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Essio Pallone Filho

Essio Pallone Filho. © 2012. Fábio Mendes.

Essio Pallone Filho. © 2012. Fábio Mendes.

Há quem diga que a vida começa aos 40 anos. Esta idade para muitos é um marco, pois acreditam que percorreram e chegaram à metade do caminho. Deste ponto em diante é aproveitar ao máximo a vida e ir à busca de sonhos, sejam eles pessoais e/ou profissionais. Filosofia à parte, conhecer a história do fotógrafo Essio Pallone Filho nos faz refletir sobre quando e como começar a conquistar estes objetivos de vida. Pai de três filhas, Fabiana, Renata e Fernanda, Essio resolveu aos 44 anos preencher sua alma. Tornou-se fotógrafo. O caminho não foi e nem continua fácil, mas em 22 anos de profissão, o fotógrafo tem em seu acervo aproximadamente cem mil imagens dos mais variados assuntos. É um assíduo frequentador de mostras e concursos, o que o transforma num vencedor de prêmios e honrarias. Amante de bons casos – contou vários durante a entrevista – agora sua trajetória com a fotografia é que se transforma em uma boa história.

Quando iniciou na fotografia?

Em 1977 eu trabalhava no Banco do Commércio e Indústria de São Paulo S.A. (Comind) e surgiu uma vaga para trabalhar em Piracicaba. No dia 1º de abril de 1977 cheguei à cidade como bancário. Mas antes de começar a fotografar trabalhei também com selos. Existia um nicho no mercado, em que eu montava cartelas com selos para distribuir em banca de revistas. Só que o trabalho não me agradava e então resolvi trabalhar com filmagem e fotografia em 1991. Peguei meu material filatélico, vendi boa parte, mas sobraram alguns que guardo até hoje. Com o dinheiro comprei filmadora e máquina fotográfica e resolvi fazer um curso de fotografia em São Carlos, na Oficina Cultural, um órgão do governo que existe em algumas cidades. O curso foi ministrado por um professor da USP chamado Chico Vecchia e nos tornamos amigos, foi ele que me iniciou na fotografia. Com o vídeo fui autodidata, transferi todo conhecimento da fotografia para esta linguagem.

Como surgiu a sua vontade em fotografar?

Não saberia dizer para você. Em 1975 eu comecei a trabalhar no Comind lá na região de São Carlos e um dia viajei à São Paulo a trabalho e fui a famosa r. 25 de Março, na Galeria Pagé e comprei uma máquina fotográfica.  A marca era Petri, uma câmera de segunda linha, japonesa. Comecei a fotografar minha família, viagens e passeios. Fiquei com está máquina até 1991 quando comprei uma Minolta SRT com o fotógrafo Jorge. Ele tinha uma casa de fotografia na r. Benjamin Constant. Porém a recomendação do Chico era uma Canon FTB. Fui a São Paulo para comprá-la mas o preço elevado me impediu de adquiri-la. Mostrei a Minolta para o Chico e ele me disse que era a “máquina” da Minolta e fiz uma bela compra. A filmadora era uma Panasonic VHS.

E como foi a troca da profissão, bancário por fotógrafo?

Me inseri no mercado. Comecei a fotografar casamentos, aniversários, eventos e por aí foi. Mas a “coisa” estava difícil de engrenar e num determinado momento, em 1994, conheci uma professora do Colégio Luiz de Queiroz (CLQ), Wilma Gorgulho e nos tornamos grandes amigos. Ela me pediu para editar um vídeo de uma visita que o CLQ fez na Indústria Dedini.  Editei e comecei a trabalhar com o colégio. Foram oito anos fotografando e filmando para o CLQ.

Cemitério Nossa Senhora do Carmo. © Essio Pallone Filho

Cemitério Nossa Senhora do Carmo. © Essio Pallone Filho

Por que escolheu Piracicaba, já conhecia a cidade?

Vim à Piracicaba por causa do Banco, estava apreensivo em morar numa cidade nova. Outros costumes, nova sociedade, acreditava que encontraria dificuldades nos relacionamentos sociais. Tiveram duas pessoas muito legais que trabalhavam comigo no Comind, a Rose e o Mario Sbrissa – já falecido – que me receberam muito bem. Me convidavam para passear e fizeram me sentir à vontade por aqui. No banco eu tinha vários contatos com empresários, pois minha função era trabalhar com as empresas, então minha inserção com novas amizades foi tranquila.

Vinte um anos de fotografia, compartilhe algumas histórias.

