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Roberto Ascari

Roberto Ascari. © 2012. Fábio Mendes.

O linense Roberto Ascari completará em setembro, no dia três, 62 anos de vida. Mesmo que as profecias Maias estejam corretas, ele terá a chance de – literalmente – apagar as velas do bolo. Como o fim do mundo foi prometido para dezembro, tenho tempo de mostrar para vocês um pouco da história deste fotógrafo e grande amigo, que me colocou no mundo da fotografia. Roberto tem 44 anos de profissão como fotógrafo e lojista, exatamente nesta ordem. Nascido, criado e formado profissionalmente na cidade de Lins, região centro-oeste do estado de São Paulo, a fotografia trouxe Roberto para Piracicaba. Ficou encantado pela cidade e decidiu transformá-la em lar. Trouxe sua mulher, a Dalva e aqui criou e educou seus dois filhos, o Guilherme e a Vivian. Está em “Pira” há 31 anos e já foi adotado pelo Lugar Onde o Peixe Para, é um piracicabano. Conheci o Roberto quando fui contratado para trabalhar na loja de fotografias, Zoom Bischof. A loja possuía laboratório para revelação e impressão de fotos para alta produção no tamanho 10×15 cm, que são as fotos “normais de 1 hora”, como os clientes pediam. A minha irmã Leila já trabalhava no Zoom e me indicou para o Roberto que era o gerente, e na confiança fui contratado. Foram doze anos da minha vida com a família Ascari. Com eles cresci, passei da adolescência para fase adulta, tiveram muita paciência com as minhas determinações e atitudes imaturas, mas aproveitei cada espaço físico e intelectual que puderam me oferecer. Todas estas decisões, posturas e crenças que pratico diariamente, são reflexos das inter-relações que me constituem como homem. Na minha pele e alma habita um pedaço do meu pai, mãe, irmãos, amigos, desafetos e da família Ascari – mais com o Roberto e Guilherme com quem o contato foi diário. Sou grato pela porta que me abriram e continuo traçando o caminho indicado.

Boa leitura!

Como foi o início com a fotografia?

Iniciei em 1968 numa empresa que se chamava Foto Euclydes, em Lins. Meu pai era amigo de um dos donos e então fui convidado a trabalhar ali. Comecei como auxiliar de “tudo”. Primeiro no laboratório lavando e fixando fotografias. Depois de dois, três meses aprendi a fotografar. Nesta época fotografava muito bailes de debutantes. Nestes bailes eu era treinado não para fotografar, mas para trocar filmes das câmeras. Eram Rolleiflex com filmes de 12 poses. Cinco fotógrafos e cinco pessoas para trocar os filmes das máquinas. Assim eu observava como fotografavam. Depois de seis meses comecei fotografar minha família e meus amigos para treinar. Até que chegou o momento de fotografar profissionalmente. Foi uma festa junina, em uma chácara, dos funcionários do hospital Santa Casa. Esta festa marcou para mim. Depois de “certa” hora, o pessoal já havia bebido bastante e o sanfoneiro da festa, usava uma perna de pau que sumiu. Foram encontra-la na fogueira e quase virou carvão. (risos). Esse foi o início, depois comecei a fotografar bailes de debutantes, outros eventos e fui crescendo junto com a empresa.

Um ano depois a empresa começou a fazer um trabalho que se chamava Salão da Criança (o trabalho era escolher uma cidade e a empresa enviava vinte fotógrafos e vinte vendedores. Primeiro o vendedor passava de porta em porta oferecendo fotos das crianças da casa, se houvesse, e no outro dia o fotógrafo realizava a sessão), então começamos a fotografar em outras cidades. Foi quando conheci Piracicaba, em 1969. A cidade marcou para mim, fiquei com ela na cabeça, tinha até bonde. Ficamos hospedados no Hotel Brasil, na rua Boa Morte onde o bonde passava em frente ao hotel. Havia o rio, a Agronomia (Esalq) e vários outros lugares bonitos que ficaram guardados em minha mente.

Roberto na CIA Fotográfica Euclydes em Lins, anos 60. Foto: Arquivo pessoal.

Em 1975 eu saí do Foto Euclydes. Neste ano a empresa possuía 400 funcionários e tinha laboratório colorido. Fui para São Paulo trabalhar na Procolor, no departamento que cuidava das grandes ampliações. Lá fazíamos painéis com emenda de cinco por dez metros. Era uma sala enorme e para segurar o papel na parede havia uma bomba de sucção que o prendia.  Fiquei dois anos no laboratório. Por problemas de saúde – eu que já estava casado – a minha mulher Dalva deu a luz a gêmeos, mas nasceram prematuros. Então o médico nos aconselhou a não ficar em São Paulo devido ao clima que não seria bom às crianças que estavam debilitadas. Então recebi um convite para trabalhar em um laboratório da Curti no Rio de Janeiro e não aceitei pela distância e as condições financeiras também não agradaram. A Procolor me fez uma proposta para trabalhar no interior do Estado. Voltei para Lins. O trabalho seria coletar serviços de fotografias na região. Eu coletava de Lins a Bauru e de Lins a Três Lagoas. Um dia eu ia até Bauru passando pelas cidades da região e no outro o mesmo serviço só que na região de Três Lagoas. No final do dia eu depositava os serviços no correio que iriam para o laboratório de São Paulo e retirava os que já estavam prontos. Fiquei dois anos e meio nesta rotina até que recebi um convite para trabalhar na CIA Fotográfica Irmão Hirano em Tupã. Eles não tinham loja, somente laboratório e equipe para fotografar formaturas. Durante uma conversa um dos proprietários da Hirano me perguntou se caso ele abrisse uma loja em Lins, eu iria trabalhar para eles lá. Disse que sim, pois estaria em casa. Fiquei um ano e meio nesta loja quando ele me chamou novamente com nova proposta. Disse que expandiriam o negócio* e me ofereceu a escolher trabalhar em, Ribeirão Preto, Bauru, Araraquara, Piracicaba, Sorocaba ou Campinas. Escolhi Piracicaba. Em 1981 cheguei aqui.

*A Hirano criou a rede Jetcolor com várias lojas de fotografias espalhadas pelo Brasil.


Lins foi uma cidade de muitos fotógrafos?

Sim, foi por causa do Foto Euclides. Como eu disse a empresa teve 400 funcionários e chegou a ter dois aviões. A Hirano também tinha dois aviões. A concorrência era esta, Lins com o Foto Euclides e Tupã com a Hirano. Só que a Euclides foi a pioneira, como consumia muito químico a Kodak dava muita assistência disponibilizando cursos mensais para nós funcionários. Fiz vários cursos, foi uma escola trabalhar no Euclides. A loja tinha doze “ampliadoristas” em doze cabines e cada um fazia de 2 mil a 2,5 mil fotos diariamente no tamanho 24×30 cm. O projeto Salão da Criança cobria o Estado de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Mais de cem fotógrafos trabalhavam para a empresa. Eu fui o sétimo funcionário da Euclides e depois de sete anos havia 400. A ascensão foi rápida, só que infelizmente eles entraram num trabalho em fazer toda a identificação do Brasil. O Registro de Identidade seria produzido dentro de uma área da Polícia Federal com a finalidade de termos uma identidade única no país. O Foto Euclides ganhou a concorrência. O governo exigiu da empresa que todos os laboratórios fossem construídos em áreas reservadas nos prédios da Polícia Federal. O início foi no Rio de Janeiro. Gastaram milhões para construir os locais que seriam instalados os laboratórios e equipamentos. Quando começou a produção o governo “estancou”, decidiu que não faria mais desta forma. Foi assim que quebrou o Foto Euclides, pois focaram muito tempo e dinheiro neste projeto e outros que deixaram para trás não conseguiram mais recuperar. Os proprietários eram o Eudorides e Antonio Aguiar.

