly me passava estas pautas que eram de super responsabilidade e eu trazia um bom material. Outro momento marcante foi fotografar futebol, fiz fotos do meu time o Palmeiras aqui no Barão de Serra Negra. E claro, fotografar a pobreza, principalmente quando tem criança envolvida é sempre marcante. Inclusive tenho uma foto de uma criança toda suja raspando o garfo no chão e comendo. Era difícil não se envolver, mas eu estava ali para buscar uma foto e me concentrava nisto. Depois na redação é que você começa a relembrar e sentir os problemas retratados.

Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Papa Bento XVI. Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Projetos?

Eu gosto muito de expor meus trabalhos. A minha primeira individual foi Olhares a Beira Rio, a repórter Celiana Perina que escreveu o texto da exposição. Foi muito legal, recebi bastante apoio, inclusive do JP. Mas a primeira exposição foi coletiva com os fotógrafos do JP no Sindicato dos Bancários. A individual foi no Centro Cultural Martha Watts. A ideia desta exposição individual nasceu em Santa Maria da Serra. Tenho um sobrinho que mora ali e é pescador. Eu ia a passeio e comecei a fazer algumas fotos dele pescando e da comunidade ribeirinha. Andava com a máquina e fazia foto de tudo. Minha irmã reclamava dizendo que não me aguentava mais “tirando” fotos. (risos). Mostrei as fotos de Santa Maria da Serra para o Fábio Mendes, na época trabalhava no laboratório da loja Spavieri e me disse que merecia exposição. Com a ideia de expor encorpei o projeto e fui fotografar os pescadores no Rio Piracicaba. Comecei na rampa em frente ao antigo Clube Regatas e desci o rio. Assim nasceu a exposição. Piracicaba precisa de mais espaço para os fotógrafos expor, mas trabalhos sérios não florzinhas e bichinhos. Tem que ter uma história por trás. Eu comecei com o negativo, aprendi no dia-a-dia. Hoje está muito fácil fotografar com o digital. Depois fiz mais uma exposição coletiva com o Cláudio Coradine, Davi Negri, Marcelo Germano e Alessandro Maschio no Sesc Piracicaba sobre esporte, também foi muito legal. A última foi do Amandy, a melhor de todas. O fator maior desta exposição foi a possibilidade de reunir todos os repórteres fotográficos da cidade. Foi fantástico! A exposição foi sobre a enchente do Rio Piracicaba de 2010 e todas as mídias cobriram. Parece que a ideia foi do Antonio Trivelin, fotógrafo da Gazeta de Piracicaba. Ele mostrou suas fotos da enchente para o Sergio Furtuoso, da Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba), e juntos tiveram a ideia de reunir todos nós. As reuniões para a montagem da exposição aconteciam na Acipi e sempre era divertido. O legal era que todas as decisões foram coletivas e reunir o Jornal de Piracicaba, Gazeta de Piracicaba, A Tribuna Piracicabana e Câmara dos Vereadores em um mesmo evento foi show de bola.

Olhares a Beira Rio. Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Esportes. Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Amandy. Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

O que ainda não fotografou?

Um protesto “quente”, uma manifestação com polícia e aquela bagunça toda. Aqui em Piracicaba fotografei a retirada da população que invadiu as casas do bairro Gilda. A polícia avisou dias antes que retiraria os invasores e eu fiquei torcendo para que o Bolly me enviasse para lá, mas já estava certo que quem iria era o Alessandro Maschio. Só que o jornal achou melhor enviar dois fotógrafos. Fomos, eu e o Alessandro, às 5h para lá. Porém não houve resistência por parte dos moradores.

Desocupação Bairro Gilda. Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Desocupação Bairro Gilda. Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

Em uma conversa com o Bolly ele me disse que você é fotógrafo de guerra, concordei com ele. O que acha desta observação.

Pode até ser. O Bolly teve um papel fundamental em meu trabalho, não é “rasgar a seda” porque ele sabe as oportunidades que me deu. Ele me jogava nas pautas, sentia que eu podia resolver. Quando vou fazer uma foto, se tiver que deitar no chão, sujar a roupa eu não ligo. Não fico na torcida, vou lá e trago a foto. Agora fotografar uma guerra… Eu sinto vontade sim. Se um dia eu for, algo muito remoto de acontecer eu visto o capacete, o colete e vou para a guerra. Não tenho pudor para fotografar. Só penso na minha foto, o que as pessoas vão achar dela em termos morais eu nem ligo. Um dia fui fazer uma foto do local onde será construído o novo presídio na estrada que vai para Limeira, e conversando com moradores próximos disseram que ali é área de preservação e que a construção do presídio iria acabar com tudo ali. Fui até lá para fotografar essa história. Realmente o lugar é bonito, muitas árvores, um riachinho que forma um riozinho, tem até uma pequena cachoeira. Fiquei no barranco com um Sol bem de frente atrapalhando a foto. Estava eu, o repórter Araripe Castilho e mais duas pessoas da região que nos levaram até o local. A luz não me ajudava, olhei para esquerda, para a direita, pedi para o Araripe segurar a câmera e disse para ele ficar quieto. Tirei a minha camisa, a calça e fiquei só de cueca. Peguei a câmera e entrei no riozinho. Ele não acreditava que eu estava fazendo aquilo e começou a me filmar com o seu celular. (risos). Mas fiz a foto como eu queria, foi capa do dia seguinte. Não faço isso para aparecer, me encomendaram uma foto e tenho que fazer da melhor forma possível. Na redação virou uma “zoação”, eu gordão só de cueca no meio do rio, foi só risada.