Vinte um anos, sou jovem na fotografia, acabei de fazer a minha maioridade na profissão.  Quando comecei em 1991, na Oficina Cultural fizemos uma carga horária oficial de 210 horas, o que é bastante.  O tempo foi estendido porque o governo do Estado proporcionou papel, químico e filme. Então o Chico com boa vontade e nós alunos querendo aprender, realizamos perto de 500 horas de atividades. Isso foi um grande passo, pois preparávamos o químico, fotografava, revelávamos e por fim fazíamos as cópias no ampliador. Todo este processo me fez gostar da fotografia. Em Piracicaba montei um laboratório em meu apartamento no banheiro da empregada – que nunca apareceu para trabalhar.  Toda essa manipulação da fotografia analógica me fez gostar do preto e branco. Tenho uma foto premiada em segundo lugar pela cidade de Santa Maria da Serra, de um balão em preto e branco. Mais colorido que balões é difícil de encontrar. Mas o “lance” do prêmio foi o diferencial em utilizar o pxb para registrar o balão. Fotografo colorido, mas o meu foco é o preto e branco. Hoje capturo as imagens no digital e depois as manipulo no Photoshop transformando em pxb, sempre com a característica de fotografia autoral.

Balão no chão. © Essio Pallone Filho

Balão no chão. © Essio Pallone Filho

A primeira saída fotográfica individual que fiz, foi no bairro do Monte Alegre com uma série de fotos da igreja. O dia estava lindo, com nuvens e céu bonito num fim de tarde. Posicionei-me em alguns pontos com a câmera no tripé e fiz várias fotos da construção, realizei um estudo de arquitetura da igreja. Posteriormente estas fotos me levaram a registrar um grande acervo que possuo, cerca de 60 fazendas fotografadas no Estado de São Paulo.  Em 1993 aconteceu no Teatro Municipal Dr. Losso Netto, a primeira Mostra Fotográfica de Piracicaba. Pelo que sei foi a primeira e a última. Na mostra cada fotógrafo poderia enviar cinco fotos. Lembro-me que o primeiro colocado foi o Christiano Diehl, o segundo ficou com o Beto Brusantin e não me lembro do terceiro colocado. Enviei cinco fotos e três foram selecionadas. Fiquei contente, pois estava começando nunca havia participado de nada, não sabia qual era a característica de uma Mostra ou de um Salão. A partir desta mostra transformei a minha personalidade e mudei a minha relação com a fotografia e a cidade. Vale uma ressalva aqui: Piracicaba é uma cidade especial, tem uma conformação geográfica e uma beleza fotogênica rara dentro do Estado de São Paulo.  Mas como as pessoas vivem na cidade não notam essa beleza. Tem morador que passa pelo rio diariamente e não sabe se ele está cheio ou vazio, pois o rio é apenas um componente do seu trajeto. Quem fotografa vê estas coisas, se descer todo dia ao rio fará uma foto diferente.

Capela de São Pedro de Monte Alegre. © Essio Pallone Filho

Capela de São Pedro de Monte Alegre. © Essio Pallone Filho

Aqui em Piracicaba eu tinha mais ligação com os artistas plásticos, a Marilu (Trevisan), Luisa Libardi, (Antonio) Natal (Gonçalves), este pessoal bem conhecido da cidade. O contato com eles influenciou na minha fotografia. A visão do fotógrafo é uma, se ele trabalha com still, fotojornalismo, casamento ou qualquer especialidade ele terá um foco. Eu não tinha intenções, pela minha característica, de me especializar em apenas um produto, transito pela área da fotografia. Se ela é documental, autoral, se tenho que fotografar objetos e documentos, como fiz para um museu, um trabalho meramente burocrático. Mas tem que entender de iluminação para fotografar os documentos, do contrário se transforma em um desastre burocrático.

Você é um fotógrafo premiado, em 1997 conquistou o Mapa Cultural Paulista. Foram várias participações em concursos e mostras?

Depois da participação da mostra em 1993, comecei a enviar minhas fotos para salões de arte. Tenho mais de cem participações entre exposições coletivas, exposições individuais, concursos e mostras. O ano de 1997 foi um marco para mim. Havia o Mapa Cultural Paulista e conheci a Neide Maria Silva, que trabalhava no Teatro Municipal Dr. Losso Netto. Ela me disse: ‘Por que você não participa do Mapa com fotografia e vídeo?’.  Pedi então para me explicar o que era o Mapa. Já havia fotografado formas em árvores para uma exposição no Sesc chamada Clique o Sesc em São Carlos. A proposta era fotografar a unidade do Sesc São Carlos, e lá havia uma árvore – não existe mais – que tinha a forma de um dorso de mulher. O título da foto é Paixão Nacional, contrapondo com um comercial que dizia ser a paixão nacional a cerveja, o que eu acredito que para os homens seja o dorso de mulher e para as mulheres o dorso do homem. Utilizando a mesma ideia reuni cinco imagens e as enviei para o Mapa Cultural representando a cidade de São Carlos com foto e vídeo. O vídeo não passou para a segunda fase regional em Campinas, mas as fotos passaram. A final foi em São Paulo e um dos julgadores do concurso, me pediu para comparecer no dia do evento. Fui e a categoria fotografia foi a penúltima a ser apresentada. Quando anunciaram o terceiro e segundo colocados e meu nome não foi chamado pensei, minha presença era só para fazer pompa. Daí anunciou o primeiro colocado, Essio. A foto vencedora chamei de Pajé. Era a forma de uma máscara que visualizei no toco de uma árvore. A partir deste prêmio e desta série de cinco imagens, passei a fazer uma grande captação desta temática, olhar para uma casca de árvore e encontrar formas. Isto pode parecer fácil, mas tem que ver muitas árvores para encontrar uma imagem. Depois de capturar várias imagens realizei uma exposição que circulou na região de São Carlos com o nome de Esculturas Naturais. Tenho aproximadamente 150 imagens deste tema.