Foto Euclydes, anos 60. Na parede, foto dos veículos da empresa. Foto: Arquivo pessoal.


Como era ser fotógrafo nos anos 70 e que equipamento usava?

Sempre fotografei nesta época com negativo 6×6 e Rolleiflex. Foi difícil comparado com a tecnologia de hoje. Era tudo no cálculo. O diafragma era aberto e fechado a cada nova distância. Mas era muito boa esta época. O fotógrafo nos anos 70 era muito respeitado, muito querido, tinha evento que você se sentia mais importante que a pessoa que te contratava. Nos bailes de debutantes, nós fotógrafos todos jovens, às vezes criávamos problemas com os outros rapazes da cidade em que estávamos trabalhando. As meninas ficavam todas ouriçadas com a gente, sabe como é, moço de outra cidade de smoking, a empresa era organizada. (risos) Hoje é diferente, “poluiu” a profissão.

Baile de debutante em Pirassununga, anos 70. Roberto posa ao lado da estrela da festa, o ator Flávio Galvão. Foto: Arquivo pessoal.

Baile de debutante em Mococa-SP, anos 70. Em destaque o grupo musical Os 3 do Rio e Roberto com a sua calça branca. Foto: Arquivo pessoal.


E como foi fotografar em Piracicaba na década de 80?

Tive muitos problemas com os fotógrafos daqui. Vim para gerenciar a loja e tinha metas a cumprir. A empresa quando se instalou em Piracicaba queria agregar todo o segmento da fotografia, além das revelações fazer coberturas de eventos sociais. Então montei uma equipe e contratei um relações públicas, mas a maioria dos fotógrafos contratados vinham de Tupã. Praticamente todos os funcionários da empresa fotografavam e eu tinha que chamá-los. A empresa se transformou em concorrente dos fotógrafos daqui e eu fui o “culpado”. Eu dizia para alguns fotógrafos que não adiantavam ficarem bravos comigo, apenas cumpria ordens. Um dos primeiros fotógrafos que quebrou esta estranheza foi o finado Celita. Eu gostava de futebol e um dia fui jogar no clube Ítalo e o Celita estava lá. Aproximamos-nos e na conversa contei a ele sobre a minha dificuldade com os fotógrafos daqui por eu ter que contratar os serviços de Tupã. Foi a primeira pessoa que entendeu o meu problema. Ele até me confessou que fazia uma imagem diferente de mim. Eu tinha uma meta de fazer reportagem fotográfica de dez casamentos por sábado ou até mais, já fiz até vinte casamentos num sábado pela empresa e a prioridade era trazer os nossos funcionários para fotografar. Além disso, eu tinha que gerenciar os outros setores da loja que era de médio porte, havia 18 funcionários. Mas no início fiquei com uma imagem negativa perante os fotógrafos. Fui administrando até que em 1986 a Jetcolor começou a passar por problemas financeiros, cresceram muito rápido e não se organizaram adequadamente. Já tinham perdido um mercado muito bom que eram as formaturas. Deixaram de lado e deram atenção só para as lojas. Surgiu então o grupo da Iguatemi da cidade de Marília, que comprou a rede Jetcolor. Acontece que a Iguatemi não trabalhava com funcionários homens, só com mulheres. Era assim em todos os setores, só o dono da rede que era homem. Começou a transição e depois de seis meses eu saí. Tínhamos duas lojas na rua Governador Pedro de Toledo.

Roberto se prepara para as fotos aéreas da cidade de Lins e região. Foto: Arquivo pessoal.


Ficou desempregado?

Recebi um convite para trabalhar em Santo André. Eu teria que gerenciar um mini shopping que tinha quatro lojas de fotografia. Fui mas senti que os meus filhos, Guilherme e Viviam, sentiriam dificuldades naquela realidade. Um dia, por acaso, reencontrei o Carlos Simon, um lojista de São Paulo que já havia conhecido e me perguntou o que eu estava fazendo ali. Expliquei o que havia acontecido e então ele me disse que eu não ficaria naquele lugar. Havia montado uma loja em Ribeirão Preto e queria me levar para lá. Durante a negociação ele me perguntou como era o mercado em Piracicaba. Comentei que não havia na cidade loja de revelação em 1 hora. Então ele me propôs montar uma loja em Piracicaba, o que para mim seria melhor. Mandou-me encontrar um endereço para montar a loja. Procurando me encontrei com o fotógrafo Jorge, que tinha loja na rua Governador Pedro de Toledo mas sem laboratório. Todo o serviço que ele captava enviava a São Paulo. Só que a população da cidade já cobrava um serviço mais rápido. Campinas já revelava em 1 hora, por que Piracicaba não? Também uma loja da Outsubo estava instalada na cidade e revelava com o prazo de um dia. Por conta destas dificuldades o Jorge aceitou a parceria, ele entrou com a loja e o Simon com os equipamentos que revelavam em 1 hora. Foi assim que nasceu o Zoom Bischof, em 1991. Trabalhávamos com público amador e profissional. Ficamos na rua Governador até o ano de 2000 quando foi vendido o ponto comercial.  Reabrimos a loja em outro ponto na rua Moraes Barros.

Entre este tempo em que o Zoom esteve na rua Governador,  eu com o Simon, adquirimos a loja Spavieri. Nesta época o Jorge não estava mais na sociedade, na separação ele ficou com outra loja que tínhamos na rua XV de Novembro.


Voltando para o Jetcolor, este local foi o celeiro de vários fotógrafos da cidade. Quem passou por ali?

Pelo Jetcolor passaram o Antonio Prezotto, o Luizinho que estudava engenharia na Unimep e fazia uns “bicos” com a gente. Cláudio Franchi, Élcio Fabretti, Marcelo Germano, Bolly Vieira, Maria que tem loja em Charqueada, Arlete que casou e se mudou para São Paulo, todos aprenderam a fotografar ali. Tem mais gente que me escapa da memória. Ah, tem o Milton Maiolo. De funcionários foram estes, eu acho, mas de free-lance foi muito mais. O Antonio Prezotto foi o primeiro, ele entrou na Jetcolor para trabalhar de relações públicas. Foi o Prezotto que trouxe o Bolly e o Élcio para a loja.

Tinha muito casamento, às vezes cinco, seis na Igreja Matriz da Vila Rezende, eu cuidava da cerimônia religiosa enquanto outros fotógrafos iam para a festa e Esalq.

Em frente ao Clube Ítalo, hoje Societá Italiana, encontro de fotógrafos. A partir do fundo da esq. para a dir.: Nicolau, Nélio Ferraz de Arruda (ex-prefeito de Piracicaba), Idálio Filetti, Cícero, Pauléo e Mário Penatti. Fued e Celita. William Zerbetto, Kenji Kawai, Davi Negri, Jorge, Mário Corvina, Turin e Nogueira. Décio Fonseca, Diógenes Banzatto, Bolly Vieira, Roberto Ascari e Marcos Muzzi. Anos 80. Foto: Arquivo pessoal.


Sei que é uma conversa velha e até chata, mas para você que além de fotógrafo é lojista como foi sentir na pele a transição do analógico para o digital? Qual a sua percepção depois de tamanha transformação?