Quais são suas referências na fotografia?

Sebastião Salgado, Jorge Araújo e aqui em Piracicaba é Bolly e Alessandro Maschio. O Alessandro me deu muita visão no trabalho. Estes jornalisticamente, no comercial o Marcelo Germano me ensinou muito também.

Defina a fotografia em sua vida.

Ainda busco a fotografia, não tenho “a” foto. A fotografia é a luz que guia o meu caminho.

Foto: Mateus Medeiros. © Todos os direitos reservados.

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Em breve!

Em pé da esq. p/ dir.: Nilo Belotto, Del Rodrigues, Ivan Moretti, Cláudio Coradine, Fábio Rodrigues, Marcelo Germano, Alessandro Maschio e Bolly Vieira. Sentados: Daniel Damasceno, Christiano Diehl, Henrique Spavieri, Fábio Mendes, Antonio Trivelin e Mateus Medeiros. © 2012. Foto: Sérgio Furtuoso.

Em pé da esq. p/ dir.: Nilo Belotto, Del Rodrigues, Ivan Moretti, Cláudio Coradine, Sérgio Furtuoso, Fábio Rodrigues, Marcelo Germano, Alessandro Maschio e Bolly Vieira. Sentados: Daniel Damasceno, Christiano Diehl, Henrique Spavieri, Fábio Mendes, Antonio Trivelin e Mateus Medeiros. © 2012. Foto: Garçom amigo.

Patota! © 2012. Foto: Garçom amigo.

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Nelson Campos

Olá, caros.

Hoje a prosa é com o fotógrafo Nelson Campos. Piracicabano, 56 anos de idade, casado com Augusta de Campos, tem dois filhos e atualmente conta com dois netos, um menino e uma menina. Este ano Campos completa 40 anos de profissão. Conheça um pouco das histórias desse fotógrafo que passou pela redação do Diário de Piracicaba, foi sócio de dois estúdios fotográfico com dois ótimos fotógrafos piracicabanos na década de 80 e um dos pioneiros na fotografia digital de Piracicaba. Hoje, especialista em fotografia publicitária e industrial. Campos é um fotógrafo atualizado, ganhou prêmio internacional com fotografia de natureza e também de manipulação fotográfica com o software Photoshop, mas está preocupado com os rumos da fotografia em sua área. Saiba o por que e conheça mais histórias desse personagem piracicabano que fez e continua a fazer recortes de nossa querida cidade.

Inté.

Nelson Campos. ©2011. Fábio Mendes

Como foi o inicio com a fotografia?

Eu comecei na fotografia como hobby. Tinha 16 ou 17 anos. Meu tio era fotógrafo no Mirante, era um lambe-lambe. Chamava-se Sebastião. Fazia umas fotinhas que revelava dentro da máquina caixão. Igual tem em Pirapora, ele fazia aqui no Mirante. Desde criança eu o via trabalhar. Mas na adolescência quem me deu as primeiras dicas foi o Paulo Kawai do Foto Fuji, com quem eu tinha muita amizade. Comprava equipamentos e químicos para revelação com ele. Eu tinha umas câmeras antigas, de filme 127, e comprava revelador e ampliador para revelar as minhas próprias fotos. Apaixonei-me.  A imagem, quando começa a aparecer no revelador, é uma mágica. Cativou-me. Envolvi a minha vida nisso. Descobri o meu caminho. É apaixonante. Eu comprava livros técnicos para me aperfeiçoar, mas percebi que sem uma escola eu não progrediria. Larguei os meus estudos aqui em Piracicaba e fui para São Paulo atrás de conhecimento. Fui trabalhar em uma importadora de equipamento fotográfico e entrei na escola de fotografia do Senac, que hoje transformou-se em faculdade. Isso foi em 1972. Fiz um ano de curso. Vi desde o princípio da fotografia, estúdio, externa, iluminação, revelação colorida… Foi um ano “puxado”. Valeu a pena. Voltei para Piracicaba por causa de uma fatalidade. Eu morava perto do edifício Joelma e quando pegou fogo fiz umas fotos e vim pra Piracicaba. Trouxe as imagens para o jornal Diário de Piracicaba que foram publicadas. Nesse momento convidaram-me para trabalhar no jornal. Fiquei tão traumatizado pelo incêndio que aceitei o convite.

Mulher sendo salva por homens do Corpo de Bombeiros em enchente na Rua do Porto – Piracicaba na década de 80. Foto: Nelson Campos.

Quando entrou para o Diário havia mais fotógrafos na redação?