Paixão Nacional. © Essio Pallone Filho

Paixão Nacional. © Essio Pallone Filho

Mas a participação do Mapa não foi por Piracicaba?

Tudo o que fiz de 1991 a 2007 sempre foi por Piracicaba. Todas as participações em São Carlos ou em outras cidades neste período atuei como cidadão piracicabano. Entre os anos de 1998 e 1999 foram realizados eventos de balonismo em Piracicaba e o meu tesão era voar de balão. Quando eu tinha meus 18 e 19 anos fiz curso para ser piloto de avião. Só que infelizmente dois amigos morreram em um acidente aéreo e o meu pai que bancava o curso me disse, avião nunca mais. Mas gosto de voar. Tentei entrar para um grupo de balonismo em Piracicaba, só que os grupos são muito fechados.  Em São Carlos voei três vezes. Tenho uma parceria com a prefeitura em que eles me põem no balão e em troca cedo algumas fotos da cidade para eles. Possuo uma foto de balão, do piloto Feodor (Nenov) aqui de Piracicaba, que representou a Confederação Brasileira de Fotografia, num concurso em Andorra. A foto não foi premiada, mas selecionada junto com mais dez fotografias brasileiras. Estes concursos e mostras me estimulam a aprofundar no conhecimento da fotografia. Mês passado enviei fotos com meu amigo César Trimer para um concurso em Jaú chamado 2° Concurso de Fotografia Fateclique. A foto de César conquistou a segunda colocação e a minha, de uma gatinha fotografada no Engenho Central, conquistou menção honrosa.

Gatinha. © Essio Pallone Filho

Gatinha. © Essio Pallone Filho

Faço um paralelo entre os movimentos culturais de São Carlos e de Piracicaba. E como é ser fotógrafo em São Carlos?

Eu diria que no Estado de São Paulo neste eixo que a gente se encontra, pelas rodovias Bandeirantes, Anhanguera, Washington Luiz, até Ribeirão Preto faz parte de um grupo de cidades economicamente fortes. Boas estradas, ótima infraestrutura e no ramo da fotografia, muito parecidas. O forte são eventos, para ganhar dinheiro. A maioria dos fotógrafos estão neste segmento, depois vêm às formaturas, batizados, aniversários, confraternizações e por aí vai. Se você quiser ser um fotógrafo de still ou autoral é difícil. Em relação aos movimentos fotográficos, São Carlos teve dois fotoclubes fortes. Primeiro foi o Foto Cine Clube Sancarlense, que no ano passado resgatei sua história e realizei uma exposição no Sesc de São Carlos, com o apoio do Chico Galvão, que já foi programador cultural do Sesc Piracicaba. Em 1957 o Foto Cine Clube Sancarlense deixou de existir e então surgiu o Íris Foto Grupo. O Íris tinha um fotógrafo em especial chamado Paulo Pires que encabeçava o grupo. Todos os fotoclubes tem que ter alguém que encabece não para mandar, mas para tomar decisões, falar, conquistar espaços, promover concursos e entender mais de fotografia que os outros membros para dividir este conhecimento. O grupo fez um ótimo trabalho e teve grande influência em São Carlos. Todas as pessoas que gostavam de fotografia passavam pelo crivo do Pires para serem aceitas no grupo. Foi um grupo fechado e pequeno. Realizaram e participaram de concursos, vencendo alguns. O Pires ganhou inúmeros prêmios, até o Kikito conquistou, mas aí teve problemas de saúde e o Íris deixou de existir. Hoje em São Carlos temos um grupo de nove amigos fotógrafos chamado Fotosseio, que é uma brincadeira com as palavras “passeio fotográfico”. Estamos juntos desde 2005 com o único objetivo de fotografar e trocar informações. Há integrantes no grupo que estão passando do filme para o digital. Para algumas pessoas esta transposição foi relativamente fácil, mas para a grande maioria é difícil, principalmente para aquele que quer a fotografia esmerada. Primeiro você tem que descobrir os recursos da máquina digital, que são vários; você vai medir luz sem um fotômetro, pois o fotógrafo de filme usa um fotômetro manual. Ele ia até o assunto e marcava privilegiando as altas luzes ou as baixas luzes, ou uma média das luzes e fazia duas ou três fotos. Já a maioria dos fotógrafos que trabalham com digital fazem quinze fotos do mesmo assunto e depois escolhe a melhor. Eu não sei como isso vai fazer as pessoas aprender a fotografar. A única coisa é que vai fazer um monte de foto e será bom para o fabricante, pois queimará o CCD e terá que comprar outra máquina. As máquinas digitais top de linha têm validade de 150 mil fotos, já as top de linha de filmes, suportavam mais de 300 mil fotos.