O digital foi uma surpresa para muita gente. Até a Fuji e Kodak não esperavam que a transição fosse rápida como foi. Veja a situação destas empresas hoje. Mas agora se percebe as vantagens do digital. Abriu um mercado para qualquer pessoa fotografar. Você consegue comprar um equipamento fotográfico com vários recursos a baixos preços. Com três mil reais dá para comprar uma ótima câmera. Para quem presta serviço está ótimo, já para quem revela piorou. As fotos hoje ficam armazenadas em mídias e de 10 mil fotos feitas, enviam 10 para serem reveladas. O lance da foto é a curiosidade e no digital vê a foto quase no mesmo instante que fotografou. Na época do analógico abria a loja na segunda-feira formavam-se filas de pessoas para deixar seu filme para revelar e tinham pressa de ver as fotos. O auge aqui em Piracicaba foi no Jetcolor quando captamos 600 rolos de filmes em apenas um dia. O digital sacia a curiosidade e a revelação fica para depois, isso quando revela. Grandes empresas e fotógrafos tradicionais sumiram.


Conte um momento no Zoom Bischof?

No tempo do Bischof tinha a Leila Mendes, que era uma excelente profissional uma laboratorista de primeira linha. Outros bons funcionários foram a Ana Mendes, que continua com a gente, a Sandra Novaes, Vivian Nazato e o Fábio Mendes.  Um belo dia o Fábio veio e pediu a conta. Estranhei e perguntei o motivo. Ele disse que seria goleiro. Fiquei quieto e de repente chega a Leila e me pede, pelo amor de Deus para não dar a conta para ele. Fui lá, tentei convencê-lo, mas não teve jeito, saiu para ser goleiro. A mãe dele foi conversar comigo para eu não deixá-lo sair só que eu não podia fazer nada, não podia segurá-lo. Daí foi o Fábio embora treinar e eu conhecia o treinador dele, que era o Dimas. Perguntei a ele sobre o goleiro e ele me disse que era muito cedo para ele. Quando fala que é muito cedo no futebol é que não vai dar em nada. “Fábio volta trabalhar!” Aí o Fábio voltou. (risos)

Cumprimento ao candidato a Deputado Federal, Lula, em frente ao Zoom Bischof, na rua Governador Pedro de Toledo. Foto: Arquivo pessoal.


Algum momento marcante como fotógrafo?

Tive vários. Fotografei o advogado Roberto Abreu Sodré, Paulo Maluf, Clodovil, Gal Costa, a maioria fazendo free-lance para o jornal de Lins. Tenho várias histórias de casamentos, noivas que ficavam das 17h até, às 20h, dentro do carro e nada do noivo aparecer. Presenciei arranjo de flores na igreja caírem em cima de noivo e vários outros fatos engraçados. São momentos engraçados e tristes, como no caso dos noivos que não aparecem, que já presenciei. O gostoso é que tem casamento que fotografei em 1986 que não me lembrava mais e me param na rua para me cumprimentar pelas fotografias que fiz em seu casamento. Já aconteceu de me procurarem para fotografar o aniversário de 15 anos de filhos de casais que fotografei o casamento.

Triste foi uma vez que foram colocar o bolo na mesa e ele caiu todo no chão. Daí a noiva chorava porque não haveria a famosa foto com os padrinhos perto do bolo. Teve um dia que eu tinha dois casamentos, um deles era de um amigo. Como os horários do evento eram o mesmo enquanto eu fotografava um, enviei outro fotógrafo para o casamento do meu amigo. Quando encerrei o que eu estava fazendo fui fotografar a festa do meu amigo, que já estava no final. Só que parecia um velório. Este meu amigo havia tido um filho com outra mulher e esta o avisou que se ele se casasse com outra mulher estragaria seu casamento.  Como a situação era sigilosa, ele se cercou de segurança por todo o lado. Mas no meio da cerimônia acredito que o segurança bobeou e ela entrou. Quando o padre perguntou se havia algum impedimento ela gritou, tem sim e ergueu o menino dizendo, “olha o filhe desse…”.

Outro caso também foi na Igreja Nossa Senhora Aparecida. O padre era um japonês que morava com sua irmã. Um dia fui lá fotografar um casamento e costumava chegar meia hora antes da cerimônia. Desci do carro e a irmã do padre já me chamou dizendo que iria dar problema o casamento. Perguntei o motivo e ela disse que apareceu uma mulher nervosa dizendo que quem iria se casar era o seu namorado.  Logo chegou o noivo, um crioulo alto, e a irmã do padre foi logo o avisando. Ele ficou preocupado e quando os convidados estavam chegando apareceu a suposta namorada com uma faca enorme. O noivo correu para os fundos da igreja e entrou numa sala e a mulher com a faca procurando ele. De repente chegou uma amiga desta mulher com uma barra de ferro. Queriam pegar o noivo de qualquer jeito. Aquilo se transformou em uma confusão até que chegou a polícia. O problema é que nem os policiais conseguiam pegar as mulheres de tão alteradas que estavam, diziam que só sairiam dali depois de matar o noivo. Com o tempo conseguiram acalmá-las e convenceram-nas a irem embora. Mas depois durante a cerimônia o noivo olhava mais para trás nas portas da igreja do que para o padre, com medo que a mulher voltasse para pegá-lo. (risos)

E teve outro casamento muito engraçado. Na igreja da matriz da Vila Rezende era um casamento atrás do outro. Eu tinha três casamentos neste dia. Fotografei um, esperei o próximo, fotografei mais um, esperei novamente e fotografaria o último casamento que era às 21h30. Em um dos intervalos, fui ao bar que tem na esquina da igreja para tomar uma água. Comprei a água e vi um grupo de rapazes bebendo e no meio notei um rapaz moreno vestido inteiro de branco. Terminei a água e voltei para a igreja esperar a hora do meu casamento. Chegou o momento a noiva apareceu e cadê o noivo? Espera, espera, espera e o padre Jorge ficava nervoso, ele foi lá fora e fez a noiva entrar até o altar. Alguém o descobriu no bar, era o de roupa branca que eu tinha visto e disse que iria buscá-lo. Daí entra o cidadão pelo corredor da igreja chorando com as mãos no rosto. Em vez de a noiva entrar chorando, como era costume, foi o noivo que entrou. Ele chorou a cerimônia inteira que nem uma criança. Todos na igreja davam risada de ver a situação do noivo, até o padre Jorge dava risada. (risos)


Durante uma conversa que tive com o fotógrafo Cláudio Franchi, ele disse que tinha saudades do encontro dos fotógrafos nas segundas-feiras em frente à loja Zoom Bischof. Ali todos contavam suas vitórias, derrotas e momentos cômicos dos trabalhos do final de semana. A fotografia te deu muitas amizades com outros fotógrafos?

Mais ou menos. Eu era concorrente deles, mas evitava. Se algum cliente dissesse que já tinha cotado o trabalho de fulano eu nem entrava na concorrência pelo serviço. Só que eu tinha que fotografar também, pois o que eu ganhava não era suficiente para bancar os estudos dos meus filhos. Havia fotógrafos que não se importavam, mas outros ficavam com um pé atrás comigo. Conversava dava tapinhas nas costas, mas depois falava mal, não aceitava a situação. O grupo que se reunia era bom, tirando alguns que se achavam melhores que os outros.


Tem um fotógrafo na cidade que se chama Altamiro. Lembro-me que ele ficava parado em frente a Zoom Bischof quase o dia todo. Tentei conversar com ele algumas vezes, mas não obtive sucesso. Você conhece a história deste fotógrafo?