Tinha o Henrique (Spavieri) que era o antigo “clicherista”. Como não havia mais essa função, pois o novo processo era em offset, ele começou a fotografar também. Trabalhamos juntos por seis meses até que ele foi chamado pra prefeitura e deixou o jornal. Fiquei sozinho. Fotografava os eventos sociais, acidentes de veículos na madrugada. Uma vez fui até de paletó e gravata fotografar um acidente, pois eu estava trabalhando em um evento de grande porte e no meio da festa fui chamado para a ocorrência. São coisas da vida. (risos).

Protesto de estudantes, na praça José Bonifácio, por melhor ensino. Foto: Nelson Campos.

Como era a rotina de trabalho no Diário de Piracicaba. Quem eram os editores e repórteres enquanto ficou por lá.

Entrei no começo do ano de 1973 e o hoje dono de A Tribuna Piracicabana, Evaldo Vicente, era o revisor. O Mário Terra era o colunista social. Cecílo Elias Neto, o proprietário. Tinha o Roberto Cera que fazia uma página chamada recados, que foi um dos idealizadores do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. O Cera fazia novelinhas, iguais vemos em quadrinhos, mas com fotografias. Contava histórias com as fotos. Era gostoso, foi a empresa que trabalhei com mais liberdade e prazer. Acredito que todos os fotógrafos e repórteres que passaram por lá tem a mesma opinião. Não havia ditadura nas editorias. Eu fiz uma matéria, não foi publicada, houve risco de morte. Eu com o falecido Ari Gomes, um excelente repórter, começamos a investigar sumiços de crianças na cidade de Piracicaba em 1981. Chegamos bem próximo da pessoa que sequestrava as crianças. Porém alguém foi falar com o editor, que era o Cecílio, que nos aconselhou a parar, pois algo de ruim poderia acontecer conosco. Foi um desestímulo, sabendo que a nossa vida corria risco de morte. Fazíamos a reportagem por conta própria, mas dessa vez o Cecílio nos obrigou a parar com a investigação.

O cantor Ney Matogrosso durante show em Piracicaba. Foto: Nelson Campos.

E após o Diário?

Eu tive duas fases no Diário. Trabalhei de 1973 até 1975. Depois montei um estúdio, quando o Diário mudou da rua Prudente de Moraes para a rua São José. Por coincidência o meu estúdio era bem em frente ao jornal, na rua São José. Fiquei com o estúdio por três anos quando o Diário me chamou novamente, em 1980. Fiquei até o final do ano de 1981. Jornal é ótimo, excelente, mas você trabalha 24 horas por dia. Você é um eterno jornalista. Quando pensa que está de folga acontece algo na sua frente e não tem como não fazer. A remuneração também é baixa. Por toda a dedicação do jornalista, a remuneração é baixa. Daí, parti para a fotografia publicitária. Abandonei o jornalismo. Se continuasse, trabalharia a vida inteira e não teria nada. Já tinha dois filhos e precisava de mais dinheiro para poder criar bem as crianças.

Teve uma foto que fez de um atropelamento. Como aconteceu?

Essa foto foi feita em 1980 ou 81, não me lembro a data precisa. Saí do Diário, na rua São José, para ir até a Unimep, na rua Boa Morte. Fui caminhando. No abrigo de ônibus, atrás da Igreja Catedral, eu vi que um senhor de idade ia atravessar a rua. Atravessou sem olhar se vinham carros. Vi um carro que não conseguiria parar. O instinto me levou a fazer uma sequência de fotos. Fotografei toda a cena, ele sendo atropelado, arremessado, caído no chão cheio de sangue, até as pessoas olharem de perto e chegar o resgate. Imediatamente voltei pro Diário e não fiz a matéria na Unimep. O atropelamento era um acontecimento mais importante. Na vida de um repórter-fotográfico isso acontece de quinhentos fotógrafos para um. Revelei as fotos, falei com o Mário Evangelista, que era repórter do jornal nessa época, e ele já foi buscar as informações na polícia para escrever a matéria. Pronta a matéria, fomos publicá-la quando o editor-chefe, Luiz Tomazi, que trabalhava na Folha de S. Paulo e veio para o Diário, viu as fotos e disse: “Não, isso não pode ser publicado”. Questionei e ele me disse que era muito chocante. Permitiu que saísse apenas uma fotografia com a notícia. Escolhemos a foto e publicamos. No outro dia publicamos outra foto e acompanhávamos o estado de saúde do atropelado, que estava muito mal. No terceiro dia publicamos outra e no quarto dia ele veio a falecer. Conseguimos publicar quatro fotos, mas uma em cada dia. Dessa forma, o editor disse que não chocaria as pessoas. Alguns dias depois, houve o atentado contra o papa, João Paulo 2º, que levou um tiro. O editor, que proibiu de publicar a sequencia fotográfica do atropelamento, me pediu para fotografar o atentado na televisão, que era o recurso que tínhamos na época. Esperei aparecer na TV e fiz as fotos. Revelei o filme e entreguei uma fotografia para o editor. Então ele me perguntou sobre as outras fotografias. Perguntei a ele, por que ele queria as outras fotografias? Ele me disse que queria todas as fotografias. Encerrei dizendo que ele iria publicar apenas uma, pois o atropelamento foi chocante, mas o tiro que deram no Papa foi muito mais chocante. Se ele morresse, no outro dia ele publicaria outra foto e, se não morresse, também publicaria. Igual o atropelamento. Daí houve uma grande discussão, nos desentendemos, mas não foi por isso que saí do Diário, a briga, e sim o desestímulo em ter um trabalho que jamais iria acontecer novamente, ter sido cortado. Pedi demissão e fui fazer fotografia publicitária, que é o que mais gosto de fazer. Mas no jornal tem histórias que faz a gente dar boas risadas. Chegava de uma matéria, revelava o filme, mas demorava a secar e não tinha tempo para esperar. Eu tinha uma técnica. Passava o filme no álcool, erguia-o com as mãos, botava fogo embaixo ele subia e quando chegava à outra ponta em cima, balançava, apagava e estava seco. Já ampliava a foto, o importante era a agilidade a rapidez e não a qualidade. Tomazi trouxe um fotógrafo da Folha, Toninho, um senhor de idade avançada, e ele me viu fazendo isso. Na Folha ele era simplesmente fotógrafo, não precisava revelar, lá tinha o laboratorista. Aqui não, ele tinha que revelar. Um dia ele chegou ao jornal depois de fotografar um jogo do XV de Piracicaba, era umas 22h ou 23h, e precisava revelar a foto para sair no dia seguinte. Passou álcool no filme só que o segurou esticado. Aquilo virou um torresmo. Perdeu todo o serviço. O jornal ficou sem foto do XV. (risos)