Passeio fotográfico - 100 anos de Guião. © Essio Pallone Filho

Passeio fotográfico – 100 anos de Guião. © Essio Pallone Filho

Você tem uma ligação estreita com o Sesc, como surgiu esta parceria?

O primeiro passeio fotográfico do qual participei e fui um dos organizadores, foi junto com o Sesc de Piracicaba. A programadora cultural era na época e continua sendo a Marilia Azevedo Grillo. O passeio teve o nome de Ver Verão dentro do programa Sesc Verão. Foi então que passei a me interessar por passeios fotográficos. Neste período que fiz o passeio, algumas pessoas interessadas em fotografia e com o apoio do Sesc, foi criado o Núcleo Piracicabano de Fotografia. No primeiro encontra havia aproximadamente 60 pessoas. Mas fotógrafos são divididos em duas partes, o fotógrafo e o ego do fotógrafo. Não vou dizer que não tenho o meu, pois estes dois são difíceis de conviver.  Então o grupo foi reduzido e sobraram 15 membros. Realizávamos saídas fotográficas e participamos de uma saída em São Paulo, com a organização do fotógrafo Iatã Cannabrava com mais de 500 fotógrafos. Por causa do Sesc me reaproximei de São Carlos, minha irmã trabalhava na unidade de lá e junto com sua amiga Sueli, vieram para Piracicaba por causa da Bienal Naïfs do Brasil, e dormiram na minha casa. A Sueli encontrou uma garrafa cheia de fotografias em casa e disse que queria isso lá em São Carlos. Negociamos e fizemos uma exposição chamada Fotogarrafada que também foi para a unidade de São José do Rio Preto.

Fotogarrafada. © Essio Pallone Filho

Fotogarrafada. © Essio Pallone Filho

Piracicaba ou São Carlos?

Uma escolha difícil foram 30 anos em Piracicaba e tenho uma relação boa com muitas pessoas que nela vivem. Também conquistei muitas coisas materiais aqui. São Carlos foi o local que nasci e vivi minha infância, minha família é de lá. Mas tem uma terceira cidade, que moram duas das minhas três filhas – a Fabiana e a Renata – que é Poços de Caldas, também gosto muito.

E as fotografias de fazendas, como é este trabalho?

Em 1999 fui a São Carlos, participar de uma oficina promovida pelo Sesc com o fotógrafo Cláudio Edinger para fotografar a Fazenda Pinhal, pertencente a família Botelho. Foi aí que deu o start em fotografar fazendas. Comecei a frequentá-las e em 2002 houve um projeto em que comecei fotografar várias fazendas em São Carlos. Um tempo depois conheci o proprietário da Fazenda Nova em Mococa, e fiz dois calendários com as fotos de sua propriedade. Hoje tenho uma coleção de imagens de 60 fazendas no Estado de São Paulo e tenho mais 15 fazendas programadas para fotografar. Fiz duas exposições com estas imagens, as duas com o nome de Fazendas Paulistas. A primeira foram fotos de gente, a maior parte de boias-frias na colheita da cana. Na segunda exposição, mostrei vinte e cinco fazendas com mais uma foto de um detalhe da mesma. Para uma fazenda existir necessitava ter pelo menos uma igreja, serralheria, casa de colono, salão de festas e a casa do barão – geralmente imponente e num lugar estratégico para que tivesse uma visão de boa parte de sua propriedade. A Fazenda Santa Cecília em Cajuru tem uma história interessante sobre seu ex-dono, o Sampaio Moreira. Ele foi um industrial e morava na Av. Paulista em São Paulo. Todos seus vizinhos tinham imóveis ali porque eram barões do café e Moreira era o único que não tinha fazenda. Por conta disso enviou um funcionário ao interior do Estado para encontrar uma fazenda e comprá-la.  A Fazenda Santa Cecília tem aproximadamente 3.600 alqueires, com uma estação ferroviária maravilhosa, levada por Moreira.