O Altamiro morava no bairro Vila Sônia. Um dia ele arrumou uma câmera Olympus Trip e começou a fotografar as famílias do seu bairro e levava para revelar na loja. Só que ele era alcoólatra e também sofreu um acidente, me parece que foi uma explosão que não sei maiores detalhes. Por conta disso ficou com dificuldades para conversar. Pouca gente entendia o que ele falava. Eu era uma das pessoas que dava atenção a ele e entendia um pouco do que ele dizia. Acredito que por isso ele ficava ali e até gostava. Tinha dia que chegava pela manhã e ia embora quase ao final do expediente. O problema é que ele voltou a beber e começou a incomodar os clientes. Enquanto ficava na dele eu não me importava só que fui obrigado a afastá-lo dali pelo transtorno que ele se transformou para os clientes. De vez em quando eu o vejo andando pela cidade. Parece que até hoje ele faz as fotos no seu bairro e no bairro Parque Orlando. Igual o trabalho que o Altamiro realizava, havia o Renê Mesquita, o “Nézinho do Jegue”, este fazia foto para ver em binóculo de crianças, sentada num carneirinho pintado de vermelho e amarelo. Tem uma história triste dele. Ele foi para São Paulo passar um fim de ano e resolveu levar o seu carneirinho para fazer um “bico” por lá. Foi quando o carneiro sumiu e ele descobriu que mataram e comeram o seu bichinho. Ele chorava porque mataram o seu carneirinho, era o seu ganha-pão. Ficou tão decepcionado que largou a fotografia. (risos)

Quantos fotógrafos como estes que eu ajudei. Vários não tinham dinheiro para comprar o filme. Eu entregava o filme na confiança a eles fotografavam, recebiam e depois me pagavam corretamente. Tiveram alguns que ajudei e levei prejuízo, mas faz parte do negócio, como costumam falar.


Quais foram as suas referências na sua profissão?

Quando eu comecei a fotografar as minhas referências se chamavam Euclydes Bredariol e Santos Garcia dois fotógrafos competentes da Foto Euclides, os dois são de Lins. Não erravam foco, nem abertura, me espelhei neles.  Aqui em Piracicaba eu gostava muito do trabalho do Henrique Spavieri e Christiano Diehl. Como eu revelava olhei o trabalho de muitos fotógrafos gostava de ver. Até hoje gosto de olhar. Tem amador que tem uma capacidade de fotografar impressionante. No fotojornalismo não tem ninguém igual ao Pauléo. Cada um se especializa em uma área. O Christiano, por exemplo, em fotografia aérea não tem igual. No casamento tem o Cláudio Franchi e o Filipe Paes que se dedicaram a este segmento. São fotógrafos que não pararam no tempo, estão sempre se atualizando.


São quarenta e três anos de fotografia, quais os planos na profissão agora?

Planos? Já deixei tudo para o meu filho, Guilherme. Daqui pra frente quero só ficar maneiro. Já me aposentei.


O que a fotografia representa em sua vida?

Representou tudo, pois é por conta dela que tenho o que possuo. E representa ainda hoje, pois continuo sobrevivendo dela. Posso não estar tão empenhado hoje, mas continuo lendo e acompanhando as novidades da área. Se precisar também fotografo com digital, não tenho nenhuma dificuldade. Mexo no computador, trabalho as fotos no photoshop. Gosto muito deste trabalho.

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Claudio Franchi

O piracicabano Claudio Alexandre Franchi frequenta quase todos os finais de semana igrejas, sítios, salões e outros variados locais para registrar casamentos. Com sua experiência de vinte e quatro anos, hoje Claudio Franchi, nascido em 04/06/1971 e o seu Studio A são famosos em coberturas fotográficas de uniões matrimoniais e eventos com “muita luz” como ele gosta de dizer. O começo foi difícil como da grande maioria que busca sucesso profissional, e neste ano de 2012 o fotógrafo quer compartilhar o seu “know-how” e oferece curso para quem estiver interessado em tornar-se um fotógrafo de eventos. Pai de três filhos – um menino e duas meninas – é casado e junto à esposa, tem uma companheira de lar e de trabalho, pois ela também fotografa. Segue abaixo um bate papo com o fotógrafo sobre o seu difícil aprendizado em que precisou melhorar sua postura diante do exigente mercado, para conquistar mais e melhores clientes. Uma breve aula para quem pretende entrar e competir nesta profissão.

Claudio Franchi. © 2011. Fábio Mendes.

Como iniciou com a fotografia?

Foi por necessidade financeira. Precisava de um emprego para ajudar a minha família e soube que a loja de fotografia Jetcolor precisava de balconista. A loja ficava na rua Governador Pedro de Toledo em frente a loja Baby Calçados. Havia uma banca de porta retratos e no balcão só mulheres podiam trabalhar. Minha função era olhar esta banca contra “trombadinhas” que poderiam roubar os produtos expostos. A loja fazia uma média de quinze reportagens de casamentos por sábado. Quase todos os fotógrafos da cidade faziam free-lance para a Jetcolor. Eu me interessei e comecei a ajudar os fotógrafos. Fui auxiliar do querido e saudoso, Antonio Prezotto. Isso foi em 1986. Em quatro meses deixei de olhar a banca para cuidar dos equipamentos fotográficos. Havia entre 40 a 50 baterias para recarregá-las toda a semana. Verificava os cabos dos flashes e montava as bolsas dos fotógrafos. O meu patrão era o Roberto Ascari, que hoje comanda a loja Spavieri. Eu também ajudava a montar os álbuns de casamento e isto me despertou uma vontade em fotografar. A Jetcolor abriu as portas para mim. Permitiam-me que levasse os equipamentos para casa nos finais de semana para me aprimorar tecnicamente. Eu levava uma câmera 6×6 – que tem os negativos maiores, de 120 mm – e flash Mecablitz, um equipamento difícil de trabalhar. Eu fotografava a minha família e o pessoal da loja analisava e corrigiam as fotos. Mas era tudo muito complicado, fotografava no final de semana, enviava os filmes na segunda-feira para Tupã e demorava uma semana para revelar. A impressão levava mais vinte dias para ficar pronta. Para você ver uma foto impressa levava um mês.

A Jetcolor foi referência de fotografia na cidade. Havia uma vitrine enorme no interior da loja onde ficavam as fotos dos casamentos, expostos. Os casais que passavam em frente da exposição, entravam e contratavam os serviços da loja. O Antonio Prezotto era o “relações públicas” da empresa. Ele que fechava os contratos dos casamentos. Havia poucos concorrentes nesta época. Eu não sou tão velho assim, mas o único que concorria era o Cícero (Correia dos Santos), que estava parando de fotografar casamentos, ele fotografava muitos clubes e seus carnavais.

© Foto Claudio Franchi/Studio A

Quanto tempo trabalhou nesta empresa?

Fiquei por um ano. Teve um sábado na loja que tivemos vinte casamentos e só havia dezenove fotógrafos. O Roberto me chamou e disse: “Não tem outra opção, você tem que ir”. Questionei que eu não tinha experiência e não tinha nem carteira de habilitação, pois era menor de idade. Mas não teve argumento. A loja tinha um fusca e me levaram até o evento que foi dentro da Usina Costa Pinto. Foi um casamento muito simples. Antigamente os casamentos eram feitos dentro de casa, menos requintados do que são hoje. Fui lá. Fiquei muito nervoso. Fiz oitenta fotos, que na época era um absurdo esta quantidade, pois os filmes tinham apenas doze chapas. Este foi o meu primeiro casamento.

Fotografou sozinho este casamento?