Retrato do rei Roberto Carlos. Foto: Nelson Campos.

E então você saiu novamente do jornal. Montou outro estúdio?

Sim. Montei o único estúdio na época que tinha gerador e cabeça de flash. O Christiano Diehl virou meu sócio. Ficamos dois anos e meio juntos. Fazíamos publicidade, embora tivéssemos e temos ainda um grande problema com jornais. Ficamos 25 anos sem ter uma agência publicitária em Piracicaba. O jornal vendia o espaço, dava a arte e a fotografia, fazia tudo. Como é que uma agência iria cobrar se o jornal dava de graça? Limeira tinha agência, Rio Claro, Americana, todos os lugares tinham. Já Piracicaba não havia condições de uma agência sobreviver. A publicidade aqui tinha espaço quando era folder, catálogo, mas era pouco serviço. Teve uma agência que ficou um bom tempo, mas pereceu por pouco serviço. No estúdio procurávamos fazer books, pôsteres e uma série de coisas para sobreviver, e esperava as fotos publicitárias que aos poucos foram chegando.

Cartão natalino. Foto: Nelson Campos.

Assim era o mercado na década de 80?

Para a fotografia industrial era excelente. Hoje pega um menino, vai numas dessas casas que vendem computador em trinta prestações, uma câmera de R$ 2 mil reais – a câmera e o flash são automáticos – no computador faz “alguma coisinha”, envia para o laboratório que corrige o que continua errado e faz a sua fotografia. Julga-se um fotógrafo, não que não seja, pois está exercendo a profissão, mas não tem o conhecimento necessário. Não sabe o que acontece quando aperta o botão, por que aquela luz, por que não. Eu comecei no digital em 1998. A primeira câmera que comprei, tenho a nota fiscal, em Nova Iorque, paguei 3.900 dólares. Tinha 1.75 megapixels. Foi a primeira câmera profissional que trocava objetiva. Eu estudei toda a transição do analógico para o digital. A partir de 2000 comecei a trabalhar com fotografia digital, desisti do analógico. Mas antes dessa mudança, ganhava-se muito dinheiro, o fotógrafo tinha que ser fotógrafo. Tinha que ter o seu laboratório, pois um não revelava para o outro fotógrafo. Tinha que saber o que fazia. Na publicidade usávamos cromo ou slides, como alguns chamam. Eram grandes, 6×6, 6×9 e não permite erro. Só o fotógrafo conseguia. Ninguém se atrevia a fazer. Nessa época fotógrafo ganhava muito dinheiro. Com as indústrias era só cromo que dava para fazer em impressão colorida na gráfica. Não havia outra opção.

Foi difícil se adaptar a outra tecnologia?

Não. Comecei a usar o Photoshop em 1997. Fiz cursos com profissionais americanos, como Dean Collins, um dos melhores fotógrafos do mundo, exclusivo da Hasselblad, Kodak e General Motors. Então fui estudando. Acompanhava e pesquisava bastante. Quando eu abri a minha lojinha para fazer foto documental, que a minha esposa “toca”, eu escrevi na parede, foto digital. Muita gente passava inclusive fotógrafos e riam de mim. Eles falavam: “Ah, é foto digital, vou aí e coloco o dedo?”. Ouvi muito isso (risos). Não tinham noção do que era, mesmo sendo fotógrafo. Eu estava adiantado, quando ainda pensavam em adquirir câmeras analógicas, já tinha vendido as minhas. O futuro era digital.