Fazenda Pinhal. © Essio Pallone Filho

Fazenda Pinhal. © Essio Pallone Filho

Quando vou fotografar arquitetura levo um tripé que chega a quase três metros de altura. Para usá-lo também carrego uma escada de três degraus para alcançá-lo. Isso faz a diferença, pois na altura do chão, às vezes você registra muito chão e pouco céu na foto. Não adianta inclinar, pois tem a questão da perspectiva – vertical é vertical e horizontal é horizontal – tem que entender. Por isso carrego tudo isso comigo, tripé, escada, mais a bolsa cheia, é o esmero e o capricho que faz a diferença. Não possuo infelizmente, como o nobre colega de arte Ansel Adams, uma station wagon, um carro que em cima ele acoplou uma plataforma para colocar seu tripé. Se eu tivesse a lente de correção de paralelismo ou uma câmera de grande formato para corrigir a perspectiva, beleza. Mas não possuo e o fotógrafo não pode ter preguiça.

Há uma foto minha da Fazenda Santa Maria em São Carlos, que foi capa da revista Autoban. Para fazê-la subi em uma escada que estava sobre um trator dentro de uma carroceria de uma carreta. Eu estava a 4 metros do chão, pois era um sobrado e queria registrar suas linhas perfeitamente paralelas.

Fazenda Ibicaba. © Essio Pallone Filho

Fazenda Ibicaba. © Essio Pallone Filho

De que forma você cuida do seu acervo fotográfico?

Para responder esta pergunta vou te contar uma história. Meu primeiro emprego fui Operador de Máquina de Perfuração, na empresa Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Trabalhava no meio do nada, eram os operadores, as máquinas e a natureza. Depois trabalhei no almoxarifado da empresa PRM CPRM. Ali aprendi a ter disciplina para poder armazenar 35 mil itens que chegavam e saíam. Hoje meu arquivo fotográfico, tanto filme quanto digital, é organizado por ordem cronológica. Junto a isso tenho uma planilha de Excel em que coloco o dia da fotografia e de cada fotograma tem as informações do assunto geral registrado. Para os negativos fiz uma cópia de cada fotograma no tamanho 10x15cm, são aproximadamente 40 mil fotos. No digital o acervo é de 60 mil imagens. Fotografia de filme e fotografia digital são duas coisas distintas, situações, captações e resultados diferentes. Um negativo te dá outra resposta do digital. A fotografia digital tem em celular e têm lá no acelerador de partículas na Suíça, com 145 mil megapixels.

Quem são suas referências na fotografia?

O meu grande inspirador é o Ansel Adams, um perfeccionista da fotografia. Ele tem três livros publicados pela Editora Senac, A Câmera, O Negativo e A Cópia, que são uma bíblia. Leia e aprenda o seu conteúdo que irá adquirir uma base de conhecimento suficiente para ser um bom fotógrafo. Outros nomes: Marc Ferrez, Militão, Paulo Pires, Eduardo Salvatore, Sebastião Salgado, Gal Oppido, Juca Martins… Se eu ficar pensando vão aparecer vários nomes, há tem o Robert Doisneau, mas a memória agora “ferrou”, são muitas referências.

Rita Lee - Bossa n'roll. © Essio Pallone Filho

Rita Lee – Bossa n’roll. © Essio Pallone Filho

Em algum momento a fotografia te decepcionou?

O prazer de fotografar e o que estou fotografando não me dão nenhum tipo de decepção. A decepção vem do mercado profissional, em que o trabalho do fotógrafo não se remunera o que de fato vale. É difícil colocar no preço seu conhecimento e o esmero pelo trabalho, leva quase sempre o melhor preço. Se você acredita que qualquer um pode fotografar seu casamento, significa que seu casamento não vai durar muito tempo. (risos). Penso por aí. E agora a situação está bem complexa, pois a referência da fotografia hoje, todo mundo acha que a fotografia nasceu digital. A fotografia nasceu no século XIX, o primeiro registro em 3D foi em 1937. Era um par de fotografias em que você usava um instrumento chamado estereoscópico para ver o efeito. Na década de 50 foi moda o filme de terceira dimensão. Quando eu era criança meus pais me levaram no Cine Metro em São Paulo, para assistir um filme de demonstração em 3D. Todo mundo de óculos e aí começou o filme e na cena mostra uma pedra despencando de um morro. Meu pai não teve dúvidas, agachou atrás da cadeira da frente para as pedras não caírem em cima dele.  Isso foi na década de 50 e as pessoas acham que estas tecnologias nasceram hoje.