Sim. Na época não tinha equipe, no máximo um auxiliar. Eu auxiliava o Antonio Prezotto. Chamávamos de fotocélula. Não levávamos outras câmeras, era tudo muito simples e rápido. Se o casamento fosse às 18h, chegávamos às 17h45 e às 20h já estávamos em casa. Terminava a cerimônia na igreja, íamos para a Esalq, fazíamos de dez a quinze fotos. Depois partíamos para a festa, que era sempre na casa dos noivos, na cozinha com aquele aperto de tanta gente tinha um bolo com um champagne. Mais dez a quinze fotos. Depois mais fotos dos presentes e ir embora para casa. Não tinha toda a preparação que temos nos dias atuais. Hoje evolui, até demais.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Fora da Jetcolor qual foi o próximo passo?

Eu já quis montar o meu próprio negócio. Só que eu não tinha estrutura financeira. Pedi demissão, pois eles não queriam me mandar embora, ainda era útil para eles. Montei o Studio Classe A, isso em 1987 que ficava na casa da minha mãe. Era ilusório. Tinha uma cozinha, uma mesinha, mas não tinha como comprar os equipamentos.  Daí o pai do meu amigo Fábio Alcarde, o “Seo” Renato Alcarde, a quem sou muito grato, me levou para São Paulo. Disse-me que iria comprar os equipamentos para montar um estúdio junto com o seu filho. Eu não tinha condições de comprar. Minha câmera era uma Pratika TL5, que comprei do fotógrafo Olney Mendes. Eu era doido para pôr pilha na câmera e ver o fotômetro funcionar, que era de “palitinho”. Coloquei a pilha e não funcionou. Levei para consertar no Mário da Vila Rezende e ele me disse que a máquina não tinha nada por dentro, não havia fiação, era só uma caixa com obturador e diafragma. Quando eu disparava o obturador fazia um escândalo. Voltando para São Paulo, chegando lá fomos à rua Conselheiro Crispiniano, que era o sonho da maioria dos fotógrafos andar nesta rua onde tinha muitas lojas de fotografia. Durante a viagem no ônibus o “Seo” Renato me perguntou qual equipamento eu precisava. Na época a “máquina” era a Pentax K1000 que vinha com uma objetiva 50 mm. Também precisava de uma 28mm e um flash Frata. Para a minha surpresa, ele comprou duas K1000, dois flashes, duas bolsas, vários cabos, rádio-célula… Tudo o que eu precisava. Na volta eu parecia uma criança que acabou de ganhar um presente. Tudo novinho, na caixa, nada de Paraguai ou importado, tudo comprado na loja com nota fiscal. De volta em Piracicaba, o “Seo” Renato cedeu-nos uma sala em sua casa, comprou uma escrivaninha, foi na gráfica e fez contrato de casamento com auxilio de um advogado –  que uso até hoje – fez cartão de visita e nos disse: “Agora vocês vão ralar”. Aí começamos, eu e o Fábio a “ralar” na rua São José atrás do clube Palmeirão. Foi o início do Studio A. Tiramos o “Classe”, pois ficava muito grande o nome, Studio Classe A.

O início, ainda como Studio Classe A. © Foto: Arquivo/Claudio Franchi/Studio A

Mas era outra realidade. Quem iria nos contratar? Quem era Studio A? Aonde íamos “pegar” casamentos? Íamos aos cartórios e anotava o nome e endereço de cada noivo que iria se casar. Juntava tudo numa pasta, pegava a moto e ia aos endereços anotados bater na porta para oferecer o nosso serviço. Aqui que mora a Silvia? Aqui que mora o Paulo, que vai se casar? Apresentávamos o trabalho num álbum que levávamos embaixo do braço e mostrava para o (a) noivo (a). Algum casamento fechava, outro não. Mas vários noivos nos xingavam, pois eles davam endereço falso só para casar na igreja da Vila Rezende. O cidadão morava na Paulista e queria casar na Vila Rezende. Pegava qualquer endereço do mesmo bairro da igreja e colocava seu nome como morador. O real morador não agüentava mais atender tantos fotógrafos, pois além de nós, vários outros faziam esta prática. Trabalhamos por três anos neste esquema. Não tinha anúncio, guia de noivos e no jornal nem pensávamos, pois não tínhamos condições financeiras.  Dentro destas aventuras, pois íamos à noite fazer estas visitas, dois moleques, eu com 17 e ele com 16 anos, com uma moto sem carteira de habilitação, nos divertíamos, brincávamos e muitos davam risada da gente e não sabíamos o motivo. Quando fechava um casamento já subíamos na moto gastando o dinheiro, íamos ao shopping e um comprava uma blusa o outro uma calça… E assim era. Eu não tinha nada, nunca tive dinheiro.  O Fábio já era bem de vida. O pai dele sempre teve uma vida estável financeiramente. Para mim tudo era novo. Eu queria comprar, ter uma calça nova, um tênis, às vezes esquecíamos até das despesas relacionadas ao trabalho e gastávamos o dinheiro. Assim fomos trilhando.

Reportagem sobre o seu trabalho realizada em 1991. © Foto: Arquivo/Claudio Franchi/Studio A

Foram sócios até quando?