O fotógrafo posa ao lado da atriz Pepita Rodrigues. Arquivo pessoal.

Trabalhou com fotografia social?

Sim. Em 1983, quando eu saí do Diário, montamos um estúdio, o Henrique Spavieri e eu. Chamava Spavieri Studio e fazíamos muito social. Todo final de semana tinha casamento, aniversário de 15 anos e tal. Só que chega um momento, eu não vi os meus filhos crescerem, quando percebi já estavam grandes, queria os finais de semana para mim. Hoje, tenho um espaço em casa, onde recebo meus amigos, fotógrafos, gosto de receber pessoas e para isso não posso ficar pegando casamentos. Se o casamento é no sábado, tenho que ficar concentrado na sexta-feira, nada de comer comida diferente, bebidas, pois existe o risco de passar mal no dia seguinte. Uma concentração de 48 horas. Isso não dá mais para mim.

Um momento marcante na profissão.

Foi o atropelamento que já citei. A inauguração do autódromo de Jacarepaguá, em 1978, quando o Emerson Fittipaldi ficou em segundo lugar. A única vez que foi ao pódio ali. Alguns acidentes de carro, na época do jornal. As imagens ficam na mente. Algumas não são boas. Lembro da história do fotógrafo (Kevin Carter), que fez uma imagem de uma criança fraca com um corvo ao fundo esperando ela morrer. Logo depois ele se suicidou em função disso. São imagens que ficam e mexem com a gente. Tem pessoas que falam que acostuma. Mas não é bem assim, nos machuca.

Você ganhou um prêmio internacional. Qual foi o tema?

O tema foi natureza. Ganhei o prêmio em Washington sem imaginar essa possibilidade. Aqui em Piracicaba teve uma mostra que depois virou um concurso com o título “O Verde de Piracicaba”. Participei e não que tinha feito a melhor fotografia, mas jurei para mim que jamais participaria de qualquer concurso fotográfico no Brasil. O que aconteceu foi inexplicável. Um cara que não era fotógrafo pegou uma câmera e foi até o mercado. Ele fotografou um pé de alface com um preço absurdo, caro, extremamente caro. Ganhou o concurso. O verde de Piracicaba, um pé de alface, R$ 10 reais. Havia fotos maravilhosas. Nunca mais eu participaria de concurso. Aí recebi um e-mail com esse concurso nos EUA. Mandei uma foto completamente despretensiosa. A flor de uma árvore que tem muito por aqui, principalmente na Rua do Porto, onde eu fotografei. Essa flor nasce em cima da árvore. Só que nos EUA não existe essa árvore. Ficaram curiosos. Começaram a enviar várias perguntas e fui respondendo. Tive que buscar informações na Esalq para o que eu não sabia, como o nome científico da árvore e fui abastecendo as dúvidas deles. Acredito que o prêmio não tenha sido pela qualidade visual e sim pela raridade da flor. Fiz a imagem com uma tele de 500 mm. Só que infelizmente não recebi o prêmio, que era 5.000 dólares. Para eu ir pra lá, ficava em 7.000 dólares, pois tinha que ficar uma semana em um hotel e participar de convenções. Eu tenho um filho, que na época morava em Chicago, fica perto de Washington, e ele se prontificou em buscar para mim. Mas a organização não autorizou, pois tinha que fazer matérias e entrevistas comigo. Disseram que o “pessoal” da National Geographic gostariam de me conhecer. Então deixei pra lá. Não compensava.

Foto premiada em concurso internacional. Foto: Nelson Campos.

Pra você, que é um visionário, qual o próximo passo da fotografia?

Estou estudando e não sei se a minha cabeça acompanha, mas o próximo passo é o 3D. Eliminará 80% da fotografia. Por exemplo, se alguém pede uma fotografia de um carro, a fábrica tem o desenho dele em 3D. Com isso em mãos é só jogar em um software específico, colorir o carro e ambientar. Qualquer objeto que você tenha o desenho em 3D, dá para por textura, cor e tudo mais. Depois de pronta acha que é uma fotografia do objeto, mas é tudo virtual. Esse é a próxima etapa da fotografia digital. Os grandes estúdios já trabalham assim, mas acho que eu não vou conseguir. É muita informação. Eu participo do Photoshop Conference, o maior evento de Photoshop da América Latina. Vou lá e fico nas primeiras duas horas do dia, pois começa às 9h e vai até as 19h, param só uma hora pro almoço, e consigo assimilar. Depois não dá mais. São “baldes” de informações. Photoshop é um instrumento ilimitado. Eu duvido que alguém acompanhe todo o evento e consiga assimilar tudo. Você vê o Alexandre Keese, um dos maiores operadores de Photoshop, falando duas horas, é impressionante o que ele conhece. Faz assim, faz assim, faz assim, pronto, está feito! Coisas que demoro 40 minutos para fazer, ele faz em dois minutos. Vou aprimorando, mas chego a um ponto que a minha cabeça não assimila.

Algum projeto?