O que a fotografia representa para você?

Quando a fotografia começou as pessoas tinham medo de serem fotografadas, porque acreditavam que ela roubavam suas almas. Na realidade eu acredito que no retrato, o fotógrafo só consegue registrar aquilo que a pessoa transmite a ele. O enquadramento e a luz são apenas componentes da fotografia. Tem uma foto famosa do Winston Churchill em que ele está muito bravo. Percebendo a irritação do Churchill que reclamava pela demora do retrato, o fotógrafo, malicioso, esperou até o momento em que ele estava próximo a esmurrá-lo. Então capturou o sentimento que o retratado quis transmitir para a foto. Um dia um senhor no CLQ me pediu para deixá-lo bonito na foto. Disse a ele que só fotografaria o que conseguisse ou quisesse me mostrar. Quando a fotografia não é de gente eu situo ela como registro, e o trabalhar do fotógrafo para este registro é quando ele põe a sua alma ali. Retrato a alma vem de lá e registro a alma vai para lá.

Para encerrar, quando eu tinha treze anos queria ser piloto de Fórmula 1, só em 1993 acreditei que a fotografia era a alma da minha vida. Me dedico a ela de corpo e alma.

Engenho Central. © Essio Pallone Filho

Engenho Central. © Essio Pallone Filho

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Jorge

Jorge

Olá caros. Hoje trago uma entrevista muito rica em fatos históricos de Piracicaba, e claro, de fotografia. Entrevisto o fotógrafo Altino Jorge Vieira, conhecido apenas por Jorge. Um piracicabano simples, nascido em 23/06/1940. Atuou ativamente nas reportagens fotográficas em nossa cidade nas décadas de 70 e 80. Depois também se transformou num grande lojista. Tive o prazer em ser seu funcionário por alguns anos. A conversa foi muito boa. Confira!


Quando começou a trabalhar com a fotografia?

Eu comecei a fotografar  com a família Bischof, eram os mais antigos fotógrafos de Piracicaba. Isso mais ou menos em 1957. Naquele tempo, antes de fotografar tinha que trabalhar em laboratório, aprender a revelar filmes, tudo em branco e preto. A  (loja) Bischof era a que mais revelava filmes em Piracicaba, uma média na época de 50 a 60 revelações por dia. Foi então que comecei a aprender a fotografar com aquelas ‘maquininhas’ antigas da Kodak,  fotografava times de futebol de bairros. Depois começou a vir aniversários de crianças e festas populares. Entre 1959 e 1960, comecei a adquirir máquinas melhores e fotografar eventos maiores, como casamentos e aniversários de quinze anos.

Nessa época, havia meia dúzia de fotógrafos conhecidos em Piracicaba. Tinha o Idálio Filetti, Cícero, Capreci, Lacôrte, na Vila Rezende tinha o Mário.  Mas voltando para o trabalho, o que eu gostava mesmo era de reportagem, trabalhei de free lance para o Diário de Piracicaba e Jornal de Piracicaba, as melhores fotos eu levava para os jornais que publicavam. Também fotografei muitos shows e os carnavais de Piracicaba que eram famosos, teve um ano que o cantor Fábio Júnior desfilou na Escola de Samba Zoom Zoom.

Outra lembrança, foi quando o cantor Roberto Carlos começou a ficar famoso, tinha no máximo quatro músicas de sucesso, e veio na cidade para um grande show no Cine Palácio, fui eu quem o fotografou. Já nos anos 70, além de trabalhar com os Bischof, abri minha loja, mas só estúdio e 3×4. Tinha dia que fazia mais de cem fotos 3×4. Fotografava e entregava depois de dois dias.

Quem eram os Bischof?

O pai dos Bischof, que não conheci, era alemão e veio para Piracicaba a mais de cem anos.Casou-se com uma Piracicabana e tiveram três filhos e três filhas. Dois dos filhos, que eram solteiros, Rodolfo e José Adolfo Bischof abriram a loja de fotografia na cidade. O Rodolfo teve uma doença grave e faleceu a mais de vinte anos e o José Adolfo faleceu em 2002. Apesar de eu ter minha própria loja, me mantive com eles, pois praticamente me criaram. Com o Adolfo fiquei até o último minuto de sua morte e tenho hoje na cidade uns bens que ele me deixou de herança, devo muito a família Bischof. A loja Bischof ficou minha a partir dos anos 80. Nos anos 90 fiz uma sociedade com um grupo de São Paulo e Ribeirão Preto e a loja passou a se chamar Zoom Bischof, no qual eu tinha 50%. Em 2004, desfizemos a sociedade. Hoje ainda tem a “Foto do Jorge”, na rua XV de Novembro, que passei para meus filhos. Perante a lei já sou aposentado, mas continuo fotografando.