O “Seo” Renato hoje tem Alzheimer, mas continuo visitando-o. Gosto e devo muito da minha carreira a ele. Mas um dia ele chegou e disse: “Não quero esta vida para o Fábio”. Casamento você trabalha na sexta à noite, sábado à noite e ele gostaria que o Fábio fosse estudar. O que aconteceu e hoje ele é advogado. O pai dele rompeu a sociedade e me pediu para eu pagar da forma que eu pudesse o equipamento. Voltei para a casa da minha mãe. Assim comecei a trabalhar sozinho. Fui pagando o “Seo” Renato mensalmente. Foi em 1990. Trabalhar sozinho foi difícil, um sofrimento.  Eu não tinha mais o respaldo do Fábio e do seu pai. Fui emancipado com 14 anos, para eu poder abrir contas em banco e fazer movimentações financeiras. Daí comecei a correr atrás dos trabalhos sozinho. Já não tinha mais condução, apenas uma Vespa. Quando saía para fotografar o tempo tinha que estar legal. Às vezes eu entrava na igreja para fotografar um casamento e no final da cerimônia estava chovendo. Deixava a Vespa por lá e pegava carona com algum padrinho para ir à festa. Foi difícil, eu persisti mesmo! A instabilidade financeira era demais, pois além das minhas contas eu ajudava meus pais em casa. Vivi nesta labuta por oito anos, não conseguia me destacar no mercado. Eu queria “por a cabeça para fora”, mas não conseguia. Por vezes o trabalho não melhorava pela deficiência dos equipamentos. Lentes, flashes, cabos, tudo muito precário. Eu entrava tenso na igreja para fotografar um casamento. Tinha que torcer para o flash funcionar ou o cabo não quebrar. Algumas vezes pensei em desistir, mas nunca fui de estudar e ler. Sou uma pessoa que tudo que tenho vontade de fazer vou praticar. Admiro quem estuda e lê livros. Fiz apenas dois workshops em minha vida, pois não consigo ficar sentado e ouvir outra pessoa falar, não consigo. Se eu quero fazer uma foto, vou fazê-la do meu jeito.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Voltando as dificuldades, montei uma loja na rua Treze de Maio com estúdio. Comprei um laboratório, um erro enorme, de filme colorido e dei a Vespa de troco. Quando chegou o laboratório já era obsoleto, a pessoa me vendeu de má fé aproveitando da minha inexperiência. No fim fiquei com aquele “elefante branco” que nunca revelei uma foto sequer. Dava para imprimir até 30x40cm neste lab. Tinha estufa, inclusive quem a comprou foi o Henrique Spavieri. Consegui vender as bombas para um cara que mexia com isto e nos tanques plantei flores. Neste endereço as coisas continuavam muito difíceis. Eu não tinha nem aparência para atender os clientes. Tinha vinte poucos anos e sempre estava de bermuda, tênis, camiseta e boné. Comprei um fusca e estava sempre com o som alto. Na época quem se destacava eram, no vídeo o Domenico, que tinha uma estrutura invejável. Ele parava em frente à igreja com o seu furgão e desciam quatro ou cinco funcionários, todos com coletes. O Domenico hoje é meu amigo, mas nesta época ele era arrogante, não olhava na cara de ninguém, mas era o “cara” do casamento. Na fotografia era, quem eu admiro e me orientou muito, o Wilson Ernesto, da Focaliza. Ele foi uma referência no meu trabalho. Sempre o cito em qualquer conversa de fotografia. Vou citar nomes aqui de quem me ajudou, quem não ajudou não citarei nem contra e nem a favor. Um dia o Wilson me perguntou se eu gostava de fotografar. Nós, fotógrafos, tínhamos um ponto de encontro que ficava na loja Zoom Bischof, na rua Governador Pedro de Toledo, em frente a Farmácia do Povo. Na segunda-feira ali era o “point” dos fotógrafos. Todos contando suas histórias com os trabalhos de final de semana. Um contava que o padrinho caiu, outro falava que a máquina quebrou. Num destes dias o Wilson me chamou e falou: “Para você melhorar a primeira coisa é mudar a sua postura. Se eu fosse um cliente e te visse vestido assim não te contrataria. Bermuda, boné e camiseta? Mude a sua postura. Tem que ter um carro bom também. Este seu carro não passa confiança, pois sempre o vejo sujo, já é velho também. Imagine o seu trabalho, o seu álbum?” Aí ele me disse que estava com uma casa no bairro Santa Cecília com cinco vagas para carro na garagem. A casa era de aluguel, mas quem pagava eram os noivos. Ele dizia que os clientes quando viam sua casa já imaginavam que ele era um bom profissional, só pela residência já sentiam confiança. Infelizmente as coisas são assim. O consumidor compra com o olho. Mas depois deste conselho mudei a minha filosofia. É difícil dizer que fui o percussor, talvez alguém fez antes, mas desconheço, eu que iniciei em Piracicaba montar sala para atendimento dos noivos em loja/estúdio. Na minha sala coloquei sanca de gesso, ar condicionado e aí me diferenciei. Tinha dois ambientes com pisos diferentes. A mesa ficava na sala de cima enquanto os clientes aguardavam na sala abaixo. Os clientes me visitavam e depois iam aos concorrentes. Um atendia no balcão da loja, outro na sala de sua casa com o cachorro latindo no quintal ou uma criança chorando. Automaticamente comecei a atender clientes de classe financeira melhor que investiam mais em seus casamentos. Agora eu estava fotografando no Eventus, que era vitrine para qualquer fotógrafo. Encontrei o caminho. Comecei a me produzir fotografava de terno e gravata, adesivei o carro e impus a minha marca. Tudo isso sem ter noção nenhuma de marketing, a vida foi me ensinado. Foi um período que eu tinha apenas um concorrente, que continua na ativa, o Sartorello. Ele é um fotógrafo muito bom, um excelente profissional. É técnico, conhece muito iluminação. Antes de eu “entrar” era ele e também o Buti que dominavam os trabalhos da elite. Até chegar o Cláudio e começar a incomodar, e ficamos pareados os três até que, modéstia a parte, me destaquei mais que os dois, porque fui sempre buscando coisas diferentes. Eu já escaneava fotos e imprimia em papel fotográfico, na foto pxb eu pintava os buquês com aquarela deixando-os coloridos, imprimia a foto em seda e assim fui me diferenciando. Assim me estruturei.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Aí veio o digital.

No início eu desanimei. Saiu a Canon 10D e comprei. Acreditei ter feito o melhor negócio do mundo. Mas ela não dava retorno. Não sincronizava com o flash Metz. Usava o flash da Canon em sua sapata, mas a foto ou saía estourada ou fraca demais. Não tinha jeito, não havia condições de trabalho. Eu fazia o casamento com a digital de um lado e com filme no outro, fazia um pouco de cada. Quando eu mandava revelar as fotos digitais, pois se achava que era só descarregar e imprimir, as fotos vinham granuladas ou desfocadas. O foco não era preciso. As lentes não eram preparadas para as digitais. Pensei comigo, isso aí não vai “pegar” nunca! Tenho uma cultura que não abro mão de iluminação. Não consigo fotografar sozinho, sempre com equipe. O “meu” câmera três, foi treinado para trabalhar sem flash, ficam lindas estas fotos, mas eu não faço, não gosto de fotografar assim. Levo o meu auxiliar com um flash e jogo a luz onde quero. Um bom auxiliar é essencial, pois se ele não trabalha bem estraga sua foto. Sozinho você faz uma foto legal, mas com auxiliar se não souber posicioná-lo você não consegue um bom trabalho. Percebi no digital um fracasso, pois não dava para fotografar da forma como trabalho. Mas estavam em testes, pois logo começaram a chegar “os” equipamentos. Hoje “nem se fala”, você faz o que quer, dá até para brincar. Só que junto com a facilidade em fotografar veio mais trabalho. Com filme trabalhava eu e minha esposa. Hoje preciso de mais quatro pessoas. Um para tratar as fotos, um para editar, um para montar álbum, o meu servidor tem três HDs de 1,5 terabyte. Guardar estes arquivos não é fácil, pois adianta ter uma câmera de 21 megapixels e trabalhar em resolução menor? Trabalho com o melhor, se a extensão raw for o ideal, trabalho em raw. Mas sinto que o digital desvalorizou um pouco o fotógrafo profissional, pois hoje acreditam que todo mundo fotografa, pois todos têm uma câmera. O cara erra e já acerta na próxima. Granulou, está bonito! Na minha época com os filmes, pelo amor de Deus entregar uma foto fora de foco. Hoje é moda! Não a minha.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Eu vi uma reportagem com o Evandro Rocha, gosto e acompanho o seu trabalho. Um dia ele postou em seu blog umas fotos de casamento granuladas, mas deixou claro que foi a pedido do noivo. É muita moda! Há dois anos todo mundo queria fotografia de casamento em estilo jornalismo. Hoje é editorial, que é pose. Everton Rosa que é um “baita” fotógrafo, o seu diferencial é a iluminação, que é o mesmo que busco. Colocar uma noiva em pé com as mãos cruzadas num fundo branco não vejo graça. Eu proporciono fotos com luz, avancei nesta técnica. Fui a uma feira de fotografia em São Paulo onde o expositor falou que o importante é a expressão, não é o foco e nem o enquadramento. Eu não acho. Para mim o importante é o foco, o enquadramento e a expressão. Como que o foco não é importante? Então vamos todos tirar fotos sem foco! Até entendo que o verdadeiro profissional consegue ver uma foto fora de foco e falar, “puta foto”. Mas tem muita foto que você fala, “que porcaria”, porque o cara errou mesmo o foco. Então essas coisas desvalorizam um pouco o fotógrafo. Imagina que você vai fotografar um casamento com filme? Pare e pense. Você tirar duzentas fotos e não sabe o que está saindo. Só na segunda-feira você vai ver o que você fez. Esses que trabalhavam assim eram fotógrafos! Um (flash Frata) “fratinha” em cima e uma máquina na mão. Quatro metros, põe cinco seis. Um metro e meio? Onze. Aí é fotógrafo. Agora pegar uma câmara digital colocar um flash TTL em cima… Não desmereço o digital. Acho lindo, facilitou, mas se você filtrar passa muita gente.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Você aumentou sua estrutura, montou duas lojas com estúdio e reformou o seu escritório. Mesmo com esta facilidade do digital o mercado melhorou? Você se transformou em um empresário.