Estou com um projeto de fotografar a Patagônia. Tive convites para ir a Machu Picchu, tenho um convite para fotografar todo o interior do Brasil. Mas são muitos dias fora. Não tenho condição financeira de ficar sem trabalhar por 20 dias. No convite não pago nada, mas não posso me ausentar por tanto tempo. Eu quero ir para a Patagônia. Fui convidado por duas vezes. Estou me preparando, logo vou. Eu vendo muitas fotografias que faço em hora de lazer, principalmente para decoração. Painéis de três, quatro, cinco metros. Nos finais de semana levanto bem cedo, pego a minha câmera, chamo minha esposa e vamos entrando pro meio do mato. Uma vez peguei uma estrada de terra em Charqueada-SP e fui sair no Anhembi-SP. Nesse passeio vendi quatro fotografias. Das cachoeiras de Brotas-SP tenho bastante foto. Hoje não desço mais nas cachoeiras. Descer até desço, mas subir não dá mais (risos).

Quais são as suas referências na fotografia?

Na publicidade tenho como espelho, que infelizmente já faleceu, Dean Collins. Fiz um curso com ele, foi maravilhoso. Aprendi muito. Guardo os livros e apostilas até hoje. O curso chamava Sobre a anatomia de um estúdio, muito bom. Tem um fotógrafo de Piracicaba, que é muito bom, mas pula muito de ramo, que é o Tadeu Fessel. Admiro o Christiano Diehl. Agora, ímpar se chama Pauléo. Embora tenha começado a fotografar bem depois de mim, entrou no jornal como entregador. Você pode chamar 30 fotógrafos e pedir para fazer uma foto específica. Os 30 fazem. Se for o Pauléo ele tira uma fotografia e diz: “Está aí a foto” e resolve. Gosto muito dele. Gosto e admiro. Ele não fez curso e nada, mas tem uma visão diferente.

Trabalho publicitário. Fotos: Nelson Campos.

O que a fotografia representa em sua vida?

Representou o meu sustento e de toda a minha família. Tudo o que conquistei em minha vida foi por conta da fotografia. Não tive outro emprego. Mas a fotografia representa para mim a perpetuação de uma imagem. Agora virou moda pegar uma fotografia antiga de Piracicaba e decorar ambientes. Mas se não tivesse esse registro, não saberíamos como foi o passado. A fotografia é história. Tem que preservar a imagem, mesmo que esteja fora de foco ou tremida, preserve. Não tem outra definição, fotografia é a história. Antes, por conta da fotografia que era cara, temos poucas imagens do passado. Agora com o digital não temos mais nenhuma. Todo mundo tem uma câmera digital. Tiram 500 fotografias. Mas ele não sabe que ali na câmera ele tem um cartão de memória 1, 2 ou 3 gigabytes e quer tirar 2.000 fotografias nesse espaço. Para isso reduzem a resolução, fotografa, “põe” no computador e acha linda. Vá imprimir. Não existe condição! Isso quando não apagam a foto por falta de espaço no computador. A fotografia digital, enquanto virtual, para se perder é a coisa mais fácil do mundo. Pega um CD, riscou, não lê mais e perde tudo. Eu acredito que vamos ficar uns 15 anos sem história. Eu sei de profissionais que guardam arquivos e outros que depois de dois anos jogam as imagens fora. Gravar em um DVD e deixá-lo quieto de cinco até sete anos ele suporta. Depois desse tempo, faça outra cópia para não perder as fotos. Esse pessoal amador que tira um monte de fotos e guardam em HD, entra um vírus tem que formatar e tchau tudo. Vai ter muita família que não vai ter foto do filho crescendo. Tirou 500 fotos? Escolhe 30 e revele. O papel dura 100 anos.

Site do Nelson Campos aqui.


Edição do texto: Rodrigo Alves

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Exposição fotográfica “amandy”

Olá, caros.

Imperdível a exposição, amandy, aberta ao público dia 16 de março. Acontece lá no Engenho Central, Armazém 14A. Horário de visita, das 9h às 17h. São fotos históricas e recentes das grandes enchentes acometidas pelo nosso Rio Piracicaba, captadas pelas lentes dos grandes fotojornalistas de nossa cidade. Enchentes que invadem casas, desabrigam pessoas mas que não ferem a imagem do nosso querido rio. Abaixo seguem: o cartaz de divulgação, a foto com os “culpados” destes registros e um divertido vídeo, feito pelo celular, que foi elaborado pelo fotógrafo Alessandro Maschio.

Confiram!

 

Cartaz de divulgação.
Da esq. pra dir. em pé: Alessandro Maschio, Cláudio Coradini, Henrique Spavieri, Mateus Medeiros, Davi Negri e Marcelo Germano. Agachados: Christiano Diehl, Pauléo, Antonio Trivelin, Daniel Damasceno e Bolly Vieira. Foto: Dani Ricci

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Pauléo

Pauléo

Olá!