Casa Bischof na Rua Governador Pedro de Toledo. Década de 80. Foto: Jorge.

Como era o seu trabalho no laboratório?

Durante dois anos, só revelava filmes e ampliava foto branco e preto do povão de Piracicaba. Fotos particulares. Ficava muito tempo dentro do laboratório, no começo sozinho, depois tive ajudante, ficava ali das cinco às onze horas da manhã. Uma coisa muito boa que aprendi com os Bischof era a se alimentar bem antes de entrar no laboratório, tomar bastante leite, dois litros por jornada de trabalho, pois os químicos tinham substâncias muito fortes. Muitos fotógrafos adoeceram por causa dos químicos, alguns até desenvolveram câncer e faleceram. Graças a Deus, com o conselho que recebi, nunca tive nenhuma doença grave. Também havia muito respeito em não mostrar aquilo que se revelava. Existia ética, pois muitas fotos não podiam ser vistas por ninguém. O trabalho no laboratório cresceu muito, tivemos vários auxiliares que depois se tornaram fotógrafos.

Quem foram esses auxiliares?

O meu amigo Celita, que já faleceu, começou comigo e depois trabalhou com o Lacôrte, foi uma grande amizade até o último dia de sua vida. Tem mais, mas não me recordo bem os nomes. Muita gente vinha para aprender, trabalhava por um tempo e depois iam se ‘virar’ sozinhos. No Zoom Bischof, o Cláudio (Franchi) trabalhou com nós, hoje ele está muito bem né! O Fábio (Mendes) também trabalhou na  Zoom. É muita gente; difícil guardar o nome de todos.

Conte mais sobre o show em Piracicaba em que fotografou o cantor Roberto Carlos.

Depois da apresentação do Cine Palácio, o Roberto Carlos voltou em outra grande festa, numa feira de agro-comercial em Piracicaba, no bairro da Paulista. Também o fotografei, por intermédio do jornalista Peter, pescando, quando ele comprou um rancho em Piracicaba. A Hebe Camargo fez show na praça e fotografei-a. Todas essas fotos eu tinha no meu grande acervo e a chuva acabou com tudo.

Como foi essa tragédia de perder seu acervo fotográfico?

Foi no ano de 1982 ou 83, deu uma grande chuva, foi uma das maiores enchentes do Rio Piracicaba, bem maior que deste ano de 2010. Eu tinha uma loja na Rua Benjamin Constant, 1123, e tinha o meu acervo lá. O prédio era velho e estourou uma calha. Com isso inundou a sala onde havia uma prateleira com várias caixas de sapatos, onde estavam guardados os negativos e fotos. Tinham fotos da inauguração do Barão de Serra Negra, Pelé, grandes políticos que compareceram em Piracicaba, como o Jânio Quadros e o Médici. Inclusive eu tenho uma foto do Médici, foi a única vez que a Rua Moraes Barros inverteu a mão. Em vez de subir, o Médici desceu a Moraes Barros. Tenho essa foto até hoje. Mas enfim, voltando ao acervo, chorei por várias horas quando vi os negativos todos grudados por causa da água, perdia ali uma história de mais de vinte anos.

Comitiva do presidente Médici 'desce' a Rua Moraes Barros. Foto: Jorge.

Você estava na cidade quando o prédio Comurba desmoronou?

No dia 6 de novembro de 1964, a data do desmoronamento, eu trabalhava com o Bischof. Era uma tarde e às vezes saíamos para descansar na porta da loja, para ver o povo passar e bater um papo. Por coincidência, mais ou menos entre 14h00 e 14h30, no momento que estávamos ali na porta escutamos um estrondo, da Rua Governador Pedro de Toledo, deu para ver bem uma enorme quantidade de poeira – pois não havia muitos prédios em Piracicaba – bem no meio da Praça José Bonifácio. Ficou cerca de uma hora aquela poeira no ar. Muita gente, na maior curiosidade correu até a praça para ver o que tinha acontecido, eu fui  junto. Voltei para a loja, peguei uma câmera e fiz fotos no local do acidente. Não dava para chegar muito perto de tanta poeira. De repente começou a aparecer polícia, bombeiro, a cidade não tinha a estrutura de hoje, veio o Corpo de Bombeiros de Campinas para ajudar. Fiz uma foto, que foi publicada no Estadão (jornal O Estado de S. Paulo) depois de dez dias.

Quem publicou sua foto no jornal O Estado de S. Paulo?