Eu sempre tive este objetivo de agregar junto ao casamento, loja e estúdio. Mas não tinha condições financeiras, pois não é barato ter e manter uma estrutura com loja e estúdio. Coloquei metas em minha vida e fui galgando. O primeiro objetivo era ter um espaço para trabalhar, um lugar para poder atender os meus clientes e não correr risco nenhum por causa de má condição financeira ou problemas de ter que devolver prédio sendo inquilino. Este foi o primeiro foco, que realizei. Comprei e fizemos uma reforma, pusemos o prédio no chão. A primeira etapa foi construir a minha sala no andar de cima, para ter este diferencial, lembrando o que aprendi com o Wilson Ernesto. O cliente tem que entrar aqui e dizer, “este é o lugar que vai ao meu casamento”.  Além de um trabalho bom, o cliente tem que se sentir confiante. Eu valorizo isto, além de apresentar um bom trabalho, mostrar uma boa estrutura física. Isso me faz bem. Houve uma época em que os móveis que tinha em meu estúdio eu não possuía na minha casa. A prioridade era aqui, a minha fonte de renda. A segunda etapa foi construir um estúdio. Todo mundo diz que tem estúdio. Isto aqui é um estúdio. Tem camarim, é climatizado com som ambiente, aqui o cliente fica à vontade. Quem está no andar de baixo não tem acesso ao andar de cima onde está o estúdio. Não só tenho o nome de estúdio como tenho “o” estúdio para atender um cliente de A a Z. Junto a tudo isto veio à necessidade de abrir outro negócio, porque só depender de casamento é complicado. Quando o movimento do casamento cai, financeiramente me afetava. Precisava de alternativa. Foi aí que montei o Kids. Comprei temas infantis personalizado, nada de montagens de photoshop em que fotografa a criança sentada e depois coloca no software. Decidi montar o Studio A Kids no Centro, na rua Moraes Barros. No endereço faço fotos para documentos, revelação e outros serviços relacionados à fotografia. Estamos com 1 ano e 7 meses. Estou muito feliz com o resultado. Dentro deste tempo, eu almejava algo mais no “meio” do Centro e aí montei outra loja igual a esta na rua XV de Novembro, entre a rua Governador Pedro de Toledo e a rua Benjamin Constant. A intenção era fechar a loja da rua Moraes e ir para lá, mas percebi que são públicos diferentes. Quem sobe a rua Moraes não desce a XV e vice e versa. Quem sobe a XV de Novembro geralmente saiu do Terminal Rodoviário e vai para o Centro fazer compras. Quem desce a Moraes Barros vem do outro lado da cidade e geralmente está de carro. O Studio A Kids da rua XV de Novembro se transformou em loja. Ali vendo pen drive, CD, câmera, GPS e montei estúdio. Virou uma cine-foto. Aqui onde estamos na rua Regente Feijó é outro público, é para a mãe que não quer ir até o Centro, prefere marcar hora e ter um atendimento personalizado. Aqui os clientes são as minhas noivas, que depois que ficam mães querem fotografar seus filhos comigo. Fidelizo meus clientes.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

Quais são suas referências na fotografia, além do já citado Wilson Ernesto?

Gosto do Evandro Rocha e Everton Rosa. Acompanho o trabalho deles apesar do Everton Rosa, hoje eu não o enquadrar como fotógrafo, mas, como posso dizer… Não um “marqueteiro”, um cara que dá cursos, palestras, workshops, que está focado em vender o seu produto. Recentemente o Evandro Rocha também deu um curso e eu não pude ir por falta de tempo em tirar passaporte, pois as aulas foram em Paris. Eu gostaria muito de ter ido para poder montar um portfólio com fotos de uma igreja de lá e também viver uma experiência nova de fotografar em outro país, sentir um clima diferente. O Evandro Rocha é uma pessoa muito humilde, ele põe as fotos em seu blog e mostra a abertura, velocidade, máquina, objetiva e como ele fez a foto. É fácil de encontrá-lo conversei várias vezes com ele por telefone. Está sempre pronto para te atender. Eu me identifico com ele porque sou assim, converso com todo mundo. Hoje não fotografo mais em cartório, pois a maioria dos meus trabalhos os noivos fazem o casamento civil junto da festa, mas eu adorava ir à porta do cartório conversar com o Barbosa, Bonifácio, Antonio Prezotto, passava horas ali. Terminava o meu casamento e ficava por lá conversando e dando risadas, aquilo era uma terapia. Às vezes chegavam uns fotógrafos com nariz empinado que não conversava com ninguém. Eu trato as pessoas da mesma forma que gostaria que me tratassem.

Você nunca pensou em migrar para outra área da fotografia?

Esqueci-me de contar, mas trabalhei no jornal Diário de Piracicaba. Foi quando eu saí da Jetcolor. Trabalhava à noite, entrava às 16h e saía às 22h. Mas era muito precário, o Diário estava perto de encerrar suas atividades. Uma das fotos que fiz foi de um incêndio em um prédio na Praça José Bonifácio, próximo a loja A Musical. Estava eu e um fotógrafo do Jornal de Piracicaba, que não me lembro quem era, e fui empolgado para fotografar, mas o capitão da polícia autorizou primeiro o fotógrafo do JP. O incêndio já tinha sido controlado e os bombeiros deram roupas e capacete especial antes dele fazer as fotos. Na minha vez viraram as costas e foram embora. Subi na raça. O pessoal não estava mais nem aí com o Diário, pois estava em seu fim. Fiquei seis meses no jornal.

Com quem trabalhou no Diário de Piracicaba?

Com o Wanderlei do Carmo, que é assessor do vereador João Manoel. Não me recordo se entrei no lugar do Alessandro Maschio ou ele entrou em minha vaga. Realizei uma vontade de trabalhar em jornal.

Em 2010, você realizou uma exposição com fotos da Corrida São Silvestre. Como foi produzir este trabalho?

Foi um convite do Projeto Ilumina que trabalha com portadores de câncer e preza a qualidade de vida. Fui fotografar os anônimos da corrida, cadeirantes, cegos e portadores de alguma deficiência física. O objetivo era mostrar que se a pessoa não tem uma perna, ela também pode participar da corrida com a sua cadeira de rodas ou prótese. Enfim, mostrar que estas pessoas podem ter também qualidade de vida. As fotos foram expostas no Shopping Piracicaba e Unimep. Este trabalho foi gratificante, um dos que marcaram a minha vida. Fotografar paisagem não é a minha “praia”. Eu não consigo fazer um trabalho artístico sem estar amarrado com o lado comercial. Fiz um cruzeiro com minha família que passava por Argentina e Uruguai e levei a minha câmera profissional com duas objetivas para poder fazer umas fotos “diferentes”. A minha mulher pediu para eu guardar o equipamento, pois eu estava estressado. Eu não conseguia relaxar para fazer uma simples foto, me sentia como se estivesse trabalhando. Não consigo andar com os dois juntos, “trabalho e lazer”. Agora comprei uma câmera compacta, uma Sony cor de rosa, que dei para a minha filha e virou a câmera oficial de viagem da família, melhor do que o celular.

Corrida São Silvestre 2009. © Claudio Franchi/Studio A

Você disse que o trabalho que realizou na Corrida São Silvestre te marcou. Tem outros momentos marcantes?