Conhece o Pauléo? Claro que conhece. Está quase que diariamente nas páginas do Jornal de Piracicaba. Não ele, mas sim o seu trabalho, o seu olhar, as suas fotos.  Talvez, também, caso more em Piracicaba, já viu um homem magro, alto e de barba, com uma câmera fotográfica em punho em algum canto da cidade. Foi assim que vi o Pauléo pela primeira vez, lá na escola Dr. Prudente, no bairro dos Alemães.  Eu devia estar na 4ª ou 5ª série quando todos os alunos foram chamados para ir ao pátio, festejar alguma data cívica. Durante as comemorações, me chama a atenção aquele “cara” alto andando de um lado para o outro com uma câmera na mão. Como um insight, viajo no tempo – para o futuro – e me vejo trabalhando com o Pauléo em formaturas ou ajudando o nosso “paizão” Henrique Spavieri em eventos pela cidade. Pena que não tive a oportunidade de trabalhar junto com esse excelente fotojornalista na redação do Jornal de Piracicaba. Minha passagem por lá foi breve e ao mesmo tempo em que o Pauléo fazia parte da equipe de fotógrafos do jornal O Liberal, da cidade de Americana.  Considero o Pauléo um ícone da fotografia piracicabana. Todo esse talento e história que esse fotógrafo traz em sua bagagem, Pauléo mantém uma postura simples em relação ao seu trabalho e ao mundo, difícil de encontrar numa sociedade tão sedenta por sucesso e fama em apenas 5 minutos de trabalho. Trago para vocês uma pequena parte de uma grande obra. Pauléo é Paulo Alcides Tibério, nascido em 13/04/1956. Piracicabano.

Como foi o início com a fotografia?

Comecei no Jornal de Piracicaba, fui registrado em 1972. Eu era reserva de entregador de jornal. Quando faltava alguém do setor eu cobria. Depois fui intercalador e auxiliar de distribuição na oficina. Após cinco anos, comecei a trabalhar no laboratório de fotografia convidado pelo Henrique Spavieri. Ensinou-me a revelar fotos e filmes e a fotografar. Ele não tinha muito tempo para ensinar, pois era o único fotógrafo do jornal na época e havia muito serviço. Assim que o Spavieri chegava da rua eu perguntava a ele qual a função dos botões da câmera e do flash. Explicava-me que um era para abertura, o outro para a velocidade, e assim fui aprendendo.

Comecei a fotografar em um sábado. O Spavieri foi visitar a mãe, que morava em Porto Feliz. Eu estava sozinho no jornal, revelando as fotos dele. Daí aconteceu um acidente em uma rodovia e o Geraldo Nunes, “grande” Geraldo, que era o editor da redação na época, foi procurar o Spavieri no laboratório e não o encontrou, pois já havia terminado o expediente dele. Vendo a situação me dispus a tentar fazer a foto e ele me disse: “Pega o carro e faz. Vamos ver no que vai dar.” Coloquei um filme na câmera, peguei o carro e fiz as fotos. Ficou tudo beleza, certinho e saiu na capa do jornal, só que naquele tempo não saía crédito nas fotos. Na segunda-feira o Spavieri chegou no jornal e perguntou quem tinha feito a foto. Eu disse que tinha sido eu e então ele mandou o jornal comprar mais uma máquina e um flash, pois começaria a ajudá-lo a fotografar.  Foi assim que comecei, já estávamos no final de 1979 ou começo de 1980, não me lembro bem. Eu fazia as fotos mais simples, que era fotografar buracos, reclamação de mato alto, mendigos dormindo, às vezes eles ficavam bravos e saiam correndo atrás de mim.

Protesto do Movmento dos Sem Teto. © Pauléo.

Você não teve nenhum contato com a fotografia antes do jornal?

Sempre gostei de fotografia. Tinha uma maquininha “xereta” com filme de 110 mm. Na escola, quando eu estava no meu 2° ano do ginásio, todas as festas eu fotografava. Sempre gostei de fotografia, quando apareceu essa chance, agarrei o máximo que pude. Era o que eu queria para mim.

Como era o processo da impressão das fotos do jornal na época em que começou a fotografar?

Naquele tempo fazia clichê. Hoje não tem mais nem fotolito, vai tudo direto para a chapa. Naquele tempo não. Fazia o fotolito e depois o clichê, que era uma folha de zinco e a foto vinha gravado nela. Depois ia para a impressão. Eram pontos grandes, não como hoje que é tudo ponto fino. Tinha que olhar a foto de longe para ficar bonito, olhava de perto e só via pontos.

Além da tecnologia, quais as diferenças do fotojornalismo de hoje em comparação com a década de 80?

Hoje é brincadeira. Naquele tempo você colocava um filme na máquina, não podia ficar gastando, tinha que economizar. Custava caro o filme preto e branco. Então, com esse filme, eu tinha que fazer cinco ou seis pautas. Chegava ao local da matéria e não ficava “tacando” o dedo na máquina e queimando foto. Eu olhava, via bem o que ia fazer. Tinha que entregar quatro ou cinco fotos de uma matéria, bem feita. Hoje produz duzentas fotos de uma matéria para escolher duas. Também ficou muito mais fácil, pois vê o que está produzindo. Antes tinha que contar com a sorte, pois se alguém fechasse o olho tinha perdido a foto.