Foi o jornalista Rocha Netto. Ele gostava muito de esporte e enviava matérias sobre o assunto para os jornais, a maioria para a Gazeta Esportiva. Também tinha contato com o Estado e outras publicações. Sempre que precisava de fotos, eu e o fotógrafo Cícero cedíamos a ele. Um dia me procurou e perguntou se tinha alguma foto do Comurba. Como eu fotografei, entreguei a ele e depois de alguns dias saiu publicado no Estadão. Guardo a publicação como lembrança até hoje.

Além dessa, cedi mais de cem fotos para o Rocha Netto, que foram publicadas no grande livro que ele fez sobre a história do XV de Piracicaba. Inclusive tenho o livro guardado.

Foto do prédio Comurba após desmoronamento. Publicado no Jornal Estado de S. Paulo. Foto: Jorge.

Na década de 1970, havia em Piracicaba, uma associação de fotógrafos que você participava. Como funcionou e quem fez parte desse grupo?

Teve sim, na década de setenta, uma associação de fotógrafos, procurei o livro, a ata, para mostrar a você, mas não encontrei. Começou em 1971. Fizemos a Associação dos Fotógrafos Profissionais de Piracicaba que funcionou muito bem por alguns anos. Era presidente o Idálio Filetti, fui o 1° secretário e a maioria dos fotógrafos faziam parte. O objetivo era preservar o respeito entre os fotógrafos e para haver divisão, para cada um ter seu espaço. Quando tinha grandes formaturas na cidade, não era como hoje onde têm várias equipes, vinham fotógrafos de fora. Mas com a associação nos reuníamos e fotografávamos esses grandes eventos. Por um tempo funcionou, mas depois começou a haver deslealdade e concorrência dentro do grupo e acabou que paramos com a associação. Fui o último presidente. Durou uns dez ou quinze anos. Foi muito bacana.

Mas antes dessa associação, a primeira equipe de fotógrafos para registrar os grandes eventos de Piracicaba foi o Cícero que criou. Os fotógrafos eram:  Cícero, Paulo Lacôrte, eu e o Celita. Fotografamos o maior baile de debutantes que teve na cidade, no Clube Coronel Barbosa. Era a ‘nata’ da sociedade. Para se ter uma idéia o paraninfo foi um dos homens mais ricos de Piracicaba, Dovilio Ometto, que trouxe a grande orquestra de Oscar Milani. Cada um dos fotógrafos ficou responsável por uma área do grande evento. Fiquei fotografando o apresentador, um artista da Rede Globo, que não recordo o nome, com as debutantes e com qualquer moça que quisesse fotografar com ele. Naquela noite registrei mais de 300 fotos só dele com as meninas e as mulheres do evento.

Você e o Cícero foram grandes amigos?

Sim, fomos. O Cícero me ajudou muito no início de minha carreira como fotógrafo. Os carnavais de rua éramos nós dois que fotografávamos. Os outros fotógrafos não faziam essa loucura. Ficar a noite inteira com três, quatro máquinas penduradas para não ficar trocando de filmes e aqueles flashes pesados da época eram cansativos demais. Hoje com a facilidade do digital ficou muito mais fácil. Você tira mil fotografias brincando.

Rainha do Carnaval de Piracicaba em 1980. Foto: Jorge.

Conte sobre a coleção de câmera fotográfica que possui.

Comecei a colecionar por causa das câmeras antigas dos Bischof. Apaixonei-me por elas. Comecei a receber muitas doações de câmeras por conta da evolução dos filmes. Conforme trocavam os formatos dos negativos, as pessoas trocavam as câmeras. Essas doações vinham de famílias antigas, que eram clientes da loja. Reuni mais de cem câmeras. Já expus no SESC e em Águas de São Pedro, a pedido do prefeito. A intenção é fazer uma exposição fixa dessas câmeras em minha loja. Só falta elaborar o espaço.

Qual a câmera mais antiga da coleção?

Tenho uma jóia rara, a Kodak nº 3. Não me lembro de quem ganhei essa câmera. Por conta de uma reportagem, um funcionário da Kodak me ligou e perguntou se eu a venderia. Na época não aceitei a proposta e não houve mais procura.

O que representa a fotografia em sua vida?

É duro de explicar. Fiquei muito popular, principalmente quando estava na ativa. Nessa época o fotógrafo era muito bem tratado. Em casamento era reservado o melhor lugar para eu sentar. Tratamento VIP. Fiz grandes amizades, até hoje as pessoas que fotografei visitam-me em minha loja. Essas amizades é o que mais a fotografia representa na minha vida.

O que não fotografou, mas pretende fotografar?

É difícil o que não fotografei.  Para se ter uma idéia, até defunto em velório eu fotografei. É uma cultura nordestina fazer o último retrato no caixão. Fiz muitas vezes. A única coisa que não fotografei foi parto. Não tive coragem nem dos meus filhos. Não nasci para ser médico.


Edição de texto: Fabiano da Rocha.


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