Tem sim. Foi uma campanha que fiz para o banco de leite do Hospital dos Servidores de Cana sobre amamentação. Fiz várias fotos e acabei recebendo um prêmio entregue pelo prefeito Barjas Negri pela iniciativa em incentivar a doação de leite. Muitas crianças necessitam, pois há mulheres que não produzem leite materno. Dentre as várias fotos, fiz de um recém nascido pré maturo. Ele cabia na palma da minha mão. O bebê estava muito debilitado. Foi impactante e emocionante ver a luta da mãe, que não saía ao lado do filho, por sua vida. Confesso que não acreditei que o bebê resistiria. Faz pouco tempo aquela mãe veio até o meu estúdio com o seu filho para buscar a foto que fiz no dia. Já faz três anos que o fotografei no hospital. O menino ficou com sequelas, mas está vivo. Eu com a minha esposa choramos depois que ele saiu do estúdio. Foi inacreditável vê-lo novamente e sentir o carinho especial que sua mãe dava a ele.

© Claudio Franchi/Studio A

Um momento inusitado.

Fotografei um golpe de casamento. Um rapaz veio para Piracicaba e começou a namorar uma moça evangélica, infiltrou-se na igreja, mas era um golpista. O negócio dele era casar-se com a menina e levá-la para morar com ele em Belo Horizonte. Por conta da distância ele pediu aos convidados que em vez de comprar presente, dar o valor em dinheiro. Abriu uma conta com a noiva em uma agência bancária e os amigos e convidados depositavam o dinheiro. Casou-se na Igreja Metodista, fez festa e foi até a Esalq tirar fotos. Tudo beleza, até o dia seguinte quando o rapaz acorda e diz a sua esposa que vai comprar pão para o café da manhã. Tchau, não voltou mais e levou todo o dinheiro. A noiva foi parar no hospital e precisou de psiquiatra. A polícia veio atrás de mim para pegar foto do rapaz e descobriu que o malandro tinha uma ficha de dez golpes como este.

A Esalq transformou-se em um tradicional ponto para fotos de casamentos. Já foi parada obrigatória por todos os fotógrafos, pois era exigência dos noivos e também houve época que fotografar ali era brega. O que este espaço representa ou representou em seu trabalho?

Meu número de inscrição ali é oitenta e quatro. Para fotografar na Esalq é preciso ser cadastrado. Fotografei muito ali e põe muito nisto. O local era sinônimo de fotografia de casamento. Fazia parte de qualquer casamento da cidade. Na Esalq foi onde me destaquei. Por quê? Porque foi o que frisei, eu gosto de iluminação. Eu cheguei a trabalhar com três foto-célula. A maioria das sessões era à noite e por lá via um concorrente sozinho. Eu sabia que ele ia fazer uma pinta branca num espaço preto. Não tinha como ser diferente. Filme de ASA 100, máquina e lente ruim, pois a grande maioria era desprovida de bom equipamento. Eu, como levava a minha equipe, colocava um ajudante iluminando o fundo, outro o vestido e quando revelava dava para ver tudo bem iluminado. Lá tinha uma palmeira ou coqueiro com as folhas amarradas formando um coração. O primeiro fotógrafo que chegasse lá já amarrava e facilitava para os outros. Mas cada um com a sua técnica. Eu fazia montagens, colocava a câmera em um tripé e fazia múltiplas exposições da noiva no “campão”. Vieram os filtros que encaixavam nas lentes. Tinha o paralelo que facilitava esta foto, pois quadruplicava a noiva. A famosa foto do lago eu fazia com a câmera no tripé, cabo propulsor e deixava a exposição com dez segundos. Ficava lindo. Painel dos noivos no lago eu vendi muito. Depois de um tempo o casamento não se encerrava mais na Esalq ou na casa dos noivos só para cortar o bolo, começou ficar comum as grandes festas.  Só que os noivos queriam ir primeiro na festa e só depois na Esalq. Foi então que os fotógrafos se movimentaram e exigiram que as fotos na Esalq tinham que ser feitas antes da festa, pois justificávamos que além do cansaço havia o risco de roubarem os equipamentos. Assim começou a diminuir os ensaios por lá, pois os noivos gastam uma grana com as festas e não querem perder um minuto da diversão. Já faz uns quatro anos que não vou à Esalq. Quando surgem fotos externas vou ao Engenho Central ou na Estação da Paulista, mesmo assim foi apenas uma vez que aconteceu neste último ano. É uma pena, pois hoje virou um perfil da noiva virar uma celebridade. Ela chega à festa e o cerimonial pega e a leva para um quartinho, aí anuncia a entrada da noiva. O fotógrafo parece um paparazzo, tem que ficar fotografando de longe, não é este o propósito de você fotografar um casamento. A noiva me pagou para eu a fotografar. Não me pagou para eu ficar correndo atrás dela e “pegar” alguns lances. Depois vem a cobrança. Hoje você tem que ter uma postura. Prefiro não executar alguns trabalhos para depois eu não ter problemas. Eu já aviso os noivos como eu trabalho e peço a eles avisarem o cerimonial. Não posso por em risco o meu trabalho, pois na segunda-feira o cerimonial não existe mais para os noivos e eu vou existir durante uns três ou quatro meses ainda. “E a minha foto com a vovó? E a foto com o meu pai?” Ah, mas o cerimonial disse para eu esperar. “Mas você que é o fotógrafo”. Hoje tenho o meu tempo. Sou amigo e parceiro de várias cerimonialistas, pois sabem como trabalho. Peço 20 minutos para o ensaio e que não fique do meu lado de braços cruzados, pois me atrapalha. Sou rápido e dinâmico nas sessões, não fico “cozinhando” a noiva.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

O que você não fotografou?

Futebol. Não fotografei e nunca tive vontade. Acho lindas as fotos que vejo nos jornais, mas não é para mim.

O que não fotografou, mas tem vontade?

Sonho em fotografar foto subaquática. Já pesquisei lugares e equipamentos, mas a correria do dia a dia ainda não me permitiu. Hoje estou administrando melhor o meu tempo. Tenho horas para entrar e sair do estúdio, pois vivia em função do trabalho. Tenho uma família para cuidar.

O que a fotografia representa em sua vida?

Além de representar a minha profissão é o suporte que dou para a minha família. Sou apaixonado por fotografia de casamento. Acho lindo foto de criança, de gestante, sei e gosto de fotografar, mas entreguei esta área para a Karla, minha esposa. Já o prazer que tenho em fotografar um casamento é inexplicável. Faço com muita responsabilidade, pode ser um mega casamento como o mais simples dos casamentos. Eu não escolho o meu cliente. Este prazer brotou pelo reconhecimento que as pessoas me dão. Chego a um casamento e é comum pessoas me virem e dizer que fotografei o seu casamento há quinze anos e as fotos continuam lindas. Isto para mim é gratificação. Eu não conseguiria continuar se eu tivesse algumas decepções com a fotografia. Um trabalho perdido, mal feito ou mal elogiado eu não suportaria, encerraria a minha carreira. Junto a isto vem a parte financeira que quero dar aos meus filhos. Realizei muitos sonhos. Compro bastante equipamento, às vezes sem necessidade, mas gosto é um prazer. Não saio preocupado se vai quebrar, sempre tenho outro. O dia que eu parar de fotografar casamentos, daqui uns quatro ou cinco anos ficarei muito triste. A minha mulher acredita que não paro.

© Foto: Claudio Franchi/Studio A

 Nesta sexta-feira, 27, às 19h45, assista a entrevista na TV Unimep no canal 13 da NET Piracicaba.

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