Após fotografar os jogos do XV de Piracicaba à noite, você deixava os filmes revelando e ia jantar. Tinha que “puxar” os filmes. Não existiam filmes de 1600 ASA como tem hoje. Trabalhávamos com filme 400 ASA e puxávamos para 1600 ASA. Depois de um tempo apareceu um revelador novo, HC-110, esse era “violento”. Dois minutos revelava um filme puxado. Se passasse do tempo “estourava”, só que os pontos ficavam enormes. Ampliavam as fotos e apareciam os pontões, a foto ficava bem puxada. Mas saía. Quando terminava o jogo tarde, e a foto tinha que sair no jornal do dia seguinte, eu secava o filme na calça, bem na altura do joelho.

Defesa de Zetti. © Pauléo.

Conte sobre o seu trabalho como técnico de laboratório. Quando foi o início?

Eu trabalho na faculdade Unisal de Americana, faço a parte de estúdio e revelação em preto e branco. Dou assistência aos alunos que fazem foto publicitária e a revelar pxb. Comecei a convite do coordenador do curso, Paulo Tomazello. O funcionário anterior saiu e fui convidado para preencher a vaga. Já faz cinco anos que estou lá.

Dentro de tantos assuntos do fotojornalismo, o que você prefere fotografar?

No fotojornalismo tem que gostar de tudo, entendeu? Mas prefiro fotografar gente, movimentos sociais, como ocupação dos Sem Terra. Gosto dos excluídos, de quem sofre.

MST. © Pauléo.

Monalisa. © Pauléo.

Já fotografou alguma ocupação do Movimento dos Sem Terra?

Já fiz várias fotos de ocupação. Acompanhei um grupo que foi ocupar uma área até serem assentados. Foi em Americana, numa área que era só plantação de cana de açúcar. Esse terreno era do INCRA e conseguiram o direito da terra. Hoje eles plantam e colhem, está uma coisa bonita de se ver.

Fotografou algum conflito de fazendeiros com o MST?

Com fazendeiros não, mas com a polícia sim. Teve uma reintegração de posse e houve o conflito. Eu estava lá, fotografando.

E a foto do Chico Mendes, como foi?

O Chico Mendes veio até o CENA, fazer uma palestra, em uma semana de meio ambiente. Ele contou sobre as plantações de seringueiras que ele tinha no Acre e o problema com os fazendeiros que queriam acabar com essa plantação. Queriam acabar com o único meio de sobrevivência dele. E eu tive a oportunidade de fotografá-lo e foi à última foto dele, pois quando ele voltou para o Acre, foi assassinado. Ele sabia que iria morrer. A fotografia que fiz do Chico tinha um policial militar fazendo a segurança dele. Ele olha para o policial de ‘rabo do olho’, com desconfiança. Até da polícia ele desconfiava. Lembro-me que ele falou que sabia que não viveria por muito tempo, pois sofria muitas ameaças de morte. Não iriam segurar a barra dele.

Chico Mendes. © Pauléo.

Uma história marcante como fotógrafo?

Foi uma invasão de uma área verde, aqui em Piracicaba, e que hoje é um bairro. Não me lembro o nome do lugar, fica perto do bairro do Tatuapé. Foi uma invasão grande, um monte de gente construindo barracos e cheguei com a repórter, Cristiane Sanches, ela era novinha, estava começando. Comecei a fotografar e veio uma senhora com um nenezinho no colo todo sujo, o rostinho, a roupa, devia ter duas semanas de vida, bem novinho. E aquela senhora chegou até mim e disse: “Moço, a mãe dessa criança perguntou se você quer ficar com ela, pois não tem condição de criar e o nenê vai morrer”. Isso marcou muito, tanto para mim quanto para a Cristiane Sanches. A gente chorou, com a cena.

O pequeno músico e o seu cãozinho. © Pauléo.

Quais são suas referências na fotografia?

Eu aprendi com o Spavieri, gosto muito dele. Gosto do Sebastião Salgado, Pedro Martinelli e Jorge Araújo da Folha de S. Paulo.

 

Algum projeto?

Gostaria de fazer um livro de fotografia. Já está tudo separado, só falta o patrocínio.

Algum tema específico?

Chamará ‘Cenas do Cotidiano’, são meus trabalhos como fotojornalista.

Tiro. © Pauléo.

O que não fotografou?

O Papa. Gostaria de fotografar o Papa e não fotografei. Já fiz fotos de presidente, jogadores e políticos famosos. Mas o Papa ainda não.

Coletiva do presidente Lula. © Pauléo.

Você ficou quanto tempo trabalhando fora de Piracicaba. Como foi ficar longe da sua cidade?

Eu saí em 2000 para trabalhar no jornal ‘O Liberal’, de Americana. Fiquei nove anos lá. O Dr. Marcelo (Batuíra) me chamou e retornei, porque aqui é minha casa, adoro esse jornal.

Céu de Americana. © Pauléo.

O que a fotografia representa para a sua vida?

Fotografia pra mim é tudo. Não viveria sem uma máquina fotográfica. Poder parar o tempo num click é tudo, essa foto vai ficar para sempre. Parar o tempo num olhar.

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